2026-07-23

Uma Viagem Junto ao Mar (Sem que ele me possa tocar)

 

Uma viagem junto ao mar (sem que ele me possa tocar)

 

Pé ante pé, o corpo dentro.

A viagem vai começar.

O cinto apertado,

O vidro fechado,

E tudo o que me têm dado

Guardo numa mão que não fecha.

 

A paisagem ao redor

Desliza no vidro encardido,

Verte-se no inseto escondido,

No sangue e no líquido vertido

Que me esconde do Sol.

 

Deixo o meu olhar deslizar

Pelo exército vegetal

Que se perfila em silêncio.

Observo com desleixo

O atavio do pinhal

Mergulhado em incenso.

 

Chego à roda da fortuna

Que dirige os destinos.

Roda que roda a rotunda,

Roda que rodam felinos,

Os meninos peregrinos

Que se deixaram levar

Pela vontade revista,

Pela vontade do mar.

E o mar que se oculta

É cheiro de areia molhada,

Atrito salino de rocha.

Sinto-lhe na pele o rebordo,

A fronteira que o separa,

O continente e a costa.

Vejo ao longe o seu brilho

E a luz que ressalta em azul

Tem uma cor sobreposta.

 

Tenho uma visão paralela

Perto do mar, e na terra

Uma sensação digital.

E na lagrima vertida

Que escorre por dentro,

Restos de maré e de sal.

Abraço com o olhar

O líquido azul derramado

Num amplexo casual.

 

Venho de findada viagem,

De função quase cumprida,

Sem trazer qualquer bagagem

Da lembrança que guardei

Resta-me a celebração

Numa ténue imagem.

Terei sido eu que vagueei

O caminho que sonhei

E em que fui personagem?

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