2026-08-02

Tu e Eu em Toda a Parte

 

Tu e eu em toda a parte

 

Tu e eu em toda a parte

Carne junta na fortuna

Carne podre e moribunda

Espécie de sorte sem arte.

Ambos de pernas cortadas

Sem valor para ninguém

Eleitos num mar de defeitos

Fonte de amor e desdém.

Somos um número guardado

Para mostrar nas eleições

Somos uma cruz num quadrado

filhos de contradições.

Não importa a idade

Sexo ou religião

No lado negro da cidade

O diabo é dono do pão.

Sou eu e tu libertados

de xaile negro nas costas

cantando um fado revolta

nas casas noturnas de apostas.

Somos o que resta do vento

E o que sobrou da miséria

Distraídos com o fogo

Que nos queima as artérias.

Somos de novo chamados

A dizer porque queremos

Ser de novo castigados

Por nobres deuses supremos.

E a esperança que nos falta

É acusação dos senhores

É perjúrio de quem manda

Bolsar de comentadores

Mas não se devem esquecer

Que o palácio que cresce

Não teve origem no céu

E nasceu perto do chão.

Foi do barro mais sujo

Foi do fundo desta terra

Que o povo que nós somos

Contruiu na miséria.

Nós somos o povo cimento

Argamassa do poder

Não ganhamos o sustento

Mas sabemos transcender

Eu e tu em toda a parte

Nas veias desta nação

Somos o sangue que corre

Somos a massa do pão

Não nos podemos moldar

A um destino traçado

Por quem não sabe respeitar

Tudo o que lhes temos dado.

Eu e tu somos o chão

Onde nasce a bandeira

Que nas mãos da multidão

É vanguarda de trincheira.

Somos a sorte e o destino

Do que estará para vir

Somos o braço e a mão

Que no futuro irá cumprir.