O meu nome é Paulo e a história que vou contar não é sobre mim. João era um amigo recente. Conhecera-o há dois anos numa festa em que, por motivos diferentes, nos sentíamos desconfortáveis. O meu desconforto tinha origem no ambiente social em que se desenrolava o evento. Organizado pelas autoridades culturais do município, com vista à divulgação de novos autores de posia, era um misto de pessoas interessadas e gente que apenas queria aparecer. Muito mais críticos que leitores falavam de tudo um pouco e nada sobre os autores que tinham dado origem ao evento. Eu tinha-me refugiado junto a uma pequena banca onde o meu livro mal se vendia. Absorto em pensamentos de enfado folheava um livro de um colega do qual já lera alguns trabalhos interessantes e ansiava pela hora de voltar a casa para poder ler descansado a obra que tinha em mãos. O João, contou-me ele mais tarde, estava muito perturbado com o comportamento da sua mais recente namorada, uma jovem com metade da sua idade. A jovem, além de muito bonita, o que por si já atraia os olhares de todos os presentes, sem distinção de gênero ou de sexo, juntava a esse predicado uma alegria e uma irreverência contagiantes. O meu futuro amigo ruído de ciumes aproximara-se da banca e agarrou alheado um dos meus livros. Apercebendo-se que eu o observava curioso dirigiu-se-me com uma observação descuidada, mas inconveniente, vale a pena? Ao que eu respondi, espero bem que sim. A julgar pelo trabalho que me deu escrevê-lo seria uma desilusão se assim não fosse. Embora tivesse dado a minha resposta com um sorriso conciliador o meu futuro amigo sentiu-se atingido e na obrigação de se justificar, peço desculpa, não era minha intenção ofendê-lo. Ao que eu retorqui, não se preocupe, não é nada que não tenha fácil reparação. E continuei, você leva o livro e depois de o ler dá-me a sua opinião. O João meio atrapalhado ainda puxou da carteira, mas eu cortei-lhe o gesto dizendo, não é preciso pagar, fica como caução por possíveis danos psicológico. Perante a minha tirada rimo-nos os dois. Foi dele a idéia de marcar um encontro no seu estúdio de trabalho. Assim, em troca da minha opinião você dá uma vista de olhos pelos meus quadros e depois diz-me de sua justiça. Ainda sorrindo respondi-lhe que eu não era um entendido e que ele ficava a perder com a troca. Devolveu-me um sorriso cúmplice dizendo, então estamos em iguais circunstâncias, eu também não percebo nada de posia. Foi assim que fiquei sabendo que o João era Pintor e que o seu estúdio se situava num pequeno monte no Conselho de Santiago. Despedimo-nos nessa noite com um aperto de mão faterno. Da minha parte estava contente por não ter sido uma noite perdida. Conhecer alguém disposto a trocar idéias sobre poesia e pintura não era algo que se pudesse desprezar, ainda por cima o João parecia ser um sujeito simpático e acessível. Com este pensamento na idéia arrumei a banca e meti tudo no carro, não sem antes me despedir da organização com um pedido de desculpas. Nada como um problema familiar com um parente proximo, o que não era totalmente mentira pois eu vivia sozinho com o meu pai e ele tinha tido um enfarte há pouco tempo. Embora estivesse melhor e não apresentasse razão para preocupações sempre juntava o útil ao agradável matando assim dois coelhos com uma cajadada só. Tirando o mau gosto da alusão à morte dos coelhos o fato é que era uma saída airosa e que não fechava a porta com os pés. Enfim, foi assim que começou a minha relação de amizade com o João. Longe estava eu de imaginar onde ela me iria levar.
Um dia depois...
2026-05-12
2026-05-11
LISBOA AINDA ESTÁ ONDE A DEIXEI
Abalei de Lisboa em 93, mas nunca deixei de a chorar. Trabalhei à beira-mar lá para os lados dos Olivais. O meu Tejo era mais sujo e a democracia ainda era adolescente, mas nem por isso os encantos daquela periferia eram menores. Abalei de Lisboa, no entanto, parte de mim ficou lá.
