2026-07-16

Não quero acordar deste sonho 06H21m

Quantas vezes acordo durante a noite? Ainda não as contei. Sem registos que me permitam reclamar recordes, limito-me a testemunhar estes renascimentos forçados. Se os escrevesse, quem perderia o seu tempo a ler tal digiscrito? Inventem-se as palavras que se quiserem; nunca serão suficientes para descrever os estados de consciência. O que eu escrevo é infrascrito por luzes vermelhas que sabem ler os meus olhos, mas, à noite, quando os olhos estão fechados por fora, a luz deixa de ter importância.


Encaminho a minha cadeira para a sala de jogo. Tenho um lugar reservado à mesa; só preciso encontrá-lo. Não tenho pressa: sou um jogador acessório, com um papel determinado pelo Mestre Organizador. Estaciono a eletropoltrona com minúcia. As minhas competências estão disfarçadas por deficiências unanimemente aceites como tal. Espero pelo tempo de existência da personagem inventada. O Mestre manobra com mestria as matérias ao seu dispor. A floresta desapareceu, e o Grande Rio ficou para trás. A cidade que se aproxima insinua-se como uma miragem. Os seus cheiros são inventados, mas a matéria de que consistem é a essência dos sonhos. Inspiro profundamente antes de falar. As sílabas são articuladas com perícia. Estou orgulhoso com o meu desempenho. Agradeço com uma vénia o aplauso geral. Volto a sentar-me e manobro as seis rodas com incentivos verbais. Onde está o meu quarto? Sento-me à secretária, com urgência de socialidade entrelaçada.

 

Tenho várias redes à disposição. Qual delas a melhor? Cada uma preenche uma lacuna da vida; por isso, eu uso todas as que se encontram disponíveis. Sou um ser completo que só precisa socializar. No ecrã, as interações são seguras. Podes sempre desligá-lo, mas quem é que tem coragem para tal? Eu, não! Algo me avisa que, sem ele, não sou ninguém. Escolho uma cara num pequeno círculo e analiso o candidato. Nada tenho para lhe dizer, mas insisto numa visualização. De tanto insistir, a pessoa materializa-se no quarto. Procuro um comando que reverta a minha solidão, que elimine a matéria humana do meu espaço privado. Falta-me o ar, e não consigo articular as palavras de socorro. De joelhos, encosto a cabeça no chão em sinal de respeito.

 

Sinto-me a deslizar pela água. Tenho na boca o sabor do seu sal. A cada braçada, um apelo ao silêncio. O mar envolve o meu corpo, reclamando a sua posse. Deveria ter aceitado o convite enquanto podia. Fui rejeitado. Estou deitado na areia da praia. Ouço o nadador-salvador declarar que não há mais nada a fazer.

 

Onde está o meu mar? Apalpo a areia dos meus lençóis à procura de um destino que ainda não chegou. Por debaixo da cabeça, as algas da almofada tentam reconfortar a minha desilusão. Estou na cama com ELA, mas, pior do que isso, estou novamente acordado.