2026-09-15

Crime de ódio: A morte, assim como que contada

Crime de ódio: A morte, assim como que contada

 

Um crime é um crime: acção ignóbil, momento transitório que nos transporta para regiões desconhecidas do que pensamos ser a nossa existência. Quando ocorre na vizinhança do nosso quotidiano, sentimo-nos violentados. Se esse crime pressupõe que uma vida se perde, que a morte era o seu objectivo, então a narrativa muda de rumo, e permitimo-nos a assunção de uma culpa que nos transporta para outra dimensão, possivelmente uma dimensão abstracta, onde existimos como actores principais, paladinos da moral e da justiça.

Assim procedeu Justiniano Rebelo. Homem já entrado nos oitenta, matou na guerra, mas nunca lhe viu a cor dos olhos. Os mortos e os estropiados, no corpo e na alma, são a natural consequência da guerra. É com este convencimento que Justiniano aceitou os efeitos de cinco anos na guerra do ultramar. Nunca mais conseguiu dormir uma noite completa, e não tolera barulhos excessivos nem silêncios absolutos. Ambas as situações despoletam nele reacções inesperadas e intempestivas, o que lhe impede uma vida social. Justiniano viveu nos subúrbios da Capital desde 73. Quando se deu a revolução e, poucos anos depois, começaram a chegar os “Retornados”, nasceu dentro de si uma frustração que não conseguia esconder: − Foi para ver esta merda que me foderam a puta da vida? – gritava, quando, sentado à frente do televisor, via os noticiários nacionais. Justiniano não aceitava que, de permeio com os brancos, também viessem negros e mestiços. – Este país vai ficar cheio de “pretos”! – vaticinava, possesso e com as faces ruborizadas. Profundamente indignado, imigrou para a Alemanha até se reformar e voltar a Portugal. Os anos de emigração não acalmaram a sua raiva; antes pelo contrário. Depois de tanto tempo a viver subjugado a uma cultura que considerava superior em todos os aspectos, não compreendia a passividade do poder político perante as diferenças culturais dos imigrantes que viviam em Portugal. – Se fosse lá, eram recambiados para os países deles! – Era assim que sentenciava quando ouvia falar do aumento de criminalidade. Para ele, todas as desgraças que apareciam nas notícias tinham origem na imigração.

Foi este Justiniano, aquele que recebeu a notícia da morte do Sr. António. António era seu vizinho e morreu em consequência de um assalto à mão armada. O assalto aconteceu durante a madrugada. Alguém entrou em sua casa e tirou-lhe a vida enquanto dormia. Ninguém viu nem ouviu nada. Se algum cão ladrou, foi um ladrar envergonhado, digno da irrelevância canina que os faz ladrar por tudo e por nada: alguma zorra matreira, um gato vadio atiçado pelo cio, ou um bêbado, ao fundo da estrada, regressando a casa. Para Justiniano, os culpados eram fáceis de encontrar: bastava ir à vila para os ver em grupos junto dos supermercados. Havia-os em todas as tonalidades, desde o castanho-claro ao preto retinto. − Uma cambada de animais, que não respeitam nada nem ninguém! – Aí estava, renascido das cinzas, o primeiro Cabo Rebelo, novamente pronto para combater. Desta vez, não era preciso abalar de barco para terras africanas. Não defendia as fazendas dos ricos nem as casas dos colonos burgueses; defendia o que era seu: a terra sagrada onde os seus pobres avós tinham derramado sangue, suor e lágrimas. Agora, sim, poderia assumir a culpa pela morte provocada. Vivera durante muitos anos com a culpa e com a vergonha alheia. Hoje iria regressar como um herói.

 

No dia seguinte era notícia a morte de um octogenário. Fora abatido pelas forças de segurança durante uma operação de rotina. Segundo fontes oficiais, tinha disparado contra os militares da GNR chamando-lhes “Lacaios do Capitalismo”. Em rodapé, noticiava-se que havia sido apanhado o responsável pela morte de um idoso em sua própria casa. O jovem, neto da vítima, entregara-se e confessara o crime.