(Gravação efetuada durante uma sessão de psicanálise. De fonte anônima)
Psicólogo: Pode desenvolver esse tema?
João: O meu último trabalho?
P: O método e o papel do poeta na sua obra. Se estiver
disposto pode tentar enquadrar tudo isso com as suas espectativas, passadas e
futuras.
J: Está a pedir muito.
P: E você dá o que entender. Estou aqui para si, até para os
seus silêncios.
J: Desculpe, não me tenho sentido muito bem. Desde a morte
do meu irmão que a minha cabeça não me deixa dormir. Já passou um ano e ainda
sonho com ele. Este é o meu primeiro trabalho após a sua morte.
(silencio durante 23s)
J: A inspiração apareceu depois de ler o livro do Paulo. A
Madalena tinha-se ausentado e eu não suportava ficar sozinho. O Poeta apareceu
quando eu mais precisava. Coisas do destino. Esperava por ele todos os dias
sentado à porta da casa. Posso mesmo afirmar que o fazia com uma certa ansiedade.
Só quando ele chegava é que o meu espírito acordava. Ele sentava-se ao meu lado
e desbloqueava a minha mão. Tinha em mim um efeito catalisador e as reações que
desencadeava eram inebriantes. A mão deslizava pelo papel como se não fosse
minha. Cheguei a mostrar-lhe os meus últimos trabalhos que não o impressionaram
positivamente. Verdade seja dita que eu também não sentia orgulho neles. Acabei
por lhes pegar fogo.
P: Fogo?
J: Sim, fogo. Um fogo libertador e renovador, algo que
emancipou e quebrou finalmente um ciclo de luto que teimava em permanecer na
minha alma. Foi quando os queimei que libertei o meu irmão. Isto aconteceu pouco
antes da apresentação do meu trabalho, da Revelação ao Caos. Sabe que esse
trabalho foi todo efetuado durante a noite? Pois é como lhe digo, durante a
noite. Quase não dormi durante este período. Descansava um pouco depois de
almoço quando o Poeta se ia embora. Foi este o meu método durante dois meses.
P: E o Poeta?
J: O Poeta era uma presença silenciosa. Cheguei mesmo a duvidar
da sua presença. Não fosse o livro de poemas e eu teria até duvidado da sua existência.
(silêncio durante 9s)
J: Só conversávamos à hora de almoço. Trocávamos impressões
sobre a atualidade. Para ser honesto, era ele que me mantinha a par do que acontecia
no mundo. Uma guerra aqui, uma epidemia acolá, escândalos de perversão consensual
para todos os gostos e sempre dinheiro, muito dinheiro a circular. Enfim, o ser
humano a fazer o que sabe melhor, ser humano. Falávamos, mas sempre sem nos
atropelarmos, mesmo quando não estávamos de acordo. Eram sempre almoços muito
sossegados.
(silêncio durante 13s)
J: Ele passava a maior parte do tempo a observar-me e a
tirar notas.
P: Isso incomodava-o?
J: Não, fazia parte do processo que tínhamos acordado. O
trabalho final ganhou muito com essa observação. Os poemas que ele escreveu
para “do Caos à Ilusão” foram um excelente complemento aos meus painéis. Não que
eles não tivessem valor por si. Na minha opinião até estavam mais bem
estruturados, e o fato de seguirem um guião pré-estabelecido emprestavam-lhe
uma coerência que de algum modo faltava aos que tinham dado origem ao nosso projeto.
P: Q que ficou da vossa relação.
J: Um vazio difícil de explicar. O seu desaparecimento deixou-me
um sabor amargo pois não tive oportunidade de me despedir convenientemente. Ficou
algo por dizer.
(pausa de 5s)
J: Aconteceu o mesmo com o meu irmão…
(a gravação termina abruptamente com o ruído de alguém que
se levantou)