2026-10-30

O Mestre, o Outono, os Mendigos, e “Eu”

 

Na Espuma dos Dias

O Mestre, o Outono, os Mendigos, e “Eu”

 

A claridade do Outono impele levianamente o véu que cobre a janela. Entra no quarto, e restitui expectativas.

O Mestre Mendigo guia os seus discípulos. Em cada um, uma mão que se estende prolonga a percepção. Envoltos em cobertores imundos, exalam os aromas da humanidade. Em si, os odores não são fabricados.

O Mestre Mendigo carrega no seu peito o fardo da erudição empírica. Dele emana a aura do desprendimento.

O vento do Outono ilumina as paredes do quarto. Os tons cinzas derramam no meu olhar a nostalgia de um século anterior.

Os Mendigos seguem o seu mestre. Na vanguarda do cortejo dos pedintes, dois rafeiros saúdam, com as caudas sujas esvoaçantes, a multidão de transeuntes voluntariamente amorfos.

O Mestre Mendigo exibe com cândida tendenciosidade a taça da mendicidade. Dos seus gestos subentendidos ecoam as energias de outras dimensões.

Os Mendigos cantam louvores emudecidos. Das suas bocas silenciosas brotam ecos do que é infinito sem ser universal.

O Outono acompanha o calendário despótico da humanidade, no entanto é reconhecida a sua narrativa humilde e frígida. A chuva cai mansa e as folhas das árvores acompanham o seu movimento.

O Mestre Mendigo move-se em total comunhão com os elementos. Para ele tudo não passa de um sonho, manipulação ilusória de conceitos discriminatórios pela sua mente imperfeita. Um dia, teve por momentos, a visão exterior dessa abstracção.

Vertido na cama do meu quarto, eu sou um dos mendigos.