Começam a faltar-me adjetivos para descrever os meus pés. Já lhes tracei finalidades e preconceitos, sem me esquecer das suas imperfeições. Agora, deixo-os andar.
A passagem do turno ocorre no meio de um burburinho que não é
usual. Tento virar ligeiramente a cabeça para satisfazer a curiosidade. Ao fim
de algum tempo, consigo obter um ângulo de visão que me permite olhar para as
duas batas brancas. Ambas ostentam dois círculos vermelhos com a seguinte
afirmação: “Estou em Greve”. Como é possível que não tenha reparado naqueles
círculos que gritavam furiosamente o seu protesto? Apurei o ouvido e fiquei a
saber que a greve começara no turno da noite. Tendo de cumprir os serviços
mínimos, aqueles dísticos afirmavam a sua adesão. Naquela ala, pouco havia para
poderem afirmar a sua luta. Soube que não haveria visitas, mas isso não me
incomodava. Estava solidário com a sua luta e, se conseguisse falar, teria dito
de minha justiça. Falaria dos dias sem dormir para garantir a adesão dos
trabalhadores, das horas passadas nos piquetes para manter o ímpeto
reivindicativo, dos olhos vermelhos que se mantinham abertos à força de grandes
quantidades de cafeína, dos comunicados que eram distribuídos ainda mornos da
impressão recente e dos anos que acabaram por dar cabo da minha relação com a
Cecília. Que digo eu? A bata branca aproxima-se e consigo ver a indignação que
lhe corrói a alma e a faz duvidar da sua decisão precoce. Foi por causa do seu
avô que decidiu abraçar a profissão. Foram dois meses de visitas diárias ao
hospital. Saía do velho edifício com lágrimas a escorrer pelo rosto, num choro
compulsivo que exasperava a mãe. Eram as batas que lhe apaziguavam o coração.
Seria enfermeira para cuidar do corpo aos avôs e da alma às netinhas. Teria
Filomena feito essa confissão tão pessoal? É provável que assim tenha
acontecido. Um moribundo é sempre um ótimo confessor. Não poderia haver melhor
prova de sigilo. Digamos que é algo inerente à função de acamado. Até na doença
devemos ser profissionais. A Filomena tem um turno descansado. No dia anterior
esvaziaram a sala e, durante a greve, só dariam entrada casos urgentes. Por
estarem sós, a Filomena foi buscar uma cadeira e estacionou junto dele com uma
revista no regaço. Aquela bata branca ainda sentia o apelo do cheiro a tinta
impressa em papel novo.
Cumpri o serviço militar durante ano e meio. Perdi a minha mãe
enquanto perfilava em frente do Convento de Mafra. A ocasião era solene. O
Presidente da República era Mário Soares, que cumpria o seu primeiro mandato.
Era um homem que gostava de sair do Palácio de Belém; por esse motivo, não foi
de estranhar que tivesse ido assistir ao concerto de carrilhões que inaugurava
a sua restauração após um longo período de inatividade. Terá falecido às
primeiras notas metálicas do bronze recém-polido? Quero acreditar que sim. Duas
semanas antes, vi-a pela última vez. Detido no quartel, junto à casa da guarda
do portão norte, dispondo de alguns metros quadrados, uma tarimba para dormir,
um buraco para o que saísse cá de dentro, um chuveiro com água à temperatura
ambiente e uma janela que nunca deixava ver o sol, decidi deixar de comer. Não
cedi a ameaças de agravamento da pena nem às palavras piedosas do major
capelão. Estava decidido a levar o meu ato até às últimas consequências, e só a
raiva me impedia de chorar. Para passar o tempo, tinha um rádio que também lia
cassetes. O único problema é que, sem eletricidade, tinha de usar pilhas. Ao
fim de um dia, já só ouvia rádio. Tinha também um caderno quadriculado e uma
caneta que me trouxeram da secretaria da companhia, e nos quais fiz o relato
poético do meu cativeiro. Ah, não me posso esquecer do meu camarada Reis, que
trabalhava na tipografia do quartel e que me fez uma cópia artesanal de um
livro de poemas de Ian Curtis, vocalista dos Joy Division. Não sei se foi a minha
teimosia, se por intermédio do meu pai, mas acabei por ser chamado ao
tenente-coronel. Compareci ladeado por dois camaradas armados com G3, a célebre
metralhadora de fabrico alemão que equipava o exército regular português.
Estranha arma que simbolizou a guerra em África e, mais tarde, se transformou
num símbolo da revolução e da liberdade. Para tal, bastou apenas colocar uma
flor no seu cano, um cravo vermelho. Assim fica provado que o significado dos
objetos depende do uso que se lhes dá. Estou a perder-me em rodriguinhos e
voltinhas. Mas o que é que quer? A cabeça é mesmo assim. Umas coisas levam a
outras e, quando damos por nós, estamos enredados em filigranas de pechisbeque.
Não se vá já embora, que eu estou quase a acabar. A minha mãe está quase a
morrer, já não falta muito. Obrigado, enfermeira Filomena, você nem imagina o
bem que me faz. Então, é assim: fui ao gabinete do comandante, onde o meu pai
também se encontrava. Tudo indicava que o meu pai explicara a situação ao
comandante e que ele concordava em me deixar ir ver a minha mãe. Para que isso
sucedesse, só eram necessárias duas coisas: eu tinha de voltar a comer e o meu
pai comprometia-se com o meu regresso ao quartel para cumprir o resto da pena.
Não tinha como não aceitar. No dia seguinte, desloquei-me ao IPO com a farda de
saída. Foi o meu pai que me levou, mas não foi ele que me trouxe de volta ao
quartel. A minha mãe tinha pedido para se maquilhar e estava tão bonita.
Parecia impossível que não viesse a aguentar até ao final do mês, apenas quinze
dias depois do meu vigésimo segundo aniversário. Escrevera uma carta para eu
ler depois. Só não lhe digo o que ela escreveu para não me desfazer aqui, num
pranto de criança. Antes de voltar para o quartel, tomei uns drunfos e bebi uma
carrada de aguardentes na Rua do Coliseu. Sei que enchi a farda de crachás: Sex
Pistols, Clash, Jim Morrison; destes eu lembro-me. Depois? Devo ter apanhado o
comboio para o Cacém e, depois, um que me levasse para a Malveira. Não lhe
consigo dizer mais nada. No dia seguinte, estava outra vez atrás de grades.
Está a fazer-se tarde, enfermeira. Lá fora já escureceu e,
daqui a pouco tempo, será rendida. Antes de se ir embora, não se esqueça do meu
comprimido para dormir. Também lhe desejo uma noite descansada.