Um dia houve em que troquei os sapatos por ténis. As bolas que rolavam entravam na baliza que eu defendia, 20 passos separados por 2 pedras. Nunca tive uma bola ao poste, essa linha imaginária que eu não percebia onde acabava, mas que acreditava pertencer ao chefe do grupo, ou ao dono da bola. Fosse como fosse sempre corri atrás dela, da bola, bem entendido, como se o futuro não fosse mais que uma invenção. E assim os meus passos conduziram-me à linha de caminho de ferro e à ribanceira no fundo da minha rua. Lembro-me de outras fronteiras, a escadaria até à estrada que levava, passando por baixo da ponte, até às portas de Benfica, e as instalações militares. Sei o nome da estrada, mas não sei porque tenho medo de o dizer. Dos militares nunca tive medo, possivelmente por ignorância, ou por ler muitos livros do Asterix e pensar que os soldados não eram mais que peões nos punhos do Obelix. A guerra ainda era no ultramar e os soldados ainda desejavam felicidades e um próspero Ano-Novo. Ai a minha cabeça que tudo baralha. Saberia eu já do Holocausto? Penso que não. Isso foi antes ou depois do pulôver de malha amarela cuja marca eu me lembro, mas que também não quer dizer. Será Ted Lapidus um nome, ou um cartão de sócio de uma agremiação de janotas?
Um dia depois...
2026-05-28
A Vida e a Morte do Sr. Jorge - quarto acto; Pedro
2026-05-27
A Vida e a Morte do Sr. Jorge - terceiro acto; Isabel
Não sei quando calcei os sapatos pela primeira vez, mas de uma coisa tenho a certeza, nunca mais fui o mesmo. Sem querer aprisionei as minhas sensações mais imediatas e desaprendi o chão que pisava. Julgando-me protegido comecei a olhar em frente, a encher o peito e a julgar-me decente. Sem querer tinha mordido a maçã. Toda a minha juventude cuspi caroços sem saber que o que cuspia eram porções de mim. Naveguei na puberdade como um barco de papel num esgoto a céu aberto. Sem chão para pisar comecei a ler, e como não sabia ler inventei nas entrelinhas tudo aquilo que não percebia. Desse tempo os braços estendidos e as cruzes, os uniformes e o desencanto do amor. Nunca entendi a revolução até perder a virgindade. Foi num canto de um café que me converti, mas isso é outra história.
O uniforme branco reparou em mim. Olhou-me e sorriu antes de
se aproximar. Transportava dentro de si uma mulher muito bonita que teria pouco
mais de 20 anos. Lembrei-me do meu primeiro amor e das noitadas no liceu.
Talvez 75, processo revolucionário em curso, 10 anos de idade passados entre a
escola primária e a sede do Movimento de Esquerda Socialista. Gostava tanto de
me recordar do seu nome, mas apenas a memória da sua silhueta deitada na relva
perdura em mim. Estava escuro e os arbustos escondiam a minha ansiedade. Tinha
mais 2 anos que eu e deixava-se tocar guiando a minha mão pelas suas
intimidades, um peito precoce e um ventre de onde despontavam as primeiras
flores. Não me lembro de ter tido uma ereção, apenas os meus dedos tinham
sensações. De olhos fechados tentava imaginar o que tocava. Procurei repetir a
experiência, mas nunca mais o consegui. A sua anatomia era disputada por outro
amigo, e o que me calhou em sorte, não me bastando, serviu para despertar os
primeiros desejos. Naquela altura o liceu tinha aulas à noite e a mãe da
rapariga trabalhava como auxiliar no período noturno. Nem sempre a levava, e
nem sempre a podia ter só para mim, mas aquele dia ficou para sempre gravado nos
meus dedos, mapa de um tesouro que não aprendi nos livros.
Isabel, é esse o nome da mulher que veste uniforme branco. Leio
o nome na bata e tento balbuciar as sílabas que o compõem para lhe dar dimensão
e corpo. E que corpo, mas o que mais me impressiona naquela mulher são os olhos,
de um verde-esmeralda que ofusca tudo à sua volta. Chamo a sua atenção e
peço-lhe não sei o quê apenas para lhe ver os olhos. Está tudo bem senhor
Jorge? Precisa de alguma coisa? Respondo-lhe que sim, que está tudo bem, e que
preciso de alguma coisa. Se tivesse ficado por aqui ambas as respostas
correspondiam à verdade, mas eu especifiquei a minha necessidade e aí, menti. Disse-lhe
que tinha sede, a primeira coisa que me veio à cabeça, talvez por ser a
necessidade mais básica. Não tive coragem para lhe dizer que estava apaixonado
pelos seus olhos. Enquanto bebia, com a sua ajuda, perdi-me naquele verde e
recuei no tempo. Tinha uma mala com asas e carregava-a às costas. Não era uma
mochila, nem nada que se parecesse com isso. Apresentava uma etiqueta de uma
conhecida marca de material escolar, Âmbar. A mala era castanha e fechava com
fecho de mola. Quando corria, os cadernos bandeavam lá dentro provocando-me uma
sensação de desconforto. Frequentava o segundo ano do ciclo preparatório e as
aulas eram divididas entre os barracões verdes e a nova escola recentemente
construída. O contraste era enorme. De um lado tudo cheirava a novo, atravessava-se
a estrada e parecia que tínhamos entrado num campo de concentração. Sempre
fiquei com essa ideia. Não me lembro de ter amigos na escola, talvez um, mas
esse conhecia-o da minha rua. Enquanto olhava para a Isabel a escola ia-se
tornando mais real e por lá apareceu aquela miúda loura de casaco de malha
branco, ou pérola, com um cheiro doce de casa aconchegada. Apaixonei-me à
primeira vista. Mais tarde, quando me disseram que isso era quase impossível,
nunca fui capaz de os contrariar, mas sabia que podia ser uma realidade, pelo
menos foi a minha realidade. Foi a primeira vez que sofri, e que passei noites
em vigília ansiando pela manhã, pelo chegar à escola, por senti-la perto de
mim. Mas nunca a tive perto de mim, ou pelo menos assim me lembro. Nunca tive
coragem de me sentar ao lado dela na carteira, e se o fiz foi na aula de
desenho porque o professor tudo baralhava para não criar maus hábitos. Cheguei
a segui-la de longe, daí saber que morava no edifício Oeiras, o maior edifício
da cidade, com 15 andares, ou coisa parecida. Tento lembrar-me de qual o andar
onde, numa janela, aparecia luz alguns minutos depois dela ter entrado no
edifício. Um dia acompanhei-a casa, mas apenas porque ia com o meu amigo Rui, o
tal vizinho que morava com um tio, mas era de Setúbal. Foi a primeira vez que
fiz de “pau de cabeleira”. Tive ciúmes, ganhei-lhe raiva, e acabei por me
afastar dele. Dela guardei memória de uma grande desilusão, mas também da minha
cobardia. Aquele namoro acabou por durar pouco tempo, mas o trauma que me
provocou não me deixou ver nesse fim uma nova oportunidade. E este foi apenas o
primeiro. Foi no ciclo que fumei o meu primeiro cigarro e que mascarei o sabor
comendo cascas de tangerina, algo horrível, mas que compensava pela sensação de
que estava a enganar os meus pais. Fumei um SG ventil que me deixou azamboado e
agoniado. Não sei se o fumei todo.
Apercebo-me que estou novamente sozinho. A enfermeira Isabel
saiu de ao pé de mim e encontra-se ocupada com o outro paciente, aquele que se deita
na cama junto à janela. Aparentemente o homem passa mal, qualquer coisa a ver
com o pâncreas, o fígado, e a dependência alcoólica. Isabel pediu ajuda a um
colega e ouço-os conferenciar sobre a melhor maneira de acalmar a dependência
do homem. Aparentemente sedaram o homem na noite anterior, mas a Isabel tem
dúvidas sobre a repetição do processo e confidencia essas dúvidas ao seu colega
que lhe confirma ser essa a melhor maneira de passar o resto do turno tranquila.
O homem encontra-se agitado e debita palavreado avulso e sem nexo. Diz-se
importante e ameaça fazer queixas a todos e mais alguns, primeiro à filha, depois
ao genro, e por fim à polícia. Não me sentisse eu apaixonado e outras memórias
me chegariam.
A enfermeira Isabel está agora menos ocupada. O senhor António
está mais sossegado. Tem um tubo que lhe sai da mão e vai até um frasco com
medicamento. A magia do medicamento dentro do frasco transformou o senhor
António numa pessoa serena. Deitado na minha cama invejo essa serenidade enquanto
observo o gotejar do soro subvertido em droga. Gota a gota confundo os meus
pensamentos no líquido dentro do pequeno cilindro que separa o frasco com
medicamento do tubo ligado à mão de António. Só agora reparei que por cima do
balcão existe um relógio. Ainda não sei, mas será essa a minha lua particular.
Quando a noite tomar conta do quarto, o branco do mostrador será referência.
Nele os números serão vales e montanhas e os ponteiros rios inexistentes
levando partículas de tempo que irão sedimentar na madrugada.
