2026-05-04

Chamo pelo teu nome

         O fluxo sonoro percorre o meu corpo e alimenta o meu coração.

Dele depende o amor que tenho para dar. 

De olhos fechados procuro algo que não sei o que é.

Desligo-me lentamente da matéria que me atormenta;

um pé que adormece, uma mão que se escusa, um corpo que me recusa.

E eu fingindo dormir acabo por ludibriar a vigília.

Quantas vezes repito o ritual? 

Prendo o ar no meu peito,

e conto até sessenta e seis só para ter a certeza.

uma garantia que me permita dizer:

-Sim, ainda continuo a resistir.

Os pulmões ardem-me com o esforço.

Resistir tem um preço.


Seria sempre um cobarde;

um cobarde por não ter escolhido, por não ter insistido, por não ter desistido.

Ter  ou não ter, essa foi a minha questão.

Ser ou deixar de ser, um abraço e um beijo, uma última palavra, um último olhar:

-Adeus.

Perder-me nos teus olhos verdes.

Esperar pelo perdão dos teus olhos azuis.

Não tenho mais olhos por quem chorar.

Os meus olhos são verdes, mas não sei se é o mar que de lá sai.

O  meu rio já não sabe para onde vai, de um lado a serra e do outro o mar,

e eu que teimo em não chegar.


Pedir não é chegar,

e chegar não é partir,

no entanto eu peço não sei a quem.

No  meio da noite só isso me resta.

Umas vezes chamo pelo teu nome, outras não sei.




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