2026-06-01

A Vida e a Morte do Sr. Jorge - sexto acto; Isabel

 Sapatos vêm, sapatos vão, e por altura dos anos 80, mesmo no começo da década, os sapatos fizeram-se botas, botas de andar na estrada. Com as botas veio o casaco de cabedal do meu avô e uma camisola de malha. Da estrada que separava a minha casa do liceu passei à estrada que separava o bairro do mundo. O mundo, que começava logo ali, parecia não ter fim e por mais solas que eu gastasse não lhe encontrava a fronteira. Mais tarde percebi que o problema era das botas. Elas não conheciam todos os caminhos e eu não as sabia ensinar. Um dia chegará o tempo do entendimento, e quando esse tempo chegar o calçado deixará de ter importância, quando esse tempo chegar caminharei pelo meu próprio pé, mesmo que descalço. Num dossier escolar abro as argolas e coloco 25 folhas de papel de linhas. Nele a primeira insónia e o primeiro armistício. Por essa altura tinha atravessado o portão do liceu e, com o peito cheio de ar, passeava a idade do desconhecimento, da ignorância feita saber. Se tinha feridas no joelho, já não tinha calções para as mostrar. Despontavam pelos nos sítios mais impróprios, próprios das primeiras colheitas. Dessem eles tempo às primeiras estações e deles germinariam as primeiras angústias.

 

Isabel, a minha Santa Isabel, a minha bata branca preferida. A morta abalou e ficámos três, eu, o António, e a Cristina. Ainda não falei dela, pois não? Chegará o tempo em que ela não me deixará dormir, mas isso será no turno do Pedro. Por enquanto só chateia a Isabel, retirando o oxímetro do dedo e fazendo apitar o equipamento que monitoriza a sua oxigenação. Não faça isso dona Cristina, implora Isabel, com o cuidado que se deve ter quando se fala com pessoas que têm idade para ser nossos avós. Antes do fim do turno esse respeito desaparecerá substituído pela exasperação causada pelo cansaço da repetição, ó dona Cristina, já não lhe disse para não fazer isso? Será que tenho de lhe amarrar as mãos? A dona Cristina ri-se por detrás da máscara que a ajuda a respirar e que ela teima em retirar quando não consegue chegar ao dedo onde o oxímetro lhe morde a unha. Tento não sorrir para não enervar a minha Santa, sei que lá para o final do turno lhe irei pedir um ajudante para conseguir dormir. Vêm-me à ideia umas folhas de papel que eu guardava num dossier de argolas. Nelas as minhas primeiras angústias, as minhas primeiras insónias, os meus primeiros demónios. As primeiras palavras em papel nunca tiveram o amor como assunto, nem uma mulher como musa. Tão novo, já com o coração queimado, deixava que a minha imaginação tortuosa se pavoneasse por outros universos. Também não ajudou ouvir Doors pela primeira vez. Malfadado Jim que tão bem soube captar as minhas aflições quando se referiu à supressão sonora da música e me convidou a apagar a luz. Tenho a certeza que foi ele que me levou a escrever as primeiras palavras não escolares. Os meus primeiros poemas não rimavam, não eram quadras, nem sonetos, e ainda hoje não sei o que eram. Tenho-os guardados num dossier que não deitei fora, mas que tenha certeza que ninguém lerá. Quando eu morrer, tudo o que está dentro daquela casa morrerá comigo. Assim é a vida, tanto trabalho a acumular recordações que se tornam lixo logo após a morte. Desculpe Isabel, falar destas coisas, logo a si que tanto faz para me manter vivo. Parece coisa de gente parva, mas verdade seja dita que ultimamente não tenho sido lá muito esperto. Dez anos a viver sozinho não ajudam lá muito, não acha Isabel? A bata branca não está ao pé de mim. A Cristina monopoliza toda a sua atenção, cheia de sorrisos e trejeitos de gozo. Fico com o João e com o Eduardo, ali em meados dos anos 80, quando pela primeira vez tocámos num bar em Lisboa. Fazíamos covers dos Beatles de uma forma minimalista condizente com a nossa falta de jeito e de conhecimento. Quase sou tentado a afirmar que eram versões punk dos Beatles. Foi por essa altura que o Eduardo se perdeu. Logo a seguir ao pequeno concerto e entre duas bebidas deixou-se levar por aquela miúda de cabelos negros e compridos que simulava os perdidos anos 60. A primeira vez que o vi vomitar pensei que tivesse sido por abuso de álcool, mal sabia eu que o caminho era outro. O Eduardo era o único que sabia cantar e conseguia fazê-lo ao mesmo tempo que tocava guitarra ritmo. Tocávamos com um baterista emprestado que variava duas em cada três atuações. O João tocava baixo e fazia as segundas vozes, e eu fingia que cantava enquanto enfiava a cabeça na mão direita para não falhar os solos de guitarra. Que eu me lembre só fizemos um original, música minha e do João com letra de Eduardo, uma coisa básica, mas que continha toda a insatisfação que mais tarde viria a revelar-se na sua vida. Quer que eu a cante Isabel? Ainda me lembro da letra toda. Também não era muito grande, tinha três estrofes de quatro versos e um pequeno refrão:

