2026-10-02

Rei Ronaldo ou CR7©

 

Rei Ronaldo ou CR7©

 

Será possível fazer essa distinção?

Tenho acompanhado mais uma temporada desta novela que se mantém no top das preferências da sociedade portuguesa. Não podia ser de outra forma. O Ronaldo transformou-se ao longo dos anos num herói nacional. Fossem outros os tempos e a sua vida seria cantada pelas gerações vindouras. Num mundo sem referências, o Cristiano incorporou tudo aquilo que faz de um homem uma lenda e, por incrível que pareça, mesmo nascido em Portugal, conquistou o mundo do futebol e o mundo mediático. Duvido que algum português venha alguma vez a repetir tamanha façanha. Mas no meio de tanto sucesso, o nosso herói transformou-se numa marca que rende milhões, e é aqui, como diz o povo, que a porca torce o rabo. A questão deixou de ser desportiva e passou a ser económica. Quando é que isso aconteceu, não sei precisar, mas estou convencido que foi crescendo a par com o mito. Como tudo o que é fruto da adoração, o mito nasceu inocente e simbiótico, numa relação que teve de tudo: amor, ódio, veneração, sofrimento e alegrias, muitíssimas alegrias. Como todas as personalidades fortes que nasceram de dentro para fora e que se alimentou do amor próprio para sobreviver, Ronaldo não deixou ninguém indiferente. Por ele odiámos o Messi e esconjurámos a Argentina. Como símbolo nacional seria eterno, estandarte duma excelência que falta às nossas elites, que escondem a mediocridade na sombra do seu nome. O que falhou então para um desfecho tão banal, digno de qualquer divórcio de um Jet 7periférico? Faltou a protecção da marca CR7, um negócio que agradava a ambos, mas que devia ter sido renegociado. Entre nós, simples mortais reféns de afectos e paixões, é mais confortável ver neste episódio um arrufo de egos, mas o que originou este desfecho é o que geralmente acontece quando se varre um problema para debaixo do tapete. O elefante continuou no meio da sala e, ao tentar sair, ficou preso na porta. Quanto à pergunta com a qual dei início a este texto, tem uma resposta simples. Não é possível separar o herói da marca, e hoje isso ficou evidente. Eu sou um admirador incondicional do jogador Ronaldo. Foi, durante muitos anos, o jogador de futebol mais completo do mundo e nada do que se passou altera o que sinto por ele. O lugar que lhe guardei no meu coração pertence-lhe. Quanto à marca CR 7, fica uma questão: quem é que roeu a riqueza do Rei Ronaldo? Atenção que a temporada ainda não acabou, e os próximos episódios prometem revelações escaldantes. Ah, é verdade, a selecção jogou ontem, mas isso interessa a alguém? 90 minutos de pontapés num esférico sem nenhuma relevância para o que verdadeiramente interessa. Já estou a ouvir o ranger de dentes dos fãs de CR7: “Mas quem é que este palhaço julga que é? Vendido! Traidor! Mal-agradecido! Invejoso de m…!”, e sabem uma coisa? São capazes de ter razão. Somente uma personalidade insidiosa como a minha é que seria capaz de tais palavras.