2026-07-17

Não quero acordar deste sonho 07H00m

 Sete horas redondas. Duas Santíssimas Trindades e eu, um ser pequeno e pouco digno de menção. Mas as contas são assim, e, enquanto cá andamos, merecemos um número. Sempre gostei do sete, número que assenta como uma seta no sentido e na minha solidão. Tem o “S” de sono e de sonho, de Saboga e de Silva, de surpresa e de satisfação. Não é um número para apostar ou guardar debaixo da almofada, que números assim são traidores e de pouca confiança. O meu sete é diferente e tem rotinas muito próprias. Foi aos sete que entrei na escola e, aos cinquenta e sete, que soube que tinha de viver com ELA. Não te lamentes, que estragas a beleza do número e custas a adormecer.

 

Eu não me estou a queixar, mas a fila é extensa e eu tenho pressa. ELA está à minha espera e é muito impaciente. Você não devia deixar que ELA mandasse em si. Eu sei. A minha vida com ELA tem sido um paraíso às avessas, mas a decisão foi de comum acordo. Tenho pena de si. Não tenha, cada relação tem o seu caminho e todos existem com um preceito. Veja! Tenho aqui o certificado que atesta a sua boa vontade. Eu acredito em si, mesmo que não o entenda. Isto não é nada que necessite de entendimento. Desculpe, mas chegou a minha vez.

Avanço por entre a multidão até chegar ao palco. De cerveja na mão, pedi licença à esquerda e à direita. Tenho o peito encostado às grades e canto um poema do Poeta: “Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades, muda-se o ser, muda-se a confiança;”. Assim o cantaste, assim lhe faço eco. Camões agarra o microfone com as duas mãos. A pala levanta-se ao vento, desvendando a cegueira da guerra. Ao seu lado, José Mário Branco acompanha-o à viola. O Sérgio também cá anda com uma viola na mão, e o Fausto exibe os seus dotes com um copo na mão. O Zeca chamou-me e convidou-me para beber um “tinto”. O Adriano chegou depois, com os poemas do Alegre na mão. A noite ainda agora começou…

“Uma varanda, uma gaiola, numa cadeira, uma criança; no olhar, a vã esperança que lhe dá uma pistola;”. Sentado na minha sala, canto as minhas canções. Deixaram de ser um delírio, uma invenção descrita como efeito secundário. Sou eu e a minha viola, sem vergonhas nem pedidos de desculpa. Sou eu com a minha voz, aquela que Deus me deu e que eu aceitei agradecido. Cantarei até que a voz me acabe.
E acabou. Algum dia tinha de acontecer. Ia deste lado da rua quando a perdi. Dei por falta dela quando desejei chamar por ti. Nem olhaste o meu desespero. Calcorreei a rua até de madrugada, mas não a encontrei, nem te voltei a ver.

Voltei ao mar. Braçada a braçada, vou em direção ao horizonte, aquela linha imaginária que simula infinitos. Lanço um braço de cada vez, tentando alcançar o fim de qualquer coisa. Talvez invente uma eternidade à minha medida…

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