2026-08-13

Soneto IV (do amor de que me acusam)

 

Soneto IV

 

No instante em que respiro,

Quando embebo do teu ar

Sinto no corpo um abrigo,

Livre espaço para te amar.


Não me julguem por gostar,

Nem me façam julgamento.

Mas vivendo do momento,

Como poderei eu escapar ?

 

Se vivi num amor indecente,

Foi porque a vida é urgência

E não me inventei paciente.

 

 

Não é por o amor ser urgente

Que não demonstra inocência,

Ou que se desnuda descrente.

Soneto III (Doce miragem)

 

Soneto III


Esculpi a paixão em rocha vulgar;

De nudez protegida do sol.

Inventei, cinzel na mão, o meu lar,

Refúgio do cantar de rouxinol.

 

Mirei-a de cima, e por debaixo,

Procurando, na pedra, imperfeições.

E foi por me vergar assim tão baixo,

Que do melhor, lhe desenhei as feições

 

Tacteei o meu rigor, e das formas, o amor.

Da sua beleza, a ausência de rancor.

E, deslumbrado, derramei-o na paisagem.

 

Pedra esculpida na alma, e com dor,

Precisa de nome para ter cor,

Por isso a baptizei: “doce miragem”.