Fechei os olhos e acho que estou a dormir. Estou debaixo de
uma mesa e a toalha que a cobre permite-me um refúgio seguro. Não estou
sozinho. A rapariga que está comigo mora no terceiro andar. A imagem, já de si
diluída, desvanece-se por completo, como se não pertencesse a este turno. Ao
mesmo tempo ouço um rolar acompanhado de um chocalhar metálico. Talvez por isso
abri os olhos e inclinei a cabeça na direção da porta. A enfermeira Isabel,
apercebendo-se do meu gesto, sossegou-me. Não se preocupe senhor Jorge, o
jantar está quase a chegar. Acho que sorri, pelo menos assim indicia o olhar cúmplice
que Isabel me devolveu.
Tive direito a uma canja sem sal e a uma fatia de pão. Acordado
o tempo passa devagar, tão devagar que já fixei os pormenores da minha cama.
Antes de apagarem as luzes distribuem um chá e umas bolachas. Enquanto como as
bolachas fecho os olhos e tento recordar-me dos pormenores que fixei. Apercebo-me
que afinal não fiz um bom trabalho. Falhei nos botões do comando elétrico que
permite a cama adaptar-se ao meu corpo. A bata branca trouxe-me um comprimido, tome
senhor Jorge, vai ver que descansa melhor. Abro a boca e agradeço a gentileza
com os olhos. Depois de dois golos de água e um engasgo consigo arremedar um
adeus que me sai sibilado entre os dentes. Uma nova bata apresenta-se ao
serviço e substitui o meu anjo de olhos verdes. Procuro um nome na bata, algo
mais que a distinga, algo para além dos olhos e do sexo. Pedro, é o nome que
identifico no meio da escuridão e que dá nome àquele jovem de barba rala e pele
bexiguenta. Será ele a velar por mim, serei eu o seu cordeiro. Durante toda a
noite sonhei com lobos, e mais qualquer coisa.
2026-05-26
A Vida e a Morte do Sr. Jorge - segundo acto; André
No início
os pés caminhavam sobre a relva fresca que crescia em liberdade. O sol, no céu
azul, indicava o dia mediano, quando, na vertical, obrigava a uma observação
perpendicular. Nesse tempo as articulações acabadas de nascer exercitavam-se em
movimentos juvenis sedentos de saber. Se das nuvens caía água era motivo para
rir até que as lágrimas de um choro carregassem os pequenos riachos que se
formavam nas ruas e desaguavam nas sarjetas. Algumas vezes fiquei eu olhando
para dentro da sua escuridão procurando decifrar os caminhos que ela me
escondia. Para lá dos passeios fui correndo atrás do que não via, mas que sabia
por debaixo dos meus pés. Nesse tempo sabia o que era sonhar e inventei todos
os mundos. Nunca conseguirei quantificar a amplitude da minha quimera. Quisera
eu ser, sem preocupações, medos ou anseios.
É de dia e já abriram as persianas das janelas. Pressente-se a
azáfama fora do quarto, mas aqui tudo está calmo. O homem de branco já acordou
e ocupa-se com a papelada. Passou a ronda pelas camas, verificou sinais e
gráficos, cateteres e tubos, sinais estranhos de fluidos orgânicos, pulsações e
respirações, testemunhos de vida que lhe garantam uma passagem de turno
tranquila. Sinto necessidades, mas não me atrevo a confessá-las. Aperto a
bexiga com força, com músculos que desconheço, mas que sei que existem dentro
de mim, e com isso acalmo vontades orgânicas, possíveis incontinências que
assim se submetem à minha vontade. Ainda ninguém me disse, ou pelo menos disso
não tenho conhecimento, mas sobrevivi a qualquer coisa. Terá sido um enfarte? Um
AVC? Qualquer outro acidente crítico? Não sei. Se me disseram, se me explicaram
e discriminaram porquês, não tomei disso conhecimento, talvez preocupado em
manter-me vivo. Seja como for, aqui estou deitado numa cama, aparentemente de
boa saúde e com controlo dos movimentos. Ainda não tentei falar, tenho medo de
não conseguir fazê-lo. Sempre ouvi dizer que há falhas que tiram a capacidade de
nos podermos exprimir. Mais do que as de movimento, são estas que me assustam, não
poder dizer ao que venho, não poder dizer o que quero, e o que não quero, expressar
vontades, que em última análise são a razão de viver. Tenho-me quieto, preso
numa ansiedade que me consome. Acabei por adormecer. Não sei quanto tempo dormi,
mas acordei com a voz de alguém que chamava por mim. A voz pertencia a um
uniforme e esse uniforme tinha um nome, André. Ouvi-me dizer qualquer coisa,
mas não tenho a certeza se o som das minhas palavras teve eco nos ouvidos do uniforme
branco. Presumi que sim, pois a cara sorridente de um jovem dos seus 35 anos
respondeu-me dizendo que iria tratar já do assunto. Apercebi-me de que lhe
tinha pedido para me ajudar a urinar, pelo recipiente com que ele abordou as
minhas partes baixas. Envergonhado comentei qualquer coisa, algo sobre o meu nascimento.
Lembrei-me de ter ouvido falar desse momento, de ficar escrito que nasci na
madrugada de dia 25 de abril de 1965, na maternidade Alfredo da Costa,
freguesia de são Sebastião da Pedreira, concelho e distrito de Lisboa. Julgo
que o disse ao enfermeiro André. A minha mãe sangrou até morrer, ou quase, visto
nunca ter recuperado completamente a saúde após o meu nascimento. Devo-lhe
duplamente a vida, mas não me lembro de lhe ter agradecido a bênção. Sabe,
André, é que eu nasci com a saúde debilitada, pulmões fracos, alergias várias,
brônquios entupidos, e uma propensão apaixonada por constipações gripes e
viroses afins. Não foi por isso de admirar que uma broncopneumonia me atirasse
para a cama e quase me matasse. Ficou dito na minha Memória que tinha dois anos
quando isso aconteceu e para mim essa história tornou-se a minha realidade. Não
me pergunte outra memória porque não a tenho. Memórias vividas tenho-as, mas
são outras. Adenoides, amígdalas, gelados, expetorantes, papas de linhaça, Vick
Vaporub, supositórios, óleo de fígado de bacalhau, gemadas com cerveja preta e
açúcar, noites à janela com falta de ar, visitas avulsas ao hospital, e
vacinas, muitas vacinas. Estou a chateá-lo com a minha conversa, senhor
enfermeiro? Não, senhor Jorge, até estou a gostar de o ouvir, assim tenho a
certeza que você está vivo. Não leve a mal senhor Jorge, estou a brincar
consigo. Claro que não, André. Posso tratá-lo por André? Claro que pode senhor
Jorge, você podia ser meu pai. Sabe que o meu pai tem a sua idade? Claro que
não se sabe, como podia você saber se eu não lhe tinha dito? Ouço-me a falar de
mim, da minha infância. Agora já não falo das doenças. Um recanto na Amadora,
paredes meias com uma encosta verde, uma casa de três assoalhadas, um hall de
entrada, uma cozinha, uma despensa, e duas casas de banho, um luxo que na altura
custou 160 contos. Mais uma vez a Memória é implantada. Estou a falar dos 160
contos que me foram contados, conto a conto, prestação a prestação numa altura
em que um ordenado de 2000 escudos era um luxo. O rés do chão ficava para as
traseiras que ainda não estavam urbanizadas, quero com isto dizer que eram um baldio
entre dois prédios. A entrada principal dava para o passeio e para um pequeno
largo em terra batida circundado por um muro que sustinha um pequeno barranco, fronteira
para o nível superior por onde passava a estrada. Quem por ali andasse vindo da
direita para a esquerda iria dar a um beco sem saída. Olho à minha volta, estou
sozinho, quer isto dizer que o André está sentado por detrás do balcão e o
ocupante da outra cama queda-se enfermo, fechado nas suas doenças. Continuo a
ouvir-me e não paro de falar. Já me lavaram, mas não dei por isso. A esponja
com detergente verde circulou pelo meu corpo, manejada por mãos experientes. Esteve
nos meus pés, nas minhas pernas, nas partes íntimas, na barriga e no tronco, debaixo
dos meus braços e, possivelmente, também na minha cara. Como posso eu ter deixado
tocar assim no meu corpo sem uma palavra de agradecimento ou de apreço, sem um
nome ou uma imagem para recordar? Sinto a criança que fui, enleada num abraço
de luta. Sinto o hálito a leite com chocolate e a crosta de uma ferida junto
aos meus olhos. É uma luta de força em que a submissão é o objetivo. À minha
volta ouço vozes de incitamento. Estou nas escadas de um prédio, arena de
batalhas juvenis. É aqui que se decide a hierarquia dos mais jovens. Os mais
velhos decidem-na em jogos mais perigosos. É o Mário que luta comigo, mas já
lutei com o Eduardo e com o João. A luta está equilibrada e não se decide. À
nossa volta os mais velhos começam a impacientar-se e dão-nos pontapés para ver
se a balança do combate se inclina para algum dos lados, mas o nosso abraço é
mais forte e o equilíbrio prevalece. No fim, nenhum de nós venceu, e havendo
necessidade de humilhação, humilharam-nos aos dois. Acabei a tarde a lanchar na
casa do Mário e a jogar O Jogo da Glória. Mesmo quando alguém ganhava, esse
alguém tinha um momento de glória muito curto. O espetáculo oferecido tinha de
ser repetido inúmeras vezes até que o respeito fosse conquistado. Acabávamos vezes
sem conta na casa uns dos outros compartilhando fatalidades e jogos pueris. Foi
assim que fizemos uma cabana de madeira e criámos um clube. Um cão por doze e
quinhentos, coisa que hoje parece pouco, mas que na altura era toda uma fortuna
quase impossível de alcançar. Já não me lembro de quantos éramos, mas lembro-me
do Zé Alberto e do Mário. Lembro-me também do Lord, nome que demos ao cão para
que ele se distinguisse entre os demais rafeiros da rua. Para não ficarem atrás
os donos do seu irmão batizaram-no de Nero, triste nome se pensarmos no
incêndio de Roma. Por ironia do destino o Nero foi atropelado ainda novo e
passou o resto dos seus dias a coxear perdendo a dignidade que o nome lhe emprestara.
