Um dia deixei de olhar para os sapatos e imaginei-me respirando o hálito da morte crua. O desprezo pela vida é sazonal na vida dos adolescentes, e a adoração do altar onde morrem os heróis, uma religião apetecida. Depois do primeiro beijo, a desilusão de uma paixão proibida. Felizmente que a desilusão é mais frequente e rapidamente despi as meias que me magoavam os pés, no entanto, o desprezo manteve-se e o medo nunca constituiu um problema que me levasse a ponderá-lo para uma tomada de decisão. As meias sujas nem sempre ficavam no cesto da roupa, muitas das vezes espelhavam a minha vida pelo hall de entrada, indicando corredores e quartos, como tabuletas sujas e gastas. Hoje, pequenos modelos de carros blindados numa escala de um para 72, jazem sem vida no móvel da sala, protegidos por vidro que mais tarde ficou baço. Conforme a prateleira se foi povoando de copos de vodka, trazidos por uma marca conhecida, (seria Smirnoff ou Eristoff? Nunca me dei ao trabalho de verificar a veracidade do meu testemunho, talvez porque o líquido no interior dessas garrafas não me tivesse trazido o poema desejado, a palavra que eu admirava nos outros. Os blindados foram desaparecendo sem que eu tivesse noção da sua não existência. Calcei sapatos que não eram meus, calcei os do Jim e os de Lou, e procurei sentir calos que também não eram meus, feridas de caminhos que nunca percorri, mas que imaginei serem porto de abrigo. O comboio saía da estação da Amadora e esperava sempre por mim, orgulhoso do A que exibia no lado direito da lapela. Nessa altura eu entrava na carruagem de primeira classe e sentava-me junto à janela. Quinze minutos para chegar a Campolide e perfurar a Rocha que me levava ao centro do universo. Levava calçado o que tinha mais à mão e na mão, o que tinha mais ao pé. Isto foi depois das botas da tropa e das flores no cemitério que nunca foram as minhas. Penso que me esqueci de muitos sapatos, botas, ténis, e outros utensílios de colocar nas extremidades inferiores. Palmilhei muito chão com os olhos e nunca os calcei. Dos cansaços que trouxe para casa o dos olhos foi o que mais me doeu.
Como está o meu amigo, está-me a ouvir? A bata branca que eu
identifico com o Pedro está a falar comigo e pergunta-me qualquer coisa. Como eu
estou e se estou a ouvir. Eu tentei
responder-lhe que estou bem, que estou a ouvi-lo, mas não consigo verbalizar a
minha resposta, não tenho forças, mal posso olhar para ele, e se ele conseguir
ver dentro de mim, através dos meus olhos, saberá todas as respostas. Sabe
Pedro, é que eu passei a minha vida toda a falar com os olhos. Raramente fui
entendido quando falava. Nunca culpei ninguém, sempre atribuí o sucedido a uma
má formação que me vergou, a um defeito de fabrico que fazia da minha voz algo
etéreo e sem existência. A primeira vez que gravei a minha voz foi num leitor
de cassetes da Sanyo. Jurei para nunca mais. Como poderia eu ser aquela voz
esganiçada de adulto precoce, de adolescente receoso? Como poderia eu usar o
dom da palavra, para fazer valer as minhas opiniões, se a sonoridade com que
elas saíam da minha boca era risível? O pequeno microfone que eu ligava ao
gravador de cassetes passou a ter outras funções. Pedia discos emprestados e
tocava-os na aparelhagem da sala, onde colocava o meu Sonny e rezava para que
não houvesse barulho na rua. Foi assim que gravei as minhas primeiras cassetes
áudio magnetic com «made in Europe», dos Deep Purple, ou o álbum triplo ao vivo
de Emerson Lake and Palmer, todos emprestados pelo tio do meu amigo Paulo,
mesmo sem ele saber. Com um bem-haja, onde quer que eles estejam. Também gravei
programas de rádio como o «Rock in Stock», ou «Dois Pontos», que passavam
álbuns inteiros, o que permitia uma audição sem interrupções. Mais tarde
comprei uma mala que tinha também um gravador de cassetes e um rádio, além de
um gira-discos, onde os «33 rotações» saíam, transbordando do equipamento, cuja
marca nunca mais esqueci, Silvano era o seu nome. Não tinha ainda experimentado
nada de especial. A banda com o amigo João e com o meu amigo Eduardo ainda não
se tinha formado, mas foi lá que eu ouvi os primeiros álbuns dos Beatles, «o
álbum vermelho» e «o álbum azul». Não julgue que lhe conto isto apenas para o
aborrecer. Para mim, estas histórias são a fundação do meu carácter, seja ele
qual for, tenha ele chegado, ou não, a algum sítio merecedor de uma menção, para
lá ou para cá de uma linha moral, do que é bom ou do que é mau.
