Crime de ódio: A morte, assim como que contada
Um crime é um crime: acção
ignóbil, momento transitório que nos transporta para regiões desconhecidas do
que pensamos ser a nossa existência. Quando ocorre na vizinhança do nosso
quotidiano, sentimo-nos violentados. Se esse crime pressupõe que uma vida se
perde, que a morte era o seu objectivo, então a narrativa muda de rumo, e
permitimo-nos a assunção de uma culpa que nos transporta para outra dimensão,
possivelmente uma dimensão abstracta, onde existimos como actores principais,
paladinos da moral e da justiça.
Assim procedeu Justiniano
Rebelo. Homem já entrado nos oitenta, matou na guerra, mas nunca lhe viu a cor
dos olhos. Os mortos e os estropiados, no corpo e na alma, são a natural
consequência da guerra. É com este convencimento que Justiniano aceitou os
efeitos de cinco anos na guerra do ultramar. Nunca mais conseguiu dormir uma
noite completa, e não tolera barulhos excessivos nem silêncios absolutos. Ambas
as situações despoletam nele reacções inesperadas e intempestivas, o que lhe
impede uma vida social. Justiniano viveu nos subúrbios da Capital desde 73.
Quando se deu a revolução e, poucos anos depois, começaram a chegar os
“Retornados”, nasceu dentro de si uma frustração que não conseguia esconder: −
Foi para ver esta merda que me foderam a puta da vida? – gritava, quando,
sentado à frente do televisor, via os noticiários nacionais. Justiniano não
aceitava que, de permeio com os brancos, também viessem negros e mestiços. –
Este país vai ficar cheio de “pretos”! – vaticinava, possesso e com as faces
ruborizadas. Profundamente indignado, imigrou para a Alemanha até se reformar e
voltar a Portugal. Os anos de emigração não acalmaram a sua raiva; antes pelo
contrário. Depois de tanto tempo a viver subjugado a uma cultura que
considerava superior em todos os aspectos, não compreendia a passividade do
poder político perante as diferenças culturais dos imigrantes que viviam em
Portugal. – Se fosse lá, eram recambiados para os países deles! – Era assim que
sentenciava quando ouvia falar do aumento de criminalidade. Para ele, todas as
desgraças que apareciam nas notícias tinham origem na imigração.
Foi este Justiniano, aquele que
recebeu a notícia da morte do Sr. António. António era seu vizinho e morreu em
consequência de um assalto à mão armada. O assalto aconteceu durante a
madrugada. Alguém entrou em sua casa e tirou-lhe a vida enquanto dormia.
Ninguém viu nem ouviu nada. Se algum cão ladrou, foi um ladrar envergonhado,
digno da irrelevância canina que os faz ladrar por tudo e por nada: alguma
zorra matreira, um gato vadio atiçado pelo cio, ou um bêbado, ao fundo da
estrada, regressando a casa. Para Justiniano, os culpados eram fáceis de
encontrar: bastava ir à vila para os ver em grupos junto dos supermercados.
Havia-os em todas as tonalidades, desde o castanho-claro ao preto retinto. −
Uma cambada de animais, que não respeitam nada nem ninguém! – Aí estava,
renascido das cinzas, o primeiro Cabo Rebelo, novamente pronto para combater.
Desta vez, não era preciso abalar de barco para terras africanas. Não defendia
as fazendas dos ricos nem as casas dos colonos burgueses; defendia o que era
seu: a terra sagrada onde os seus pobres avós tinham derramado sangue, suor e
lágrimas. Agora, sim, poderia assumir a culpa pela morte provocada. Vivera
durante muitos anos com a culpa e com a vergonha alheia. Hoje iria regressar
como um herói.
No dia seguinte era notícia a
morte de um octogenário. Fora abatido pelas forças de segurança durante uma
operação de rotina. Segundo fontes oficiais, tinha disparado contra os
militares da GNR chamando-lhes “Lacaios do Capitalismo”. Em rodapé,
noticiava-se que havia sido apanhado o responsável pela morte de um idoso em
sua própria casa. O jovem, neto da vítima, entregara-se e confessara o crime.