Assim se prova que um nome não faz o destino daquele que o carrega, isto se
considerarmos o primeiro, já o último poderá trazer algo mais ao fado de cada
um. De qualquer maneira, se a guitarra que toca for fatalista, não haverá nome
que o salve. Assim é a vida e sempre será, nomes e desejos à parte. A vida é um
jogo de decisões e infortúnios cujo final é sempre o mesmo. Também assim
aconteceu ao nosso clube, morte prematura apenas com alguns meses de existência.
Acabada a construção da cabana foi altura de definirmos algumas regras. Só
havia uma chave e o Zé Alberto ficou com ela, muito por influência do seu pai
que foi quem nos ajudou a construir a cabana. Mal sabíamos nós que ela serviria
de abrigo às ferramentas do pai do Zé Alberto e que nós seríamos expulsos da
nossa sede. Mas na altura lá definimos uma senha para entrar, regras de conduta
que incluíam a confidencialidade de tudo o que se passava no clube, por ironia
do destino tudo tão igual à primeira empresa onde trabalhei, multinacional de
interesses obscuros em vários continentes. Ainda lá fizemos umas reuniões para
delinear projetos de aventura. Ainda lá jogámos ao monopólio e a outros jogos
de tabuleiro. Do clube ficou o Lord, que acabou na casa do Mário com a mãe
deste como tutora do canino. Ai André, se eu lhe contasse tudo o que fazíamos
nunca mais saía desta cama de hospital.
O médico veio visitar-me perto da hora de almoço. Senhor
Jorge, disse ele, você teve um ataque cardíaco. Disse-o sem olhar diretamente
para mim, com uns papéis na mão, de olho já na próxima cama. Teve sorte,
continuou ele, aparentemente não ficou com lesões, mas o melhor é pôr-se a pau,
você fuma, bebe, se sim o melhor é pensar em acabar com isso, e a alimentação
também tem de ser corrigida, a julgar pelas análises que eu aqui tenho. Colesterol,
triglicéridos e os açúcares, estão bem lá em cima. Vamos deixá-lo em observação
mais uns dias nos cuidados intensivos, não vá à máquina pregar-lhe mais alguma
partida. De seguida virou-se para o enfermeiro e continuou, mantém-no a soro. Quero
repetir a eletrocardiograma que lhe fizeram ontem e também as análises ao
sangue. Comida de dieta e descanso, amanhã passo por cá. E assim se despachou o
assunto do senhor Jorge Silva, o paciente na cama número 1 logo a seguir ao
balcão. O senhor Jorge Silva sou eu.
É costume dizer que o tempo voa quando ele, sem peso, passa
por nós e leva um pedaço da nossa vida sem darmos por isso. Quando a
convalescença é curta e lutamos pela sobrevivência sem termos de isso
consciência, também o tempo voa, carregando coisas que mais tarde nos farão
falta. Assim aconteceu com o Jorge, o qual não deu pela mudança de turno. Saiu
o André e entrou outra bata branca à qual o Jorge não deu importância. Talvez
tenha dormido, ou apenas fechado os olhos. Só ele saberá dizer o que aconteceu.
Muitas vezes, de olhos fechados, fingimos dormir para não nos incomodarem.
Jorge, como todos os portugueses, é um poeta sem saber. Quer isto dizer que o
seu pensamento é intrinsecamente poético, mesmo que ele não tenha disso
consciência. Jorge escreve poesia numa sebenta de folhas brancas e sem linhas. Muitas
vezes o seu sono é povoado de pensamentos poéticos que ele teima em ignorar, convencido
que estes se resumem a ruídos que ele converte em sonoridades conforme os
ritmos sonhados. O som é a zona de conforto de Jorge, e ele sentiu-se
confortável durante todas aquelas horas que vagueou entre o fingimento, a
vigília e pequenos fragmentos dos quais não se lembra, e que por isso mesmo
poderemos considerar que foram períodos em que dormiu. Talvez que um dos seus
poemas possa explicar melhor a relação que Jorge tem com a escuridão. Eu, que
agora me assumo como narrador, tenho acesso a essa sebenta e estou prestes a cometer
uma inconfidência que ele, tenho a certeza, não iria condenar se dela tivesse
conhecimento. Assim sendo, aqui vai o desvendar do véu literário. Vejamos então
o que ele escreveu na quinta página da sua sebenta:
Quando cego os olhos,
vou aonde as minhas mãos não podem ir.
Consigo ouvir as palavras despidas do seu significado,
e por não pensar,
viajo no seus ritmos e melodias.
Dessas viagens trago a liberdade do que senti,
e do que senti,
a liberdade de nada ter visto.
Agora, de olhos abertos, Jorge procura recuperar o tempo
perdido e identificar o uniforme branco. Por detrás do balcão o uniforme branco
levanta-se revelando o corpo de uma mulher. Tal como o outro, este uniforme tem
um nome, Isabel.
2026-05-25
A Vida e a Morte do Sr. Jorge - primeiro acto; Maria
A ambulância do INEM entrou na rua sem pressa e estacionou
defronte a uma moradia decrépita e manchada de humidades. O amarelo-pálido do
edifício deixava antever a falta de cuidado a que os seus donos a tinham
votado. À porta de entrada uma velha senhora, tão decrépita como a casa que
guardava, recebeu com frieza o médico e o enfermeiro acabados de sair da
viatura estacionada, pirilampos azuis atestando da sua urgência. O homem
estendido no chão do Wall de entrada encontrava-se imóvel e a sua cor, mármore
acabado com o tempo, não indiciava nada de muito favorável. Foi por isso que o
médico ao debruçar-se sobre o corpo reagiu com surpresa ao ligeiro soprar que
saía das fossas nasais do homem inerte. De alguma forma estava preparado para
declarar um óbito e despachar o assunto, porque sendo os recursos tão escassos
não havia necessidade de os usar com quem já não precisava deles. Não tendo
então um corpo morto entre as mãos teria de garantir que ele chegava vivo ao
hospital. Verificou o pulso do homem e instruiu o enfermeiro para os
procedimentos normais de transportes de doentes em estado comatoso.
Surpreendida, a velha senhora, tão decrépita como a casa, respondeu às
perguntas do médico. Disse que tinha ouvido ruídos na casa do vizinho, seguidos
de um barulho de queda, foi por isso que se deslocou até à porta do senhor
Silva. Chamou por ele várias vezes, mas ele não respondeu. Como tinha a chave da
casa decidiu abrir a porta, não fosse ter dado alguma coisa ao senhor Silva.
