Vinte e oito de Abril de dois mil e vinte seis, data em que comemoro o trigésimo aniversário da minha relação conjugal. A data trás -me boas memórias, mas não consigo comemorá-la convenientemente. Como posso eu confessar esta dificuldade? Apenas porque sou honesto. Sinto falta do sorriso nos olhos da D, do seu olhar sempre tão cheio de vida e de otimismo. Não lhe posso exigir isso, amo-a em demasia. Não, não é uma afirmação descabida. Tem sido um imenso esforço aquele que ela tem dispensado apenas para me manter à tona, mas só quem pode avaliar verdadeiramente esse esforço é quem o faz. O que aparenta ser óbvio é muitas vezes desapercebido. E tudo isto leva-me à porta do hospital onde. O hospital do litoral alentejano está localizado numa zona rural onde predominam pinheiros e eucaliptos. A luminosidade é intensa e inunda todo o espaço circundante. Felizmente a arquitetura do edifício permite que essa luminosidade penetre no seu interior começando logo pela recepção. Sou conduzido suavemente até ao elevador e subimos até ao quarto piso. Mal a porta do elevador se abre sou inundado por uma sensação de bem estar que contrasta com o meu estado de espírito. A D coloca-me em frente de uma enorme janela que ilumina a sala de espera. O silêncio é quase absoluto e sou transportado para outro lugar no interior de mim próprio . Por momentos deixo de me sentir um prisioneiro do meu corpo. A enfermeira M vem ter comigo e acorda-me, de forma gentil e cordial, para a realidade. Sou conduzido ao gabinete do Dr. M. A simpatia com que me recebe deixa-me desarmado. A conversa decorre de maneira agradável e de maneira informal deixando-me cada vez mais à vontade. Fui convidado a visitar os quartos. São quartos individuais com cerca de 15 metros quadrados. Estão equipados com uma cama articulada, uma mesa de cabeceira, um sofá cama individual, uma TV de parede e um guarda fato incrustado. Imaginei-me naquele quarto a viver os meus últimos momentos biológicos. Mas esta não era a ocasião para que tal viesse a suceder. Mostraram-me somente uma das alternativas. Sem querer antecipar o futuro penso fiquei um pouco mais descansado. No entanto, isto não evitou que durante a noite tivesse pedido, não sei a quem, uma morte descansada na minha cama.
2026-04-29
2026-04-27
Mais uma primavera
A primavera presenteou a minha existência com dois presentes distintos. Um devolveu-me a palavra e o outro fez-me acreditar que cada dia vale a pena. Falemos um pouco deste segundo presente; um ninho com dois ovos de rola. Havia duas semanas que as aves andavam de namoro com arrulhares melosos, mas nunca pensei que escolheriam a minha janela. Não imaginam a minha alegria quando levaram a minha cadeira à janela. Eu nem queria acreditar em tamanha bênção. Em vinte seis anos fui visitado por diversos animais mas nenhum me dera o privilégio de assistir ao milagre da vida. sei que estou a ser injusto com as aranhas, formigas, lagartixas, osgas,, vespas, abelhas, isto só para mencionar alguns que por cá apareceram sem que eu lhe tenha descortinado a origem. Mas o ser humano é mesmo assim, repleto de julgamentos e preconceitos. Eu não fujo à regra e padeço de todas essas arbitrariedades. Talvez tenha de cá voltar para polir umas arestas. Para já a minha primavera está preenchida. Abençoada seja esta energia que me mantém vivo.
2026-04-26
Perfeição
A perfeição é impossível e o sofrível é suficiente, tudo depende do referencial. Hoje basta-me um olhar para me sentir completo. Ontem tão pouco, motivo para ânsias e desesperos, hoje é bênção e razão para agradecimento. Perfeição é o que se obtém quando o esforço é honesto, produto do melhor que temos para oferecer. Todos os dias dou o meu melhor mesmo quando esse esforço não é reconhecido, muitas vezes nem eu o reconheço. A perfeição é o que é, um dia sonho possível outro dia desilusão, mas sempre uma quimera. O sofrível basta-me. Sou em toda a minha magnitude, todo o meu esplendor iluminando o meu universo. Que mais posso eu ambicionar? Uma lágrima que escorre descontraída pelo canto do meu olho enquanto escuto palavras de amor "Pai amo-te tanto. És o melhor pai do mundo. Obrigado por seres meu Pai . " . E eu tão sofrido quase que atinjo a perfeição.
