A Quantificação tem propósitos diversos e sujeitos independentes. Se a existência é uma entidade una e mensurável, o mesmo pode ser feito com as partes que a constituem. Assim acontece com a revolta. Medi-a cuidadosamente, com requintes científicos, mas não foi isso que anotei; tampouco o seu peso, analisado com incrível precisão e detalhe.
Retirei um pouco de matéria representativa da sua essência e
coloquei-a num copo de ensaio. Adicionei, então, diversos reagentes vulgares,
que todos experienciam no seu quotidiano: um pouco de inveja trasvestida, duas
gotas de indignação concentrada, uma pitada de razão individual macerada numa
solução de verdade absoluta, uma dose generosa de paixão indescritível e, por
fim, 100 ml de injustiça diária diluída em frustração.
Aguardei meia hora e levei à ebulição numa placa de
aquecimento. Por cima do copo, coloquei um vidro de relógio, para evitar
projeções. Aos poucos, a solução desenvolveu colorações que foram da angústia e
do desânimo até se fixarem na raiva e na ira. Os cristais de vingança começaram
a formar-se no meio de um precipitado nebuloso e opaco.
Chegado a este ponto, retirei o copo da placa e deixei
arrefecer. Medi, cuidadosamente, 5 ml da preparação para dentro de um balão
aferido de 25 ml e preenchi até ao traço com aguardente da região. No final,
agitei vigorosamente o balão, tendo o cuidado de aliviar a tampa para libertar
a pressão, e bebi o conteúdo.
O que se segue é o resultado deste processo.
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