2026-09-09

O dia e a noite (exerto do diário O Mundo Hoje!)

 

O dia da noite

O que os distingue  

 

O dia e a noite são dinâmicas fundamentais na vida de qualquer animal. Podíamos falar do preto e do branco, da presença e da ausência, da existência e da não-existência, da dualidade entre a vida e a morte, mas, neste caso, não é disso que tratamos. Como qualquer trabalhador, que exerça as suas funções em turnos contínuos, e sem folga fixa, sabe, o dia e a noite referem-se a estados de luminosidade cujo significado pode ser facilmente subvertido em nome dos variados interesses, nomeadamente os económicos. Mas também a doença tem particularidades que levam os seus possuidores as vigílias contrarias aos normais hábitos biológicos de um ser humano saudavel. Neles, a noite funde-se no dia e não permite uma fronteira definida. O cansaço dita as regras e o sono é intermitente durante as vinte e quatro horas que o planeta demora a rodar sobre si mesmo. O dia se faz noite, e a noite sucumbe ao dia. A luminosidade, que os devia distinguir, é tormento e tortura que perdura numa interminável sucessão de ciclos disformes e imperceptíveis. Com o permanente estado de exaustão chegam as alucinações credíveis, e as ilusões de sobrevivência. No final, tudo perde importância e o tempo celebra uma monotonia continua, onde o dia e a noite deixam de ser necessários, e onde será impossível distingui-los.