2026-09-28

Dia após dia

 Dia após dia

 

Tenho de falar sobre mim. A guerra que eu travo tem o destino marcado. Não o têm todas? Sim, a única certeza que temos é o fim da nossa vida, pelo menos na forma como estamos habituados a assumi-la, mas isto não invalida que as particularidades da minha guerra dêem um outro sabor às minhas batalhas. Para dizer a verdade, foi ELA que a tornou mais interessante. Posso mesmo afirmar que a minha vida não faria sentido sem ELA. E, quando o afirmo, tenho consciência do salto evolutivo que ELA provocou na minha visão do universo e, porque não, da existência de Deus.

Mas não é esse o assunto que me faz publicar este texto. Digamos, antes, que é um ponto da situação. Na prática, procuro situar-me num mundo que, de repente, acordou para o disparate, não com o objectivo do evitar, mas sim do sublinhar. Em termos meramente cronológicos, posso afirmar que cheguei ao fim da esperança de vida que ELA tem por hábito conceder aos seus amantes; no entanto, admito que talvez a minha linha se prolongue um pouco mais. Os movimentos que restam são diminutos; o mesmo se passa com a minha voz. Já tenho alguma dificuldade em comer e em respirar. Sou totalmente dependente de terceiros e, se continuo a publicar, isso deve-se à evolução tecnológicas e a uma instituição, a APELA. E dizer tudo isto não é pouco. Seriam sempre poucas as palavras para descrever o trabalho e a paciência da Deolinda e da Mariana. O Estado chama-lhes cuidadoras informais; eu chamo-lhes anjos, e são a minha mulher e a minha filha. Também elas combatem na linha da frente desta guerra. São aliadas para a vida e hão de estar lá quando eu disparar o último tiro. Por enquanto, conto as munições e procuro fazer uma gestão criteriosa dos parcos recursos existentes no meu corpo.

Passou mais um Verão e aqui vou eu, Outono adentro. Ontem vi a nossa selecção vencer com o Cristiano no banco, algo que eu pensava nunca chegar a ver, não por desconsideração à principal figura de Portugal, mas apenas como prova da minha longevidade. Já vou na segunda dose de Trump e arrisco-me a ver outro Bolsonaro no poder. Quanto ao Putin, não há nada a dizer: perto de 100% nas eleições mais participadas de sempre. Na China, tudo na mesma, mas, pelo menos, não se escondem atrás das urnas. No Médio Oriente, uma guerra mais velha que eu continua a matar. E a minha Europa? Está velha e senil, mas ainda há muita gente que a quer levar para a cama. Tem distúrbios de personalidade e apresenta evidentes sinais de demência depressiva. Não quer ser o que foi, mas também não gosta de ser o que é hoje. E quanto ao futuro? Limita-se a dizer mal do sobrinho americano que a enganou e, como tem as bibliotecas atafulhadas de filósofos humanistas, está pensando queimá-los este Inverno para substituir o gás natural. Enquanto tudo isto acontece, o aquecimento global aproveita as novas regras do futebol e faz uma pausa… para aquecer mais um bocadinho. Enfim, quem vier depois que feche a porta.