Mal entrou viu-o naqueles propósitos, sem acordo de si, mais parecendo que a
vida o tinha abandonado. Apanhei um susto que os senhores nem imaginam. Quando
recuperei, telefonei logo para o 112 e fui para a porta esperar pela
ambulância. A velha senhora identificou-se, chamo-me Maria, afinal todas somos
Marias, mas o que me distingue das outras é o meu nome de casada, Pereira, e
continuou, tenho 79 anos acabados de fazer na semana passada, o meu segundo
nome é Rosário, sou Maria do Rosário Pereira e sou vizinha do senhor Silva vai
para 10 anos. E mais não quis saber o médico que lhe agradeceu a amabilidade e
lhe desejou um resto de um bom dia. O trajeto até o hospital não demora mais de
10 minutos. Foi esse o tempo que levou o senhor Silva a acordar. Quando o fez
abriu os olhos e perguntou onde estava. Se ninguém o ouviu foi apenas porque da
sua boca não saiu nenhuma palavra. Mas deixemos de tratar o senhor Silva pelo
último nome e passemos a chamar-lhe Jorge, o seu primeiro nome. Jorge, 60 anos,
vive sozinho numa moradia alugada na cidade de Vila Nova de Santo André. Foi lá
que teve o ataque cardíaco e, quem sabe, será lá que irá falecer. Para já não
se ouve a sua voz e apenas os olhos mostram sinais exteriores de vida. O
enfermeiro que o acompanha sabe que aquele homem está vivo e não precisa dos
olhos de Jorge para o comprovar. Tem-no ligado a uma máquina que lhe dá essa
preciosa informação, mas nem por isso deixa de notar o movimento das pálpebras
nos olhos do senhor Silva e relata-o ao médico de forma profissional dizendo,
este já acordou, é capaz de se safar, ao que o médico respondeu, não tinha de
ser, não era o dia dele. Jorge da Silva irá entrar no hospital com direito a
uma ultrapassagem pela direita. Não se irá lembrar da cor da pulseira nem se
esta existiu. Encontra-se agora num quarto, ligado a uma máquina que diz da sua
existência. Nesse quarto existem mais três camas, mas apenas duas estão
ocupadas, a dele, e outra junto à janela. Junto à porta, um balcão corrido
ocupa toda a parede do lado esquerdo. Por detrás desse balcão um enfermeiro
vigia atentamente todo o quarto largando roncos breves, mas profundos. É de
noite e Jorge está acordado, mas não sabe qual o seu estado. Estará vivo, ou
morto? Embora não sendo uma questão existencial é suficientemente complexa para
o deixar perplexo. Ainda há pouco encontrava-se em casa, preparado para um
lanche, algo fora de horas e que tem sempre o mesmo nome. No meio da penumbra
apercebe-se da presença de equipamentos que debitam cliques e outros estalidos
surdos, enquanto monitores apresentam riscos verdes, estranhas assinaturas em
certidões de vida futuristas.
2026-05-24
O Pintor e o Poeta (do sonho à revelação)
Prefácio do livro “Do Sonho À Revelação” de João Sambock.
Fui visitar o meu irmão ao museu. Sei que ele me aguarda todos os dias. Sentei-me
à sua frente e olhei-o nos olhos que eu lhe pintei, olhei-o no corpo frágil com
que o representei, protegido por uma reluzente armadura de prata e ouro e montado
num imponente cavalo branco. Ele devolveu-me o olhar com palavras que só eu
devia ouvir e os meus olhos encheram-se de lágrimas que contive para não deixar
no meu irmão uma última imagem de tristeza.
Despedi-me com um “até breve” na esperança de o voltar a encontrar. Também
isso ele me deu, a esperança. Se voltei a ser homem antes de ser artista foi porque
ele me guiou. Por isso eu fui libertá-lo, fui libertá-lo da sua existência
espiritual neste mundo. O seu trabalho está feito e este livro de poemas que
hoje assumo como meu é prova disso. Devia-lhe um pedido de desculpas. Devia-lhe
muito mais que um simples pedido de desculpas. Devia-lhe a vida. Deixei-o
sozinho quando ele mais precisou de mim e ele não me abandonou. Hoje sei que
lhe devia acima de tudo um agradecimento. Paulo, meu querido e talentoso irmão,
este livro é para ti. Sem a tua presença estas palavras nunca teriam sido escritas.
(Excerto de uma notícia de jornal relatando o
desaparecimento de um dos painéis da obra do pintor João Sambock, “Da Revelação
Ao Caos”, exposta no MAR, Museu de Arte Rejeitada, na cidade da Amadora)
Foi dado hoje como desaparecido um dos painéis da controversa
obra de João Sambock, Da Revelação Ao Caos. A obra estava exposta a título permanente
no Museu de Arte Rejeitada, na Amadora. A obra é composta por quatro painéis
representando cada um deles um dos Cavaleiros do Apocalipse, tendo desaparecido
o mais consensual e menos polêmico dos quatro, o Cavaleiro Branco. Os restantes
três representando a guerra, a fome e a morte têm semelhanças inequívocas com
os três maiores líderes mundiais. A obra suscitou veementes protestos dos visados
através das embaixadas dos respetivos países. Por causa desta polêmica o MAR
transformou-se num local de encontro da esquerda intelectual e filosoficamente
partidarizada. O desaparecimento do Cavaleiro Branco levanta várias questões às
autoridades que, entretanto, tomaram conta do caso. Em primeiro lugar não se encontraram
vestígios de arrombamento e o sistema de vídeo vigilância não detetou qualquer
ocorrência no interior. O Ministro da Cultura do Governo português aproveitou,
entretanto, para exigir que o MAR retire a obra da exposição permanente. Em declarações
ao canal público disse…
FIM
2026-05-23
O Poeta ( da realidade ao sonho)
(excerto do depoimento de Madalena à polícia judiciária após o João ter
participado o desaparecimento do Poeta)
Inspetor: Pedimos desculpas pelo
inconveniente, mas o seu depoimento é fulcral para podermos encerrar a investigação.
Madalena: Não se preocupe Sr. Inspetor,
o interesse é todo meu em ver este assunto resolvido. Eu também fui apanhada de
surpresa. Só quando voltei a casa do João é que tive consciência da gravidade da
situação. Estive dois meses em digressão de final de temporada. Eu nem era para
ir, mas uma das atrizes adoeceu e eu era a sua substituta. Como eram só dois
meses aceitei. Se soubesse que isto ia acontecer nunca teria ido.
I: Pode descrever-nos a sua relação
com o Sr. João?
M: Podemos dizer que somos
namorados. Conheci o João no funeral do seu irmão. O meu pai era o editor do
Paulo e eu aceitei acompanhá-lo. O sofrimento do João não me deixou
indiferente. Eu conhecia a obra do Paulo, mas desconhecia que ele tinha um irmão
artista. Eu acho que foi a sua vulnerabilidade o que mais me atraiu nele. Começámos
a encontrar-nos regularmente e acabei por ir viver com ele. O meu trabalho
também não estava grande coisa e eu encontrava-me muito insegura por não ter
sido a primeira opção para o papel na peça que a companhia andava a ensaiar. Acabámos
por nos apoiar um ao outro. Só depois é que fiquei a saber da relação
atribulada que existia entre o Paulo e o João.
I: Podia ser mais especifica, dona Madalena?
M: Por favor Sr. Inspetor não me
trate por dona que me envelhece. Pode tratar-me por menina, menina Madalena.
I: Ok. Podia então ser mais
especifica acerca da relação entre os irmãos, menina Madalena?
M: Vê, Sr. Inspetor, soa muito melhor.
(ligeiro silêncio em que o Inspetor resistiu ao olhar de Madalena e a instigou a continuar com um gesto de cabeça. Madalena substituiu o ar de provocação por uma postura mais formal)
M: Parece que o problema entre eles tinha a ver com o pai. O pai deles vivia sozinho
já há uns anos desde que a sua segunda mulher morreu. Do que me foi dado a entender
o João nunca aceitou essa relação e afastou-se definitivamente do pai. Quando
este ficou acamado após um enfarte foi o Paulo que cuidou dele. Na altura vendeu
a casa de Lisboa e comprou o monte onde o João vive atualmente. Também vendeu a
casa do pai e ficaram a viver juntos no monte. O João sabia de tudo porque o Paulo
nunca lhe escondeu nada, mas ele nunca quis saber do pai nem do irmão. E se o Paulo
passou mal. Isso eu sei porque cheguei a ir visitá-lo com o meu pai e ele
queixava-se da vida que levava. A relação que ele tinha com o namorado acabou
para não melindrar o pai que nunca aceitara o fato do seu filho preferido ser
homossexual, os seus livros não vendiam e a sua vida social resumia-se ao quotidiano
com a dona Alzira e as cuidadoras que contratara para o ajudar e que lhe
levaram o resto das poupanças. Eu sei que ele nunca recuperou a alegria de viver.
O meu pai ainda pensou que a morte do pai do Paulo o libertasse, mas isso não
aconteceu e ele afundou-se afogado em antidepressivos e álcool até o coração parar.
I: Há aqui uma questão que eu não
entendo. O sofrimento do João era genuíno?
M: Era. Algo se passou na sua
cabeça que o transformou completamente. Eu assisti ao processo porque foi o
período em que começamos a andar. Fiquei a saber depois que ele era narcisista
e misógino, que tinha dois filhos não assumidos e que as inúmeras relações
anteriores terminaram todas em violência doméstica, queixas na polícia e vários
processos em tribunal. Mas não foi esse o João que conheci. O João que eu
conheci era tímido, inseguro e extremamente infeliz. Mal o irmão foi cremado
pegou nas cinzas e veio para o Alentejo. Quando decidimos viver juntos ele já
cá estava o tempo quase todo.
I: Quando é que se apercebeu que ele
incorporou a identidade do irmão?
M: Eu diria que foi a entidade do
irmão que ele incorporou, pois é essa a opinião do psiquiatra que o anda a tratar
e que o medicou. A princípio era só a culpa que o martirizava. Ele sentia-se
culpado pela morte do irmão. Depois encontrou os rascunhos que dariam origem ao
livro “Da Revelação Ao Caos” e o processo acelerou. Não só foi ele que deu o
título ao livro como me pressionou para que falasse com o meu pai para o editar.