O Pedro não me ouve, está de volta da Cristina, a única
paciente que dá trabalho desde que conseguiram acalmar à força de sedativos o
incómodo que é o António. Ouvi pelo canto do olho a Isabel dizer ao Pedro que
amanhã de manhã teria um novo cliente, um rapaz jovem que teve um acidente de mota,
e que neste momento se encontra na mesa de operações. Não vão conseguir
fazer-lhe todas no mesmo processo, pelo que a recuperação da primeira não lhe
tirará as dores antes de chegar a seguinte. Entre dentes deixei escapar algumas
palavras de desespero. Começo a ficar farto e estou desejando sair daqui. Ouvi
a Isabel dizer que eu deveria ser transferido para uma área mais sossegada, a
ala dos enfartados. Não, ela não se referiu aos desapertados, enfartados, nem
lhe chamou desempregados ou desesperados, apenas se referiu aos fracos de coração
e que precisam de repouso e de silêncio. Eu tinha a certeza que mais cedo ou
mais tarde iriam descobrir que era fraco do coração. Houve uma altura em que
pensei que o meu coração era de pedra, que estava calejado com desilusões, que
nada o podia atingir, mas o coração não funciona assim, e por mais forte que
seja, existem sempre partes fragilizadas, furos na blindagem. Ainda lhe pintei
cruzes de guerra na torre do meu carro blindado, equipado com armas de alto
calibre, obuses potentes e explosivos que fariam tremer qualquer atacante. O
que eu não sabia é que há várias formas de atacar um coração. Ai Pedro, que
conversa que para aqui vai; atacar, defender corações, como se eu percebesse
alguma coisa disso. Sei de mim porque me aconteceu, mas nem sempre sei
explicar. No entanto, posso relatar na primeira pessoa e descrever as
consequências. Se não aprendi, ou se não me soube defender, não é algo que eu
possa colocar nos ombros de outras pessoas e chamar-lhe responsabilidade. Essa carrego-a
eu com penosa satisfação. Estou a tentar lembrar namoradas, mas não consigo
contar mais do que uma mão cheia, namoradas a que eu possa chamar namoradas.
Mulheres, passaram muitas pela minha vida. Algumas delas passaram pela minha cama
sem deixar rasto. Cheguei a abraçar cheiros e beijar aromas, fantasmas que
nunca tive a certeza de ter tocado. Culpa minha, ou das substâncias que tomava,
nunca poderei dizer com alguma certeza. Sim, os anos 80 foram tudo isso, sexo,
drogas e rock and roll, tudo regado com muito álcool. Tínhamos dois ou três
cafés de referência, mas o circuito poderia ser diferente, conforme o vício e a
carência. Na Amadora quase todos os cafés tinham os seus vendedores. Perto de
casa ficavam aqueles onde a minha presença mais se fazia sentir. A Florença Pequena,
o Arco Íris, a Esquina do Bilhar, e a pizzaria onde se comia croissants e se
bebia umas jolas. Foi no Arco Íris que a nossa banda se fez e foi no Arco Íris
que me despedi do João. Foi também no Arco Íris que soube da morte do Eduardo.
Por essa altura eu era um rapaz apagado, não fosse tocar guitarra e ninguém
daria por mim. Para falar a verdade, para mim bastava que as minhas mãos
tivessem contato com as cordas da viola. Como é que morreu o Eduardo? Ninguém
sabe. Falou-se de overdose num quarto de uma pensão no bairro alto, mas o corpo
ficou com a família, e se foi autopsiado ou não, eu não tenho conhecimento. A
mãe e a irmã, visto o pai já ter falecido, nunca falaram sobre o assunto, e eu
nunca tive coragem para perguntar. A única coisa que sei, foi que na noite em
que ele foi encontrado, tocámos ao vivo num bar na Almirante Reis. Acho que o
nome do bar era “Palmeiras”, um edifício velho com duas palmeiras à entrada.
Vem-me agora à ideia que talvez fosse a antiga sede do PSR, mas não tenho a
certeza e já não tenho mãos para googlar e confirmar estas palavras. Lembro-me
do concerto, lembro-me de termos tocado particularmente bem, fruto de uma agenda
preenchida por força dos contactos do Eduardo. Já sabíamos que o João ia embora,
e em cada acorde fazíamos a sua despedida. Nesse dia só tinha bebido uma
cerveja e fumado um charro, pelo que os solos de guitarra me saíram soltos e
com a distorção controlada. Tudo isto saía de dentro de mim com uma honestidade
como nunca me tinha acontecido. O Eduardo, embora estivesse completamente embriagado,
nunca cantou com tanto sentimento, e até as desafinações me soaram bem. O João
foi o mais equilibrado de todos, aquele que melhor sabia utilizar as
substâncias sem se perder. Foi o João que me trouxe para casa. Embora
tivéssemos insistido para que o Eduardo viesse connosco, ele não quis, mesmo
não estando acompanhado pela namorada. A última imagem que tenho dele é a sua
pose, um ar desprendido no meio de três punks completamente embriagados. Um dos
punks era uma mulher, e agarrava-se ao seu pescoço esforçando-se por obter uma
atenção que ele não tinha para dar. Demorei algum tempo a substituir essa
imagem por outra mais condizente com o feitio do Eduardo e com a sua memória.
