Um poema e um bagaço para a mesa
do fundo
Sento-me sempre na mesa do fundo
ouvi dizer
que é lá que os poetas se sentam
que nesse lugar escondido
as palavras sedimentam
sem lugar para fugir
levei um balde e uma pá
E pedi uma chávena de chá
Quando acabei de beber
comecei a escavar
Há dois dias que bebo chá
No balde a pá que o enche
não me traz nada de novo
Talvez o Rio que aqui passa
não desague neste povo
Talvez a água que eu bebo
Infusão displicente
não tenha a erva Correta
que me torne consciente
Hoje sentei-me de frente
lá no fundo como sempre
sei que o hei-de encontrar
Que não mudou de lugar
O que corre dolente
vem do lado da nascente
E eu estando presente
serei como a Foz
da palavra serei voz
Da frase um paladino
Só preciso de um copinho
para me ambientar
faço sinal para o balcão
gesto discreto com a mão
Para Não perturbar
De Longe o homem responde
que para a mesa do Fundo
vai um bagaço profundo
com poema a acompanhar