 

Vou-te levar pela mão

Vou-te mostrar o luar

Levantar-te do chão

Ensinar-te a voar

 

Vou-te mostrar as cores

No meu arco de magia

Não são rosas as flores

No Jardim da fantasia

 

Quando o Sol amanhecer

E eu te poisar no chão

Não serás uma mulher

Nem precisarás de perdão

 

E o refrão era assim:

 

Da minha alma ao Paraíso vai um pequeno passo

Se seguires o meu sorriso andarás sempre ao acaso

 

A música não tinha mais de dois minutos e meio, mas foi a nossa primeira música e eu gostava muito dela. Embora as notas fossem sempre as mesmas, nunca a tocámos da mesma maneira, mais por aselhice e por efeito dos comprimidos que tomávamos, do que propriamente por opção musical. Eu sei que a letra é infantil, mas trauteando-a hoje faz todo o sentido tendo em conta o que foi o futuro de cada um de nós. Apenas o Eduardo era capaz desse arco de magia, apenas ele conseguia atingir esse Jardim onde as rosas não eram flores e do qual eu nunca tomei conhecimento, talvez por perceber muito pouco de floricultura. Não pense que eu era um Anjinho, Isabel, mas a minha imaginação nunca se desenvolveu por efeito psicotrópico. Cada macaco no seu galho, as minhas viagens sensoriais não tinham imagens, mas sons. Sabe enfermeira, nunca fui uma pessoa muito interessante. Mesmo pertencendo a uma banda de rock nunca chamei a atenção de ninguém. Cedo me convenci que teria de arranjar companhia de outra forma. Desculpe-me a franqueza, enfermeira Isabel, mas o que eu quero dizer é que tive de me satisfazer sexualmente nas casas da especialidade, a troco de dinheiro. Nos ensaios apareciam raparigas que gostavam da atenção e do frenesim que o movimento de uma banda atraía. O João e o Eduardo facilmente arranjavam companhia do sexo oposto, isto para não dizer do género oposto, que nesse aspecto nunca deveria haver oposição. Enfim, não estou a utilizar a palavra certa, talvez a minha geração nunca tenha utilizado a palavra certa, mas isso não me serve de desculpa para não ter mudado. Estou para aqui a dar voltas, mas o que eu quero mesmo dizer, é que a companhia era feminina e que embora me atraísse, nunca se sentiu atraída por mim. Esta situação deixava-me com uma inveja de morte dos meus dois companheiros, que facilmente trocavam de companhia, como quem troca algo já usado. Quantas vezes não andei eu atrás de destroços chorosos por terem sido abandonadas? Não vou enumerar essas vezes, mas confesso que foram as suficientes para desistir de procurar no feminino a minha satisfação. Não, não estou a entrar em contradição, para mim o sexo pago não tinha género. A conversa desagrada-lhe enfermeira? Não faça cerimónia comigo, no fim de contas você conhece as minhas entranhas e tudo o que eu digo não é mais que o reflexo verbal de um monte de carne numa estrutura óssea.

