Traço leve no papel branco. Traço incerto na procura da palavra que personifique a ideia, a ideia ligada a uma imagem. E sempre este alheamento estéril que destrói conexões. O edifício depois da curva, que nome lhe hei de chamar?...
A Residência ressoa em mim as vozes gastas do tempo…
O papel apresenta riscos organizados, desenhos de letras de
isolada inoperância, de solidão e inocência. A ideia vagueia de forma
perfeitamente natural sem que a consiga isolar (consolidar)…
Vozes de um tempo anterior.
E os olhos que as suportam são baços…
A sensação de esvaziamento que aquela curva me dá, uma curva
apertada, um cotovelo no meu pescoço, o aperto no peito enquanto viro o volante
numa espiral familiar e, no entanto, tudo tão estranho. O que procuro eu nos
olhos que me segredam segredos ansiosos?
E as vozes são incolores.
Prendem-me as suas melopeias, sereias de outros tempos…
E a porta… será ela capaz de se abrir à primeira? Ela nunca
se abriu à primeira. O meu dedo pressiona nervoso aquele plástico branco onde
uma insignificância luminosa de tonalidade rósea se esforça por chamar a minha
atenção.
Juntam -se em grupos.
Imploram sem pedir.
Corpos moles derramados em cadeiras móveis.
andarilhos estacionados, bengalaspernas…
Enquanto subo, olho para a grande árvore, pinheiro manso de
seu nome, como se a sua mansidão fosse o reflexo do casarão. Escondo-me do
espelho que algum dionisíaco impotente colocou numa das faces interiores do
elevador. Não, não me vou pentear, afagar o colarinho da camisa ou apertar-lhe
um botão indecoroso; sou íntegro, não me deixo levar por imagens refletidas, a
ilusão de que sou luz e pouco mais…
Faço uma vénia envergonhada.
Beijo caras e aperto mãos por interposta pessoa.
Sou o homem que anda sem ser empurrado.
Sou o homem que se mexe sem ser amparado…
O elevador demora a parar. O tempo fica suspenso durante uma
fração de si mesmo, e eu suspendo a minha vida por solidariedade. Fixo a porta
metálica com um olhar ansioso, enquanto o meu corpo espera pela imobilidade. A
abertura revela um cenário com figuras de cera em posições cuidadosamente pré-estabelecidas.
Apercebo-me do movimento, quase impercetível, de algumas pupilas aguadas…
Eis o meu corpo para ser admirado.
Matéria de invejável qualidade.
Produto seminovo, ligeiro transbordamento de uma meia
centena de primaveras.
Eis o meu corpo a fugir em estonteante mobilidade…
A disposição do edifício consiste numa espécie de quadrado
aberto, versão senil do quadrado de Aljubarrota. Gosto de imaginar que o lado
que percorro é a ala dos namorados. Nomes de árvores assinalam nomes de
pessoas, retratos verdes e viçosos substituindo imagens rugosas de semblante
desamparado. Brinco com uma ideia: as árvores morrem de pé; estas precisam de
uma cama, no mínimo um encosto onde poder desaguar. Ai meu rico filho, o meu
rio está tão cansado, secam-se-lhe as águas. Culpa das represas que fui
construindo ao longo da vida…
Sempre aquele poço.
Aquele buraco fingido lembrando tormentos da infância.
O poço é dele.