2026-09-19

Personagens

 Personagens

 

Eu sou um inventor de personagens, e disponho delas a meu belo prazer. Eu próprio sou uma invenção, uma personagem assumida com adereços de outras histórias. Poderia ter escrito uma peça de teatro para a minha última invenção. Uma história de amor e glória fatídica numa época de adventos que se sucedem a uma cadência vertiginosa. Podia falar de mim, e da minha experiência pessoal; uma Odisseia real sobre um homem real com uma doença real. Que belo monólogo ficaria registado para a posteridade. Seria fado comédia, esperança fatalista, egoísta e suicida, apologia da sobrevivência, religioso e místico, agnóstico e idolatra em eterno conflito, ateu por despeito e humanista por defeito, panfletário e radical, comunista liberal e socialmente pequeno-burguês. Seria retórico e pessimista, disfarçado de optimismo, assertivo na demagogia, mas cínico e sarcástico no discurso moralista, facilmente reconhecido pela idiotice incoerente. Aliás, seria esta a sua maior virtude; mergulhar na ambiguidade racional, e perder-me nas imperfeições da inteligência humana. Inteligência superficialmente profunda, porque tocava na consciência sem a revelar, e profundamente superficial, porque desnudaria os defeitos mais mesquinhos. Sem dúvida que construiria, a partir do barro pobre, a personagem mais honestamente fingida e o monólogo mais fragmentado na história do teatro por escrever, o sonho de qualquer actor medíocre, ou encenador desprezível. Felizmente, ainda tenho uma réstia de decência, o que me impede de envergonhar a língua portuguesa.