Novamente acordado – E sempre este desconforto. Abro os olhos para o vazio, para o quarto repleto de objetos impossíveis. Olho para o meu pai e para a minha mãe: ela, tão nova, e ele, tão velho. A culpa é minha, que escolhi assim as fotografias. A televisão continua ligada. No ecrã, os atores matam a granel. O leitor de CDs exibe a duração do último álbum que engoliu. Lá fora, a chuva cai suavemente. Fixo o olhar no teto e faço uma declaração: Universo, natureza de tudo o que existe e não existe, regenera esta ínfima porção de matéria.
Repito a declaração infinitas vezes. Da minha boca, não sai
uma única sílaba. Na garganta, a saliva emite um ruído surdo.
Levanto-me e saio pela porta intransponível. Desço as escadas
a correr. Estou atrasado. Sinto esse atraso dentro de mim, como uma corda
prestes a partir-se.
O corredor ilumina-se com os meus passos. As paredes são lisas
e contrastam com a rugosidade das mãos que as tateiam. Sou puxado para o
interior daquela lisura. Estou numa repartição com atendimento ao público. No
balcão, que atravessa toda a sala, estão duas mulheres de meia-idade. Ambas digitam,
com violência, um teclado de computador. Os impactos são calculados com lentidão,
mas a sua execução é rápida. Sinto-me compelido a interpelar uma delas, mas não
me consigo decidir. Tento encontrar sinais de empatia nas feições antipáticas.
Acabo por me dirigir à que se encontra mais perto. Da minha boca saem palavras
de humilde desculpa. A mulher olha-me por cima dos óculos, transbordando impaciência
e incómodo. Os meus lábios esboçam um pedido de desculpa onde não me reconheço.
Ela levanta bruscamente o braço e atira um dedo indicador na direção da outra mulher.
Dirijo-me, obediente, no sentido ordenado. Estou em frente da outra funcionária,
que repete simetricamente o gesto da primeira. Afasto-me do balcão, apenas para
constatar que ambas riem: um riso estridente, saído de dois buracos negros rodeados
por fileiras de enormes dentes brancos. Saio a correr por uma porta inexistente.
Estou novamente no corredor. Sinto o conforto daquelas paredes
lisas e deixo o corpo escorregar pela sua superfície polida. Alguém chama por
mim. O apelo faz-me levantar e voltar por onde vim. Uma voz feminina avisa-me
do meu atraso e convida-me a apressar o passo. Sinto enorme satisfação por
ouvir aquela voz, ao mesmo tempo meiga e autoritária.
Cheguei ao laboratório. Recebo o turno e começo a trabalhar. Estou
a preparar uma digestão com ácido sulfúrico. Manuseio o frasco com destreza,
enquanto introduzo o líquido viscoso numa proveta. Tudo me parece fácil e
conhecido. Estou sozinho, sou dono dos meus atos e sinto-me orgulhoso do que
consegui. Anoiteceu, o turno acabou e eu caminho calmamente em direção à
portaria. São quinhentos metros de calçada rodeada de relva. Já estou a andar há
algum tempo, mas não tenho noção de me aproximar do destino. Sinto-me a cair e vejo-me
no chão. Estou rodeado por pessoas que me incentivam e estendem as mãos, mas eu
não me consigo levantar.
A via rápida está escura. Tenho as mãos num volante, mas não
sei para onde vou. No meio da penumbra, distingo o meu pai e a minha mãe. Ela,
tão nova, e ele, tão velho.
Nota sobre as alterações de pontuação: Corrigi a
pontuação do último capítulo sobretudo para melhorar a fluidez da leitura e
evitar pausas desnecessárias. Substituí a vírgula inicial de “Novamente
acordado, e sempre este desconforto” por travessão, por se tratar de uma
interrupção expressiva com valor enfático. Acrescentei vírgulas em “ela, tão
nova, e ele, tão velho” e em “No meio da penumbra, distingo...” para marcar
melhor os incisos e a deslocação sintática. Removi vírgulas antes de “e” quando
a coordenação era direta, como em “paredes lisas e deixo” e “levantar e
voltar”, mantendo a cadência mais natural. Também eliminei a vírgula em
“buracos negros rodeados...” porque “rodeados por...” restringe o nome e não
deve ser separado por vírgula.