2026-07-04

Não quero acordar deste sonho 02H02m

 Abro os olhos para confirmar que não estou a sonhar. Nem sempre funciona, mas desta vez é quanto basta. Estou no meu corpo, este saco de ossos sem utilidade. Quero voltar ao meu sonho, seja ele qual for. Fecho os olhos e procuro um espaço vazio. Respiro com a consciência, e tento sentir o dedo indicador da mão direita. Todo eu sou esse indicador, mas algo impede que concretize a transformação. O meu corpo, quase morto, tem um arremedo de vida num sítio improvável. Um endurecimento involuntário que persiste para além da minha vontade.

 

Será verdade? Tudo tem uma causa, basta saber procurar. A mulher agarra-se à máquina e abana-a com suave violência. Tem o fato-macaco amarrado à cintura e veste uma camisola de manga curta. A sua pele tem a cor do chocolate de leite. Eu permaneço sentado, enquanto a observo silencioso. Ela vira-se para mim e ri. Tem um sorriso maroto, que roça o atrevimento. Eu conheço-a, e retribuo a cumplicidade. O pacote de bolachas teima em não cair. Ela volta a abanar a máquina para a frente e para trás. Os seios tremem-lhe debaixo da camisola branca.

Estou deitado por cima dela. O quarto escuro deixa ver o essencial. Sinto o calor do seu corpo nu, enquanto lhe beijo os lábios tentando acordá-la. O contato com o seu ventre endurece-me até à dor, mas a sua imobilidade impede os meus instintos. Levanto-me da cama, decidido a acabar com o meu sofrimento. Estou na casa-de-banho. Agarro o membro endurecido, quando a ouço perguntar – Porque te foste embora? – Estou a fazer xixi. Volto já – foi uma resposta simpática, que não revelava o meu incomodo. Podia ter dito que estava a mijar, e que não queria que ela me chateasse.

Castiguei o meu membro e voltei ao quarto. Ela vira-se de costas e pede-me para a agarrar. Obedeço e tento adormecer. Que estou eu a fazer na cama com a mão que me alimenta? Como é possível estar a trair a mulher que amo? O “Eu” narrativo desculpa-se com o “Eu” sensitivo. A culpa é dele, se não te levasse ao ato de amolecimento, tinhas feito asneira. Mas, se quiseres, eu invento outra história?

Saio de minha casa, aliviado. Sei que te traí, que vou ter contigo sem uma resposta aceitável. Peço ao meu “Eu” narrativo que invente uma justificação plausível, algo em que ele possa acreditar. Sentados no carro olhamos um para o outro. Espero pelas palavras de ofensa e desdém, mas já não me lembro porquê.

O quarto está vazio e eu continuo deitado. Consigo levar a mão direita entre as pernas, apenas para confirmar que tudo continua na mesma. São duas e quarenta da madrugada e o meu corpo permanece quase morto.

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