2026-06-18

A Vida e a Morte do Sr. Jorge - décimo sexto acto; Fernando

 Na plataforma, o equilíbrio é essencial. Vivemos numa ilha metálica, e o ambiente que nos rodeia é hostil. Foram quase vinte anos de trabalhos esforçados. A meio da viagem, eu acho que perdemos a noção do tempo. Mas isso também pouco interessa. Se ele quiser contar como passaram esses anos, que peça a palavra e diga de sua justiça. Nós sofremos, essa é que é a verdade. Se ele queria fustigar a alma, não era preciso levar-nos com ele. São sempre os inocentes a sofrer com as decisões das cabeças pensantes, mas, mesmo contrariados, nunca ficaram por cumprir as tarefas que ele nos delegou. A lealdade faz parte da nossa natureza.

 

Já me posso levantar, mas não me mexo do lugar. Tenho receio de não conseguir voltar. É de noite, e o silêncio incomoda-me. Vai ser difícil habituar-me ao escuro.

 

O escuro fez-me voltar a Portugal. O meu pai cegou de um olho, e a mulher acabou por abandoná-lo. Pouco tempo depois, foi a alma que escureceu. Demência depressiva, esse foi o primeiro nome. Alzheimer veio substituir o primeiro e manteve essa posição até ele morrer.

Cheguei a Portugal no inverno. Chovia que Deus a mandava, e tive vontade de voltar para África enquanto a via cair pela janela do avião. De vontades está o mundo cheio, e a minha não há de ser diferente das outras. Subjuguei-a ao dever moral, ao apelo silencioso de uma consciência em colapso.

Atravessei o Tejo e aluguei uma moradia em Vila Nova de Santo André. No mesmo dia, fui ao lar ver o meu pai e decidi, naquele momento, que o iria acompanhar na sua última caminhada. O dinheiro não seria um problema, pelo menos foi isso que eu pensei na altura. Trouxe-o para casa no final do mês. Durante um ano, ainda soube o meu nome. Eu passava os dias com ele. As rotinas repetiam-se religiosamente, e recuperei o meu gosto pela guitarra. A doença gostava de música, e eu aprendi a apaziguar o seu temperamento instável. Recomecei a escrever e fiz desse hábito um relato muito pessoal da vida de um cuidador. Não pedi ajudas ao Estado, apenas porque tinha uma descrença endémica nas instituições governamentais. Ao fim de dois anos, o estado do meu pai obrigou-me a contratar alguém para me ajudar. Mais uma vez, entreguei a minha vida. Se em Angola foi o corpo, em Portugal foi a alma.

 

Tenho a impressão de estar a esquecer alguma coisa. Faço um esforço para me recordar e acabo por chorar sem saber porquê. Fecho mais os olhos e procuro dentro de mim a razão para aquelas lágrimas. Quando os abro, percebo que procurei um vazio. Quem foi que apagou o sumário do quadro antes de eu ter tempo de o passar para o caderno? Ninguém se acusa? Eu só quero saber o que se passou. Consigo distinguir todos os pormenores do quarto, apesar de ser noite e de as luzes se encontrarem apagadas. A minha visão melhorou muito. Adquiri algum tipo de superpoder. Sou herói de mim mesmo. Estou no meio da rua e vejo-me esvoaçar com a capa presa ao pescoço. Reconheço, nas letras que ela ostenta, a minha identidade postiça. O “Supereu”, sou “Superdeus” do meu mundo. Aquele SE na capa diz muito sobre a minha vida. A noite está quase no fim. Da janela do meu quarto vê-se o nascer do sol, e os galos já o anunciaram há mais de uma hora.