2007-05-16

E se tudo não passasse de um sonho?




Na Paróquia tudo está calmo. O Padre Miguel parou o carro no parque. O parque está vazio como sempre se encontra à hora da sesta. Deixou-se ficar sentado, de mãos agarradas ao volante, o motor ainda a trabalhar. Na rádio as notícias das duas terminaram. O locutor anunciava agora que o programa iria continuar com música. Tirou a chave da ignição com o intuito de eliminar ruídos. Os sinais luminosos no painel de instrumentos desapareceram, desapareceu também a indicação que o avisava da necessidade de encher o depósito. Levou a mão ao bolso à procura da carteira, quarenta euros em notas de dez e um papel de Multibanco evidenciando um saldo diminuto, maldito ordenado que mal chega…Dinheiro divino mas curto. Saiu do carro e fechou a porta com cuidado, procurou no comando o botão do fecho centralizado e activou-o. Ouviu o ruído automático das trancas. Deixou que o olhar acariciasse a viatura comprada em segunda mão, um Seat Leon em muito bom estado, um favor ao Sr. Padre. Nunca um objecto lhe tinha dado tanto prazer…
Junto ao passeio que cercava o parque, encontravam-se flores cuidadosamente plantadas pelos jardineiros da autarquia. Agora, na primavera, e depois da poda que as fez rejuvenescerem, perfumavam o ar e coloriam a atmosfera. Sentiu-se tentado a colher uma, que diria a dona Rosa se o visse de flor na mão, será que perceberia a nostalgia do gesto, a alegria infantil, a libertação da mente em relação aos dogmas, a atitude simples de um homem que também foi criança, ou antes acharia o acto despropositado, estragar assim o jardim da igreja, logo o Sr. Padre, “Olhe lá Padre Miguel, o senhor sente-se bem?”.
Se a dona Rosa estivesse lá para o questionar e se ele tivesse colhido a flor poderia responder-lhe que sim, que o cheiro daquela flor na sua mão lhe tinha trazido um enorme conforto. Não a colheu e entrou triste no pequeno átrio que antecipava o local de oração. Benzeu-se num gesto automático que hoje não tinha significado de motivação, apenas respeito ensinado. Sentiu vontade de chorar, sentiu o peso dos seus cinquenta e dois anos de idade, trinta anos de paróquias, de jovens raparigas que o tentaram, de velhas que o enjoaram, benzeu-se novamente perante o pecado do pensamento, o lamento, já não tinha idade para dúvidas…
…”-Faz-me o favor de um retorno certo. Eu espero, tu sabes que eu espero, sempre esperei…Amanhã? Porque não?!
-Serás capaz de aguentar as minhas demoras? As indecisões próprias de quem não tem certezas?! Será o teu amor tão grande que roce a imbecilidade?
-Dúvidas tu da minha capacidade para me anular, para te amar, incondicionalmente?....
-Duvido que te dures eternamente escravo, escravo de mim que não quero ser tua dona.
-Que provas te posso eu dar? De tudo eu desisto…Desisti…Resta-me a tua presença, as tuas palavras, o som delas materializando-te, o ter cheiro, tu…
-Doentio esse amor que construíste. Não posso continuar a ser personagem nessa história, nunca poderei garantir um final feliz para a tua vida.
-E quem pode?...
-…Nem tão pouco a esperança que tal pudesse suceder.
-Nunca te pedi isso, apenas que me deixes sonhar, sonhar este amor que não existe, se necessário morrer por ele…
-Não sejas trágico, patético.
-Não é necessária a ofensa.
-Tu obrigas-me a ser assim. Eu não gosto de ser pressionada…Gostava de poder ser tua amiga…
-Tu és minha amiga, a minha maior amiga…Terei culpa de amar a minha maior amiga.
-Não terás culpa do amor mas por ele a amizade pode ser destruída…Se não o foi já…”
Sim…Nessa altura teve dúvidas…Não tivesse havido a recusa e a vida teria sido diferente…Qual o problema da idade, o que são quinze anos quando se ama…Ele dezassete, ela trinta e dois, madura de dois filhos e três relações frustradas…
A quem se confessa um Padre?
O Padre Miguel não vai ouvir confissões, hoje não é dia para essa tarefa, penosa tarefa de ouvir os outros pecarem por ele, pecados pequenos, outros maiores, mas nunca de mortes ouviu testemunho.
Miguel hoje não se sente Padre…Sente-se criança, com saudades da terra, o cheiro lembrado que faz chorar, o cheiro que nos guia quando a vista nos engana…
Sentou-se na primeira fila, defronte ao altar, à Cruz, Cristo que não está lá mas se pressupõe…Que interessa se existiu…A história existe e é Linda, Bela, Pura, o limar dos Evangelhos na unificação factual, o clímax da virtude e do sacrifício, a declaração carnal da existência do Supremo, do Divino…
Quantas vezes falou em seu nome?...
“De que falei eu?...E se tudo não passasse de um sonho?...De quem este corpo que eu comi, este sangue que eu bebi, esta memória que não me deixa fugir?....”
Na pia santa a água benta convida-o à penitência…Penitência…
…Ainda tem o número da irmã…Penitência…
O Miguel não vai ser Padre esta noite…