 

Olho para o lado e apercebo-me que estou a falar sozinho. Tenho sede e não consigo chegar ao copo de água, que me tenta, apoiado que está na mesa de cabeceira. Por fim verbalizo a minha vontade com uma voz que me pareceu esganiçada. Acredito que tenha mesmo sido esganiçada porque a enfermeira Isabel olhou espantada para mim como se eu tivesse emitido um grunhido, algo inumano digno de um animal selvagem. O que pretende senhor Jorge? Não é preciso gritar assim. Desculpe Isabel. Foi esse o murmúrio que me saiu dos lábios, desta vez tão baixo que a enfermeira não me ouviu. No entanto a bata branca aproximou-se dizendo, diga lá o que quer senhor Jorge, olhe que você não é o único paciente nos cuidados intensivos. Saiu-me uma desculpa que mais parecia uma lamentação, não foi por mal enfermeira Isabel, eu não posso destruir esta ténue relação com a bata que me trata. Não saíram as palavras, mas saiu um gesto que apontou para o copo de água, assim como um olhar que mendigava por este líquido vital. Eu não queria assustá-la, enfermeira. Deixe lá isso senhor Jorge, mas não repita porque pode assustar-me num momento impróprio. Imagine que estou com uma seringa na mão, ou com uma agulha, e alguém grita como você gritou? Já imaginou o que poderia acontecer? Sim enfermeira, mas foi sem querer, saiu-me, a culpa foi das minhas recordações. E o que recordava você senhor Jorge? A minha banda de garagem, o sonho juvenil do sucesso que morreu precoce por não haver argamassa de qualidade que nos ligasse. Se eu melhorar, prometo enviar-lhe uma gravação, é que eu ainda fiquei com uma cassete, algo que servia de cartão de visita para os poucos espetáculos que realizámos. Fica combinado senhor Jorge, quando você melhorar envie-me uma das suas músicas em MP3. Minhas não, da banda. Agora que me lembro melhor, não foi só uma música que nós fizemos. Aquela cassete a que me referi tem pelo menos seis originais. Que estupidez a minha, como poderia esquecer a minha primeira canção completa, letra e música de Jorge Silva. Se calhar é essa que eu lhe vou mandar. Olho em volta e a minha Santa Isabel já desapareceu, novamente de volta da dona Cristina. Maldita velha que me rouba a minha Santa. Não faz mal, há muito tempo que deixei de ter inveja ou ciúme. Já lhe disse que as minhas letras nunca falaram de amor não correspondido nem daquele outro que o é? As minhas letras falavam de sons e de sensações do espaço escuro onde a sonoridade se perde e nos desvenda formas que não conseguimos explicar totalmente. Escrevi aquela letra numa noite de insónia, sozinho no quarto depois de uma noite onde todos encontraram companhia que os levasse a casa. Confesso que nesse dia estava embriagado, foi a primeira vez em que me senti verdadeiramente embriagado, tinha 17 anos. A inquietação era muita e não me deixava deitar, pelo que fiquei sentado à secretária com uma caneta na mão. Com o som no mínimo, coloquei um disco no gira-discos, o meu herói do momento, o Jim Morrison. As referências estavam lá, o abandono e a incompreensão. A sedução que eu não conseguia, que para ele era tão fácil e que ele desprezava.