No outro dia voltei à baixa por questões profissionais.
Tinha uma reunião marcada para as dez da manhã, mas tinha decidido madrugar e
atravessei a ponte às seis. Lisboa tem, para quem a atravessa a ponte àquela
hora, um encanto especial. Dizem os que têm alma sensível que a luminosidade é
a responsável pela magia, outros dirão que é o abraço do Cristo Rei que abençoa
Lisboa com uma das mais bonitas paisagens do Mundo. Ainda bem que ao partir
deixei o Tejo para trás, não sei se teria a mesma coragem se tivesse olhado
Lisboa nos olhos, mas adiante. Estava nas ruas da baixa numa das melhores
alturas do ano, a primavera, e o ar fresco encontrava-se moderadamente limpo provocando
em mim uma enorme vontade encher os pulmões com ele. Assim caminhei em direção
ao rio, palmilhando a rua, dita Augusta, até passar pelo arco que tem o mesmo
nome. Tudo isto são lugares-comuns do conhecimento de qualquer condutor de
Tuk-Tuks, mas quando eu falo de Lisboa é de sentimentos que eu falo, de
sensações que ficaram gravadas em mim. Mais lugares-comuns que só são comuns
porque foram partilhados por toda uma geração que viveu a Lisboa dos anos
oitenta. Os nomes que me ficaram são muitos e enquanto respiro o ar fresco
junto ao Tejo vão desfilando mentalmente pelos meus olhos. O cais do Sodré com
o Dallas, o Tokyo., o Sangri-La e o inevitável Jamaica. Ao longe o outro lado
do rio evoca outros sons, mas eu estou nesta margem que me lembra outras
margens.
Apanhava o comboio na estação da Amadora. Lisboa sempre
partiu de lá e eu habituei-me a sair do túnel do Rossio como quem sai da toca de
um coelho. Para mim a chegada à estação do Rossio sempre foi um momento mágico,
da escuridão para uma explosão de luz e de cor num pestanejar que a minha
imaginação infantil transformou numa história de aventuras. E era realmente uma
aventura para alguém tão pequeno, mas com uma imaginação tão grande. Descia do
comboio pela mão da minha mãe, aquela mão quente e suave que fazia sentir maior,
de tamanho indefinido, mas maior. Assim protegido enfrentava os enormes lances
de escada que nos faziam desaguar entre os Restauradores e a avenida da Liberdade.
Subíamos Liberdade acima até ao Tivoli e entrávamos num prédio antigo onde um Doutor
de calvície venerável prometia à minha mãe a cura do menino. Esteja descansada
que as vacinas vão aliviar-lhe as alergias e por consequência as crises de
asma. À volta trazia no coração a esperança de uma outra liberdade. A 11 de março de 75 estava no Éden com o meu pai. O filme,
os três mosqueteiros e as joias da rainha, não me deixou perceber que Lisboa
fervilhava com o ataque dos paraquedistas de Tancos ao Regimento de artilharia
n°1 de Lisboa e que desse dia até 25 de novembro do mesmo ano viveríamos um dos
períodos mais conturbados da nossa jovem democracia. E os grandes armazéns, os do Chiado e logo ao lado os do
Grandela, e a discoteca do Carmo com os seus vinis de importação, e a montra da
Custódio Cardoso Pereira que me faziam sonhar com os seus instrumentos
reluzentes e…
Já não estou na praça do Comércio, sem querer os passos
tomaram conta de mim e levaram-me na direção da estação de Santa Apolônia. Vejo-me
agora de uniforme verde a caminho do Entroncamento enquanto outras imagens se
sobrepõem, desta vez a preto e branco. São imagens de televisão e mostram os heróis
antifascistas, o Cunhal e o Soares, à vez, bem entendido, que liberdade e democracia
nem sempre são traços de união. Está na hora de voltar para trás. Apercebo-me
que tenho uma mensagem no telemóvel. No meu tempo Lisboa tinha outro tipo de
mensagens. Enquanto faço o caminho de volta, subindo a rua do Ouro, lembro
Alfama e o Chapitô. Lembro Essencialmente a sua esplanada onde assisti a uma
trovoada épica, porque de artes performativas sempre fui um zero à esquerda.
