2026-07-27

O Meu Sonho

 O meu sonho

 

Sou a água que se derrama do céu e cobre a Terra toda.

Sou o oceano que leva e traz e por isso mesmo sou todos os oceanos.

Tudo o que em mim navega é vida, cada viagem um risco de espuma.

 

Sonho acordado e levo aos lábios o copo onde os líquidos são espaço sem deixarem de ser fronteira.

Quando adormecer o copo estará vazio.

 

Gosto de acordar de copo cheio, todo inteiro para me poderem navegar.

No outono as águas vão-se recolhendo para escorrer na minha janela.

Lá fora a música é líquido e a falta dele.

Navego nas suas ausências.

O meu Porto de abrigo é uma cadeira por detrás de um vidro.

Protegido pela sua transparência não tenho medo de nada.

 

Ontem corri, rua abaixo, de cabelos ao vento.

O ar morno da tempestade que se adivinhava aquecia o meu desejo.

Corri como se mais nada fosse preciso fazer.

Corri e não me cheguei a cansar.

 

Hoje fiquei ao pé de uma árvore.

Tentei percebê-la e por esse motivo permaneci ao seu lado, totalmente imobilizado, só os meus braços abanavam ligeiramente, estremecendo as extremidades das minhas mãos.

Sonhei que as sentia, dedos soltos vogando na minha vontade, à minha vontade.

 

Os meus nervos são cordas de um instrumento precioso.

Tangidas, essas cordas contam a minha história.

Acordes de vida, pontilhados de escalas,

maiores e menores.

 

O meu sonho é feito de improvisos, imprevistos que eu imagino ao acaso.

Já me tentei transcendente, mas não tenho alma para tal; Quantas substâncias ingeridas procurando os limites da perceção.

Tudo não passa de um engano. A minha fantasia não se satisfaz com compostos químicos. Ludibriada, vinga-se mostrando a carne viva por debaixo da pele.

 

Com gestos iniciáticos o homem de negro retira de uma pequena bolsa um punhado de areia.

Num gesto que enleia, laçando os sonhos numa teia, semeia os grãos no vazio.

Não será o meu que irá escapar.

 

No interior do círculo de fogo traçado no chão, as alucinações têm delírios de liberdade.

Fora do círculo todas as portas se fecham.

No seu exterior a emancipação conquista-se derrubando muros e os muros derrubam-se vertendo o sangue das carnes na realidade esventrada.

 

O calor que me sobe no braço nunca mais será o mesmo.

Impossível repetir um sonho de amor.

 

O inverno dissimula os aromas residuais do outono.

Quando a geada eternizar o chão do meu Jardim, eu serei a água que brota do centro da fonte.

Na primavera, a primeira papoila que nascer terá cor do meu sangue.

Por cada malmequer desfolhado, uma decisão entregue ao acaso.

Tal como o meu sonho tudo não passa de uma ilusão.

 

Deixei de ter ilusões.

Sonho com a realidade, e a minha realidade não passa de um sonho.

Sonho-a acordado sempre à espera de adormecer.

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