A partir desse momento começou a atender aos dois nomes.
I: E isso não a assustou?
M: No início causou-me estranheza,
mas a vida com ele era calma e tranquila. Ele só saia de casa para ir ao psicólogo
e ao psiquiatra. Dizia que um era para o fazer pensar e que o outro era para o
drogar. Eu tenho a certeza de que ele só foi ao psiquiatra porque eu insisti. A
situação só piorou quando eu lhe disse que me ia ausentar dois meses para
substituir a minha colega. Ele sabia que eu tinha tido uma relação com um
colega, mas que terminara tudo para ir viver com ele, no entanto isto provocou-lhe
uma crise de ciúmes. Não foi nada de grave nem violento, apenas um mau estar
que o fez assumir quase completamente a entidade do irmão, como se estivesse a
fugir ao antigo João. Foi com o “Paulo” que eu fui ao evento cultural do
município. Foi o livro dele que eu fui apoiar e foi ele que me deixou sozinha.
Parti deixando o “Paulo”, mas ao longe só falei com o João. Eu apercebi-me, mas
nunca pensei que tivesse esta atitude.
I: Esteja descansada. Com o seu
depoimento e o relatório médico tudo se irá resolver.
2026-05-22
O Poeta ( da ilusão à realidade)
(excerto de um diálogo telefônico
entre o João e a Madalena. Fez parte de um conjunto de dados cedidos pela empresa
de comunicações à polícia judiciária)
-Após um período relativamente
longo com o sinal de chamada sem que alguém atenda finalmente uma voz masculina-
João: Sim?
Madalena: Sou eu João.
J: Sim.
M: Estava preocupada. Há três dias
que não davas sinal de vida.
J: Não te quis chatear.
M: Não me lixes João, estás farto
de saber que isto não funciona assim. Os teus silêncios deixam-me preocupada. A
tua tagarelice só me chateia quando estás virado do avesso.
J: Sim.
M: Tens tomado a medicação?
J: Sim.
M: Toda?
J: Sim.
M: Só sabes dizer “Sim”?
J: Não.
M: Queres que eu desligue?
J: Não desligues, por favor.
M: Está tudo bem contigo?
J: Sinto a tua falta.
M: Eu sei, já falta pouco. Mais uma
semana e estou de volta.
J: Volta depressa.
M: Eu volto meu querido. Tens trabalhado?
J: Sim. Estou a trabalhar num projeto com um poeta que conheci naquele evento
cultural a que tu me levaste, aquele patrocinado pelo Município.
M: Qual poeta?
J: O Paulo. Não te falei dele?
M: Não.
J: Devo ter-me esquecido. Tenho passado os dias com ele a fazer esboços para um
trabalho sobre o seu último livro. Em compensação ele está a escrever sobre o
meu processo criativo.
M: O Paulo?
J: Sim, o Paulo. Estamos pensando
em fazer a apresentação dos trabalhos em simultâneo.
M: A dona Alzira tem ido aí?
J: Todos os dias. É ela que tem
cozinhado para nós.
M: Para ti e para o Paulo?
J: Sim, parece que não me estás a
ouvir.
M: Claro que estou querido,
desculpa.
(um curto período de silêncio)
M: Estás a dar-te bem com o Paulo?
J: Sim, mas fiquei um pouco desiludido
com a sua reação quando lhe mostrei os painéis quase terminados.
M: Então porquê? O Paulo não gostou?
J: Não foi propriamente uma crítica.
Ele pura e simplesmente não conseguiu ver nada para além do negro dos painéis.
Fiquei chocado.
M: Falaste com ele sobre isso?
J: Pouco. Disse-lhe apenas que
estava à espera de que ele tivesse reconhecido na minha pintura a sua poesia.
M: E ele?
J: Fez um comentário sobre a perturbação
que o negro lhe causava. Não achas estranho este comportamento?
M: Falaste ao médico sobre isto?
J: Para quê? Além disso tenho
passado as noites em branco sempre a pintar. Quero ter a obra terminada quando
tu chegares.
M: João não podes faltar às
consultas. Tu prometeste-me que cumprias a rotina.
J: Tu também me prometeste que
nunca mais o vias…
M: Estás a ser injusto. Sabes
perfeitamente bem que eu tinha de cumprir o contrato e fazer esta digressão.
J: Desculpa, estou a ser idiota. O
meu amor por ti cria em mim estranhos sentimentos de posse.
M: Está bem, meu querido. Quando eu
voltar a casa resolvemos tudo. Agora por favor, não deixes de tomar a medicação.
E tem paciência com o Paulo, vocês são muito mais parecidos do que tu pensas.
J: Eu sei amor.
M: Vá, tenho que desligar. Beijo
muito grande. Vê lá se amanhã não te esquecer de telefonar.
J: Prometo que não. Beijo grande
para ti.
-A chamada acaba com um ruído seco
de quebra de ligação-
2026-05-21
O Poeta ( do caos à ilusão)
(Gravação efetuada durante uma sessão de psicanálise. De fonte anônima)
Psicólogo: Pode desenvolver esse tema?
João: O meu último trabalho?
P: O método e o papel do poeta na sua obra. Se estiver
disposto pode tentar enquadrar tudo isso com as suas espectativas, passadas e
futuras.
J: Está a pedir muito.
P: E você dá o que entender. Estou aqui para si, até para os
seus silêncios.
J: Desculpe, não me tenho sentido muito bem. Desde a morte
do meu irmão que a minha cabeça não me deixa dormir. Já passou um ano e ainda
sonho com ele. Este é o meu primeiro trabalho após a sua morte.
(silencio durante 23s)
J: A inspiração apareceu depois de ler o livro do Paulo. A
Madalena tinha-se ausentado e eu não suportava ficar sozinho. O Poeta apareceu
quando eu mais precisava. Coisas do destino. Esperava por ele todos os dias
sentado à porta da casa. Posso mesmo afirmar que o fazia com uma certa ansiedade.
Só quando ele chegava é que o meu espírito acordava. Ele sentava-se ao meu lado
e desbloqueava a minha mão. Tinha em mim um efeito catalisador e as reações que
desencadeava eram inebriantes. A mão deslizava pelo papel como se não fosse
minha. Cheguei a mostrar-lhe os meus últimos trabalhos que não o impressionaram
positivamente. Verdade seja dita que eu também não sentia orgulho neles. Acabei
por lhes pegar fogo.
P: Fogo?
J: Sim, fogo. Um fogo libertador e renovador, algo que
emancipou e quebrou finalmente um ciclo de luto que teimava em permanecer na
minha alma. Foi quando os queimei que libertei o meu irmão. Isto aconteceu pouco
antes da apresentação do meu trabalho, da Revelação ao Caos. Sabe que esse
trabalho foi todo efetuado durante a noite? Pois é como lhe digo, durante a
noite. Quase não dormi durante este período. Descansava um pouco depois de
almoço quando o Poeta se ia embora. Foi este o meu método durante dois meses.
P: E o Poeta?
J: O Poeta era uma presença silenciosa. Cheguei mesmo a duvidar
da sua presença. Não fosse o livro de poemas e eu teria até duvidado da sua existência.
(silêncio durante 9s)
J: Só conversávamos à hora de almoço. Trocávamos impressões
sobre a atualidade. Para ser honesto, era ele que me mantinha a par do que acontecia
no mundo. Uma guerra aqui, uma epidemia acolá, escândalos de perversão consensual
para todos os gostos e sempre dinheiro, muito dinheiro a circular. Enfim, o ser
humano a fazer o que sabe melhor, ser humano. Falávamos, mas sempre sem nos
atropelarmos, mesmo quando não estávamos de acordo. Eram sempre almoços muito
sossegados.
(silêncio durante 13s)
J: Ele passava a maior parte do tempo a observar-me e a
tirar notas.
P: Isso incomodava-o?
J: Não, fazia parte do processo que tínhamos acordado. O
trabalho final ganhou muito com essa observação. Os poemas que ele escreveu
para “do Caos à Ilusão” foram um excelente complemento aos meus painéis. Não que
eles não tivessem valor por si. Na minha opinião até estavam mais bem
estruturados, e o fato de seguirem um guião pré-estabelecido emprestavam-lhe
uma coerência que de algum modo faltava aos que tinham dado origem ao nosso projeto.
P: Q que ficou da vossa relação.
J: Um vazio difícil de explicar. O seu desaparecimento deixou-me
um sabor amargo pois não tive oportunidade de me despedir convenientemente. Ficou
algo por dizer.
(pausa de 5s)
J: Aconteceu o mesmo com o meu irmão…
(a gravação termina abruptamente com o ruído de alguém que
se levantou)
2026-05-20
O Poeta ( da revelação ao caos)
(excerto do interrogatório efetuado pela polícia judiciária ao João sobre o desaparecimento do Paulo)
João: Conheci o Paulo num evento
cultural patrocinado pelo Município de Santiago.
Inspetor: E isso foi quando?
J: Há Aproximadamente três meses.
I: Pode descrever-nos esse encontro?
