Levarei a imagem dos meus pés; mais não será necessário. Os meus pés já não se arrastam, não percorrem a fábrica para lá e para cá, não se esgotam nos corredores das administrações, em negociações infindáveis, ou nas inúmeras reuniões do partido. Estão leves. A ausência do seu peso faz-me duvidar da sua existência material. Talvez noutra dimensão lhes possa tocar. A estranha leveza dos meus pés poderia ser objeto de um estudo científico sobre a imaterialidade morfológica dos membros inferiores. Temos tanto orgulho na verticalidade adquirida que distinguimos as classes através duma escala baseada nessa posição relativa. O que dizemos de quem se dobra? E de quem se coloca de joelhos? E de quem se deita em submissão suprema? Quem não aspira a ter o mundo a seus pés? E o supremo orgulho de morrer de pé? De fincar o pé? De não arredar o pé? E aquele conselho que nos diz para não irmos para fora de pé? Tem cuidado, não fiques sem pé! Enfim, um sem-número de pés que regem as nossas relações. Que dizer das ordens: “Chega-te ao pé de mim!”; “Não te quero ver ao pé de mim!” Ou da fanfarronice: “Fui eu que lhe dei com os pés” ou “mantive-me de pé”. Também os queixumes têm os seus pés: “Levei com os pés” ou “levei um pontapé”. Se quiser ameaçar alguém, também há pés que podemos usar: “Levas um pontapé” ou “corro contigo ao pontapé”. E qual é o jogo mais popular? Se responderam em português, posso então perguntar-lhes qual é a parte do corpo mais usada nesse jogo?
Levarei uma
imagem difusa dos meus pés, e a minha verticalidade deixou de estar neles.
Vou deitado, disso não tenho dúvidas. Neste momento, não venho
nem vou. Deitado estou e assim permanecerei. Com um sorriso nos lábios,
procurando caminhos com astrolábios que comprei numa terça-feira, em Lisboa.
Digo coisas à toa, mas juro que sou boa pessoa. Perguntem na minha rua se o
Jorge uivava à lua, se a vida que viveu foi maior do que a sua. Não irão
encontrar quem se lembre do chão que pisei. O meu rasto fui eu que o apaguei.
Fugi num dia de verão e nunca mais voltei. Quis o destino que fosse essa a
viagem, que atravessasse o rio para a outra margem.
Fernando, está aí? Consegue ouvir os meus devaneios? Continuo
deitado e viajo para outro lado.
A greve está marcada para quinta e sexta. É um piscar de olhos
ao horário normal, que também agrada ao turno das 8 às 16. Escolhemos, para
começar a greve, um turno de fortes convicções. É muito importante arrancar com
um turno forte, mas não podemos dar nada como garantido. A indignação e a
revolta que nos fazem lutar têm de ser cuidadosamente regadas. Com falta de
água morrem; com excesso dela, apodrecem. A monitorização dos dias que
antecedem a greve é fundamental. Entre outros, é esse o papel do delegado
sindical. Somos batedores que vivem na trincheira e sentem a mesma fome. Somos
os olhos da Direção Distrital. É na Direção Nacional que toda a informação é
centralizada. Compete aos membros da direção assumir as negociações nas
reuniões com as entidades patronais. Eventualmente, alguns delegados podem
estar presentes. Enquanto delegado, sempre preferi ficar na fábrica.
Nos dias em que estava escalado para rondas de esclarecimento,
ia para a fábrica à meia-noite. Levava uma pequena mochila com sandes, sumos e
três maços de SG filtro. Geralmente éramos três, eventualmente dois. Muito
raramente íamos sozinhos, mas também podia acontecer se o setor fosse o nosso
local de trabalho. Nem sempre isso era uma vantagem, pois os santos da casa
tendem a perder os poderes milagreiros. Nalguns casos mais bicudos, chegávamos
a pedir ajuda a um membro da direção, geralmente alguém com muita experiência e
que não se perturbava quando as discussões aqueciam. E aqueciam sempre. Às
vezes, levantavam fervura e vinham por fora. Tínhamos sempre como limpar esses
derrames: um cigarro, um café e uma conversa a sós, com as estrelas como únicas
testemunhas. Ia-se o ímpeto heroico e revelava-se o homem. As diferenças
desvaneciam-se e perdiam importância. Todos queríamos o mesmo: mais dinheiro,
tempo livre, condições no local de trabalho. Depois vinha o resto: os
subsídios, o tempo para a reforma, o preço da hora extra, as férias frias, o
prémio de regularidade, a assiduidade, a prevenção, o seguro de saúde, tudo
preto no branco e assinado no acordo coletivo de trabalho. Tudo selado com um
forte abraço e sem ressentimentos. Agora só faltava a promessa de adesão.
“Então, estás com a malta?”; “Deixa-me pensar, pá! Sabes que não é uma decisão
fácil. Eu contava meter cá o miúdo para o ano, estás a ver?”. E eu via sempre,
ou pelo menos tentava. Às vezes era eu que fazia de “polícia mau”. Tudo era
combinado com antecedência. Havia pouca margem para improvisos emocionais, e
mesmo esses eram antecipados e tinham um plano de fuga. Éramos uma máquina bem
oleada, e tenho muito orgulho no que conseguimos com as lutas reivindicativas
dos trabalhadores. Na direção nunca senti este tipo de satisfação. Há pessoas
que não são talhadas para funções dirigentes, e eu sou uma delas. Se passei
despercebido, foi apenas porque sou bom a disfarçar a mediocridade.