2026-07-10

Não quero acordar deste sonho 04H31m

 Não encontro razões que justifiquem esta revolta. As unhas cravam-se na palma da mão e provocam um gemido de dor. Reconheço-me nesse gemido e ilusiono uma carícia no braço dormente. Invento-me dolente para coincidir com a noite chuvosa. Nunca fui competente a inventar ilusões, mas reconheço a sua deficiência, e aceito a sua utilidade. Longe vão os tempos onde navegava por mares de espectativas, e sorvia espumantes de promessas. Ainda tenho na boca o sabor a sal, só não me lembro da sua origem. Faltam-me peças que não estão na caixa.

 

Desapareceu-me a pontuação perco-me no meio das palavras e a máquina onde escrevo recusa-me o portuário ouço as explosões ficcionadas nos noticiários o prédio semidestruído é abrigo de mercenários e insuspeitos jornalistas a cada grupo uma mesa eu escrevo compulsivamente tentando anular o rugido das ogivas mas ninguém se perturba com os meus receios de um lado limpam-se as armas do outro ajustam-se dicções silêncio que se vai cantar o fado as vozes lá fora cantam odes ao horror na língua universal da metralha gigantesca tourada onde o touro se recusa a morrer a senhora gorda nunca mais se cala será necessário lançar a bomba quem o diz é o médico de serviço enquanto aposta alguns instrumentos cirúrgicos numa bizarra partida de poker faltam-me vírgulas para falar gostava de teclar um ponto que fosse o final de tudo isto mas não o encontro decido procurá-lo noutro parágrafo

As ruas são estreitas e sem sinais que me condicionem o caminho os bares estão abertos e na noite repleta de pessoas verte-se álcool nos copos e o incenso nas mortalhas há quem sinta um frenesim de alergia levam de olhos postos no paraíso as mãos às narinas para sorver o ar noturno retiro do bolso do casaco um pequeno bloco e uma esfera gráfica confirmo aquilo que me parecia evidente o mundo continuava mergulhado num caos sem prontuário que o salve apanho um comboio de foliões e deixo-me levar pela respiração o elétrico imobiliza-se a poucos metros do local onde me encontro o condutor pergunta-me se eu quero entrar mas esqueceu-se do ponto de interrogação para me fazer acreditar na amabilidade insinuada quem sou eu para o convencer que aquele elétrico não irá longe exclamo um obrigado sem ponto e vou à minha vida com um assobio soprado entre dentes procuro sem reticências dois pontos que me permitam introduzir um travessão de modo a poder revelar o porquê da minha indignação

O sinal ficou verde e eu posso finalmente avançar deixo atrás de mim os destroços de uma cidade destruída não sei se numa faixa se noutro qualquer pedaço de terra alguém que escolha a cor do fogo a chama dificilmente se apaga no meu deserto de palavras

Fecho a máquina de escrever e encosto o corpo às ruínas não vale a pena procurar pontos onde não se deu nenhum nó

 

Abro um olho devagar. A pontuação voltou, mas de resto continua tudo na mesma.