2026-08-05

O Homem Revoltado e a Poesia Revoltada (Parte II)

 

Parte II

 

A ingenuidade das questões não lhes afeta a pertinência. As duas últimas, de assustadora simplicidade, ecoam desde os primórdios do pensamento filosófico. Quantas as respostas dadas, e quantas sobrevivem aos tempos e às vontades? Recicladas, reinventadas, reafirmam incessantemente a sua inequívoca justiça.


Poetastra da modernidade decrépita, limito o meu olhar aos resultados visíveis, e as questões surgem novamente, como uma dor relembrada:

Qual o objetivo comum da revolta, e porquê?

Mais do que uma resposta, a poesia também pode personificar a impotência sedimentada da gênese humana.

Arqueólogo de banalidades desenterrei versos escondidos.

Primeiro, e último, dia de escavações:

 

“E assim versejou Paulo de Santo André;

 

Abertura


Sem objetivo, a revolta é tumulto,

Um escarro, ou um insulto,

pura inveja, ou egoísmo.

 

Palavra vã, ou recado,

Grito de loucura e raiva,

Sede de sangue ou castigo.

 

Qualquer que seja o sentido,

Finalidade, objetivo,

Tem de ser compreendido.

 

Tem de sair do peito.

De cada um o seu jeito,

Para expressar as emoções.

 

Posso gritar “Liberdade”,

Sem saber bem o que quero.

Pode ser só desespero.

 

Não basta ser consistente

Na palavra apregoada

Vendida à porta de entrada.

 

Não se deve confundir

Precisão com exatidão.

A cada uma o seu chão.

 

A palavra repetida

Não fica mais importante.

Só por gritar revolução.

 

Pode tornar-se vulgar,

Se ninguém a entender.

Ser, não é parecer.

 

 

Interlúdio

 

Digam ao que vêm, camaradas!

 

Se temos o mesmo sentir,

E o devir é igual,

Não haverá problemas.

 

Não faças da minha luta,

Uma expiação de pecados,

Um serviço de recados.

 

Revolução não é religião,

Nem justiça é sacramento

Para engolir no momento.

 

Não me ponhas de joelhos,

Fazendo promessas em vão,

Apenas para ter servidão.

 

A revolta é permeável,

Às águas que vão para o mar,

Mesmo que vão devagar.

 

 

Final

 

Sem mais para cantar,

nem alma para atormentar,

Vou calar a minha voz.

 

Esteja eu onde estiver,

Aconteça o que acontecer,

Nunca ficaremos sós.

 

Enquanto a revolta existir,

E houver pão para repartir,

Ela estará entre nós.”

 

(Poeta popular do início do século XXI. Depósito de Arqueologia Digital do Litoral Alentejano)