Talvez porque se aproxima a hora de almoço vem-me ao nariz os cheiros de croquetes
e bifanas e na garganta a frescura de uma imperial, enquanto no corpo sinto a
pressão do balcão da Portugália na Almirante Reis. E porque estou na Almirante Reis dou mais uns
passos até à rua da Palma, até ao antigo palacete que foi sede do PSR e onde se
bebiam umas cervejas e se ouviam arranhar uns acordes de Punk. O melhor é não
ir por aí senão nunca mais paro.
Estou ao pé do Condes e alguém chama pelo meu nome enquanto
acena com a mão. À minha volta ouve-se o burburinho babilônico das grandes metrópoles
cosmopolitas que se renderam ao dinheiro do turismo. Apercebo-me agora que
pouco vi enquanto caminhava. Do Tejo eu lembro-me, mas tenho dificuldades em
recordar o mar de esplanadas e de lojas de souvenirs fabricados vá-se lá saber
onde. Melhor assim, no fim de
contas esta Lisboa já não é minha, hoje não passo de um turista. Vale-me que quando
voltar a atravessar a ponte deixo Lisboa para trás. Se assim não fosse, sabe-se
lá se conseguiria resistir aos seus encantos.
Nota do autor: Este pequeno texto devia integrar uma compilação
sobre Lisboa. A Editora que me endossou o convite esteve envolvida na publicação
dos meus livros e esta seria a minha segunda participação…Pena que eu tenha
lido o convite já depois do prazo ter acabado. Enfim, qualquer pretexto é válido
para escrever. Foi esse o motivo que me levou a aceitar o desafio e a publicar
o resultado. O tema principal é Lisboa e tem menos de mil palavras.
2026-05-08
Arrependimentos
Tenho sorte. Não vivo de arrependimentos. Não quero com isto dizer que eles não existem, mas que eu não vivo para eles. Já olhei para o meu passado e pensei; poderia ter agido de outra maneira. Levei este exercício ao extremo de modificar comportamentos da minha infância que eu considerei conscientes. Perdi-me por caminhos completamente novos pois cada novo comportamento levava a novos desafios dos quais eu nem suspeitava. De tal maneira me perdi que o ser humano que sou hoje quase se tornou um estranho numa imensidão de clones imaginários. Não deixou de ser um exercício interessante do qual retirei ensinamentos válidos. Um deles é que a linha temporal avança e que eu quase me senti um historiador, um sociólogo versado em arqueologia. Como apagar da minha análise o conhecimento que eu tenho das consequências que as minhas ações tiveram na minha vida? E não são apenas as minhas ações, mundo restrito e mais rastreavel, mas a de biliões de seres humanos interagindo entre si. O que quero sublinhar com esta reflexão é que os arrependimentos nem sempre se manifestam pelas melhores razões, mesmo que assim o aparentem.
2026-05-07
Amor (confissão de um Homem)
Meu amor, tenho medo.
Tenho medo do que te vou deixar,
do lastro que te poderá pesar,
de tudo o que não te poderei dar,
e que tu nunca irás receber.
Amor tenho medo,
tenho medo que te esqueças,
que apagues da memória
o que de melhor aconteceu.
Porque a nossa história
não foi só o que morreu.
Tenho medo que a recordação,
seja uma ferida que não chega a cicatriz.
Medo de que da raiz
não haja nada para contar,
de que tudo o que ficar
nada te fará feliz.
Hoje sei disfarçar o medo.
Hoje sei usar as cores do silêncio
e ouvir o que não me queres confessar
com medo de magoar.
Ouço o teu medo de sentir
que já não podes amar
o homem que eu sou.
