2026-06-24

Residências do Pinhal (arquivo quase morto); o perdão que me faltou

 Traço leve no papel branco. Traço incerto na procura da palavra que personifique a ideia, a ideia ligada a uma imagem. E sempre este alheamento estéril que destrói conexões. O edifício depois da curva, que nome lhe hei de chamar?...

A Residência ressoa em mim as vozes gastas do tempo…

O papel apresenta riscos organizados, desenhos de letras de isolada inoperância, de solidão e inocência. A ideia vagueia de forma perfeitamente natural sem que a consiga isolar (consolidar)…

Vozes de um tempo anterior.

E os olhos que as suportam são baços…

A sensação de esvaziamento que aquela curva me dá, uma curva apertada, um cotovelo no meu pescoço, o aperto no peito enquanto viro o volante numa espiral familiar e, no entanto, tudo tão estranho. O que procuro eu nos olhos que me segredam segredos ansiosos?

E as vozes são incolores.

Prendem-me as suas melopeias, sereias de outros tempos…

E a porta… será ela capaz de se abrir à primeira? Ela nunca se abriu à primeira. O meu dedo pressiona nervoso aquele plástico branco onde uma insignificância luminosa de tonalidade rósea se esforça por chamar a minha atenção.

 

Juntam -se em grupos.

Imploram sem pedir.

Corpos moles derramados em cadeiras móveis.

andarilhos estacionados, bengalaspernas…

Enquanto subo, olho para a grande árvore, pinheiro manso de seu nome, como se a sua mansidão fosse o reflexo do casarão. Escondo-me do espelho que algum dionisíaco impotente colocou numa das faces interiores do elevador. Não, não me vou pentear, afagar o colarinho da camisa ou apertar-lhe um botão indecoroso; sou íntegro, não me deixo levar por imagens refletidas, a ilusão de que sou luz e pouco mais…

Faço uma vénia envergonhada.

Beijo caras e aperto mãos por interposta pessoa.

Sou o homem que anda sem ser empurrado.

Sou o homem que se mexe sem ser amparado…

O elevador demora a parar. O tempo fica suspenso durante uma fração de si mesmo, e eu suspendo a minha vida por solidariedade. Fixo a porta metálica com um olhar ansioso, enquanto o meu corpo espera pela imobilidade. A abertura revela um cenário com figuras de cera em posições cuidadosamente pré-estabelecidas. Apercebo-me do movimento, quase impercetível, de algumas pupilas aguadas…

Eis o meu corpo para ser admirado.

Matéria de invejável qualidade.

Produto seminovo, ligeiro transbordamento de uma meia centena de primaveras.

Eis o meu corpo a fugir em estonteante mobilidade…

A disposição do edifício consiste numa espécie de quadrado aberto, versão senil do quadrado de Aljubarrota. Gosto de imaginar que o lado que percorro é a ala dos namorados. Nomes de árvores assinalam nomes de pessoas, retratos verdes e viçosos substituindo imagens rugosas de semblante desamparado. Brinco com uma ideia: as árvores morrem de pé; estas precisam de uma cama, no mínimo um encosto onde poder desaguar. Ai meu rico filho, o meu rio está tão cansado, secam-se-lhe as águas. Culpa das represas que fui construindo ao longo da vida…

Sempre aquele poço.

Aquele buraco fingido lembrando tormentos da infância.

O poço é dele.

e eu sou refém daquele poço…

2019/10/15