 

No escuro sou escuro

O som que se cala e que me deixa à beira do precipício

 

No escuro sou o vazio

O espaço por preencher num corpo sem fim nem princípio

 

No escuro ninguém me vê

A irrelevância da minha presença e a minha consciência

 

No escuro à espera de um som

Uma guitarra acende-se e uma voz declama

Outro tipo de transcendência

 

Isto não era bem cantado, era um murmúrio entre guinchos de guitarra e alucinações gritadas pelo Eduardo. Depressa deixámos de a tocar, mas tenho a certeza que o Eduardo adorava esta canção. Confessou-me um dia, num dia de ressaca em que pediu dinheiro para uma dose de heroína. Tenho a certeza que não foi bajulação, mas uma espécie de confissão. Quanto ao João, por essa altura fazia as malas para a Holanda, primeira paragem num coffee shop antes de seguir viagem para qualquer destino.

 

E agora, o Narrador volta a meter o bedelho. Que para mais serve um Narrador, numa história que já tem um? Enfim, como poderá o Jorge saber que João também escrevia, quem sabe numa sebenta branca sem linhas? Nesse caderno, e por esta altura, encontravam-se estas palavras:

 

Acima de tudo o ato,

A resolução capturada no meio de tantas outras.

 

O chão que piso e o horizonte.

Os passos que dou quando atravesso a ponte

E o que deixo os olhos contemplar

Para lá da margem, para lá deste lugar.

 

Tão novo e uma sede tão grande.

O destino, sem quem o mande,

Obrigou-me a abalar.

Darei notícias quando chegar.

 

Sou eu que aqui continuo, a dar cor ao espaço que foi desocupado pelo Jorge. Adormeceu e com ele o silêncio tornou-se definitivo na nossa história. Mais sabe ele que internamente o coração continua fraco e que arritmias se sucedem como premunição de algo fatal. Para já, vai ganhando a batalha, mesmo que não tenha consciência de estar lutando. Só lá para a hora de jantar o João dará acordo de si, com um aperto no peito que mal o deixa respirar. Posso aqui dar conta de todos os esforços da enfermeira Isabel para o retornar à vida. Desta vez conseguiu, não sendo necessário partir nenhuma costela, nem aplicar o desfibrilhador. Mesmo habituada a estas situações, não deixou de se assustar, e a sua cara transpareceu um ar de alívio quando viu a máquina revelar vida. No fim surgiram-lhe na testa pequenas gotas de suor, que ela limpou com o braço nu. Quem sabe, se por brio profissional, mas fazia questão em que ninguém morresse no seu turno. Depois do susto chamou o médico de serviço, que a acalmou, depois de uma breve avaliação ao senhor Jorge. Não te preocupes Isabel, este se morrer é no turno da noite. Isabel, mesmo tendo ficado um pouco mais descansada, não se fiou nas palavras do médico e manteve-se alerta até ao Pedro chegar. Colocou a sua cadeira entre a cama da Cristina e a do Jorge, um olho no burro e outro no cigano. Quanto ao António, sedado como estava, não representava um problema.

 

