2007-06-14

O que me ficou depois de ter escrito II

Em tudo acertámos, no copo, na casa de banho, no cigarro, no… Sente um amargo na boca, “O gosto amargo é causado por átomos redondos, macios, pequenos, cuja circunferência é, na realidade, sinuosa; portanto, ele é ao mesmo tempo pegajoso e viscoso.”, malditos filosofos, malditos átomos, redondos, macios…O amargo quimico da substância que lhe entrou pela veia, “Por convenção existem o doce e o amargo, o quente e o frio, por convenção existe a cor; na verdade são os átomos e o vazio…”, o vazio…”Demócrito defende que os elementos são o cheio e o vazio; chama-lhes ser e não ser, respectivamente. Ser é cheio e sólido, não-ser é vazio e não-denso.”, tudo se resume a um problema de densidade, e porque não?...
O coração acelera, tem palpitações de esforço. O embolo desce e sobe uma vez, duas vezes, três vezes…E pára! Por momentos as forças vão-se, impossível o gesto, o movimento, perdido no orgasmo que é todo aquele sentir, aquele calor e logo a seguir o arrepio de frio e as forças novamente a voltarem…”Um dia não volto…”. Agora sim, está pronto para enfrentar o carrasco branco. “Onde é que eu ia?...”, estranhou a arrumação, as folhas alinhadas, o repouso da máquina sobre a mesa. Pegou nas folhas como se não fossem suas, como se aquelas palavras não tivessem nascido do contacto dos seus dedos com as teclas, e passou-as uma a uma, uma a uma olhou-as sem as ler, admirando-se da escrita, do contorno preto das estrofes…Nem bem preto…Mais cinzento…”Que bela silhueta…Terá igualmente belas palavras…”…

“Que fazer com o saber que me incomoda
Filosofo do pecado
Irmão gemeo que me ocupas…
Bebe um golo e cerra os olhos com força
Marca a vida antes que ela te fuja
Dá-lhe metade de ti
De mim
Não a deixes ir sózinha…Matéria…”

Não se reconheçe nas palavras, no desabafo feito poema, “Que merda é esta?...”, “Onde está a prosa segura que me caracteriza, onde estão os mestres que deveria evocar?”…”O intelecto actua sempre como se o fascinasse a contemplação da matéria inerte. É a vida a olhar para fora, saindo de si mesma, tomando como principio os caminhos da matéria inorgânica, para dirigi-los de facto.”, “Bergson tem razão…Que fascinio…O intelecto com o poder de ver as coisas separadas e a matéria para as destinguir como diferentes…Será que alguma vez o compreendi? Que me interessa isso agora? Se está certo ou errado…Só me interessa o belo…”, “Porque não me sai bela a poesia? Porquê a amargura…Falso filosofo, falso poeta…”.
Enrola mais um cigarro, acaba de beber o que resta no copo e enche-o novamente, está calor. Decidiu abrir os estores e o sol quase que o cega, “Que bonito dia, que boa essa energia solar, fonte de vida…E de morte…”. No prédio em frente, duas adolescentes numa janela fazem-lhe caretas de nojo. Apercebe-se do seu triste estado, “Aonde queres chegar Raul…Dr. Raul…Professor Raul…Raul?”, afasta-se da janela e apaga o candeiro, refugia-se no fundo de um sofá velho, em pele, de um avó famoso, também ele Doutor, Professor, homem de grande saber, de grande capacidade de trabalho, com extensa obra públicada…”…Ouve bem Raul, sem trabalho nada se consegue. Os sonhos são bonitos mas precisamos conquistá-los.”, “Sim avó.”, ou só o dizer que sim com a cabeça, que idade teria?
O pensamento cortado pela presença de um pedaço de papel, porque não reparou nele? Estava junto da garrafa, agora definitivamente meio vazia. Um pedaço de papel pequeno, bem dobrado, bem cheiroso. Desdobrou-o adivinhando-lhe letras, palavras, frases, sentidos.

“Amo-o Dr. Raul
Amo-te Raul
Não te destruas por favor

Joana”

“Joana…Afinal foste tu…Querida Joana…”


(Continua...Com um abraço para todos os que se dão ao trabalho de por cá passar)

6 comentários:

Tita - Uma mulher, Um blog, algumas palavras disse...

Genial. A genialidade da escrita a que nos habituaste e que cada dia está melhor e melhor. Mais intensa, mais sentida e composta.

Particularmente, esta história traz-me imagens duras, que magoam, recordações que não evitam lágrimas teimosas.
Fico sempre assustada com estas recordações. Sinto medo que o final da história não seja aquele que devido ao heroismo de uma pessoa extraordinária, de facto aconteceu.
No entanto, é sempre um prazer intenso ler-te e a curiosidade para continuação é cada vez maior.

Aquele abraço meu irmão.
Gosto tanto de ti

Suga_Mentes disse...

Olá Guerreiro , tá tudo bem contigo ? Um grande abraço e um bom fim de semana

pb disse...

desconheço a história real que serviu de base a este conto, mas que gostei de ler, lá isso gostei, aguardemos pela continuação, um abraço primo

miruii disse...

Se me abraças, partes-me.
Sou só um mosquito, heheh!
Piquei, fui!

Espirito da Lua disse...

Gostei ,,, esta muito giro;)

Bj Lua

Isabel disse...

Olá Paulo, venho assim que puder ler-te com a calma que mereçes.
No entretanto quis que soubesses que te nomeei para um prémio que tive de dar um nome meu, não gostei do nome dado e expliquei porquê, tipico da minha pessoa.
Passa por lá.
Eu volto aqui correndo assim que puder, quando cá chegar, acabam-se as correrias e é deleitar-me no prazer de te ler.

Um abraço.

Isabel