No início
os pés caminhavam sobre a relva fresca que crescia em liberdade. O sol, no céu
azul, indicava o dia mediano, quando, na vertical, obrigava a uma observação
perpendicular. Nesse tempo as articulações acabadas de nascer exercitavam-se em
movimentos juvenis sedentos de saber. Se das nuvens caía água era motivo para
rir até que as lágrimas de um choro carregassem os pequenos riachos que se
formavam nas ruas e desaguavam nas sarjetas. Algumas vezes fiquei eu olhando
para dentro da sua escuridão procurando decifrar os caminhos que ela me
escondia. Para lá dos passeios fui correndo atrás do que não via, mas que sabia
por debaixo dos meus pés. Nesse tempo sabia o que era sonhar e inventei todos
os mundos. Nunca conseguirei quantificar a amplitude da minha quimera. Quisera
eu ser, sem preocupações, medos ou anseios.
É de dia e já abriram as persianas das janelas. Pressente-se a
azáfama fora do quarto, mas aqui tudo está calmo. O homem de branco já acordou
e ocupa-se com a papelada. Passou a ronda pelas camas, verificou sinais e
gráficos, cateteres e tubos, sinais estranhos de fluidos orgânicos, pulsações e
respirações, testemunhos de vida que lhe garantam uma passagem de turno
tranquila. Sinto necessidades, mas não me atrevo a confessá-las. Aperto a
bexiga com força, com músculos que desconheço, mas que sei que existem dentro
de mim, e com isso acalmo vontades orgânicas, possíveis incontinências que
assim se submetem à minha vontade. Ainda ninguém me disse, ou pelo menos disso
não tenho conhecimento, mas sobrevivi a qualquer coisa. Terá sido um enfarte? Um
AVC? Qualquer outro acidente crítico? Não sei. Se me disseram, se me explicaram
e discriminaram porquês, não tomei disso conhecimento, talvez preocupado em
manter-me vivo. Seja como for, aqui estou deitado numa cama, aparentemente de
boa saúde e com controlo dos movimentos. Ainda não tentei falar, tenho medo de
não conseguir fazê-lo. Sempre ouvi dizer que há falhas que tiram a capacidade de
nos podermos exprimir. Mais do que as de movimento, são estas que me assustam, não
poder dizer ao que venho, não poder dizer o que quero, e o que não quero, expressar
vontades, que em última análise são a razão de viver. Tenho-me quieto, preso
numa ansiedade que me consome. Acabei por adormecer. Não sei quanto tempo dormi,
mas acordei com a voz de alguém que chamava por mim. A voz pertencia a um
uniforme e esse uniforme tinha um nome, André. Ouvi-me dizer qualquer coisa,
mas não tenho a certeza se o som das minhas palavras teve eco nos ouvidos do uniforme
branco. Presumi que sim, pois a cara sorridente de um jovem dos seus 35 anos
respondeu-me dizendo que iria tratar já do assunto. Apercebi-me de que lhe
tinha pedido para me ajudar a urinar, pelo recipiente com que ele abordou as
minhas partes baixas. Envergonhado comentei qualquer coisa, algo sobre o meu nascimento.