5 comentários:

pb disse...

Um padre acima de tudo é um ser humano, com paixões, sentimentos, frustações. É pena que a igreja católica não evolua e se mantenha presa a conceitos já ultrapassados. Um abraço, primo

Tita - Uma mulher, Um blog, algumas palavras disse...

Genial, simplesmente genial.
tema pertinente...afinal um padre é um homem e só deixará de ser hipocrita no dia em que permitam que assuma isso mesmo, independentemente da profissão pro que optou.

Beijos
Saudades
e o abraço...aquele

Cusco disse...

Belo texto. Muito bom mesmo. Dentro de um estilo que aprecio muito!

Um abraço!

Isabel disse...

Pois...pois ... pois amigo Paulo.
Adorei.
O padre miguel, tu, eu , a minha vizinha, o meu chefe, o presidente da Republica...todos todos nós somos iguais e todos nós deviamos poder ter a liberdade de fazer as nossas escolhas a tods os níveis, politico, religioso, amoroso, sexual, etc sem que isso implicasse abdicar de nada que está na natureza de todo o ser humano.
Eu tenho aversão a muitas regras principalmente aquelas que não passam de idiotices ou regras bem estudadas para nos tentar tornar idiotas.

O miguel... que é essencialmente um homem que por acaso tambem é padre mostra isso.
Acho maravilhoso que tenhas escolhido esse tema e que consigas mexer com ele da forma bonita como estás a fazer...
Eu iria provavelmente ser demasiado crua como sou muitas vezes, não consigo evitar é uma dor dentro de mim que se transforma em raiva e depois em palavras...

Adoro a tua escrita , tu sabes e estou ansiosa por saber como foi a noite do Miguel apenas.

Conta-me Paulo, como foi a noite dele?

Isabel

Rocha de Sousa disse...

Então, amigo? Que é feito? Há tempo
que não nos contactamos e agora vim
encontrá-lo solto, na «almsolta», da Isabel, tecendo evocações eruditas ao correr de um texto de raiva e de amor, de autoflagelação,
ritmo, tropeções, a cabra verdadeira que nos dá o leite.
Depois, o seu blog. Que cerência, até fere a nossa inquietude. Mas isso é coisa que o meu amigo destilo no seu ordenado texto, brando mas icendiado por dentro.
A irmã Penitência retira-lhe esta noite os paramentos e a própria roupa de baixo, como dizia o Meursault. Que bom que foi encontrar isto tudo, e agora bem
se vê que o pêssimismo corresponde a optimismo lucido.
Boa noite, padre Miguel...
Rocha de Sousa