Tenho o peito dorido, mas não sei explicar porquê. À minha direita, a bata branca encontra-se sentada com uma expressão apreensiva. Não me apetece perguntar-lhe porquê, talvez porque não queira saber a resposta. Sempre ouvi dizer que quem não quer ouvir o que não convém, não deve fazer perguntas. E eu, o que quero eu ouvir? Que sou Eterno? Não me parece, a minha imortalidade nunca foi um problema. Espero serenamente que algo me aconteça, sempre esperei, não está na altura de mudar. Sinto-me fraco, como se os fluxos da vida tivessem diminuído de intensidade dentro de mim. As mãos mais brancas, as forças mais fracas, as carnes mais moles e insipientes. Pergunto a mim mesmo se chegarei a ver o André. Olho para o lado e tento perceber o que se encontra dentro da bata branca, se é a Isabel ou se é o Pedro. A bata branca levanta-se e dirige-se ao balcão. Uma outra bata branca entrou e dirigiu-se à primeira bata branca, àquela que se encontrava junto de mim. Tenho a vista turva, só distingo formas, e cores desvanecidas percorrem o meu campo visual. O barulho silencioso do quarto do hospital tem um efeito sonoro que faz eco na minha cabeça. Apercebo-me da voz do Pedro na bata que acabou de entrar, e isso leva-me a concluir que chegou a noite. Não me lembro de ter comido, mas agora que olho melhor apercebo-me que o soro tem uma cor amarelada e que o meu jantar se encontra naquela miscelânea líquida. Pelo menos é isso que eu penso. Mas não me serve de nada pensar nisso, nunca iria apaziguar a minha fome, mesmo se eu a tivesse. Nunca o pensamento matou a fome, outras fomes terá matado, mas não esta. Estou hesitante, consegui olhar para a mesa de cabeceira e descortino um copo que talvez tenha chá, um chá que já foi quente e que agora está gelado, faz companhia a um pequeno pacote de bolachas Maria. Serão Maria? Que nome terão elas agora? Uma coisa é certa, são mais escuras do que aquelas que eu comia quando era criança, aquelas que eu barrava com manteiga até terem mais manteiga que bolacha. Jorge não ponhas tanta manteiga, divide por outra bolacha. Sim mãe, já com a bolacha na boca e outra na mão preparado para repetir o processo. Sento-me, possivelmente com um ligeiro sorriso, um hastear de extremidades nos cantos da boca, nada que deixe ver os meus dentes amarelados do tabaco e do café. Ai

2026-05-30

A Vida e a Morte do Sr. Jorge - quinto acto; André

 Também tive meias nos pés, meias brancas que se sujaram de lama junto de valas para o saneamento básico. Para mim eram só buracos que se atravessavam no meu caminho. Um dia atravessei-os sozinho em busca da minha mãe. Foi a minha primeira grande aventura. Nunca as meias tinham saído de casa sem companhia. Nos pés as meias significam conforto, um ambiente sem perigos, o porto seguro que é o lar. Qual o farol que me guiava nessa altura, que indicava o caminho a esses pés infantes, ignorantes e inocentes apenas porque não conheciam a moral que determina a culpa. Porque levei eu meias calçadas para o ambiente estranho e hostil? Um dia, quando perguntarem às meias, elas dirão de sua justiça. Haja quem registe o seu testemunho e o inclua na história dos peúgos aventureiros. Mas uma coisa é certa, não são os peúgos quem define os pés, mesmo sendo estes de tenra idade.

 

São 9 horas da manhã e a azáfama é grande. Na cama em frente da minha, uma mulher luta pela vida acompanhada por 3 batas brancas. Aparentemente o pós-operatório não correu como esperado e o coração da velha senhora desistiu perante tanta insistência da medicina. Bata que é bata não desiste assim tão facilmente e por esse motivo foi necessário partir algumas costelas e submeter aquele corpo decrépito e enrugado a diversos choques elétricos. A tudo isso eu assisti, impávido e sereno, imaginando-me aquele ser desistente. Terei eu tempo para agitar uma bandeira branca que permita evitar agressões desnecessárias? Por favor, não quero mais, não batam neste corpo cansado e dorido, por favor mantenham-no íntegro na morte assim como o tentaram manter na vida. Será que foi assim que procederam com a minha mãe, prefiro não saber depois de todo o mal que lhe causei, no fim de contas nunca lhe agradeci. Assim como veio, a velha senhora se foi, tapada com um lençol que lhe cobria o corpo, só que desta vez também a cabeça estava tapada.

