2026-06-11

A Vida e a Morte do Sr. Jorge - décimo segundo acto; Filomena

Começam a faltar-me adjetivos para descrever os meus pés. Já lhes tracei finalidades e preconceitos, sem me esquecer das suas imperfeições. Agora, deixo-os andar.

 

A passagem do turno ocorre no meio de um burburinho que não é usual. Tento virar ligeiramente a cabeça para satisfazer a curiosidade. Ao fim de algum tempo, consigo obter um ângulo de visão que me permite olhar para as duas batas brancas. Ambas ostentam dois círculos vermelhos com a seguinte afirmação: “Estou em Greve”. Como é possível que não tenha reparado naqueles círculos que gritavam furiosamente o seu protesto? Apurei o ouvido e fiquei a saber que a greve começara no turno da noite. Tendo de cumprir os serviços mínimos, aqueles dísticos afirmavam a sua adesão. Naquela ala, pouco havia para poderem afirmar a sua luta. Soube que não haveria visitas, mas isso não me incomodava. Estava solidário com a sua luta e, se conseguisse falar, teria dito de minha justiça. Falaria dos dias sem dormir para garantir a adesão dos trabalhadores, das horas passadas nos piquetes para manter o ímpeto reivindicativo, dos olhos vermelhos que se mantinham abertos à força de grandes quantidades de cafeína, dos comunicados que eram distribuídos ainda mornos da impressão recente e dos anos que acabaram por dar cabo da minha relação com a Cecília. Que digo eu? A bata branca aproxima-se e consigo ver a indignação que lhe corrói a alma e a faz duvidar da sua decisão precoce. Foi por causa do seu avô que decidiu abraçar a profissão. Foram dois meses de visitas diárias ao hospital. Saía do velho edifício com lágrimas a escorrer pelo rosto, num choro compulsivo que exasperava a mãe. Eram as batas que lhe apaziguavam o coração. Seria enfermeira para cuidar do corpo aos avôs e da alma às netinhas. Teria Filomena feito essa confissão tão pessoal? É provável que assim tenha acontecido. Um moribundo é sempre um ótimo confessor. Não poderia haver melhor prova de sigilo. Digamos que é algo inerente à função de acamado. Até na doença devemos ser profissionais. A Filomena tem um turno descansado. No dia anterior esvaziaram a sala e, durante a greve, só dariam entrada casos urgentes. Por estarem sós, a Filomena foi buscar uma cadeira e estacionou junto dele com uma revista no regaço. Aquela bata branca ainda sentia o apelo do cheiro a tinta impressa em papel novo.

 

Cumpri o serviço militar durante ano e meio. Perdi a minha mãe enquanto perfilava em frente do Convento de Mafra. A ocasião era solene. O Presidente da República era Mário Soares, que cumpria o seu primeiro mandato. Era um homem que gostava de sair do Palácio de Belém; por esse motivo, não foi de estranhar que tivesse ido assistir ao concerto de carrilhões que inaugurava a sua restauração após um longo período de inatividade. Terá falecido às primeiras notas metálicas do bronze recém-polido? Quero acreditar que sim. Duas semanas antes, vi-a pela última vez. Detido no quartel, junto à casa da guarda do portão norte, dispondo de alguns metros quadrados, uma tarimba para dormir, um buraco para o que saísse cá de dentro, um chuveiro com água à temperatura ambiente e uma janela que nunca deixava ver o sol, decidi deixar de comer. Não cedi a ameaças de agravamento da pena nem às palavras piedosas do major capelão. Estava decidido a levar o meu ato até às últimas consequências, e só a raiva me impedia de chorar. Para passar o tempo, tinha um rádio que também lia cassetes. O único problema é que, sem eletricidade, tinha de usar pilhas. Ao fim de um dia, já só ouvia rádio. Tinha também um caderno quadriculado e uma caneta que me trouxeram da secretaria da companhia, e nos quais fiz o relato poético do meu cativeiro. Ah, não me posso esquecer do meu camarada Reis, que trabalhava na tipografia do quartel e que me fez uma cópia artesanal de um livro de poemas de Ian Curtis, vocalista dos Joy Division. Não sei se foi a minha teimosia, se por intermédio do meu pai, mas acabei por ser chamado ao tenente-coronel. Compareci ladeado por dois camaradas armados com G3, a célebre metralhadora de fabrico alemão que equipava o exército regular português. Estranha arma que simbolizou a guerra em África e, mais tarde, se transformou num símbolo da revolução e da liberdade. Para tal, bastou apenas colocar uma flor no seu cano, um cravo vermelho. Assim fica provado que o significado dos objetos depende do uso que se lhes dá. Estou a perder-me em rodriguinhos e voltinhas. Mas o que é que quer? A cabeça é mesmo assim. Umas coisas levam a outras e, quando damos por nós, estamos enredados em filigranas de pechisbeque. Não se vá já embora, que eu estou quase a acabar. A minha mãe está quase a morrer, já não falta muito. Obrigado, enfermeira Filomena, você nem imagina o bem que me faz. Então, é assim: fui ao gabinete do comandante, onde o meu pai também se encontrava. Tudo indicava que o meu pai explicara a situação ao comandante e que ele concordava em me deixar ir ver a minha mãe. Para que isso sucedesse, só eram necessárias duas coisas: eu tinha de voltar a comer e o meu pai comprometia-se com o meu regresso ao quartel para cumprir o resto da pena. Não tinha como não aceitar. No dia seguinte, desloquei-me ao IPO com a farda de saída. Foi o meu pai que me levou, mas não foi ele que me trouxe de volta ao quartel. A minha mãe tinha pedido para se maquilhar e estava tão bonita. Parecia impossível que não viesse a aguentar até ao final do mês, apenas quinze dias depois do meu vigésimo segundo aniversário. Escrevera uma carta para eu ler depois. Só não lhe digo o que ela escreveu para não me desfazer aqui, num pranto de criança. Antes de voltar para o quartel, tomei uns drunfos e bebi uma carrada de aguardentes na Rua do Coliseu. Sei que enchi a farda de crachás: Sex Pistols, Clash, Jim Morrison; destes eu lembro-me. Depois? Devo ter apanhado o comboio para o Cacém e, depois, um que me levasse para a Malveira. Não lhe consigo dizer mais nada. No dia seguinte, estava outra vez atrás de grades.

Está a fazer-se tarde, enfermeira. Lá fora já escureceu e, daqui a pouco tempo, será rendida. Antes de se ir embora, não se esqueça do meu comprimido para dormir. Também lhe desejo uma noite descansada.