2014-02-23

Tão Azul

O carro solavanca nos socalcos que o levam para junto do mar, pequeno carro porque pequenas são as pessoas, dois homens, um com quarenta e nove anos e outro com oitenta e quatro. Nada os fez grandes, pessoas que merecessem menção, vivos porque vivos, vivem da vida o que ela dá e deixam dela com acrescento, o pequeno resíduo que permite que ela se torne…maior…maior porque sempre assim é quando passamos por ela, mesmo quando não temos consciência do facto, e de factos está o mundo cheio. Com isto quero eu dizer que são duas pessoas normais, nada de extraordinário os revela, a pequena viatura passa despercebida junto à várzea, talvez não tanto pela pressa que dois automóveis de potência assumida, que como tal também assume poder de compra, para tais utilizadores somos apenas estorvilhos sem valor, objetos que facilmente deveriam ser recolhidos do caminho, mas não fomos e por lá ficámos, obrigando os potentes automóveis a demonstrar na prática o porquê de tão grande cilindrada, um pouco exagerada, é certo, mas isso também faz parte dos acessórios.
O carro que solavanca a estrada velha para a lagoa, solavanca-a de forma pachorrenta, quase que suave, dir-se-ia que comoda e lenta. A conversa que os alegra também os separa, um jogo de palavras à muito estabelecido, por muito que aconteça, pai e filho como dantes, como se pudesse ser de outro modo. Eu não me lembro disso assim, estás enganado, pensa lá bem, eu até falei disso depois e tu deste-me razão, razão é aquilo que não existe na pequena viatura, o que a torna tão alegre, tão displicentemente alegre. E o carro que solavanca rumo ao mar leva aqueles dois seres como se mais nada existisse no mundo, o almoço já tomado o pequeno copo de vinho que também se torna questão, não, aquilo não é só uva, claro que não é só uva, nada é só uva, também é o químico, o anti oxidante que lhe permite o envelhecimento, e os açucares não são da uva e a água e a fermentação de outras coisas e…e a conversa passa para os pinheiros e para a doença que os ataca, que os está a fazer desaparecer da nossa costa, o que irá segurar agora as areias, deviam ter tomado medidas mais cedo, há mais de dez anos que sabiam do problema e nunca fizeram nada, eles nunca fazem nada, fazem sim, o quê, sim, desta vez tens razão, concordamos, sim mas…mas o quê, mas os pinheiros não deviam ser cortados assim, assim como, assim, sem regras que nos fizesse perceber a lógica, como é que sabemos que não estão cortando também pinheiros sãos, não sabemos, temos de acreditar, estás a ver…estou…

O carro para suave junto à praia, ouvem-se os grãos de areia pressionados pela borracha dos pneus, pneus sem marca que os ateste, nada que um verdadeiro alemão aprovasse, quem sabe se feitos na Turquia por entre as montanhas do Curdistão, trabalhassem eles na Alemanha e isso deixaria de ser importante. Sabes que os verbos na língua alemã são fáceis de fixar, para mim nada é fácil de fixar na língua alemã, o problema são as palavras compostas, os conceitos que eles juntam numa só palavra, sim, não me estás a ouvir, estou e também ao mar que hoje está tão bonito, tão azul, sim, tão azul…

2 comentários:

Nuno Manuel Felicio Nunes disse...

Ontem conheci um Senhor... um homem simples, alegre, humilde e carinhoso.
Culto, muito culto.
Sentou-se a meu lado. As horas que passei ao lado dele, foram de um ensinamento tal, de como a vida tem valor.
Deixei-me levar pelo encanto do seu encanto... Recitou, sorriu e a dada altura me disse - "Tenho um filho muito forte", ao que eu retorqui - "Porque tem um pai Guerreiro" !!
Nuno Felício

P. Guerreiro disse...

Bem o podes dizer companheiro!