A Casa Branca é ladeada pelo Big Ben, do seu lado esquerdo, e, do lado direito, pelo edifício da ONU, mas nem sempre é assim. Uma mão misteriosa baralha as suas moradas. Gosto de as saber inconstantes, obrigando-me a novo olhar todos os dias. Já pensei comprar a Torre de Belém, mas a nossa torre não é digna de tal honra por parte de tão prestigiosa marca. A LEGO acompanhou a minha infância. Foi confidente da minha imaginação, um abraço de plástico nas tardes chuvosas de inverno. Quando o ar me voltou, guardei-a em caixas e escondi-as no armário. É curioso vê-la decorar os meus sonhos.
O carro dos bombeiros é um dos veículos que o quartel alberga.
Também existe uma ambulância e um reboque. Sou eu que decido o lugar de cada um
deles. Hoje sou um carro de bombeiros: tenho uma escada e uma cor vermelha de
fazer inveja. Atravesso a ponte sobre o Tejo, mas não sei qual. Tenho urgências
que tudo desculpam e empurro quem se atravessa no meu caminho. Quero chegar sem
saber aonde, e a minha vontade sobrepõe-se à razão das coisas. Todo eu sou
autoridade, e a minha integridade é soberana.
Sou uma viatura desportiva de dois lugares. Tenho uma capota
preta, e a carroçaria é feita de peças brancas. Vivo debaixo de um alpendre,
junto a uma pequena moradia. Quando chego a casa, tenho de abrir uma cancela
que dá acesso ao jardim. Hoje fui à praia, mas perdi o meu dono.
Não encontro o meu carro e enfio-me numa camioneta de caixa
aberta. Chego às portagens vindo do sul. A via verde está descongestionada, e
eu não hesito em tomar a sua disponibilidade. Fico satisfeito com a minha decisão,
mas…
Há sempre um “mas” disposto a sabotar uma boa decisão. Podia
ser outra qualquer contingência, obstáculo anónimo com objetivos misteriosos, uma
surpresa disfarçada de casualidade, mas não. O que sucedeu foi óbvio e ordinário.
Olho para o para-brisas e não vejo o identificador. À minha
frente, um agente da autoridade faz-me sinal para eu sair da viatura. Tenho os
braços no ar e desculpo-me com um mal-entendido. O agente da autoridade manda-me
seguir com ameaças veladas. Prossigo cautelosamente, para não atrair a atenção das
forças policiais, que se encontram espalhadas pela cidade. Arrumo a camioneta
no parque de estacionamento da zona comercial e entro num enorme edifício. Estou
disfarçado no meio da multidão que circula pelos corredores, com sacos na mão.
Só eu é que não tenho um saco, e isso deixa-me preocupado. Alguém agarra o meu
braço. Diz que tem o meu carro e pretende que eu lhe devolva a camioneta. Trocamos
chaves e indicações e afastamo-nos em direções opostas. Dirijo-me para a torre de
lançamento. O foguetão vai partir em breve. Acabado de construir, ainda cheira ao
cartão onde estava guardado. A contagem não é decrescente e caminha para o
infinito. A mão da criança atinge o foguetão, partindo-o ao meio.
A Casa Branca está envolta na penumbra. À porta, um segurança acende
uma lanterna, enquanto grita ameaças ao Big Ben que, imperturbável, marca as
horas do meu sono. Ao lado, no edifício da ONU, exibe-se um espetáculo trágico.
Da janela saem os rugidos das bestas sedentas de sangue.
Quando amanhecer, vou apagar o sol…