Amor não tenhas medo,
de sentires tudo o que tu sentes.
O direito de sentir
ninguém te poderá cobrar.
Sentires tudo o que sentes
também é uma forma de amar.
Hoje sei esconder um segredo,
mas não consigo esconder a tristeza
quando não encontro o teu olhar.
Ficou tanto por ser,
tanto por partilhar,
e desse tanto que não foi
tenho saudades de estar.
Amor, eu tenho medo.
Medo do que está para vir,
medo do vazio sem destino,
de não encontrar um caminho
que me faça retornar,
beber do vinho e voltar.
Medo que não percebas o quanto amei.
Que tudo o que eu te dei
era o que eu tinha para dar,
e se te faltou amor
foi porque eu não soube merecer
a Mulher que me amou.
Tenho medo que não perdoes
o que não fui,
o que sou...
Amor
2026-05-06
Reencarnação I
Será a reencarnação a resposta para as perguntas que atormentam o homem desde tempos imemoriais? De onde viemos e para onde vamos, porque existimos aqui e porque somos presenteados por toda a espécie de anormalidades e injustiças? Sem resposta cabal no mundo terreno é normal que se procure conforto noutra qualquer dimensão. Aparentemente várias religiões encontraram na reencarnação uma solução para atingir o grau de pureza que permita a cada um de nós o tão esperado encontro com o divino. Batizemos esse processo como nos aprouver que nele estará sempre presente o conceito de depuração. Dito isto, e aceitando a reencarnação como um fato indiscutível, as questões que se colocam, as quais têm diferentes respostas consoante a fé de cada um, são : qual o ponto de entrada? Seguimos a linha temporal vigente ou divergente? Reencarnamos sob que forma? Teremos consciência da, ou das reencarnações anteriores? Qual a origem, o primeiro nascimento? Qual a energia que impulsiona as almas reencarnadas? Aparentemente, segundo o evangelho espiritista, o processo é, acima de tudo, moral e carece de validação divina. O ser reencarnado terá uma nova oportunidade de melhorar a sua vida atendendo essencialmente ao amor a Deus, e amando o próximo como a ele próprio. Aparentemente haverá um conjunto alargado de almas que será privada da sua oportunidade de melhoria, se não na sua totalidade, pelo menos, parcialmente, podendo a sua permanência, num limbo de escuridão e sofrimento, prolongar-se indefinidamente. Neste caso em particular perde-se a oportunidade de perdoar indeferindo o castigo para um outro nível de apreciação. Mas estou apenas mergulhando em águas calmas e pouco profundas. Tenho perfeita noção de que quanto mais leio sobre o assunto mais caminhos encontro e menos certezas tenho, o que é perfeitamente normal. Sendo assim resta-me continuar a ler.
2026-05-04
Chamo pelo teu nome
O fluxo sonoro percorre o meu corpo e alimenta o meu coração.
Dele depende o amor que tenho para dar.
De olhos fechados procuro algo que não sei o que é.
Desligo-me lentamente da matéria que me atormenta;
um pé que adormece, uma mão que se escusa, um corpo que me recusa.
E eu fingindo dormir acabo por ludibriar a vigília.
Quantas vezes repito o ritual?
Prendo o ar no meu peito,
e conto até sessenta e seis só para ter a certeza.
uma garantia que me permita dizer:
-Sim, ainda continuo a resistir.
Os pulmões ardem-me com o esforço.
Resistir tem um preço.
Seria sempre um cobarde;
um cobarde por não ter escolhido, por não ter insistido, por não ter desistido.
Ter ou não ter, essa foi a minha questão.
Ser ou deixar de ser, um abraço e um beijo, uma última palavra, um último olhar:
-Adeus.
Perder-me nos teus olhos verdes.
Esperar pelo perdão dos teus olhos azuis.
Não tenho mais olhos por quem chorar.
Os meus olhos são verdes, mas não sei se é o mar que de lá sai.