J: Foi pura casualidade. Eu estava
extremamente aborrecido e esperava ansiosamente que aquilo terminasse para
poder voltar para casa. Foi esse o motivo por que me aproximei da banca onde o
Paulo se encontrava. Agradou-me o fato de ser aquela que tinha menos pessoas. Para
dizer a verdade era a única que estava vazia. Se peguei num livro foi apenas
uma desculpa para estar ali. Meti conversa porque o Paulo não parava de me
observar fixamente. Não me recordo das palavras exatas que dissemos um ao outro,
só sei que ele acabou por me oferecer o livro e eu, por cortesia, prometi-lhe
um convite para um almoço quando terminasse do ler. Depois despedi-me e fui ter
com a minha namorada. Quando voltei a olhar para a banca onde ele estava já não
o vi. Presumo que se tenha ido embora.
I: Ele estava sozinho?
J: Que eu tenha dado conta não o vi
com mais ninguém.
I: A sua namorada lembra-se dele?
J: Não. Ela nunca o viu pessoalmente. A imagem que ela tinha dele era aquela
que estava na contracapa do livro.
I: Você chegou a concretizar a sua
promessa?
J: Sim, uma semana depois convidei-o
para almoçar comigo.
I: Em sua casa?
J: Na casa que tenho no monte.
I: Só tem essa casa?
J: Não, esta é a minha segunda casa.
A minha morada fiscal é em Sintra, dentro da vila. Também tenho lá um estúdio
logo à saída para as praias. Neste momento prefiro trabalhar no Alentejo, estou
apaixonado pela luz e pelo espaço das planícies. As árvores têm outra sombra.
I: Você tem por hábito convidar
estranhos para sua casa?
J: Depois de o ler deixou de ser um
estranho.
I: Não acha que é pouco para dizer
que se conhece um indivíduo?
J: Um artista revela muito do que é
pelo seu trabalho, principalmente se esse trabalho não está contaminado por
motivos exclusivamente comerciais. No caso do livro do Paulo isso pareceu-me
evidente. Na altura mostrou-se um bom ponto de partida para iniciar um novo
projeto. O trabalho poético, sem ser brilhante, era suficientemente honesto e
abordava uma temática que há muito eu queria explorar.
I: Que era?
J: O Apocalipse, ou a Revelação, se
preferir.
I: Foi, portanto, o seu trabalho
que motivou os vossos encontros diários?
J: Não era só o meu trabalho. O Paulo
com a sua perspetiva poética iria debruçar-se sobre o processo criativo
resultando daí uma parceria abordando dois aspetos artísticos distintos, mas
que se complementavam, o que aliás veio a acontecer.
(aqui o Inspetor parou a gravação e
fez uma pausa para um café)
I: Vamos parar um pouco. Vou buscar
um café. Quer alguma coisa?
J: Aceitava de bom grado um chá de
camomila sem açúcar se me fizesse esse favor.
2026-05-18
O Pintor ( da realidade ao sonho)
Levei mais tempo a chegar ao monte do que era habitual. Embora
tivesse perdido a noite a pensar nas palavras certas que permitiriam esclarecer
as coisas sem deixar margem para dúvidas hoje todas elas me pareciam vazias e
rudes. Foi por isso que decidi deixar fluir a situação e navegar conforme o vento
e as correntes. Já fora do carro reparei que tudo se mantinha como era habitual.
O João encontrava-se sentado à porta de casa desenhando. Ao seu lado a cadeira
que me estava destinada esperava por mim. Decidi alinhar e cumprimentei o João
como era costume. Ele devolveu-me o sorriso habitual e continuou a desenhar. Seria
possível que ele não tivesse nada para me dizer depois do que se tinha passado?
Experimentei provocá-lo e perguntei-lhe, queres ler o que escrevi ontem? Como
nunca tal tinha acontecido esperava uma reação diferente daquela que obtive. O João
limitou-se a olhar para mim e sorrindo disse, prefiro ouvir, não queres ler
para mim? Apanhado de surpresa abri a minha sebenta e olhei para a última
página escrita. Era um esboço sofrível que necessitava de muitas correções.
Para ganhar tempo disse que precisava de um copo de água. Queres que chame a Alzira?
Não é preciso incomodá-la, eu vou buscá-lo. Tudo tão natural, cordial, sem
ponta de ansiedade. Seria eu a estar confundido? Entrei na casa e dirigi-me à cozinha. Pelo ruído que vinha lá de dentro cheguei à
conclusão de que a dona Alzira já estava a preparar o almoço, com toda a
certeza uma deliciosa refeição à moda antiga feita de amor, carinho, saber e
sem pressas. Procurei disfarçar as minhas preocupações colocando na cara um
sorriso que não correspondia ao meu olhar. Bom dia, dona Alzira, vim buscar um
copo de água. Porque não me chamou Sr. Paulo?
Não a quis incomodar dona Alzira. Pode ir lá para fora que eu levo já o seu
copito de água. Não é preciso dona Alzira, já que vim até aqui levo eu o copo
de água, obrigado. Para que estou eu a descrever o meu diálogo com a dona
Alzira? Se o fiz é porque tenho uma razão importante. Quando eu estava para me
vir embora a dona Alzira fez uma observação que me ia fazendo parar o coração e
por pouco não larguei o copo que trazia na mão. E que observação fez ela para
me deixar assim? Virou-se para mim e disse-me com o ar mais natural deste mundo,
estão bonitos os cavaleiros que o Sr. João pintou, se bem que o amarelo me dê
arrepios. Voltei-me e perguntei-lhe quando tinha visto os painéis e ela
respondeu-me que tinha sido na manhã anterior. Aparentemente o João tinha
trabalhado a noite toda e ela tinha-lhe levado o pequeno-almoço quando os viu.
Segundo ela o João tinha comentado que aquilo que ela tinha a honra de testemunhar
era consequência dos meus escritos. O comentário tinha boa intenção, mas só
tinha um problema. Eu estivera junto aos painéis e não havia cavaleiros
nenhuns. Decidi nesse momento que tinha de voltar ao estúdio, mas antes havia
um poema que devia ler. Voltei para junto do meu amigo ainda sem ter decidido o
que havia de escolhe, mas depois do que ouvira isso já não era importante. Mal
me sentei bebi um golo de água e pousei o copo no chão. O João olhou para mim e
perguntou, pronto? Respondi que sim enquanto abria a sebenta ao acaso. Olhei
para uma das páginas e comecei a ler:
O dia começa a meio da noite e sem hora marcada. Sem luz,
nasce perdido na escuridão e o Caos desfaz-se numa ilusão. É essa a minha fantasia,
a ordem e a disciplina que guiam a rotina. De joelhos e numa bizarra oração construo
penitências ao desconhecido. A sombra do dia faz-se fantástica silhueta de
negro quando a noite se insinua e renasce numa imagem de luminosidade concebida.
Brindemos então com divina bebida. Tenho um vislumbre de estrelas nos
estilhaços dos cálices partidos na celebração e agarro-os apertando-os na mão. O
vinho mistura-se com o sangue e dá-se o milagre. Da cegueira faço conhecimento
e da fé procedimento. Do que tinha para fazer faço passado e do presente uma
ilusão.
Parei de ler e esperei por uma reação. O João levantou a
cabeça e perguntou, é sobre mim, ou refere-se ao trabalho? Olhei-o nos olhos e
respondi, a nenhum dos dois. Ele olhou-me perplexo e eu acrescentei, refere-se
ao método. O João sorriu e voltou a concentrar-se no desenho que tinha em mãos.
Depois do almoço fiz questão de ver novamente o seu trabalho.
O meu amigo não se fez rogado e eu tive oportunidade de constatar mais uma vez
que os painéis permaneciam negros. Devia ter desistido, mas não foi isso que fiz.
Diz-se que a curiosidade pode ser fatal. No meu caso transformou-se numa prisão.
No mês seguinte todos os dias fui acompanhar os progressos da obra sem que
vislumbrasse outra coisa que fosse o negro daquelas superfícies. O que começou
por mera curiosidade transformou-se em obsessão e quando o João deu a obra por
terminada eu já não me encontrava cá. Passaram dois anos e encontro-me em
exposição num dos museus da capital. No dia em que os painéis foram
apresentados ao público ouvi a Madalena comentar ao ouvido do João, o cavaleiro
branco é mesmo parecido ao teu poeta. Ele olhou para ela e sorriu, é mesmo. Que
estranha coincidência. Um pouco afastada estava uma mesa com uma dezena de
livros cujo título era “Do Caos à Ilusão”. Hoje não sei o que sou, mas quem vem
ao museu não se vai embora sem me vir visitar.