2026-04-24
Validação
Depois do testemunho temos agora a validação. Como proceder para validar um testemunho? Será o seu tamanho importante, ou poderemos aferir a sua qualidade através de métricas preconceituosas ou moralistas. Aparentemente podemos usar ambos os critérios, aliás, qualquer critério é válido, porém os resultados obtidos serão substancialmente diferentes. Hoje de manhã, enquanto falava com a minha cuidadora, fui convidado a opinar sobre a longevidade. Contou-me a V que cuidava duma senhora quase centenária e logo estabelecemos que essa vida tinha um valor intrínseco que lhe conferia uma aura de plenitude. Aparentemente uma vida curta é uma vida incompleta que terá sempre de provar a sua importância através de dados subjetivos. Esses dados serão quanto ou mais subjetivo, dependendo de quem os recolhe. Uma vida curta necessita, por esse motivo, de uma aceitação cultural enquadrada no tempo e no espaço de análise. Nada do que aqui foi escrito coloca em questão o valor individual de cada mensagem. Esse valor absoluto não tem em conta métricas de qualquer tipo. Só o Homem, na sua dualidade, se permite tais discriminações. Falamos, pois, de uma validação humana e por esse motivo discriminatória. Para aprendermos, na sua plenitude, um testemunho alheio devemos abstermo-nos da palavra e usar a audição como sentido primordial.
Sim, doutor , hoje acordei para este lado.
2026-04-22
Mensagem
Desde a minha adolescência que penso no meu legado. Cada um de nós deixa um testemunho, uma mensagem para ser lida ou descodicada. Não existem mensagens muito ou pouco importantes, apenas mensagens. A vida é isso mesmo, uma experiência particular e pessoal. Não existem duas iguais e cada uma é válida por si mesma. Não há vida que não possa servir de exemplo, aliás, é sobre esses exemplos que construímos o edifício onde guardamos os pergaminhos contendo a nossa mensagem.
Já adulto preocupei-me com o conteúdo corrompendo o testemunho. Mesmo corrompido o testemunho não perdeu valor pois este existe independente das dimensões de grandeza que queiramos atribuir. Demorei muito tempo até me aperceber do meu erro. Só quando fui confrontado a inevitabilidade do fim da minha existência biológica é que tive consciência plena do meu equívoco.
Sim, doutor, nenhuma mensagem é de fácil entendimento, mesmo conhecendo o mensageiro. E não poderia ser de outra forma. Como poderia eu resumir toda uma vida a meia dúzia de chavões que pecariam sempre por falta de originalidade. Ulisses, de James Joyce, usou mais de uma década da sua existência para narrar um dia da vida do seu herói. A extensão da narrativa depende essencialmente do narrador. É este que define a abertura da janela. A mensagem está lá para ser lida, ela existe por si mesma e continuará a existir mesmo que ninguém a leia. Haverá garantidamente um tempo e um espaço para ela, um lugar imaterial onde se possa afirmar. Não lhe consigo responder se é, ou não é, importante que esse espaço exista. Eu pressinto que assim seja e isso basta-me.
Escusa de me lançar esse olhar reprovador, doutor. Estou finalmente livre de todos os preconceitos, de toda a necessidade de aprovação.
Falta de humildade? O doutor pensa que eu venho ao seu consultório apenas para despejar idéias fúteis disfarçadas de pensamentos intelectualmente evoluídos? Já me devia conhecer melhor, doutor. Eu venho aqui para me libertar do verbo, para libertar o meu coração de todas as mágoas.
Peço desculpa se o ofendi, não era essa a minha intenção. Até para a semana , doutor..
2026-04-16
Voltei com o meu olhar
Bom dia doutor. Há quanto tempo não vinha cá vê-lo. Teve saudades minhas? Não? Não fico admirado. Ter saudades é um luxo que não é para todos. Eu mesmo confundo saudades com lembranças. Será porque revivo todas as lembranças com saudade? Tenho saudades de mim, de todas minhas ações, das boas e das más, de tudo o que foi a minha vida e procuro viver cada instante como se fosse o último.
Não consigo falar muito que me cansam os olhos.
Desde que falo com os olhos que a garganta me dói, seca de tanto silêncio. Todos os dias me lavam os olhos com uma toalhinha embebida numa água perfumada. É esse o cheiro da manhã. Os cheiros identificam a hora do dia. As refeições são referências primordiais, horas sagradas de saudável convívio onde a disposição abunda. Nada melhor que uma boa refeição. Por motivos óbvios estou sempre acompanhado às refeições. ELA segue-me para onde quer que eu vá.
Ainda consigo mastigar e bebo tudo com palhinha, água, vinho, aguardente, cerveja, café, tudo. Não precisa de se preocupar que eu bebo tudo com moderação, sou um verdadeiro moderado, até parece mentira, Doutor. Às vezes não me reconheço em tanta moderação.
Peço desculpa mas já estou cansado de olhar para si, tanta conversa cansa-me os olhos. Prometo ser mais assíduo daqui por diante, o Doutor sabe que eu adoro conversar consigo.
Saio do consultório sem ter noção do tempo ou do espaço, para sempre perdido num amor infinito.
Está sol e o azul do céu é perfeito. A refinaria está calma e na sala onde me encontro ouve-se o motor ao longe. Deixo-me embalar e entro mar dentro...