Quantas vezes acordo durante a noite? Ainda não as contei. Sem registos que me permitam reclamar recordes, limito-me a testemunhar estes renascimentos forçados. Se os escrevesse, quem perderia o seu tempo a ler tal digiscrito? Inventem-se as palavras que se quiserem; nunca serão suficientes para descrever os estados de consciência. O que eu escrevo é infrascrito por luzes vermelhas que sabem ler os meus olhos, mas, à noite, quando os olhos estão fechados por fora, a luz deixa de ter importância.
Encaminho a minha cadeira para a sala de jogo. Tenho um lugar reservado à mesa;
só preciso encontrá-lo. Não tenho pressa: sou um jogador acessório, com um
papel determinado pelo Mestre Organizador. Estaciono a eletropoltrona com minúcia.
As minhas competências estão disfarçadas por deficiências unanimemente aceites
como tal. Espero pelo tempo de existência da personagem inventada. O Mestre manobra
com mestria as matérias ao seu dispor. A floresta desapareceu, e o Grande Rio
ficou para trás. A cidade que se aproxima insinua-se como uma miragem. Os seus
cheiros são inventados, mas a matéria de que consistem é a essência dos sonhos.
Inspiro profundamente antes de falar. As sílabas são articuladas com perícia.
Estou orgulhoso com o meu desempenho. Agradeço com uma vénia o aplauso geral. Volto
a sentar-me e manobro as seis rodas com incentivos verbais. Onde está o meu
quarto? Sento-me à secretária, com urgência de socialidade entrelaçada.
Tenho várias redes à disposição. Qual delas a melhor? Cada uma
preenche uma lacuna da vida; por isso, eu uso todas as que se encontram disponíveis.
Sou um ser completo que só precisa socializar. No ecrã, as interações são seguras.
Podes sempre desligá-lo, mas quem é que tem coragem para tal? Eu, não! Algo me
avisa que, sem ele, não sou ninguém. Escolho uma cara num pequeno círculo e
analiso o candidato. Nada tenho para lhe dizer, mas insisto numa visualização.
De tanto insistir, a pessoa materializa-se no quarto. Procuro um comando que
reverta a minha solidão, que elimine a matéria humana do meu espaço privado. Falta-me
o ar, e não consigo articular as palavras de socorro. De joelhos, encosto a cabeça
no chão em sinal de respeito.
Sinto-me a deslizar pela água. Tenho na boca o sabor do seu sal.
A cada braçada, um apelo ao silêncio. O mar envolve o meu corpo, reclamando a
sua posse. Deveria ter aceitado o convite enquanto podia. Fui rejeitado. Estou
deitado na areia da praia. Ouço o nadador-salvador declarar que não há mais
nada a fazer.
Onde está o meu mar? Apalpo a areia dos meus lençóis à procura
de um destino que ainda não chegou. Por debaixo da cabeça, as algas da almofada
tentam reconfortar a minha desilusão. Estou na cama com ELA, mas, pior do que
isso, estou novamente acordado.
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