2026-05-17
O Pintor (da ilusão à realidade)
Por essa altura o meu pai apresentava um quadro clínico mais estável o que me permitiu organizar a minha rotina de forma a incluir as visitas diárias ao monte do João. Tinha ficado combinado que estas ocorreriam da parte da manhã com almoço eventualmente incluído. Isto disponibilizava para cada um de nós o tempo necessário para outros compromissos e não invalidava qualquer mudança que considerássemos oportuna. Chegava por volta das oito da manhã já com o pequeno-almoço tomado. O João era madrugador e encontrava-o muitas das vezes sentado numa cadeira à porta de casa desenhando a carvão o que ele dizia serem esboços para os trabalhos finais. Eu cumprimentava-o de maneira simples e tranquila procurando não perturbar o sossego da manhã e ele respondia-me da mesma forma e com um sorriso. Ele tinha sempre uma cadeira ao seu lado para eu me sentar. Só a sua presença bastava para mostrar que o convite estava implícito. Eu costumava ficar a observá-lo antes de abrir uma sebenta de folhas brancas onde garatujava frases dispersas e palavras que funcionavam como marcos para a memória. Ambos fazíamos esboços que depois trabalhávamos sozinhos. Isto acontecia naturalmente. O silêncio era para nós uma maneira de partilhar o que tínhamos de mais íntimo. O nosso silêncio era feito de expressões e de olhares. Quem nos visse diria que éramos velhos e inseparáveis amigos. A princípio ainda estranhei e cheguei a ter dúvidas se conseguiria corresponder ao desafio que me tinha sido proposto, mas passada uma semana já me parecia o processo mais natural de mundo, algo de tal maneira orgânico que se transformou numa necessidade. O João só quebrava o silêncio em duas ocasiões, quando a meio da manhã me oferecia um café e à hora de almoço onde nos permitíamos deambular pelas trivialidades mundanas.
Durante o primeiro mês nunca tive oportunidade de conhecer
os trabalhos em curso. Durante todo esse período manteve-me afastado do seu
estúdio. Tudo o que eu via eram esboços fugazes de cavalos e cavaleiros. Talvez
por isso eu mantive silêncio sobre o meu trabalho. No entanto eu não me sentia
incomodado. Havia em mim muita curiosidade, mas sem qualquer tipo de ansiedade
que me perturbasse o espírito. Foi, portanto, com naturalidade que aceitei o
convite para observar o que o meu amigo tinha produzido até agora. Aí sim,
senti uma inquietação que não consegui disfarçar. Encostadas a uma das paredes
do estúdio estavam quatro enormes painéis totalmente pintados de negro. O que
achas? Durante alguns segundos fiquei em silêncio. Não sabia o que responder e
por breves momentos julguei que o João estava a brincar comigo, mas não. A cara
do meu amigo mantinha-se séria e de olhar fixo nos painéis. Então, não dizes
nada? O João insistia e acabei por dar uma resposta vaga, não estava à espera
de um trabalho desta dimensão. É só isso que tens a dizer? Não reconheces os teus cavaleiros? O João
continuava a insistir e eu continuava sem saber o que responder. A muito custo acabei
por confessar que só via tinta preta naqueles painéis, mas que o efeito visual
era perturbador pela sensação de vazio que transmitia ao observador. O meu
amigo murmurou sem tirar os olhos da sua obra, tive esperança que conseguisses
ver. Abandonei o estúdio em silêncio. O João nem deu pela minha ausência e
durante o meu regresso a casa pensava se não seria melhor acabar com esta relação.
Durante a noite mal dormi, mas quando amanheceu eu tinha tomado uma resolução.
Tomei um banho, vesti-me, comi uma fruta e fui ter com o João.
2026-05-14
O Pintor ( do caos à ilusão)
Passado uma semana recebi uma mensagem do João no telemóvel. Em poucas palavras convidava-me para um almoço que, dizia ele, poderia prolongar-se até ao jantar. Referia também que já tinha lido o meu livro e que o título fazia jus ao conteúdo. Acabava propondo-me a data do próximo fim de semana, sábado, para ser mais preciso. Dizia também que podia aparecer logo de manhã a partir das nove da manhã. Em vez da morada, ou de qualquer outra indicação do gênero, siga até ali e quando chegar ao cruzamento vire para, deixou-me as coordenadas do local. Interessante, pensei eu, além de madrugador é prático e preciso, um pouco de tudo aquilo que eu não sou, mas o que mais me impressionou foi a observação acerca do título do livro. Dizendo tão pouco dizia o essencial sem se perder em pormenores que só serviriam para justificar a sua opinião sem acrescentar algo de verdadeiramente importante. Ao fazer referência ao título do livro demonstrara que percebera o pensamento que tinha levado à elaboração daquele conjunto poético. Na verdade nunca fora tão fácil dar um nome de capa a um livro meu. De todas as minhas obras poucas eram aquelas de que me orguhava do título e agora, ao fim de três décadas, acertava em cheio, ao ponto de um desconhecido ter confirmado a minha boa escolha. Sem mais elementos antecipei uma conversa construtiva que, esperava eu, me levasse a outros destinos. Mas ainda só estávamos a meio da semana e não valia a pena antecipar assuntos de conversa. Ir de espírito aberto era tudo o que precisava.
Chegou finalmente o sábado. Estava calor, aquele calor de final de primavera que nos faz antecipar o verão. Vesti uma camisa larga de cor branca e umas calças de ganga. Calcei uns tênis também brancos e retirei adereços sem utilidade mantendo, no entanto, o anel do meu primeiro casamento, talvez por ser o único que não culminou em divórcio. Ainda hoje a visito e lhe ofereço flores quando vou ao cemitério. Enfim, o nosso amor não teve tempo para azedar e por esse motivo permanecerá eterno enquanto eu existir. Mas que digo eu? No final desta história nada disto fará sentido.
Não foi difícil encontrar o monte do João. Indo pela estrada asfaltada junto ao mar virava-se à esquerda e seguia-se por um caminho de terra batida rodeado de cearas. Não havia nada que enganar, era só seguir em frente. Quando deixou de se ver o mar, e logo após uma curva pronunciada à direita apareceu um pequeno pomar de laranjeiras e limoeiros e escondida por detrás destes uma casa térrea que, ao aproximar-me, descobri estar disposta em L o que lhe conferia um tamanho substancialmente maior do que eu inicialmente supus. O meu amigo esperava-me encostado ao umbral da porta, pelo menos foi com essa idéia com que eu fiquei. Estava de sandálias e calções de ganga preta muito gastos. O tronco nu estava coberto com um avental branco coberto com manchas de tintas de várias cores. Apagou o cigarro que tinha na mão e sem mais demoras encaminhou-me na direção de um edifício de madeira por detrás da casa e virado para nascente. A entrada, um portão largo, dava para um espaço amplo onde se espalhavam diversos trabalhos seus. Cheirava a óleos, a terbentina e a madeira aquecida pelo sol. Enquanto limpava as mãos conduziu-me entre telas de variados tamanhos. Não tendo conhecimentos para qualquer análise técnica deixei-me levar pelos sentidos. A maioria das suas obras eram monocromáticas onde a variação de tonalidades proporcionava a textura que dava dimensão aos vultos que se insinuavam misteriosos. O João deixou que eu me perdesse em reflexões sempre em silêncio. Sem que eu tivesse dado por isso tinha tirado o avental sujo e envergava agora uma camisa preta imaculada. Foi nessa altura que se dirigiu a mim como se não tivéssemos estado em silêncio, tenho um nome para o seu próximo trabalho. Apanhado desprevenido olhei-o curioso e ele continuou, se o seu último livro tem como título "Da Revelação ao Caos" o próximo deveria chamar-se "Do Caos à Ilusão". Como eu permaneci calado ele perguntou, não gosta da ideia? Apanhado novamente de surpresa respondi que não tinha nada pensado para o meu próximo trabalho, ao que ele continuou, eu percebo que o título que sugeri pressupunha uma certa continuidade e quem sabe, uma conclusão. Sem me deixar reagir perguntou-me, Qual a sua opinião sobre o que viu? Atordoado pelo rumo da conversa confessei, é no mínimo perturbadora. O João olhou para mim e sorrindo disse, ainda bem.
Foi à mesa que a proposta surgiu. Eu iria acompanhá-lo enquanto ele pintava inspirado no livro que lhe tinha oferecido e em retorno eu escreveria inspirado nas intuições do processo. Estávamos sozinhos, Madalena, a sua jovem namorada, tinha partido numa pequena digressão de dois meses. Em casa só a dona Alzira nos fazia companhia. Era ela que se encarregava de todas as tarefas domésticas. Foi ela a testemunha de um pacto de consequências imprevisiveis.
