2026-06-16

A Vida e a Morte do Sr. Jorge - décimo quinto acto; Filomena

 Os meus pés andaram perdidos e só se encontravam ao balcão de um qualquer estabelecimento que vendesse bebidas alcoólicas. Conheceram a noite e abraçaram-na com uma entrega que não estabeleceu limites, nem os do esquecimento.

Bebe, que quem te leva sou eu. Antes de a luz chegar, ao abrigo dos astros no céu, quantas vezes vou tropeçar e carregar o que é teu. Encostar-te o corpo ébrio nas esquinas da cidade e ver-te chorar e rir sem qualquer necessidade; procurar no fundo do bolso o conforto de uma cama que não te ama. Deixaste peúgos espalhados em cama alheia, enquanto o corpo se deitava numa teia. Não conhecesse eu a cidade e terias dormido na rua, encostado às portas da estação, com baba no canto da boca, sonhando por uma vida que não fosse oca. De madrugada, às primeiras horas da manhã, obriguei-te a comer canja com folhas de hortelã. Guiei-te por becos que não recordas, enquanto bebias sobras; os olhos pesados da culpa que inventaste para te punir onde falhaste. Nunca olhaste para mim, nunca me perguntaste porque te dizia sempre que sim. Quem te fala é o meu irmão, o pé direito. Mas eu, que sou esquerdo, dir-to-ia do mesmo jeito.

 

O tempo voa. Ainda agora falava com o Pedro e quem está ao meu lado é você. Não me entenda mal, enfermeira Filomena, eu não tenho nada contra si. É que, num repente, a tarde foi-se, desapareceu como por magia. Posso fazer-lhe uma pergunta? Agora que estou melhor, quando é que me mudam de quarto? Sabe, eu gostava de estar num quarto com televisão, daqueles que têm horário para as visitas, e onde os doentes se podem levantar e passear pelos corredores. Eu sei que não depende de si, mas podia dar uma palavrinha ao médico. Por mim? Não é preciso prometer. Eu acredito em si. Enfermeira Filomena, já lhe disse que é muito parecida com a minha mãe? Não me olhe dessa maneira. O que eu quero dizer é que a imagem que guardei dela tem muitas semelhanças consigo. A minha mãe morreu muito nova, ainda não tinha chegado aos cinquenta, além disso, parecia ter menos idade. Ela era muito bonita e estava sempre bem arranjada, por isso não deve ficar ofendida com a comparação. Estivesse ela viva e a minha vida nunca teria dado a volta que deu.

Lá estou eu outra vez a planar por cima do quarto. Junto da minha cama, a enfermeira Filomena aconchega-me a almofada. Ia jurar que ela olhou para mim e sorriu. Devo estar a sonhar. Estar tantos dias fechado confundiu-me o juízo.

Onde estou agora? O meu corpo está sentado à mesa com a Cecília. O meu filho também lá está. Já está tão crescido! Que idade terá ele? Espera! Isto foi no dia em que disse à Cecília que tinha um assunto sério para falar com ela. Reconheço aquela expressão que me informava não serem necessárias muitas palavras. E não foram mesmo necessárias. Ela ditou as condições do divórcio e eu aceitei em silêncio. Enquanto eu andei entretido com o sindicato, com o partido e com a Maria do Carmo, ela tratara sozinha dos papéis do divórcio. Estava mesmo acabado! E não me refiro à relação. Na altura, deve ter sido um alívio para ela o nosso casamento ter terminado. Olho para mim e mal me reconheço. Estou magro, tenho barba de preguiça, olheiras de solidão, uma cor macilenta na pele, unhas grandes e sujas, cabelo comprido desgrenhado e uma roupa que tinha dias a mais no meu corpo. O meu filho olha-me sem ressentimento, mas com uma tristeza profunda. Como foi possível eu não ter olhado para a sua cara? Deixa-te de merdas, tu sabes bem porquê! Tinhas acabado definitivamente com a Maria do Carmo e tinhas apanhado uma bebedeira de caixão à cova. Mas não te ficaste por aí! Foste para uma reunião com a administração totalmente ressacado e sem ter dormido. O teu hálito cheirava tanto a álcool que te colocaram na ponta da mesa. Só não foste despedido porque estavas a tempo inteiro no sindicato. Só depois foste para casa, onde chegaste naquele estado.

A Cecília deixou-me dormir lá em casa nessa noite. Quando acordei de manhã, sabia o que tinha de fazer. Pouco queria levar: meia dúzia de livros que ainda não tinha lido, a minha viola, os CDs do Zeca e uma mala de roupa. Consegui um quarto numa pensão em Lisboa. Nesse tempo, ainda se conseguiam estes pequenos milagres. Este foi o primeiro de muitos quartos onde vivi. Liberto de responsabilidades, fui de mal a pior. Meti baixa psicológica e alimentei-me com uma mistura explosiva de antidepressivos e álcool. Passados poucos meses, comecei a falhar com a pensão de alimentos. A Cecília perdoou-me essa falha, mas não fez o mesmo quando faltei aos fins de semana com o miúdo. Foram tempos muito difíceis. Ainda hoje me dói pensar neles.

 

O que se passa, Filomena? Porque estão tantas batas brancas à minha volta?

