(excerto do interrogatório efetuado pela polícia judiciária ao João sobre o desaparecimento do Paulo)
João: Conheci o Paulo num evento
cultural patrocinado pelo Município de Santiago.
Inspetor: E isso foi quando?
J: Há Aproximadamente três meses.
I: Pode descrever-nos esse encontro?
J: Foi pura casualidade. Eu estava
extremamente aborrecido e esperava ansiosamente que aquilo terminasse para
poder voltar para casa. Foi esse o motivo por que me aproximei da banca onde o
Paulo se encontrava. Agradou-me o fato de ser aquela que tinha menos pessoas. Para
dizer a verdade era a única que estava vazia. Se peguei num livro foi apenas
uma desculpa para estar ali. Meti conversa porque o Paulo não parava de me
observar fixamente. Não me recordo das palavras exatas que dissemos um ao outro,
só sei que ele acabou por me oferecer o livro e eu, por cortesia, prometi-lhe
um convite para um almoço quando terminasse do ler. Depois despedi-me e fui ter
com a minha namorada. Quando voltei a olhar para a banca onde ele estava já não
o vi. Presumo que se tenha ido embora.
I: Ele estava sozinho?
J: Que eu tenha dado conta não o vi
com mais ninguém.
I: A sua namorada lembra-se dele?
J: Não. Ela nunca o viu pessoalmente. A imagem que ela tinha dele era aquela
que estava na contracapa do livro.
I: Você chegou a concretizar a sua
promessa?
J: Sim, uma semana depois convidei-o
para almoçar comigo.
I: Em sua casa?
J: Na casa que tenho no monte.
I: Só tem essa casa?
J: Não, esta é a minha segunda casa.
A minha morada fiscal é em Sintra, dentro da vila. Também tenho lá um estúdio
logo à saída para as praias. Neste momento prefiro trabalhar no Alentejo, estou
apaixonado pela luz e pelo espaço das planícies. As árvores têm outra sombra.
I: Você tem por hábito convidar
estranhos para sua casa?
J: Depois de o ler deixou de ser um
estranho.
I: Não acha que é pouco para dizer
que se conhece um indivíduo?
J: Um artista revela muito do que é
pelo seu trabalho, principalmente se esse trabalho não está contaminado por
motivos exclusivamente comerciais. No caso do livro do Paulo isso pareceu-me
evidente. Na altura mostrou-se um bom ponto de partida para iniciar um novo
projeto. O trabalho poético, sem ser brilhante, era suficientemente honesto e
abordava uma temática que há muito eu queria explorar.
I: Que era?
J: O Apocalipse, ou a Revelação, se
preferir.
I: Foi, portanto, o seu trabalho
que motivou os vossos encontros diários?
J: Não era só o meu trabalho. O Paulo
com a sua perspetiva poética iria debruçar-se sobre o processo criativo
resultando daí uma parceria abordando dois aspetos artísticos distintos, mas
que se complementavam, o que aliás veio a acontecer.
(aqui o Inspetor parou a gravação e
fez uma pausa para um café)
I: Vamos parar um pouco. Vou buscar
um café. Quer alguma coisa?
J: Aceitava de bom grado um chá de
camomila sem açúcar se me fizesse esse favor.