2026-09-03

Santa Maria Fentanil

 Santa Maria Fentanil

 

É dia de consulta. Está marcada para as onze e quarenta e, para não variar, está a chover. É uma chuva de Verão que arrefece o ar com sabores tropicais desajustados. Não vamos sozinhos, uma amizade comum acompanha a nossa jornada e alegra as conversas da viagem. Tudo corre como estava previsto; choveu o que tinha de chover, não havia lugar disponível nos locais reservados aos utentes com mobilidade reduzida, fomos recebidos por um penteado pintado de louro envelhecido e eternamente antipático e, por último, entrei no gabinete onde me penitencio das agruras da vida. O Dr. Eduardo entra no gabinete acompanhado de um médico mais novo e a consulta tem início. Aqui, ao contrário do que aconteceu com Ivan Ilitch, não há espaço para mentiras. Todos sabemos ao que viemos e o enredo decorre com a vulgar normalidade de uma rotina conhecida. Longe vai o tempo das apalpações e dos exames minuciosos. Sentado à minha frente, de perna cruzada, o Dr. Eduardo inicia o questionário que, de forma desajeitada, repete velhas questões: Tem cama articulada, e cadeira sanitária? Tem grua para as transferências? E assistente para a tosse, tem? Usa o assistente de respiração? Tem dores?

Eis a pergunta que eu queria ouvir. Hoje venho disposto a hastear a bandeira branca, “No more heroes anymore”, assumo a subida de escalão e aceito a passagem para um outro nível. Sim, tenho muitas dores, não durmo, nem deixo a minha mulher dormir. Por favor, ajude-me! O Fentanil surgiu em forma de resposta. Finalmente completei um círculo que comecei a desenhar quando tinha dezasseis anos.