O meu rio já não sabe para onde vai, de um lado a serra e do outro o mar,
e eu que teimo em não chegar.
Pedir não é chegar,
e chegar não é partir,
no entanto eu peço não sei a quem.
No meio da noite só isso me resta.
Umas vezes chamo pelo teu nome, outras não sei.
2026-05-02
A minha escolha
Aprendi a escolher. Agora sei o que quero e o que não quero.
Estou leve e essa ausência de massa permite-me voar, só me resta saber como. Para
que quero eu voar? Quanto mais alto eu subo mais dúvidas eu tenho. Procuro uma
resposta, mas não sei fazer a pergunta. Para onde vou, o que existe para lá do
meu corpo biológico, encontrarei algo semelhante ao que as teologias me
propõem, terei consciência, sentimentos, sensações, opiniões, dualidades,
expressão linguística, oralidade Psíquica, existência energética com projeção
de imagem residual?...
O que fiz eu da vida? Não sei responder. Penso que a vivi
com pouca ambição. Não que me tenha furtado a quereres materiais ou carnais, ou
que tenha fechado os olhos ao egoísmo, à inveja e à soberba. Em verdade admito
todos esses pensamentos, como poderia nascer e morrer sem os ter pensado, teria
sido uma vida? Limitei-me a seguir o guião que estava destinado aos figurantes.
Poucas foram as questões que coloquei para além do óbvio. Fechado no
conhecimento científico e impregnado de uma religiosidade de regras,
recompensas e castigos, naveguei à vista sem questionar propósitos ou intenções.
Se pareço injusto é apenas porque as questões que coloquei estiveram sempre
datadas e nunca atenderam ao que de verdadeiramente importante viria a
acontecer. Não me culpo porque esta minha reflexão não é um julgamento, mas tão
só um olhar mais profundo sobre este livro que é a minha vida.
Aprendi a escolher. Hoje faço todas as questões e ouço todas
as respostas sem procurar conversões ou aprovações. Finalmente livre penso sem
preconceitos porque tudo é credível e tem a mesma origem. A minha condição não
me permite condicionalismos de qualquer espécie. Essa é a minha escolha.
2026-04-29
Cuidados Paliativos
Vinte e oito de Abril de dois mil e vinte seis, data em que comemoro o trigésimo aniversário da minha relação conjugal. A data trás -me boas memórias, mas não consigo comemorá-la convenientemente. Como posso eu confessar esta dificuldade? Apenas porque sou honesto. Sinto falta do sorriso nos olhos da D, do seu olhar sempre tão cheio de vida e de otimismo. Não lhe posso exigir isso, amo-a em demasia. Não, não é uma afirmação descabida. Tem sido um imenso esforço aquele que ela tem dispensado apenas para me manter à tona, mas só quem pode avaliar verdadeiramente esse esforço é quem o faz. O que aparenta ser óbvio é muitas vezes desapercebido. E tudo isto leva-me à porta do hospital onde. O hospital do litoral alentejano está localizado numa zona rural onde predominam pinheiros e eucaliptos. A luminosidade é intensa e inunda todo o espaço circundante. Felizmente a arquitetura do edifício permite que essa luminosidade penetre no seu interior começando logo pela recepção. Sou conduzido suavemente até ao elevador e subimos até ao quarto piso. Mal a porta do elevador se abre sou inundado por uma sensação de bem estar que contrasta com o meu estado de espírito. A D coloca-me em frente de uma enorme janela que ilumina a sala de espera. O silêncio é quase absoluto e sou transportado para outro lugar no interior de mim próprio . Por momentos deixo de me sentir um prisioneiro do meu corpo. A enfermeira M vem ter comigo e acorda-me, de forma gentil e cordial, para a realidade. Sou conduzido ao gabinete do Dr. M. A simpatia com que me recebe deixa-me desarmado. A conversa decorre de maneira agradável e de maneira informal deixando-me cada vez mais à vontade. Fui convidado a visitar os quartos. São quartos individuais com cerca de 15 metros quadrados. Estão equipados com uma cama articulada, uma mesa de cabeceira, um sofá cama individual, uma TV de parede e um guarda fato incrustado. Imaginei-me naquele quarto a viver os meus últimos momentos biológicos. Mas esta não era a ocasião para que tal viesse a suceder. Mostraram-me somente uma das alternativas. Sem querer antecipar o futuro penso fiquei um pouco mais descansado. No entanto, isto não evitou que durante a noite tivesse pedido, não sei a quem, uma morte descansada na minha cama.
