Passado uma semana recebi uma mensagem do João no telemóvel. Em poucas palavras convidava-me para um almoço que, dizia ele, poderia prolongar-se até ao jantar. Referia também que já tinha lido o meu livro e que o título fazia jus ao conteúdo. Acabava propondo-me a data do próximo fim de semana, sábado, para ser mais preciso. Dizia também que podia aparecer logo de manhã a partir das nove da manhã. Em vez da morada, ou de qualquer outra indicação do gênero, siga até ali e quando chegar ao cruzamento vire para, deixou-me as coordenadas do local. Interessante, pensei eu, além de madrugador é prático e preciso, um pouco de tudo aquilo que eu não sou, mas o que mais me impressionou foi a observação acerca do título do livro. Dizendo tão pouco dizia o essencial sem se perder em pormenores que só serviriam para justificar a sua opinião sem acrescentar algo de verdadeiramente importante. Ao fazer referência ao título do livro demonstrara que percebera o pensamento que tinha levado à elaboração daquele conjunto poético. Na verdade nunca fora tão fácil dar um nome de capa a um livro meu. De todas as minhas obras poucas eram aquelas de que me orguhava do título e agora, ao fim de três décadas, acertava em cheio, ao ponto de um desconhecido ter confirmado a minha boa escolha. Sem mais elementos antecipei uma conversa construtiva que, esperava eu, me levasse a outros destinos. Mas ainda só estávamos a meio da semana e não valia a pena antecipar assuntos de conversa. Ir de espírito aberto era tudo o que precisava.
Chegou finalmente o sábado. Estava calor, aquele calor de final de primavera que nos faz antecipar o verão. Vesti uma camisa larga de cor branca e umas calças de ganga. Calcei uns tênis também brancos e retirei adereços sem utilidade mantendo, no entanto, o anel do meu primeiro casamento, talvez por ser o único que não culminou em divórcio. Ainda hoje a visito e lhe ofereço flores quando vou ao cemitério. Enfim, o nosso amor não teve tempo para azedar e por esse motivo permanecerá eterno enquanto eu existir. Mas que digo eu? No final desta história nada disto fará sentido.
Não foi difícil encontrar o monte do João. Indo pela estrada asfaltada junto ao mar virava-se à esquerda e seguia-se por um caminho de terra batida rodeado de cearas. Não havia nada que enganar, era só seguir em frente. Quando deixou de se ver o mar, e logo após uma curva pronunciada à direita apareceu um pequeno pomar de laranjeiras e limoeiros e escondida por detrás destes uma casa térrea que, ao aproximar-me, descobri estar disposta em L o que lhe conferia um tamanho substancialmente maior do que eu inicialmente supus. O meu amigo esperava-me encostado ao umbral da porta, pelo menos foi com essa idéia com que eu fiquei. Estava de sandálias e calções de ganga preta muito gastos. O tronco nu estava coberto com um avental branco coberto com manchas de tintas de várias cores. Apagou o cigarro que tinha na mão e sem mais demoras encaminhou-me na direção de um edifício de madeira por detrás da casa e virado para nascente. A entrada, um portão largo, dava para um espaço amplo onde se espalhavam diversos trabalhos seus. Cheirava a óleos, a terbentina e a madeira aquecida pelo sol. Enquanto limpava as mãos conduziu-me entre telas de variados tamanhos. Não tendo conhecimentos para qualquer análise técnica deixei-me levar pelos sentidos. A maioria das suas obras eram monocromáticas onde a variação de tonalidades proporcionava a textura que dava dimensão aos vultos que se insinuavam misteriosos. O João deixou que eu me perdesse em reflexões sempre em silêncio. Sem que eu tivesse dado por isso tinha tirado o avental sujo e envergava agora uma camisa preta imaculada. Foi nessa altura que se dirigiu a mim como se não tivéssemos estado em silêncio, tenho um nome para o seu próximo trabalho. Apanhado desprevenido olhei-o curioso e ele continuou, se o seu último livro tem como título "Da Revelação ao Caos" o próximo deveria chamar-se "Do Caos à Ilusão". Como eu permaneci calado ele perguntou, não gosta da ideia? Apanhado novamente de surpresa respondi que não tinha nada pensado para o meu próximo trabalho, ao que ele continuou, eu percebo que o título que sugeri pressupunha uma certa continuidade e quem sabe, uma conclusão. Sem me deixar reagir perguntou-me, Qual a sua opinião sobre o que viu? Atordoado pelo rumo da conversa confessei, é no mínimo perturbadora. O João olhou para mim e sorrindo disse, ainda bem.
Foi à mesa que a proposta surgiu. Eu iria acompanhá-lo enquanto ele pintava inspirado no livro que lhe tinha oferecido e em retorno eu escreveria inspirado nas intuições do processo. Estávamos sozinhos, Madalena, a sua jovem namorada, tinha partido numa pequena digressão de dois meses. Em casa só a dona Alzira nos fazia companhia. Era ela que se encarregava de todas as tarefas domésticas. Foi ela a testemunha de um pacto de consequências imprevisiveis.