2026-11-04

Neo Triunvirato

Uma reunião peculiar

 

Vladimir está sentado à mesa de um café. No centro da cidade, ouvem-se as sirenes de aviso. Na rua, as pessoas apressam o passo em direcção aos abrigos. Donald acabou de entrar e procura-o com um olhar atento. O seu cabelo louro é um atentado ao bom gosto, mas funciona muitíssimo bem como reclame publicitário. Vladimir já o viu e tenta, em desespero, chamar a sua atenção. Donald, indiferente aos esforços do amigo, teima em perpetuar o movimento rotativo da sua cabeça. Aparentemente, sente agrado no seu gesto e procura prolongar esse prazer sem se preocupar com a razão da sua presença naquele local. — Estou aqui! — exclamou, agastado, Vladimir. Donald permaneceu, embevecido de si mesmo, na sua pose de príncipe degradado. Vladimir levantou-se e começou a bater palmas. Num gesto automático, Donald virou a cabeça na direcção de Vladimir e fez uma vénia. Vladimir esperou, pacientemente, que a pantomima terminasse. Quando Donald ergueu o seu corpo, trazia no rosto um sorriso beato. Para ele, a vida podia resumir-se a estes momentos de adulação. Quanto a Vladimir, tinha finalmente a atenção do amigo. — Vem, estou aqui ao fundo — disse ele. — Ah, estás aí — respondeu Donald com descontracção. — Vou já ter contigo. — Não precisas de ter pressa — respondeu Vladimir. — O mundo é nosso. Donald aproximou-se de Vladimir com a mão direita estendida. Este, levantando-se, correspondeu ao gesto do outro. As mãos apertaram-se para, logo de seguida, se juntarem os corpos num abraço fraterno. Vladimir convidou Donald a sentar-se. — Queres beber alguma coisa? — disse ele. — Uma vodka simples num copo de macho ou um whiskey num cálice maricas? — acrescentou num tom jocoso e inquisidor. — Não sou eu que ando a bater em actores minorcas — respondeu Donald, soltando uma ruidosa gargalhada. — Também não fales muito, Donald — disse Vladimir, visivelmente incomodado com a tirada do amigo. Donald fez de conta que não ouviu e pediu um whiskey puro num balão aquecido. Lá fora ouviam-se os drones a rebentar. — Pensei que os tivesse avisado — disse Donald, enquanto observava as explosões. — Não me vais dizer que não gostas do que vês? — observou Vladimir com um pouco de ironia e acrescentou: — Tu também sabes montar bons espectáculos de fogo-de-artifício. — Tens razão, Vladimir. Não há ninguém com a nossa experiência no ramo. — Nós e o teu amigo Benjamim — disse Vladimir com um aceno de aprovação. — Sim, o nosso querido Benjamim, esse “enfant terrible” — acrescentou com um sorriso embevecido. — Já não sei mais o que fazer com ele. Eu bem lhe disse para ele largar aquele povo, mas ele não descansa enquanto não os tiver matado a todos — disse em tom de desabafo. — Não lhe deste educação quando era novo e agora já vais tarde — sentenciou Vladimir. Na rua, voam destroços de uma biblioteca e caem folhas de livros de História. — Por exemplo, se não fosse a obediência do meu Alexandre, nunca seria possível destruir as munições ocidentais que aquele pigmeu nazi esconde nas escolas, nos hospitais, nas creches e, imagina, nos lares de idosos. Vladimir, ao fazer esta declaração, coçou a cabeça e piscou os olhos duas vezes. — Não te preocupes, que ninguém liga a isso — disse um Donald sorridente, enquanto dava umas palmadinhas consoladoras nas costas de Vladimir. — Eu sei, mas o que é que tu queres? Aqueles hipócritas ocidentais vinham-me comer o gás natural e o petróleo à palma da mão e agora parecem virgens ofendidas em apoio de um minorca nazi. — Quem vai tratar desse rafeiro sou eu! — gritou Donald, indignado, mas logo se acalmou. Entretanto, Vladimir levou o seu copo de vodka à boca, bebendo-a num trago. Donald imitou o amigo e bebeu o seu whiskey com igual sofreguidão. Após soprarem um bafo alcoólico em coro, olharam, comprazidos, um para o outro. Lá fora, as ambulâncias gritavam a sua urgência. Entretanto, alguém abriu a porta. Donald e Vladimir voltaram-se e depararam com o discreto sorriso de Xi. Completava-se o NeoTriunvirato; podiam começar as negociações. (continua)