(excerto do depoimento de Madalena à polícia judiciária após o João ter
participado o desaparecimento do Poeta)
Inspetor: Pedimos desculpas pelo
inconveniente, mas o seu depoimento é fulcral para podermos encerrar a investigação.
Madalena: Não se preocupe Sr. Inspetor,
o interesse é todo meu em ver este assunto resolvido. Eu também fui apanhada de
surpresa. Só quando voltei a casa do João é que tive consciência da gravidade da
situação. Estive dois meses em digressão de final de temporada. Eu nem era para
ir, mas uma das atrizes adoeceu e eu era a sua substituta. Como eram só dois
meses aceitei. Se soubesse que isto ia acontecer nunca teria ido.
I: Pode descrever-nos a sua relação
com o Sr. João?
M: Podemos dizer que somos
namorados. Conheci o João no funeral do seu irmão. O meu pai era o editor do
Paulo e eu aceitei acompanhá-lo. O sofrimento do João não me deixou
indiferente. Eu conhecia a obra do Paulo, mas desconhecia que ele tinha um irmão
artista. Eu acho que foi a sua vulnerabilidade o que mais me atraiu nele. Começámos
a encontrar-nos regularmente e acabei por ir viver com ele. O meu trabalho
também não estava grande coisa e eu encontrava-me muito insegura por não ter
sido a primeira opção para o papel na peça que a companhia andava a ensaiar. Acabámos
por nos apoiar um ao outro. Só depois é que fiquei a saber da relação
atribulada que existia entre o Paulo e o João.
I: Podia ser mais especifica, dona Madalena?
M: Por favor Sr. Inspetor não me
trate por dona que me envelhece. Pode tratar-me por menina, menina Madalena.
I: Ok. Podia então ser mais
especifica acerca da relação entre os irmãos, menina Madalena?
M: Vê, Sr. Inspetor, soa muito melhor.
(ligeiro silêncio em que o Inspetor resistiu ao olhar de Madalena e a instigou a continuar com um gesto de cabeça. Madalena substituiu o ar de provocação por uma postura mais formal)
M: Parece que o problema entre eles tinha a ver com o pai. O pai deles vivia sozinho
já há uns anos desde que a sua segunda mulher morreu. Do que me foi dado a entender
o João nunca aceitou essa relação e afastou-se definitivamente do pai. Quando
este ficou acamado após um enfarte foi o Paulo que cuidou dele. Na altura vendeu
a casa de Lisboa e comprou o monte onde o João vive atualmente. Também vendeu a
casa do pai e ficaram a viver juntos no monte. O João sabia de tudo porque o Paulo
nunca lhe escondeu nada, mas ele nunca quis saber do pai nem do irmão. E se o Paulo
passou mal. Isso eu sei porque cheguei a ir visitá-lo com o meu pai e ele
queixava-se da vida que levava. A relação que ele tinha com o namorado acabou
para não melindrar o pai que nunca aceitara o fato do seu filho preferido ser
homossexual, os seus livros não vendiam e a sua vida social resumia-se ao quotidiano
com a dona Alzira e as cuidadoras que contratara para o ajudar e que lhe
levaram o resto das poupanças. Eu sei que ele nunca recuperou a alegria de viver.
O meu pai ainda pensou que a morte do pai do Paulo o libertasse, mas isso não
aconteceu e ele afundou-se afogado em antidepressivos e álcool até o coração parar.
I: Há aqui uma questão que eu não
entendo. O sofrimento do João era genuíno?
M: Era. Algo se passou na sua
cabeça que o transformou completamente. Eu assisti ao processo porque foi o
período em que começamos a andar. Fiquei a saber depois que ele era narcisista
e misógino, que tinha dois filhos não assumidos e que as inúmeras relações
anteriores terminaram todas em violência doméstica, queixas na polícia e vários
processos em tribunal. Mas não foi esse o João que conheci. O João que eu
conheci era tímido, inseguro e extremamente infeliz. Mal o irmão foi cremado
pegou nas cinzas e veio para o Alentejo. Quando decidimos viver juntos ele já
cá estava o tempo quase todo.
I: Quando é que se apercebeu que ele
incorporou a identidade do irmão?
M: Eu diria que foi a entidade do
irmão que ele incorporou, pois é essa a opinião do psiquiatra que o anda a tratar
e que o medicou. A princípio era só a culpa que o martirizava. Ele sentia-se
culpado pela morte do irmão. Depois encontrou os rascunhos que dariam origem ao
livro “Da Revelação Ao Caos” e o processo acelerou. Não só foi ele que deu o
título ao livro como me pressionou para que falasse com o meu pai para o editar.
A partir desse momento começou a atender aos dois nomes.
I: E isso não a assustou?
M: No início causou-me estranheza,
mas a vida com ele era calma e tranquila. Ele só saia de casa para ir ao psicólogo
e ao psiquiatra. Dizia que um era para o fazer pensar e que o outro era para o
drogar. Eu tenho a certeza de que ele só foi ao psiquiatra porque eu insisti. A
situação só piorou quando eu lhe disse que me ia ausentar dois meses para
substituir a minha colega. Ele sabia que eu tinha tido uma relação com um
colega, mas que terminara tudo para ir viver com ele, no entanto isto provocou-lhe
uma crise de ciúmes. Não foi nada de grave nem violento, apenas um mau estar
que o fez assumir quase completamente a entidade do irmão, como se estivesse a
fugir ao antigo João. Foi com o “Paulo” que eu fui ao evento cultural do
município. Foi o livro dele que eu fui apoiar e foi ele que me deixou sozinha.
Parti deixando o “Paulo”, mas ao longe só falei com o João. Eu apercebi-me, mas
nunca pensei que tivesse esta atitude.
I: Esteja descansada. Com o seu
depoimento e o relatório médico tudo se irá resolver.