2026-07-08

Não quero acordar deste sonho 03H37m

 Acordei antes de o carro se precipitar no fundo do abismo. Fiquei desagradado com a minha inesperada vigília. Certamente que teria sido interessante desvendar o segredo por detrás de um embate violento. É para isto que os sonhos sevem? Não tenho uma resposta definitiva, nem poderia ter. A imperfeição que me afeta, e que é comum a todos os homens, não me permite tal arrogância. Ainda agora a terra tremeu, um barulho surdo que subiu as escadas e desaguou nas portadas das janelas, fazendo-as gemer. Mesmo assim, somos arrogantes. Capazes de criar uma inteligência superior à nossa, decidimos elevar-nos a um estatuto infinitamente superior. Porque em nós tudo se quer infinito, de dimensões inultrapassáveis. Somos obcecados pelos extremos: o maior e o mais pequeno, o mais feio e o mais bonito, o mais magro e o mais gordo, o mais forte e o mais fraco — um infindável ranking onde medimos certezas e verdades inquestionáveis. Não gosto de me ver numa tabela; rouba o sabor das coisas.

Sem açúcar, se faz favor. Bebo um café enquanto espero. O Museu ainda tem as portas fechadas e olha para mim com insolência: Quem és tu, pequena insignificância? – Procuro esclarecer o ilustre edifício que a minha visita não tem pretensões, nem arrogâncias. Estou no seu interior, no local onde os objetos nos julgam. Sentado no banco dos réus, ouço as acusações das tintas derramadas por Pollock. “Pena máxima para o réu!”. Sou estúpido e ignorante, tenho os olhos cheios de remelas e de sujidades indizíveis, e permaneço vivo. Sou levado para um piso inferior por dois seguranças rigorosamente vestidos. Sinto-lhes o odor requintado de finos tecidos. Fazem-me entrar num espaço amplo, mas enigmaticamente acolhedor. Estou na terra de ninguém. O balcão não tem empregados a servir, e eu decido ultrapassar essa barreira proibida. O teto da sala está repleto de enormes colunas de som. Uma, em particular, chama a minha atenção. É um objeto formidável, de beleza e ostentação. Tem a pele de madeira. Encontra-se finamente trabalhada e afirma a sua ascendência Tannoy. Digna-se dirigir-me uma suave melodia durante breves instantes. Os seguranças voltaram e mostram os braços musculados como promessa de dolorosas agressões. A sala está cheia, e ninguém me presta atenção. Um casal jovem e bem vestido dirige-me a palavra. Pretendem visitar o Museu. Vislumbro uma oportunidade para sair dali e ofereço-me para os acompanhar. Eles fazem notar que a minha indumentária não é apropriada. Sublinho a pertinência da observação, mas argumento em minha defesa que eu ficarei à porta. Será esse o meu destino, ficar à porta das coisas? Subo as escadas do museu e encaminho-os através de escuros corredores. Vamos dar a um balcão de cinema. Sentamo-nos sem fazer barulho. Sei que o filme já começou pelo desagrado demonstrado pelos espetadores. O documentário anuncia o fim de algo muito importante. Perante a minha falta de interesse, alguém, manifestamente indignado, grita com alarde. Ouço comentários depreciativos sobre a paupérrima dimensão do meu intelecto. Farto de julgamentos, levanto voo. Realizo uma manobra arriscada, que me leva a sobrevoar a plateia num arremedo de decapitação. Enquanto deixo a sala para trás, ouço uma enérgica salva de palmas que se prolonga no tempo. Sentado na esplanada do café, continuo a ouvir a estrondosa ovação.

Levanto-me, apenas para confirmar que permaneço deitado. Estúpida coerência, que me faz aceitar este cativeiro com orgulho. A coerência é, quando se prolonga no tempo, parceira cúmplice do orgulho teimoso. Só é benéfica quando afeta discursos numa mesma linha de raciocínio. Faz parte da necessidade de entendimento e aceitação de ideais normativos. Estou acordado e tento-me coerente. Quero fazer sentido, dar à minha vida uma lógica defensável, mas como é isso possível às quatro e meia da manhã?