2026-04-27
Mais uma primavera
A primavera presenteou a minha existência com dois presentes distintos. Um devolveu-me a palavra e o outro fez-me acreditar que cada dia vale a pena. Falemos um pouco deste segundo presente; um ninho com dois ovos de rola. Havia duas semanas que as aves andavam de namoro com arrulhares melosos, mas nunca pensei que escolheriam a minha janela. Não imaginam a minha alegria quando levaram a minha cadeira à janela. Eu nem queria acreditar em tamanha bênção. Em vinte seis anos fui visitado por diversos animais mas nenhum me dera o privilégio de assistir ao milagre da vida. sei que estou a ser injusto com as aranhas, formigas, lagartixas, osgas,, vespas, abelhas, isto só para mencionar alguns que por cá apareceram sem que eu lhe tenha descortinado a origem. Mas o ser humano é mesmo assim, repleto de julgamentos e preconceitos. Eu não fujo à regra e padeço de todas essas arbitrariedades. Talvez tenha de cá voltar para polir umas arestas. Para já a minha primavera está preenchida. Abençoada seja esta energia que me mantém vivo.
2026-04-26
Perfeição
A perfeição é impossível e o sofrível é suficiente, tudo depende do referencial. Hoje basta-me um olhar para me sentir completo. Ontem tão pouco, motivo para ânsias e desesperos, hoje é bênção e razão para agradecimento. Perfeição é o que se obtém quando o esforço é honesto, produto do melhor que temos para oferecer. Todos os dias dou o meu melhor mesmo quando esse esforço não é reconhecido, muitas vezes nem eu o reconheço. A perfeição é o que é, um dia sonho possível outro dia desilusão, mas sempre uma quimera. O sofrível basta-me. Sou em toda a minha magnitude, todo o meu esplendor iluminando o meu universo. Que mais posso eu ambicionar? Uma lágrima que escorre descontraída pelo canto do meu olho enquanto escuto palavras de amor "Pai amo-te tanto. És o melhor pai do mundo. Obrigado por seres meu Pai . " . E eu tão sofrido quase que atinjo a perfeição.
2026-04-24
Validação
Depois do testemunho temos agora a validação. Como proceder para validar um testemunho? Será o seu tamanho importante, ou poderemos aferir a sua qualidade através de métricas preconceituosas ou moralistas. Aparentemente podemos usar ambos os critérios, aliás, qualquer critério é válido, porém os resultados obtidos serão substancialmente diferentes. Hoje de manhã, enquanto falava com a minha cuidadora, fui convidado a opinar sobre a longevidade. Contou-me a V que cuidava duma senhora quase centenária e logo estabelecemos que essa vida tinha um valor intrínseco que lhe conferia uma aura de plenitude. Aparentemente uma vida curta é uma vida incompleta que terá sempre de provar a sua importância através de dados subjetivos. Esses dados serão quanto ou mais subjetivo, dependendo de quem os recolhe. Uma vida curta necessita, por esse motivo, de uma aceitação cultural enquadrada no tempo e no espaço de análise. Nada do que aqui foi escrito coloca em questão o valor individual de cada mensagem. Esse valor absoluto não tem em conta métricas de qualquer tipo. Só o Homem, na sua dualidade, se permite tais discriminações. Falamos, pois, de uma validação humana e por esse motivo discriminatória. Para aprendermos, na sua plenitude, um testemunho alheio devemos abstermo-nos da palavra e usar a audição como sentido primordial.