Que horas são? Sei que é de noite e que a bata branca não está
junto a mim. Não tenho força para levantar a cabeça, levantá-la o suficiente
para conseguir avaliar o espaço em redor. Cada vez mais o meu mudo é interior,
cada vez mais a visualização das coisas não tem significado. Deixo os meus
olhos fechados e penso no que escrevi em tempos numa velha sebenta onde largava
pensamentos.
O meu ouvir é feito de emoção,
Mas nem tudo o que ouço me provoca emoções.
Quando me deixo prender pelo pensamento,
Não me foco nas sonoridades e perco-me nas origens.
Há quem diga que eu não sei ouvir,
E há quem diga que eu não sei sentir.
Àqueles que o dizem eu pergunto:
Que saber é o vosso que retira o meu saber,
E o substitui por um pensamento que não é meu?
Mas quando o digo eu estou a mentir
Pois raramente eu pergunto alguma coisa
A alguém que tanto sabe.
Volto a essa sebenta, vezes sem conta quando tento justificar
a minha solidão. Já lhe acrescentei alguns versos, mas apenas sublinhei o que
já estava escrito. Tudo vem de uma mesma raiz. O que sei é o desenho sonoro do
que imagino quando tenho os olhos fechados. A tal ponto aperfeiçoei este meu
sentir que quase o transformei numa arte. Arte, porque projeção do meu
pensamento em forma poética, informalmente poética, sem regra nem jeito de
querer ser digno de coletâneas nacionais, nem tão pouco de recortes de jornal
antigo.
A minha vida de músico terminou algum tempo depois. Pelo meio
fartei-me de repetir o 12º ano de escolaridade que nunca terminei. Não por ser
malcomportado, apenas e só por desleixo e desinteresse. Deixei, no entanto, que
alguma dessa sabedoria perdurasse na minha memória, o suficiente para atamancar
um emprego na indústria química. Eu acho que não confessei tudo. Faltou dizer
da minha paixão por um comprimido, Rohypnol, um barbitúrico que me fazia
esquecer muita coisa. Não foram só os barbitúricos o motivo da minha paixão,
também abusei de um comprimido utilizado para a doença de Parkinson, Artane.
Enfim, eu abusei de muitos comprimidos e na altura as farmácias não faziam
grande controle sobre o que vendiam, muito menos se tivessem algum receio do aspeto
de quem comprava. Barba grande e cabelo comprido, o ar de cão abandonado sempre
pronto a morder, ajudava a evitar problemas, pelo menos com a sociedade civil,
porque com a polícia de segurança pública funcionava de maneira contrária, como
um íman, um chamariz à rusga e a permanências assíduas na esquadra mais próxima.
Anos 80, sim foram assim os meus anos 80. Se tenho mais coisas para contar?
Sim, mas não esta noite. Estou a guardar um pouco de coração para o resto da
história, para poder contar também ao André e à Isabel. Sei que você não me vai
levar a mal, no fim de contas também precisa dormir.
Estou acordado. Oiço um coro de roncos e tento adormecer. O
ronco barítono do António e o roncar baixinho da Cristina, acompanhados pelo
solavanco arrítmico de sopro obstruído do Pedro. Ao fim de algum tempo acabo
por adormecer embalado por este trio. Concentro o meu olhar no ecrã que contém
os meus batimentos cardíacos. Observo com atenção a prova mecânica de que estou
vivo, de que ainda não morri, de que o meu consumo de oxigénio é apenas
contributo para a destruição do planeta. Do outro lado ouço um chamamento. São as
palavras de um poema que o Eduardo declamou, certa vez, à mesa de um café,
depois de uma noite em claro. Estávamos os dois sozinhos e nenhum de nós estava
disposto a abdicar da irrealidade para onde os estupefacientes nos tinham
enviado. Ouvi tudo de olhos fechados;
O mínimo não me chega.
As cores desmaiadas da realidade
fazem da minha viagem uma monotonia.
Não me chega o ir e vir diário que eu
pratico por um salário,
O haxixe fumado no intervalo para o
café,
A garrafa metálica de whisky no bolso
do casaco,
A anfetamina que me faz desfazer o
corpo em suor,
O mínimo denominador comum.
