I (00H30m)
Na escuridão vejo os ponteiros fluorescentes. Dormi meia hora,
coisa pouca para tanto cansaço. A televisão está ligada com o som no mínimo. No
ecrã, as personagens do filme são bonecos aos quais eu não dou importância. Lá
fora a chuva cai, indiferente ao ambiente acolhedor do meu quarto. Durmo sentado
porque assim é mais fácil sonhar. O problema é adormecer.
Os olhos estão fechados. Repito, sem verbalizar, uma frase, um
manifesto de liberdade. Peço à mente que se liberte do corpo. Tenho uma âncora
no pé esquerdo que não me deixa zarpar. Nos bares junto ao cais ouve-se o marulhar
dos copos. Lá dentro, as bocas sedentas engolem vórtices de espuma. Levo a mão
direita ao peito. Sinto o coração bater na palma da mão. É um batimento suave,
sem atropelos. Longe vão os tempos das arritmias, do descontrole percutido que
apressava a minha existência. Sai-me uma “Ave Maria” murmurada entre dentes; Ave
Maria cheia de graça, o Senhor é convosco…rogai por nós, pecadores, agora, e na
hora da nossa morte, Ámen. Calo a minha oração porque alguém me chama. Dirijo-me
a uma mesa e sento-me. Quem chamou por mim apresenta-me aos restantes convivas.
A mesa encontra-se a um canto da sala. Não distingo as feições que me rodeiam. Uma
rapariga mete conversa comigo. É a única mulher do grupo. O seu cabelo loiro está
repleto de caracóis. Cortado curto, deixa ver duas orelhas repletas de pequenos
brincos. Sinto o ar fresco da noite. Um dos rapazes esbraceja, enquanto grita palavras
de aviso. A rua é estreita e mal iluminada. A rapariga pega-me na mão e
convida-me a segui-la. Hesito por breves instantes antes de me deixar levar.
Corremos rua abaixo, numa vertigem que me dá a ilusão de um voo. É ela que abre
a porta daquele prédio. Eu limito-me a ir atrás dela. Subimos as velhas escadas
de madeira até chegarmos ao último andar. A sensação de urgência desapareceu.
Ouço uma campainha e vejo que alguém aparece à porta do apartamento. Ela diz
palavras amáveis que eu não consigo perceber. O homem esboça um sorriso rançoso
e, convida-nos a entrar. Ela puxa por mim com carinho e entramos num hall de entrada
com quatro saídas. Estou sentado no chão. Tenho as pernas cruzadas e a capa de
um disco no colo. Estou a manipular substâncias enquanto ouço música. As luzes
do teto são coloridas e, teimam na sua intermitência. Procuro pela rapariga, mas
não a vislumbro. À minha volta tenho caras que se riem de mim. Recebo um beijo
na face e afasto-me desconfiado. Ela abraça-me pela cintura entramos no táxi. A
pista de dança é nossa. Deixo que ela me conduza em cornucópias incertas. Por
cima de mim as estrelas indicam caminhos. Sinto-me tonto e fecho os olhos à
procura de equilíbrio. O rio faz-nos companhia. Começou a amanhecer. A cidade aceita
essa inevitabilidade com uma preguiça sensual. Fugindo pela janela de um velho
edifício a melodia de uma guitarra portuguesa senta-se ao nosso lado. Traz com
ela um lamento feminino que me entristece. A rapariga chora. É dela o lamento.
Pouso a guitarra e, abraçando-a, dou-lhe um beijo nos lábios.
A minha âncora deslocou-se fazendo tombar o meu pé esquerdo. Faço
um esforço para o fazer subir. Ela coloca o meu pé em cima da cama e desaparece
na penumbra do quarto. O relógio é testemunho silencioso da hora. Nos seus
braços a indicação que passam treze minutos da uma da manhã.