Lembrei-me de ter ouvido falar desse momento, de ficar escrito que nasci na
madrugada de dia 25 de abril de 1965, na maternidade Alfredo da Costa,
freguesia de são Sebastião da Pedreira, concelho e distrito de Lisboa. Julgo
que o disse ao enfermeiro André. A minha mãe sangrou até morrer, ou quase, visto
nunca ter recuperado completamente a saúde após o meu nascimento. Devo-lhe
duplamente a vida, mas não me lembro de lhe ter agradecido a bênção. Sabe,
André, é que eu nasci com a saúde debilitada, pulmões fracos, alergias várias,
brônquios entupidos, e uma propensão apaixonada por constipações gripes e
viroses afins. Não foi por isso de admirar que uma broncopneumonia me atirasse
para a cama e quase me matasse. Ficou dito na minha Memória que tinha dois anos
quando isso aconteceu e para mim essa história tornou-se a minha realidade. Não
me pergunte outra memória porque não a tenho. Memórias vividas tenho-as, mas
são outras. Adenoides, amígdalas, gelados, expetorantes, papas de linhaça, Vick
Vaporub, supositórios, óleo de fígado de bacalhau, gemadas com cerveja preta e
açúcar, noites à janela com falta de ar, visitas avulsas ao hospital, e
vacinas, muitas vacinas. Estou a chateá-lo com a minha conversa, senhor
enfermeiro? Não, senhor Jorge, até estou a gostar de o ouvir, assim tenho a
certeza que você está vivo. Não leve a mal senhor Jorge, estou a brincar
consigo. Claro que não, André. Posso tratá-lo por André? Claro que pode senhor
Jorge, você podia ser meu pai. Sabe que o meu pai tem a sua idade? Claro que
não se sabe, como podia você saber se eu não lhe tinha dito? Ouço-me a falar de
mim, da minha infância. Agora já não falo das doenças. Um recanto na Amadora,
paredes meias com uma encosta verde, uma casa de três assoalhadas, um hall de
entrada, uma cozinha, uma despensa, e duas casas de banho, um luxo que na altura
custou 160 contos. Mais uma vez a Memória é implantada. Estou a falar dos 160
contos que me foram contados, conto a conto, prestação a prestação numa altura
em que um ordenado de 2000 escudos era um luxo. O rés do chão ficava para as
traseiras que ainda não estavam urbanizadas, quero com isto dizer que eram um baldio
entre dois prédios. A entrada principal dava para o passeio e para um pequeno
largo em terra batida circundado por um muro que sustinha um pequeno barranco, fronteira
para o nível superior por onde passava a estrada. Quem por ali andasse vindo da
direita para a esquerda iria dar a um beco sem saída. Olho à minha volta, estou
sozinho, quer isto dizer que o André está sentado por detrás do balcão e o
ocupante da outra cama queda-se enfermo, fechado nas suas doenças. Continuo a
ouvir-me e não paro de falar. Já me lavaram, mas não dei por isso. A esponja
com detergente verde circulou pelo meu corpo, manejada por mãos experientes. Esteve
nos meus pés, nas minhas pernas, nas partes íntimas, na barriga e no tronco, debaixo
dos meus braços e, possivelmente, também na minha cara. Como posso eu ter deixado
tocar assim no meu corpo sem uma palavra de agradecimento ou de apreço, sem um
nome ou uma imagem para recordar? Sinto a criança que fui, enleada num abraço
de luta. Sinto o hálito a leite com chocolate e a crosta de uma ferida junto
aos meus olhos. É uma luta de força em que a submissão é o objetivo. À minha
volta ouço vozes de incitamento. Estou nas escadas de um prédio, arena de
batalhas juvenis. É aqui que se decide a hierarquia dos mais jovens. Os mais
velhos decidem-na em jogos mais perigosos. É o Mário que luta comigo, mas já
lutei com o Eduardo e com o João. A luta está equilibrada e não se decide. À
nossa volta os mais velhos começam a impacientar-se e dão-nos pontapés para ver
se a balança do combate se inclina para algum dos lados, mas o nosso abraço é
mais forte e o equilíbrio prevalece. No fim, nenhum de nós venceu, e havendo
necessidade de humilhação, humilharam-nos aos dois. Acabei a tarde a lanchar na
casa do Mário e a jogar O Jogo da Glória. Mesmo quando alguém ganhava, esse
alguém tinha um momento de glória muito curto. O espetáculo oferecido tinha de
ser repetido inúmeras vezes até que o respeito fosse conquistado. Acabávamos vezes
sem conta na casa uns dos outros compartilhando fatalidades e jogos pueris. Foi
assim que fizemos uma cabana de madeira e criámos um clube. Um cão por doze e
quinhentos, coisa que hoje parece pouco, mas que na altura era toda uma fortuna
quase impossível de alcançar. Já não me lembro de quantos éramos, mas lembro-me
do Zé Alberto e do Mário. Lembro-me também do Lord, nome que demos ao cão para
que ele se distinguisse entre os demais rafeiros da rua. Para não ficarem atrás
os donos do seu irmão batizaram-no de Nero, triste nome se pensarmos no
incêndio de Roma. Por ironia do destino o Nero foi atropelado ainda novo e
passou o resto dos seus dias a coxear perdendo a dignidade que o nome lhe emprestara.
Assim se prova que um nome não faz o destino daquele que o carrega, isto se
considerarmos o primeiro, já o último poderá trazer algo mais ao fado de cada
um. De qualquer maneira, se a guitarra que toca for fatalista, não haverá nome
que o salve. Assim é a vida e sempre será, nomes e desejos à parte. A vida é um
jogo de decisões e infortúnios cujo final é sempre o mesmo. Também assim
aconteceu ao nosso clube, morte prematura apenas com alguns meses de existência.