 Lembro-me do Eduardo. Não vi quando o retiraram do quarto de hotel, nem sei se a agulha ainda estava espetada na veia de um dos braços, seringa pendurada com restos de sangue de 2 ou 3 lavagens. Lembro-me do meu vizinho, rapaz pequeno e franzino com cara de sonhador. O que é isso de cara de sonhador? No caso do Eduardo era o cabelo  encaracolado disparando em todas as direções, o olhar negro e profundo que adivinhava outras visões quando se encontrava com o nosso, o corpo desengonçado pelo frenesim de uma vida que não se contentava com a banalidade do dia a dia. Vivia 2 prédios abaixo do meu, no número 23. Isto para dizer que o número da minha porta era o 19 o que significava, em termos geográficos, que estávamos localizados sensivelmente a meio da rua. Juntamente com o João fazíamos um trio inseparável, uma espécie de 3 mosqueteiros sem D’Artagnan, um por todos e todos por um na medida do possível. Sim, porque nem sempre era possível, principalmente quando as adversidades se mediam pela força dos oponentes, geralmente os rapazes mais velhos da rua. Mas, como toda a regra que se quer regra tem de haver uma exceção e esta era a única exceção. No que dizia respeito às malandrices havia um pacto de segredo que nem os pais conseguiam quebrar, mesmo recorrendo às técnicas mais ferozes, açoites no rabo, proibição de brincadeiras na rua, dinheiro para rebuçados e pastilhas, idas precoces para a cama, tareias de cinto com fivela à mostra, chapadas na cara e cabeças contra a parede, enfim, tudo o que é necessário para obter uma confissão. Viver tinha o mal e o bem, quem decidia eram eles. Sabia lá eu que esses males eram paixões e que podia modificá-las em virtudes bastando para tal uma conversão que passava pelo assumir da idade adulta numa rendição absoluta à cultura da sociedade que aceitara a minha rendição, todos os meus demónios convertidos em Anjos. Mas na altura quem mandava em nós era o nosso corpo, disso não tínhamos dúvida nenhuma. Corria porque o corpo me mandava, rebolava no chão porque assim ele exigia, testava a minha força porque era essa a sua vontade. Mesmo agora, que me encontro deitado numa cama de hospital, é ele que manda, é ele que me diz para não desistir ainda, não me entregar tão cedo ao mundo para lá da Terra, e deixo que a minha alma transpareça essa vontade. Não sei porque me vêm estas ideias à cabeça, sei que não sou eu, espírito, mas sim a matéria que as provoca. Nessa altura éramos 3 corpos Virgens que resistiam a uma educação imposta prestes a cair nas mãos do primeiro que ensinasse a contrariá-la. Outros corpos com outras vontades. Na  altura essas vontades tinham um nome, o nome de uma banda de música popular anglo saxónica, Beatles. A nossa paixão era a música e as raparigas que corriam atrás dela, a preto e branco, nos ecrãs de televisão. George, Paul and John, desprezando o baterista que viria a demonstrar a sua longevidade. Por ironia do destino gravou este ano um novo álbum aclamado pela crítica. Mesmo que sob um pedestal o baterista ficava lá atrás e o charme estava presente em grandes quantidades na fila da frente. A brincadeira começou com a audição de uma coletânea e resistiu ao passar dos anos. Mais tarde haveria de ser banda com nome português a condizer numa altura que o rock se falava com esse idioma. Mas não é altura de me lembrar dessa história senhor enfermeiro, ainda estamos na primária, talvez no seu último ano, “Verão Quente” a ferver com militares na rua e manifestações a granel pelas ruas da capital. O gira-discos fazia girar a maçã e enquanto cantávamos agarrávamos em vassouras, ou no bate carpetes que se assemelhava ao formato de uma guitarra, e imitávamos os nossos heróis.

