Santa Maria Fentanil
É dia de consulta. Está marcada para as onze e quarenta e,
para não variar, está a chover. É uma chuva de Verão que arrefece o ar com
sabores tropicais desajustados. Não vamos sozinhos, uma amizade comum acompanha
a nossa jornada e alegra as conversas da viagem. Tudo corre como estava
previsto; choveu o que tinha de chover, não havia lugar disponível nos locais
reservados aos utentes com mobilidade reduzida, fomos recebidos por um penteado
pintado de louro envelhecido e eternamente antipático e, por último, entrei no
gabinete onde me penitencio das agruras da vida. O Dr. Eduardo entra no
gabinete acompanhado de um médico mais novo e a consulta tem início. Aqui, ao
contrário do que aconteceu com Ivan Ilitch, não há espaço para mentiras. Todos
sabemos ao que viemos e o enredo decorre com a vulgar normalidade de uma rotina
conhecida. Longe vai o tempo das apalpações e dos exames minuciosos. Sentado à
minha frente, de perna cruzada, o Dr. Eduardo inicia o questionário que, de
forma desajeitada, repete velhas questões: Tem cama articulada, e cadeira sanitária?
Tem grua para as transferências? E assistente para a tosse, tem? Usa o
assistente de respiração? Tem dores?
Eis a pergunta que eu queria ouvir. Hoje venho disposto a hastear
a bandeira branca, “No more heroes anymore”, assumo a subida de escalão e
aceito a passagem para um outro nível. Sim, tenho muitas dores, não durmo, nem
deixo a minha mulher dormir. Por favor, ajude-me! O Fentanil surgiu em forma de
resposta. Finalmente completei um círculo que comecei a desenhar quando tinha dezasseis
anos.
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