Rei Ronaldo ou CR7©
Será possível fazer essa distinção?
Tenho acompanhado mais uma temporada desta novela que se mantém
no top das preferências da sociedade portuguesa. Não podia ser de outra forma.
O Ronaldo transformou-se ao longo dos anos num herói nacional. Fossem outros os
tempos e a sua vida seria cantada pelas gerações vindouras. Num mundo sem
referências, o Cristiano incorporou tudo aquilo que faz de um homem uma lenda
e, por incrível que pareça, mesmo nascido em Portugal, conquistou o mundo do
futebol e o mundo mediático. Duvido que algum português venha alguma vez a repetir
tamanha façanha. Mas no meio de tanto sucesso, o nosso herói transformou-se numa
marca que rende milhões, e é aqui, como diz o povo, que a porca torce o rabo. A
questão deixou de ser desportiva e passou a ser económica. Quando é que isso aconteceu,
não sei precisar, mas estou convencido que foi crescendo a par com o mito. Como
tudo o que é fruto da adoração, o mito nasceu inocente e simbiótico, numa relação
que teve de tudo: amor, ódio, veneração, sofrimento e alegrias, muitíssimas alegrias.
Como todas as personalidades fortes que nasceram de dentro para fora e que se alimentou
do amor próprio para sobreviver, Ronaldo não deixou ninguém indiferente. Por
ele odiámos o Messi e esconjurámos a Argentina. Como símbolo nacional seria eterno,
estandarte duma excelência que falta às nossas elites, que escondem a
mediocridade na sombra do seu nome. O que falhou então para um desfecho tão
banal, digno de qualquer divórcio de um Jet 7periférico? Faltou a protecção da
marca CR7, um negócio que agradava a ambos, mas que devia ter sido renegociado.
Entre nós, simples mortais reféns de afectos e paixões, é mais confortável ver
neste episódio um arrufo de egos, mas o que originou este desfecho é o que
geralmente acontece quando se varre um problema para debaixo do tapete. O
elefante continuou no meio da sala e, ao tentar sair, ficou preso na porta. Quanto
à pergunta com a qual dei início a este texto, tem uma resposta simples. Não é
possível separar o herói da marca, e hoje isso ficou evidente. Eu sou um
admirador incondicional do jogador Ronaldo. Foi, durante muitos anos, o jogador
de futebol mais completo do mundo e nada do que se passou altera o que sinto por
ele. O lugar que lhe guardei no meu coração pertence-lhe. Quanto à marca CR 7,
fica uma questão: quem é que roeu a riqueza do Rei Ronaldo? Atenção que a
temporada ainda não acabou, e os próximos episódios prometem revelações
escaldantes. Ah, é verdade, a selecção jogou ontem, mas isso interessa a alguém?
90 minutos de pontapés num esférico sem nenhuma relevância para o que verdadeiramente
interessa. Já estou a ouvir o ranger de dentes dos fãs de CR7: “Mas quem é que
este palhaço julga que é? Vendido! Traidor! Mal-agradecido! Invejoso de m…!”, e
sabem uma coisa? São capazes de ter razão. Somente uma personalidade insidiosa
como a minha é que seria capaz de tais palavras.