 Está na hora do almoço? A carripana metálica chocalha utensílios domésticos, pratos metálicos, talheres ensacados, copos de vidro baços e usados, sobremesas tapadas por película aderente transparente, tudo uma delícia para os olhos, menu dos deuses para quem passa fome. Explico à bata branca que não tenho fome, que a fome que eu passo não é fome, é falta de vontade, enjoo de vida em forma de alimento. Não, senhor Jorge, você não pode ficar sem comer nada, faça um esforço e coma pelo menos a sopa. O André faz-me lembrar o meu filho mais novo, aquele que não me fala e que eu não vejo há mais de 10 anos, por isso eu como sopa mesmo que não haja uma razão válida para tal. Tento lembrar-me do dia em que o meu filho mais novo nasceu, mas não consigo, nem o nome dele me vem à ideia. No entanto tenho uma fotografia lá em casa em que ele está presente no meio de dois adultos sorridentes. Agora que recordo esses sorrisos tenho a perceção de que nunca mais os repeti, perdidos para sempre naquela fotografia. Os álbuns de fotografias são para mim repartições de achados e perdidos onde eu acho o que perdi, muitas vezes sem ter noção de o ter perdido.

 Agora que a sopa já foi, reparo que a sobremesa, gelatina de sabor açucaradamente incerto, também marchou à boa maneira militar, sem vontade nenhuma e de consciência adormecida. Fecho os olhos e ouço a água a correr. Não sei por onde ela corre, mas ouço-a correr e para mim isso basta. Adormeci e quando acordei a água ainda corria e eu mantinha os olhos fechados. Tive medo de os abrir e por causa desse medo fiquei com eles fechados. Ao longe, juntamente com o barulho da água a correr, ouço a voz da Isabel, a bata branca que entra às 4 da tarde.

 E aqui estou eu novamente, o Narrador que está de fora, assistindo de um qualquer primeiro balcão, recordação de outros tempos, que de outros tempos se trata o que aqui se ouve, e por esse motivo posso divulgar o que Jorge escreveu na página 2 da sua sebenta,


Cansei-me da poesia que vê,

Da palavra que inventa sentimentos dentro dos rios

E os devolve secos e áridos

Como se eu nunca os pudesse ter visto.

No outro dia cheguei-me à beira de um riacho,

Coisa pequena e sem importância,

Algo merecedor de desprezo fotográfico

E fechei os olhos.

Ouvi a água a correr

E não pensei de onde ela vinha,

Quais os compostos que faziam dela o que é,

Nem tão pouco se a podia beber.

Limitei-me a ouvir a água.

Não lhe adivinhei direções nem transparências,

Não a supus quente de um sol que não via,

Nem fria do inverno que não veio.

Quando abri os olhos

Olhei para ela,

Não sabia o que escrever.


2026-05-28

A Vida e a Morte do Sr. Jorge - quarto acto; Pedro

 Um dia houve em que troquei os sapatos por ténis. As bolas que rolavam entravam na baliza que eu defendia, 20 passos separados por 2 pedras. Nunca tive uma bola ao poste, essa linha imaginária que eu não percebia onde acabava, mas que acreditava pertencer ao chefe do grupo, ou ao dono da bola. Fosse como fosse sempre corri atrás dela, da bola, bem entendido, como se o futuro não fosse mais que uma invenção. E assim os meus passos conduziram-me à linha de caminho de ferro e à ribanceira no fundo da minha rua. Lembro-me de outras fronteiras, a escadaria até à estrada que levava, passando por baixo da ponte, até às portas de Benfica, e as instalações militares. Sei o nome da estrada, mas não sei porque tenho medo de o dizer. Dos militares nunca tive medo, possivelmente por ignorância, ou por ler muitos livros do Asterix e pensar que os soldados não eram mais que peões nos punhos do Obelix. A guerra ainda era no ultramar e os soldados ainda desejavam felicidades e um próspero Ano-Novo. Ai a minha cabeça que tudo baralha. Saberia eu já do Holocausto? Penso que não. Isso foi antes ou depois do pulôver de malha amarela cuja marca eu me lembro, mas que também não quer dizer. Será Ted Lapidus um nome, ou um cartão de sócio de uma agremiação de janotas?