Acabada a construção da cabana foi altura de definirmos algumas regras. Só
havia uma chave e o Zé Alberto ficou com ela, muito por influência do seu pai
que foi quem nos ajudou a construir a cabana. Mal sabíamos nós que ela serviria
de abrigo às ferramentas do pai do Zé Alberto e que nós seríamos expulsos da
nossa sede. Mas na altura lá definimos uma senha para entrar, regras de conduta
que incluíam a confidencialidade de tudo o que se passava no clube, por ironia
do destino tudo tão igual à primeira empresa onde trabalhei, multinacional de
interesses obscuros em vários continentes. Ainda lá fizemos umas reuniões para
delinear projetos de aventura. Ainda lá jogámos ao monopólio e a outros jogos
de tabuleiro. Do clube ficou o Lord, que acabou na casa do Mário com a mãe
deste como tutora do canino. Ai André, se eu lhe contasse tudo o que fazíamos
nunca mais saía desta cama de hospital.
O médico veio visitar-me perto da hora de almoço. Senhor
Jorge, disse ele, você teve um ataque cardíaco. Disse-o sem olhar diretamente
para mim, com uns papéis na mão, de olho já na próxima cama. Teve sorte,
continuou ele, aparentemente não ficou com lesões, mas o melhor é pôr-se a pau,
você fuma, bebe, se sim o melhor é pensar em acabar com isso, e a alimentação
também tem de ser corrigida, a julgar pelas análises que eu aqui tenho. Colesterol,
triglicéridos e os açúcares, estão bem lá em cima. Vamos deixá-lo em observação
mais uns dias nos cuidados intensivos, não vá à máquina pregar-lhe mais alguma
partida. De seguida virou-se para o enfermeiro e continuou, mantém-no a soro. Quero
repetir a eletrocardiograma que lhe fizeram ontem e também as análises ao
sangue. Comida de dieta e descanso, amanhã passo por cá. E assim se despachou o
assunto do senhor Jorge Silva, o paciente na cama número 1 logo a seguir ao
balcão. O senhor Jorge Silva sou eu.
É costume dizer que o tempo voa quando ele, sem peso, passa
por nós e leva um pedaço da nossa vida sem darmos por isso. Quando a
convalescença é curta e lutamos pela sobrevivência sem termos de isso
consciência, também o tempo voa, carregando coisas que mais tarde nos farão
falta. Assim aconteceu com o Jorge, o qual não deu pela mudança de turno. Saiu
o André e entrou outra bata branca à qual o Jorge não deu importância. Talvez
tenha dormido, ou apenas fechado os olhos. Só ele saberá dizer o que aconteceu.
Muitas vezes, de olhos fechados, fingimos dormir para não nos incomodarem.
Jorge, como todos os portugueses, é um poeta sem saber. Quer isto dizer que o
seu pensamento é intrinsecamente poético, mesmo que ele não tenha disso
consciência. Jorge escreve poesia numa sebenta de folhas brancas e sem linhas. Muitas
vezes o seu sono é povoado de pensamentos poéticos que ele teima em ignorar, convencido
que estes se resumem a ruídos que ele converte em sonoridades conforme os
ritmos sonhados. O som é a zona de conforto de Jorge, e ele sentiu-se
confortável durante todas aquelas horas que vagueou entre o fingimento, a
vigília e pequenos fragmentos dos quais não se lembra, e que por isso mesmo
poderemos considerar que foram períodos em que dormiu. Talvez que um dos seus
poemas possa explicar melhor a relação que Jorge tem com a escuridão. Eu, que
agora me assumo como narrador, tenho acesso a essa sebenta e estou prestes a cometer
uma inconfidência que ele, tenho a certeza, não iria condenar se dela tivesse
conhecimento. Assim sendo, aqui vai o desvendar do véu literário. Vejamos então
o que ele escreveu na quinta página da sua sebenta:
Quando cego os olhos,
vou aonde as minhas mãos não podem ir.
Consigo ouvir as palavras despidas do seu significado,
e por não pensar,
viajo no seus ritmos e melodias.
Dessas viagens trago a liberdade do que senti,
e do que senti,
a liberdade de nada ter visto.
Agora, de olhos abertos, Jorge procura recuperar o tempo
perdido e identificar o uniforme branco. Por detrás do balcão o uniforme branco
levanta-se revelando o corpo de uma mulher. Tal como o outro, este uniforme tem
um nome, Isabel.