Parte II
A ingenuidade
das questões não lhes afeta a pertinência. As duas últimas, de assustadora simplicidade,
ecoam desde os primórdios do pensamento filosófico. Quantas as respostas dadas,
e quantas sobrevivem aos tempos e às vontades? Recicladas, reinventadas, reafirmam
incessantemente a sua inequívoca justiça.
Poetastra da modernidade decrépita, limito o meu olhar aos resultados visíveis,
e as questões surgem novamente, como uma dor relembrada:
Qual o
objetivo comum da revolta, e porquê?
Mais do que
uma resposta, a poesia também pode personificar a impotência sedimentada da gênese
humana.
Arqueólogo de
banalidades desenterrei versos escondidos.
Primeiro, e último,
dia de escavações:
“E assim
versejou Paulo de Santo André;
Abertura
Sem objetivo, a revolta é tumulto,
Um escarro,
ou um insulto,
pura inveja, ou
egoísmo.
Palavra vã,
ou recado,
Grito de
loucura e raiva,
Sede de sangue
ou castigo.
Qualquer que
seja o sentido,
Finalidade,
objetivo,
Tem de ser
compreendido.
Tem de sair do
peito.
De cada um o
seu jeito,
Para expressar
as emoções.
Posso gritar “Liberdade”,
Sem saber bem
o que quero.
Pode ser só desespero.
Não basta ser
consistente
Na palavra
apregoada
Vendida à
porta de entrada.
Não se deve
confundir
Precisão com
exatidão.
A cada uma o
seu chão.
A palavra repetida
Não fica mais
importante.
Só por gritar
revolução.
Pode tornar-se
vulgar,
Se ninguém a entender.
Ser, não é
parecer.
Interlúdio
Digam ao que
vêm, camaradas!
Se temos o
mesmo sentir,
E o devir é
igual,
Não haverá
problemas.
Não faças da
minha luta,
Uma expiação
de pecados,
Um serviço de
recados.
Revolução não
é religião,
Nem justiça é
sacramento
Para engolir
no momento.
Não me ponhas
de joelhos,
Fazendo promessas
em vão,
Apenas para
ter servidão.
A revolta é permeável,
Às águas que vão
para o mar,
Mesmo que vão
devagar.
Final
Sem mais para
cantar,
nem alma para
atormentar,
Vou calar a
minha voz.
Esteja eu
onde estiver,
Aconteça o
que acontecer,
Nunca
ficaremos sós.
Enquanto a
revolta existir,
E houver pão
para repartir,
Ela estará entre
nós.”
(Poeta
popular do início do século XXI. Depósito de Arqueologia Digital do Litoral
Alentejano)