2026-06-30

Não quero acordar deste sonho 00H30m

 I (00H30m)

 

Na escuridão vejo os ponteiros fluorescentes. Dormi meia hora, coisa pouca para tanto cansaço. A televisão está ligada com o som no mínimo. No ecrã, as personagens do filme são bonecos aos quais eu não dou importância. Lá fora a chuva cai, indiferente ao ambiente acolhedor do meu quarto. Durmo sentado porque assim é mais fácil sonhar. O problema é adormecer.

 

Os olhos estão fechados. Repito, sem verbalizar, uma frase, um manifesto de liberdade. Peço à mente que se liberte do corpo. Tenho uma âncora no pé esquerdo que não me deixa zarpar. Nos bares junto ao cais ouve-se o marulhar dos copos. Lá dentro, as bocas sedentas engolem vórtices de espuma. Levo a mão direita ao peito. Sinto o coração bater na palma da mão. É um batimento suave, sem atropelos. Longe vão os tempos das arritmias, do descontrole percutido que apressava a minha existência. Sai-me uma “Ave Maria” murmurada entre dentes; Ave Maria cheia de graça, o Senhor é convosco…rogai por nós, pecadores, agora, e na hora da nossa morte, Ámen. Calo a minha oração porque alguém me chama. Dirijo-me a uma mesa e sento-me. Quem chamou por mim apresenta-me aos restantes convivas. A mesa encontra-se a um canto da sala. Não distingo as feições que me rodeiam. Uma rapariga mete conversa comigo. É a única mulher do grupo. O seu cabelo loiro está repleto de caracóis. Cortado curto, deixa ver duas orelhas repletas de pequenos brincos. Sinto o ar fresco da noite. Um dos rapazes esbraceja, enquanto grita palavras de aviso. A rua é estreita e mal iluminada. A rapariga pega-me na mão e convida-me a segui-la. Hesito por breves instantes antes de me deixar levar. Corremos rua abaixo, numa vertigem que me dá a ilusão de um voo. É ela que abre a porta daquele prédio. Eu limito-me a ir atrás dela. Subimos as velhas escadas de madeira até chegarmos ao último andar. A sensação de urgência desapareceu. Ouço uma campainha e vejo que alguém aparece à porta do apartamento. Ela diz palavras amáveis que eu não consigo perceber. O homem esboça um sorriso rançoso e, convida-nos a entrar. Ela puxa por mim com carinho e entramos num hall de entrada com quatro saídas. Estou sentado no chão. Tenho as pernas cruzadas e a capa de um disco no colo. Estou a manipular substâncias enquanto ouço música. As luzes do teto são coloridas e, teimam na sua intermitência. Procuro pela rapariga, mas não a vislumbro. À minha volta tenho caras que se riem de mim. Recebo um beijo na face e afasto-me desconfiado. Ela abraça-me pela cintura entramos no táxi. A pista de dança é nossa. Deixo que ela me conduza em cornucópias incertas. Por cima de mim as estrelas indicam caminhos. Sinto-me tonto e fecho os olhos à procura de equilíbrio. O rio faz-nos companhia. Começou a amanhecer. A cidade aceita essa inevitabilidade com uma preguiça sensual. Fugindo pela janela de um velho edifício a melodia de uma guitarra portuguesa senta-se ao nosso lado. Traz com ela um lamento feminino que me entristece. A rapariga chora. É dela o lamento. Pouso a guitarra e, abraçando-a, dou-lhe um beijo nos lábios.

 

A minha âncora deslocou-se fazendo tombar o meu pé esquerdo. Faço um esforço para o fazer subir. Ela coloca o meu pé em cima da cama e desaparece na penumbra do quarto. O relógio é testemunho silencioso da hora. Nos seus braços a indicação que passam treze minutos da uma da manhã.