E agora, o que se segue?
A poesia tem lugar de destaque na minha escrita. Foi poeta que
me fiz, será como poeta que morrerei. O tempo urge e o cerco aperta. Quando me
reformar deixarei de ter lugar no mundo e esse momento aproxima-se. Dia 21 de
Outubro vou a Setúbal assumir o inevitável. Não estou disposto a pagar o dinheiro
necessário para me manter vivo, em primeiro lugar, porque não o tenho, e em segundo
lugar, porque já estou saturado de ser um fardo. Num planeta em excedente
humano, chegou a hora de ceder o meu lugar. O meu país não sabe quem eu sou,
nem precisa de mim. Irei chorar por duas mulheres, a minha filha, e a minha
mulher, mas só lhes peço que não se sintam culpadas. Não há necessidade de as
arrastar comigo na minha queda. Não! Não me vou suicidar, irei simplesmente
desistir quando não houver um lugar digno para eu viver. Serei, finalmente, filho
da nação. Deixa andar que o destino trata de ti. Como vêm, mais fácil não há.
Mas, até lá, vou publicar o que escrevi nestes últimos meses. Será o último grito
do poeta.