Foi talvez nesse dia que eu percebi o buraco onde me tinha
enfiado. De pouco me serviu, pois continuei lá dentro durante mais uma dezena
de anos. Levei mais outra dezena a escavar os degraus que me fariam sair dele.
O mínimo denominador comum nunca chegou para compreender completamente o
Eduardo. Levei algum tempo até conseguir assimilar o seu desaparecimento. Com
ele morreu o meu sonho de rock and roll e a minha vida de artista boémio. Ele
foi o meu Syd;
Perco-me na lucidez do Syd,
Onde o denominador não é mínimo nem
comum.
Porque nós somos peixes,
Cada um refletindo a sua cor
inventada,
Todos o fazemos,
E o que fazemos é movermo-nos,
Fechados num largo aquário,
Reflexos multiplicados num vidro que
é também uma ilusão.
Amor,
Estou arrepiado por tua causa.
Leva-me pela mão através das minhas
imagens,
Dos meus inconscientes,
Seres flutuantes
No caldo sonolento onde, novamente
inventados,
Assumimos a desconstrução.
Estou sozinho no quarto. Reconheço o meu quarto de
adolescente. Dele encontro todos os sinais de uma infância recente, jogos de
tabuleiro, uma pequena caixa com Lego, bandas desenhadas, do Asterix, do Lucky
Luke, do Tintin, enfim, de todos os heróis que me fizeram sonhar durante a
puberdade. Não entendo porque estou no meu quarto. Poderia estar sentado no
sofá castanho, que tão bem fica com a pintura da parede, uns gatafunhos que se
distribuem pela tela branca de gesso. Esqueci-me de dizer que os gatafunhos foram
pintados de azul-escuro, marinho, para ser mais preciso. Os rabiscos sem
sentido valem apenas como decoração. Estamos a falar de finais dos anos 70. Por
momentos reconheço-me naquele jovem que se encontra à janela conversando com
alguém. Sempre a mesma conversa à janela. Quando não se pode sair à rua, é
assim que os diálogos se concretizam. O Jogo da bola decorre lá fora e é o guarda-redes
que vem ter comigo para conversar enquanto a ação decorre na outra baliza.
Então Jorge, hoje também não podes sair? Não, hoje também não. Dói-me a garganta
e passei a noite sem respirar. Essas memórias de prisão domiciliária irão perseguir-me
a vida toda. Por breves momentos o quarto desaparece e dá lugar a uma sala de
hospital. Na cama, alguém parecido comigo, dorme. O Pedro, assustado, debruça-se
sobre mim procurando sinais vitais. Será possível que eu não tenha descanso?
Deixo-me levar pelas salas do hospital apenas pela curiosidade de espreitar o que
nelas existe. Aparentemente tudo descansa, menos o Pedro. Volto novamente à
sala de cuidados intensivos. O Pedro acalmou e já não mexe no meu corpo. Agora
eu já não me vejo. Estou deitado na cama e olho para ele sorrindo. Ele
devolveu-me o sorriso. Que susto que você me pegou, senhor Jorge. Por causa de
si, hoje não vou pregar olho. Se o Pedro não dormiu, o mesmo não aconteceu comigo.
Não me lembro do que sonhei nem me lembro de ter acordado durante a noite para
urinar. Lembro-me apenas do André, que voltou com o amanhecer. Oiço comentários,
batas brancas falando uma com a outra, acenos de concordância e olhares
preocupados na minha direção. André eu prometo que me vou portar bem. Demorei
um pouco a entender que o caso era um pouco mais complicado e que durante esse
dia teriam de ser realizados alguns exames complementares, coisas que o médico
iria escrutinar numa reunião, quem sabe com os estagiários do piso de baixo
enquanto tomavam café com leite e comiam uma sandes mista. Será que este gajo
nunca mais morre. Vai não vai e acaba sempre por ficar. Terão sido estas
palavras proferidas, ou apenas produto da minha imaginação? Seja como for, a
minha indecisão causa transtorno hospitalar. A ocupação de uma cama que poderia
ser utilizada para um fim mais proveitoso, como a que se encontra à minha
frente, onde brevemente repousará um jovem. As batas brancas ainda se encontram
conversando quando a maca chega com o miúdo após intervenção cirúrgica. Eu já o
aguardava, afinal tinha sido tema de conversa, embora eu não me lembrasse bem com
quem. No entanto, vem-me à ideia de que o estado em que o rapaz chegou é consequência
de um acidente de moto. A minha mota era uma Cagiva 350 cc cujo modelo, Elephant,
pesava perto de 180 kg. Acabei por me desfazer dela por meia dúzia de trocos,
quando abalei de Lisboa. Foi assim que fechei mais um capítulo e que conheci a
minha mulher. Chamo-lhe minha, de forma abusiva, porque foi a única com quem
partilhei a paternidade.