Prefácio do livro “Do Sonho À Revelação” de João Sambock.
Fui visitar o meu irmão ao museu. Sei que ele me aguarda todos os dias. Sentei-me
à sua frente e olhei-o nos olhos que eu lhe pintei, olhei-o no corpo frágil com
que o representei, protegido por uma reluzente armadura de prata e ouro e montado
num imponente cavalo branco. Ele devolveu-me o olhar com palavras que só eu
devia ouvir e os meus olhos encheram-se de lágrimas que contive para não deixar
no meu irmão uma última imagem de tristeza.
Despedi-me com um “até breve” na esperança de o voltar a encontrar. Também
isso ele me deu, a esperança. Se voltei a ser homem antes de ser artista foi porque
ele me guiou. Por isso eu fui libertá-lo, fui libertá-lo da sua existência
espiritual neste mundo. O seu trabalho está feito e este livro de poemas que
hoje assumo como meu é prova disso. Devia-lhe um pedido de desculpas. Devia-lhe
muito mais que um simples pedido de desculpas. Devia-lhe a vida. Deixei-o
sozinho quando ele mais precisou de mim e ele não me abandonou. Hoje sei que
lhe devia acima de tudo um agradecimento. Paulo, meu querido e talentoso irmão,
este livro é para ti. Sem a tua presença estas palavras nunca teriam sido escritas.
(Excerto de uma notícia de jornal relatando o
desaparecimento de um dos painéis da obra do pintor João Sambock, “Da Revelação
Ao Caos”, exposta no MAR, Museu de Arte Rejeitada, na cidade da Amadora)
Foi dado hoje como desaparecido um dos painéis da controversa
obra de João Sambock, Da Revelação Ao Caos. A obra estava exposta a título permanente
no Museu de Arte Rejeitada, na Amadora. A obra é composta por quatro painéis
representando cada um deles um dos Cavaleiros do Apocalipse, tendo desaparecido
o mais consensual e menos polêmico dos quatro, o Cavaleiro Branco. Os restantes
três representando a guerra, a fome e a morte têm semelhanças inequívocas com
os três maiores líderes mundiais. A obra suscitou veementes protestos dos visados
através das embaixadas dos respetivos países. Por causa desta polêmica o MAR
transformou-se num local de encontro da esquerda intelectual e filosoficamente
partidarizada. O desaparecimento do Cavaleiro Branco levanta várias questões às
autoridades que, entretanto, tomaram conta do caso. Em primeiro lugar não se encontraram
vestígios de arrombamento e o sistema de vídeo vigilância não detetou qualquer
ocorrência no interior. O Ministro da Cultura do Governo português aproveitou,
entretanto, para exigir que o MAR retire a obra da exposição permanente. Em declarações
ao canal público disse…
FIM