2026-05-12
O Pintor (da revelação ao caos)
O meu nome é Paulo e a história que vou contar não é sobre mim. João era um amigo recente. Conheci-o há dois anos numa festa em que, por motivos diferentes, nos sentíamos desconfortáveis. O meu desconforto tinha origem no ambiente social em que se desenrolava o evento. Organizado pelas autoridades culturais do município, com vista à divulgação de novos autores de posia, era um misto de pessoas interessadas e gente que apenas queria aparecer. Muito mais críticos que leitores falavam de tudo um pouco e nada sobre os autores que tinham dado origem ao evento. Eu tinha-me refugiado junto a uma pequena banca onde o meu livro mal se vendia. Absorto em pensamentos de enfado folheava um livro de um colega do qual já lera alguns trabalhos interessantes e ansiava pela hora de voltar a casa para poder ler descansado a obra que tinha em mãos. O João, contou-me ele mais tarde, estava muito perturbado com o comportamento da sua mais recente namorada, uma jovem com metade da sua idade. A jovem, além de muito bonita, o que por si já atraia os olhares de todos os presentes, sem distinção de gênero ou de sexo, juntava a esse predicado uma alegria e uma irreverência contagiantes. O meu futuro amigo ruído de ciumes aproximara-se da banca e agarrou alheado um dos meus livros. Apercebendo-se que eu o observava curioso dirigiu-se-me com uma observação descuidada, mas inconveniente, vale a pena? Ao que eu respondi, espero bem que sim. A julgar pelo trabalho que me deu escrevê-lo seria uma desilusão se assim não fosse. Embora tivesse dado a minha resposta com um sorriso conciliador o meu futuro amigo sentiu-se atingido e na obrigação de se justificar, peço desculpa, não era minha intenção ofendê-lo. Ao que eu retorqui, não se preocupe, não é nada que não tenha fácil reparação. E continuei, você leva o livro e depois de o ler dá-me a sua opinião. O João meio atrapalhado ainda puxou da carteira, mas eu cortei-lhe o gesto dizendo, não é preciso pagar, fica como caução por possíveis danos psicológico. Perante a minha tirada rimo-nos os dois. Foi dele a idéia de marcar um encontro no seu estúdio de trabalho. Assim, em troca da minha opinião você dá uma vista de olhos pelos meus quadros e depois diz-me de sua justiça. Ainda sorrindo respondi-lhe que eu não era um entendido e que ele ficava a perder com a troca. Devolveu-me um sorriso cúmplice dizendo, então estamos em iguais circunstâncias, eu também não percebo nada de posia. Foi assim que fiquei sabendo que o João era Pintor e que o seu estúdio se situava num pequeno monte no Conselho de Santiago. Despedimo-nos nessa noite com um aperto de mão faterno. Da minha parte estava contente por não ter sido uma noite perdida. Conhecer alguém disposto a trocar idéias sobre poesia e pintura não era algo que se pudesse desprezar, ainda por cima o João parecia ser um sujeito simpático e acessível. Com este pensamento na idéia arrumei a banca e meti tudo no carro, não sem antes me despedir da organização com um pedido de desculpas. Nada como um problema familiar com um parente proximo, o que não era totalmente mentira pois eu vivia sozinho com o meu pai e ele tinha tido um enfarte há pouco tempo. Embora estivesse melhor e não apresentasse razão para preocupações sempre juntava o útil ao agradável matando assim dois coelhos com uma cajadada só. Tirando o mau gosto da alusão à morte dos coelhos o fato é que era uma saída airosa e que não fechava a porta com os pés. Enfim, foi assim que começou a minha relação de amizade com o João. Longe estava eu de imaginar onde ela me iria levar.
2026-05-11
LISBOA AINDA ESTÁ ONDE A DEIXEI
Abalei de Lisboa em 93, mas nunca deixei de a chorar. Trabalhei à beira-mar lá para os lados dos Olivais. O meu Tejo era mais sujo e a democracia ainda era adolescente, mas nem por isso os encantos daquela periferia eram menores. Abalei de Lisboa, no entanto, parte de mim ficou lá.
No outro dia voltei à baixa por questões profissionais.
Tinha uma reunião marcada para as dez da manhã, mas tinha decidido madrugar e
atravessei a ponte às seis. Lisboa tem, para quem a atravessa a ponte àquela
hora, um encanto especial. Dizem os que têm alma sensível que a luminosidade é
a responsável pela magia, outros dirão que é o abraço do Cristo Rei que abençoa
Lisboa com uma das mais bonitas paisagens do Mundo. Ainda bem que ao partir
deixei o Tejo para trás, não sei se teria a mesma coragem se tivesse olhado
Lisboa nos olhos, mas adiante. Estava nas ruas da baixa numa das melhores
alturas do ano, a primavera, e o ar fresco encontrava-se moderadamente limpo provocando
em mim uma enorme vontade encher os pulmões com ele. Assim caminhei em direção
ao rio, palmilhando a rua, dita Augusta, até passar pelo arco que tem o mesmo
nome. Tudo isto são lugares-comuns do conhecimento de qualquer condutor de
Tuk-Tuks, mas quando eu falo de Lisboa é de sentimentos que eu falo, de
sensações que ficaram gravadas em mim. Mais lugares-comuns que só são comuns
porque foram partilhados por toda uma geração que viveu a Lisboa dos anos
oitenta. Os nomes que me ficaram são muitos e enquanto respiro o ar fresco
junto ao Tejo vão desfilando mentalmente pelos meus olhos. O cais do Sodré com
o Dallas, o Tokyo., o Sangri-La e o inevitável Jamaica. Ao longe o outro lado
do rio evoca outros sons, mas eu estou nesta margem que me lembra outras
margens.
Apanhava o comboio na estação da Amadora. Lisboa sempre
partiu de lá e eu habituei-me a sair do túnel do Rossio como quem sai da toca de
um coelho. Para mim a chegada à estação do Rossio sempre foi um momento mágico,
da escuridão para uma explosão de luz e de cor num pestanejar que a minha
imaginação infantil transformou numa história de aventuras. E era realmente uma
aventura para alguém tão pequeno, mas com uma imaginação tão grande. Descia do
comboio pela mão da minha mãe, aquela mão quente e suave que fazia sentir maior,
de tamanho indefinido, mas maior. Assim protegido enfrentava os enormes lances
de escada que nos faziam desaguar entre os Restauradores e a avenida da Liberdade.
Subíamos Liberdade acima até ao Tivoli e entrávamos num prédio antigo onde um Doutor
de calvície venerável prometia à minha mãe a cura do menino. Esteja descansada
que as vacinas vão aliviar-lhe as alergias e por consequência as crises de
asma. À volta trazia no coração a esperança de uma outra liberdade. A 11 de março de 75 estava no Éden com o meu pai. O filme,
os três mosqueteiros e as joias da rainha, não me deixou perceber que Lisboa
fervilhava com o ataque dos paraquedistas de Tancos ao Regimento de artilharia
n°1 de Lisboa e que desse dia até 25 de novembro do mesmo ano viveríamos um dos
períodos mais conturbados da nossa jovem democracia. E os grandes armazéns, os do Chiado e logo ao lado os do
Grandela, e a discoteca do Carmo com os seus vinis de importação, e a montra da
Custódio Cardoso Pereira que me faziam sonhar com os seus instrumentos
reluzentes e…
Já não estou na praça do Comércio, sem querer os passos
tomaram conta de mim e levaram-me na direção da estação de Santa Apolônia. Vejo-me
agora de uniforme verde a caminho do Entroncamento enquanto outras imagens se
sobrepõem, desta vez a preto e branco. São imagens de televisão e mostram os heróis
antifascistas, o Cunhal e o Soares, à vez, bem entendido, que liberdade e democracia
nem sempre são traços de união. Está na hora de voltar para trás. Apercebo-me
que tenho uma mensagem no telemóvel. No meu tempo Lisboa tinha outro tipo de
mensagens. Enquanto faço o caminho de volta, subindo a rua do Ouro, lembro
Alfama e o Chapitô. Lembro Essencialmente a sua esplanada onde assisti a uma
trovoada épica, porque de artes performativas sempre fui um zero à esquerda.
Talvez porque se aproxima a hora de almoço vem-me ao nariz os cheiros de croquetes
e bifanas e na garganta a frescura de uma imperial, enquanto no corpo sinto a
pressão do balcão da Portugália na Almirante Reis. E porque estou na Almirante Reis dou mais uns
passos até à rua da Palma, até ao antigo palacete que foi sede do PSR e onde se
bebiam umas cervejas e se ouviam arranhar uns acordes de Punk. O melhor é não
ir por aí senão nunca mais paro.
Estou ao pé do Condes e alguém chama pelo meu nome enquanto
acena com a mão. À minha volta ouve-se o burburinho babilônico das grandes metrópoles
cosmopolitas que se renderam ao dinheiro do turismo. Apercebo-me agora que
pouco vi enquanto caminhava. Do Tejo eu lembro-me, mas tenho dificuldades em
recordar o mar de esplanadas e de lojas de souvenirs fabricados vá-se lá saber
onde. Melhor assim, no fim de
contas esta Lisboa já não é minha, hoje não passo de um turista. Vale-me que quando
voltar a atravessar a ponte deixo Lisboa para trás. Se assim não fosse, sabe-se
lá se conseguiria resistir aos seus encantos.
Nota do autor: Este pequeno texto devia integrar uma compilação
sobre Lisboa. A Editora que me endossou o convite esteve envolvida na publicação
dos meus livros e esta seria a minha segunda participação…Pena que eu tenha
lido o convite já depois do prazo ter acabado. Enfim, qualquer pretexto é válido
para escrever. Foi esse o motivo que me levou a aceitar o desafio e a publicar
o resultado. O tema principal é Lisboa e tem menos de mil palavras.