 

A Rosa trabalhava numa fábrica na Amadora. Conheci-a num plenário e nunca mais a tinha visto até aquele dia. Encontrei-a por acaso junto ao estádio do Estrela. Eu tinha-me mudado há pouco tempo para um quarto que arrendara na Damaia e vagueava sem destino por ruas já esquecidas. Foi ela que me convidou para jantar. Vivia perto da praça da igreja, com a mãe e um cãozinho branco de raça indeterminada. O pai tinha morrido, havia um ano, com um tumor nos pulmões, presente da tabaqueira, a premiar, com diploma dourado, os cinquenta anos de consumo intensivo. Foi à mesa daquela casa modesta que eu me rendi à mãe de Rosa. Sim, Dona Amélia, um dia destes trago cá o miúdo. Esta promessa não foi um pacto de sangue, mas teve o mesmo efeito: deu-me o incentivo que a Rosa não conseguira dar-me sozinha. Primeiro os comprimidos, depois o álcool e, por fim, o abuso de haxixe; larguei tudo em menos de um mês. Já morava com elas e, durante esse mês, nunca saí de casa sem a sua companhia. Não vou mentir, sofri imenso, principalmente da cabeça, mas estava focado e determinado a cumprir a minha promessa. Nos meses seguintes, tudo se passou muito depressa. Larguei o sindicato e o partido e pedi a reintegração no meu posto de trabalho. Equilibrei as minhas contas e voltei a pagar a pensão de alimentos. Só faltava cumprir a minha promessa à Dona Amélia. Demorei algum tempo até ganhar coragem para voltar a ver o meu filho.

 

Vejo-me à porta do meu antigo apartamento. Tenho o cabelo cortado muito curto e a barba aparada. Não estou deslumbrante, mas o meu aspeto é asseado. A roupa ainda cheira a nova e empresta-me uma outra idade, uma outra identidade, talvez mais dignidade. Tenho orgulho naquele homem que se apresenta àquela porta com uma postura tímida, quem sabe, envergonhada. Resisto à vontade que tenho de o abraçar. Entretanto, a porta abriu-se e quem aparece é um menino feito homenzinho, como acontece a todos aqueles que a vida fez crescer mais depressa. O homem que está à porta olha para o rapaz e tem dificuldade em suster as lágrimas. O miúdo devolve o olhar do pai com uma serenidade demasiado madura para a sua idade. Cecília aparece por detrás dele e pergunta-lhe: “Não dás um beijo ao teu pai?”. Vejo o rapaz abraçar-me e dar-me um beijo na face. Não consigo perceber, mas ia jurar que o homem foi incapaz de impedir que uma lágrima se libertasse e escorresse discreta pela face oculta da cara. Falta-me coragem para assistir ao que aconteceu depois. Ainda me lembro do esforço que aquele homem fez para não cair aos pés de Cecília e implorar que ela o aceitasse de volta. Nesse dia, levou o seu filho para a casa da Rosa e pagou finalmente a promessa que havia feito à Amélia.

 

Será que não saem de cima de mim? Mas, o que é que se passa que não me deixam em paz.

 

Julguei que era mais forte, mas os contactos regulares com a Cecília deram cabo de mim. De tal forma fui egoísta que ansiava pelos fins de semana com o meu filho apenas para a ver por breves instantes. Não queria admitir, mas estava novamente apaixonado por Cecília. O que se passou depois fui só eu a ser eu próprio. Fraco a confessar sentimentos, não aguentei quando vi aquele homem bem parecido e de aspeto saudável que um dia abriu a porta do meu antigo apartamento. Fugi, que mais pode fazer um cobarde? Abandonei quem me ajudou e abandonei o meu filho. Incapaz de resolver o meu conflito interior e sem coragem para ser honesto e admitir o que sentia, menti à Rosa e parti. O que me custou mais foi despedir-me da mãe de Rosa. A Dona Amélia tinha um sexto sentido que a avisava de que eu não estava a ser honesto e que isso faria sofrer a sua filha.

 

A enfermeira Filomena olha entristecida para mim. Não olha para o meu corpo, mas para cima, como se quisesse dizer-me alguma coisa. De repente vejo-me novamente no meu corpo. Este vai e vem, está a dar cabo de mim.

 

Que mentiras eu contei, que meias-verdades deixei escapar? Disse que o dinheiro era pouco e que tinha recebido uma oferta para ir trabalhar para Angola que era irrecusável. Disse também que era um trabalho de gestão e que poderia vir a casa de três em três meses, por períodos de quinze dias. Iria enviar dinheiro todos os meses para ajudar no que fosse necessário e que a amava muito.

Fui eu que me ofereci para ir trabalhar para a plataforma de exploração de petróleo como técnico especializado de manutenção. Receberia muitíssimo bem, e em dólares. Efetivamente, poderia vir a casa de três em três meses, mas eu tencionava aproveitar todo o tempo livre para ganhar mais dinheiro. Mantive uma renda generosa à Rosa durante quatro anos; foi esse o tempo que demorou a substituir-me. Quanto ao amor, decidi guardá-lo numa gaveta e deitar fora a chave. Do dinheiro ganho, reparti-o em quatro partes iguais: uma para a Rosa, outra para mim, uma para a Cecília, e a última parte numa conta cujos titulares eram o miúdo e eu.

O miúdo atingiu a maioridade ainda eu trabalhava na costa africana. Por essa altura, a Rosa deixou de me escrever. As redes sociais começavam a ocupar o espaço de convívio, mas eu não fui seduzido; por isso, só havia três formas de entrar em contacto comigo: o telefone, que eu não atendia, o mail, que eu lia ao final do dia, e as cartas, que me davam uma agradável sensação de proximidade e às quais eu respondia regularmente. Durante todos esses anos, foi assim que mantive a ligação com o meu filho. Tenho guardadas todas as cartas que me escreveu. Estão guardadas na minha mesa de cabeceira. Ainda hoje as leio com nostalgia desses tempos de solidão.

É noite, e o quarto está vazio. Ao longe ouço a voz do Fernando. Vem fazer o turno da escuridão. Quem sabe se não estará com paciência, e eu possa recordar com ele um dos momentos mais traumáticos da minha viagem por este mundo. Cala-te, Jorge, que ele vem ai.