2026-07-06

Não quero acordar deste sonho 02H40m

 Estou, e não estou. A televisão desligou-se por minha vontade. Milagre da tecnologia, que permite obediências programadas. Conto até dez e espero que um sonho me volte. A respiração presa por um cordel, e os olhos perdidos num abismo. Onde estão os sons que me fizeram voar? Sinto que eles me fogem entre os dedos, minúsculas partículas que não consigo aprisionar na palma da mão.

Escuta! No fundo do quintal consegues ouvir melhor. Encosto o corpo ao muro e perco a idade. Do outro lado estão as eternidades inventadas nos velórios carpidos. Escondo-me por detrás das oliveiras. Elas crescem com as cinzas dos mortos sem fé. Todos os dias eu rezo, junto ao bacio esmaltado, para respirar como os outros meninos. Cheguei à alameda das couves. Estou em terreno aberto, e resta-me a fuga dos corajosos. Afinal, eu também sou um herói. A medalha, transbordando heroísmo, espeta o seu ferrão na pele do meu peito. O mestre das abelhas está orgulhoso. Ouço o seu zumbido, mas não me atrevo a mexer uma única parte do meu corpo. Estou em sentido, e não respiro. Afinal, era esse o truque. Quais janelas abertas, e orações de joelhos. Meia dúzia de hinos, berrados em sentido, braço direito estendido às cores da bandeira, e o ar a voltar. Adeus, janela, adeus, estrelas, adeus, abraço materno com cheiro a eucalipto, adeus, menino frágil e incapaz, adeus! Voltei um homem, barro de outra terra, moldado por mãos profanas.

Um pires de tremoços e uma imperial. Por onde andaste? A pergunta jogada sem direção, mas que eu tomo para mim, como uma boia de salvação. Quero responder, e empurro a voz pelo intervalo dos dentes. Olho para as frases que se despenharam no chão. Palavras e símbolos, estilhaços que perderam qualquer significado, lixo espalhado por debaixo das mesas. Empresta-me a pá e uma vassoura, que eu limpo já isto tudo. Vais ver, que ninguém vai saber da minha existência. Sabes quem era esse gajo que estava aí sentado? Qual gajo?

Não consigo encontrar as portas do jardim. Vim de longe para vos ver, mas ninguém estava à minha espera. Fui ao bar junto ao lago, mesmo no centro do parque. O dono nunca foi com a minha cara. Compreendo-o, eu também nunca gramei a minha pessoa. Estou bêbado, e deslizo junto às grades até encontrar uma saída. Há sempre uma saída para quem a procura. Esperam-me lá fora dois amigos, que eu não reconheço. Sou convidado a entrar num carro. É um convite que eu não posso recusar.

Sentado num banco, sinto as mãos algemadas. Uma mulher convida-me a repousar a cabeça no seu colo. Afinal, sempre valeu a pena a viagem. Não concordo com o Poeta. Mesmo quando a alma é pequena, alguma coisa deve valer. Olhem o exemplo deste homem, com a cabeça no regaço de uma prostituta; O mundo todo naquelas pernas que o acolheram sem julgamento. Mesmo sendo breve o conforto, valeu por tudo na sua vida. A sua alma, coxa e ferida, levará esse aconchego consigo.

Liberto de todas as algemas, tento explicar a uma mulher culta, que a minha alma é insipiente à primeira vista. Não vale a pena, o nosso encontro nunca terá existência suficiente. Hoje, não quero ficar bêbado.

Corro pelas ruas da cidade. Pessoas, junto a cafés, chamam por mim, mas eu não me detenho. Abro os braços ao relento da noite, à humidade fresca que me convida a voar.

O carro circula, de luzes apagadas, quando a estrada acaba abruptamente.