2026-09-05

A máquina de escrever e o cesto dos papéis

 A máquina de escrever e o cesto dos papéis

 Fui buscar a minha máquina de escrever ao baú das recordações. Tinha algum receio de não poder estar à altura do seu contacto. As suas características técnicas são muito semelhantes às de um objecto musical. Ambos estão disponíveis para as perguntas que lhe forem colocadas. Começo por lhe agradecer a sua presença na sala e, logo de seguida, passo os meus dedos por o seu teclado. Esse contacto permite que a navegação seja efectuada através de uma aceitação prévia do utilizador. A sua eficácia é muito elevada, especialmente quando se trata de uma escrita saudável e escorreita. Procuro evitar acidentes pessoais que não sejam estritamente necessários. Escrevo cumprindo as regras do jogo que estão no anúncio do dia. Afixei-as na parede da sala de estar com medo de não me lembrar dos procedimentos correctos. As folhas brancas são dactilografadas com mestria e requinte. Conforme ficam devidamente preenchidas, com símbolos de natureza duvidosa, são cuidadosamente retiradas e amarrotadas segundo as velhas tradições dos poetas boémios. Ao meu lado, o velho cesto de plástico vai guardando as minhas prosas literárias. Detenho-me, por breves instantes, a observar o afinco do seu labor. Se tiver tempo, um dia destes levo-o a passear ao parque central. Nos últimos tempos tenho reparado que ele não anda com bom aspecto. Ouvi dizer que, quando começam a apresentar um aspecto macilento, é sinal de intoxicação por prolongada indigestão de narrativas mal confeccionadas. Meu pobre amigo, eu sei que te obriguei a jejuns de elevada duração e a uma alimentação de péssima qualidade, mas podes estar certo de que o lixo despejado no teu interior foi lixo humano. Nunca em ti verti dejectos que não fossem produto do meu raciocínio, da imperfeita inteligência que molda o homem que julgo ser. Eu sei que me perdoas. Quem melhor que tu para me conheceres os podres que ocultei. Tu foste o meu leal confessor. Nunca me recusaste nenhum rascunho, por mais perverso que ele fosse, nem vomitaste no soalho as poesias desmembradas que escrevi sem finalidade. Sem dar por isso preencho folhas com desculpas. Continuo a teclar freneticamente e as folhas acumulam-se apenas para serem jogadas fora.

Isto é uma recordação doutros tempos. Hoje o meu caixote do lixo é virtual e as folhas jogadas fora não ocupam tanto espaço.

 

2026-09-03

Santa Maria Fentanil

 Santa Maria Fentanil

 

É dia de consulta. Está marcada para as onze e quarenta e, para não variar, está a chover. É uma chuva de Verão que arrefece o ar com sabores tropicais desajustados. Não vamos sozinhos, uma amizade comum acompanha a nossa jornada e alegra as conversas da viagem. Tudo corre como estava previsto; choveu o que tinha de chover, não havia lugar disponível nos locais reservados aos utentes com mobilidade reduzida, fomos recebidos por um penteado pintado de louro envelhecido e eternamente antipático e, por último, entrei no gabinete onde me penitencio das agruras da vida. O Dr. Eduardo entra no gabinete acompanhado de um médico mais novo e a consulta tem início. Aqui, ao contrário do que aconteceu com Ivan Ilitch, não há espaço para mentiras. Todos sabemos ao que viemos e o enredo decorre com a vulgar normalidade de uma rotina conhecida. Longe vai o tempo das apalpações e dos exames minuciosos. Sentado à minha frente, de perna cruzada, o Dr. Eduardo inicia o questionário que, de forma desajeitada, repete velhas questões: Tem cama articulada, e cadeira sanitária? Tem grua para as transferências? E assistente para a tosse, tem? Usa o assistente de respiração? Tem dores?

Eis a pergunta que eu queria ouvir. Hoje venho disposto a hastear a bandeira branca, “No more heroes anymore”, assumo a subida de escalão e aceito a passagem para um outro nível. Sim, tenho muitas dores, não durmo, nem deixo a minha mulher dormir. Por favor, ajude-me! O Fentanil surgiu em forma de resposta. Finalmente completei um círculo que comecei a desenhar quando tinha dezasseis anos.