Tu e eu em toda a parte
Tu e eu em
toda a parte
Carne junta
na fortuna
Carne podre e
moribunda
Espécie de
sorte sem arte.
Ambos de
pernas cortadas
Sem valor
para ninguém
Eleitos num
mar de defeitos
Fonte de amor
e desdém.
Somos um
número guardado
Para mostrar
nas eleições
Somos uma
cruz num quadrado
filhos de
contradições.
Não importa a
idade
Sexo ou
religião
No lado negro
da cidade
O diabo é
dono do pão.
Sou eu e tu
libertados
de xaile
negro nas costas
cantando um
fado revolta
nas casas
noturnas de apostas.
Somos o que
resta do vento
E o que
sobrou da miséria
Distraídos
com o fogo
Que nos
queima as artérias.
Somos de novo
chamados
A dizer
porque queremos
Ser de novo
castigados
Por nobres
deuses supremos.
E a esperança
que nos falta
É acusação
dos senhores
É perjúrio de
quem manda
Bolsar de
comentadores
Mas não se
devem esquecer
Que o palácio
que cresce
Não teve
origem no céu
E nasceu
perto do chão.
Foi do barro
mais sujo
Foi do fundo
desta terra
Que o povo
que nós somos
Contruiu na
miséria.
Nós somos o
povo cimento
Argamassa do
poder
Não ganhamos
o sustento
Mas sabemos
transcender
Eu e tu em
toda a parte
Nas veias
desta nação
Somos o
sangue que corre
Somos a massa
do pão
Não nos
podemos moldar
A um destino
traçado
Por quem não
sabe respeitar
Tudo o que
lhes temos dado.
Eu e tu somos
o chão
Onde nasce a
bandeira
Que nas mãos
da multidão
É vanguarda
de trincheira.
Somos a sorte
e o destino
Do que estará
para vir
Somos o braço
e a mão
Que no futuro
irá cumprir.