Sim, doutor , hoje acordei para este lado.
2026-04-22
Mensagem
Desde a minha adolescência que penso no meu legado. Cada um de nós deixa um testemunho, uma mensagem para ser lida ou descodicada. Não existem mensagens muito ou pouco importantes, apenas mensagens. A vida é isso mesmo, uma experiência particular e pessoal. Não existem duas iguais e cada uma é válida por si mesma. Não há vida que não possa servir de exemplo, aliás, é sobre esses exemplos que construímos o edifício onde guardamos os pergaminhos contendo a nossa mensagem.
Já adulto preocupei-me com o conteúdo corrompendo o testemunho. Mesmo corrompido o testemunho não perdeu valor pois este existe independente das dimensões de grandeza que queiramos atribuir. Demorei muito tempo até me aperceber do meu erro. Só quando fui confrontado a inevitabilidade do fim da minha existência biológica é que tive consciência plena do meu equívoco.
Sim, doutor, nenhuma mensagem é de fácil entendimento, mesmo conhecendo o mensageiro. E não poderia ser de outra forma. Como poderia eu resumir toda uma vida a meia dúzia de chavões que pecariam sempre por falta de originalidade. Ulisses, de James Joyce, usou mais de uma década da sua existência para narrar um dia da vida do seu herói. A extensão da narrativa depende essencialmente do narrador. É este que define a abertura da janela. A mensagem está lá para ser lida, ela existe por si mesma e continuará a existir mesmo que ninguém a leia. Haverá garantidamente um tempo e um espaço para ela, um lugar imaterial onde se possa afirmar. Não lhe consigo responder se é, ou não é, importante que esse espaço exista. Eu pressinto que assim seja e isso basta-me.
Escusa de me lançar esse olhar reprovador, doutor. Estou finalmente livre de todos os preconceitos, de toda a necessidade de aprovação.
Falta de humildade? O doutor pensa que eu venho ao seu consultório apenas para despejar idéias fúteis disfarçadas de pensamentos intelectualmente evoluídos? Já me devia conhecer melhor, doutor. Eu venho aqui para me libertar do verbo, para libertar o meu coração de todas as mágoas.
Peço desculpa se o ofendi, não era essa a minha intenção. Até para a semana , doutor..
2026-04-16
Voltei com o meu olhar
Bom dia doutor. Há quanto tempo não vinha cá vê-lo. Teve saudades minhas? Não? Não fico admirado. Ter saudades é um luxo que não é para todos. Eu mesmo confundo saudades com lembranças. Será porque revivo todas as lembranças com saudade? Tenho saudades de mim, de todas minhas ações, das boas e das más, de tudo o que foi a minha vida e procuro viver cada instante como se fosse o último.
Não consigo falar muito que me cansam os olhos.
Desde que falo com os olhos que a garganta me dói, seca de tanto silêncio. Todos os dias me lavam os olhos com uma toalhinha embebida numa água perfumada. É esse o cheiro da manhã. Os cheiros identificam a hora do dia. As refeições são referências primordiais, horas sagradas de saudável convívio onde a disposição abunda. Nada melhor que uma boa refeição. Por motivos óbvios estou sempre acompanhado às refeições. ELA segue-me para onde quer que eu vá.
Ainda consigo mastigar e bebo tudo com palhinha, água, vinho, aguardente, cerveja, café, tudo. Não precisa de se preocupar que eu bebo tudo com moderação, sou um verdadeiro moderado, até parece mentira, Doutor. Às vezes não me reconheço em tanta moderação.
Peço desculpa mas já estou cansado de olhar para si, tanta conversa cansa-me os olhos. Prometo ser mais assíduo daqui por diante, o Doutor sabe que eu adoro conversar consigo.
Saio do consultório sem ter noção do tempo ou do espaço, para sempre perdido num amor infinito.
Está sol e o azul do céu é perfeito. A refinaria está calma e na sala onde me encontro ouve-se o motor ao longe. Deixo-me embalar e entro mar dentro...