 

Berlindes, guelas, bilas, abafadores, o que têm estes 3 nomes em comum? Referem-se a um objeto esférico utilizado num jogo de crianças. Jogar ao berlinde, era uma atividade recorrente e que requeria poucos recursos. De plástico ou de vidro, tudo dependia da sua origem. Podiam ser comprados ou simplesmente aproveitamentos. Os abafadores eram sempre de vidro e de tamanho maior. Gostava de jogar às 3 covinhas, pequenos buracos que fazíamos na terra e onde tentávamos enfiar os berlindes. Pelo caminho ficavam os berlindes em que acertávamos, vítimas da fúria dos abafadores assassinos. A corrida ao terceiro buraco era feroz e aquele que primeiro jogava tinha vantagem. nos joelhos ficavam as marcas de terra. Não sei porque sonhei com lobos. Depois dos lobos partirem ficou o Benfica, o cão da praceta, animal protetor que nos acompanhava para todo o lado. Mas o que eu gostava mesmo era quando estávamos sozinhos, eu e ele, o rapaz magricela e o seu protetor. Que revelações não terei eu feito junto daquele focinho húmido. Tirei-lhe muitas carraças por detrás das orelhas. O olhar agradecido do animal nunca mais me saiu da ideia, assim como não esqueci o seu olhar moribundo quando as varejeiras não o largavam e eram pronúncia dos  seus últimos dias. Não sei porque sonhei com lobos, a Lua não estava cheia e o uivar era humano e vinha da cama junto da janela. Mas os lobos teimavam em ocupar os meus sonhos. Negros como a noite só os seus olhos perduravam na escuridão. Sei que eles estão lá, que se abrirem a boca mostrarão fileiras de dentes brancos e aguçados, que lhes escorrerá baba do focinho, e que lhes adivinharei o calor do ventre durante a digestão. Acordo suado e tento ladrar, mas sai-me um uivo tímido, quase um gemido. Naquele quarto somos 2 a uivar numa diagonal que divide o quarto em 2 triângulos escalenos, um ângulo reto e 2 agudos unidos por uma reta que faz fronteira e que define o espaço de cada um. Cheguei a ser dono do mundo. Joguei pneus a arder pelas escadas que eram trincheira e muralha de castelo. Para lá da estrada ficava todo o mundo de ruidosos automóveis, motores uivantes de olhos arregalados na escuridão, dentes afiados nas grelhas cromadas marcadas por símbolos, lobos mecânicos que percorriam os meus sonhos chiando de borracha negra com odores luciferianos, terei eu adivinhado os vapores de enxofre, ou limitei-me a cheirá-los sem ver. Estou suado e não consigo dormir. Sinto um frio desconfortável, mas não tenho coragem para me queixar. Os lobos andam por aqui, as bocas abertas mostrando o fundo dos estômagos, os ventres quentes da morte, largados numa correria desenfreada pelos corredores do hospital. Estou no quintal da minha avó, junto ao cemitério da aldeia. O Quintal só me é permitido enquanto o sol não se põe. Para lá desse limite luminoso os lobos aparecem para proteger as trevas. Sei do poço, da Figueira com o balouço, do galinheiro e da coelheira, da pocilga e da Parreira armada na vereda que dá para as Oliveiras. Sei do muro que separa O Quintal do cemitério. De tudo isso eu sei, e por saber, por tudo isso eu choro, pela privação, pela impossibilidade da viagem, pelo cerco noturno que os lobos, olhos vermelhos de sangue, fazem ao meu castelo. Na casa da minha avó tinha sempre a hipótese de fugir para dentro dos muros protetores da cozinha, a divisão que ficava mais perto do quintal. Lá, no inverno, estava o lar, sempre com brasas protetoras, braços invisíveis que me acolhiam e resguardavam no seu colo. Está frio e sinto o suor nas minhas costas encharcar o lençol que me separa do plástico do colchão hospitalar. Pressinto os lobos para o lado da porta de entrada, por detrás da janela do quarto, dentro da bata branca onde o enfermeiro Pedro desapareceu. Fecho os olhos com força até me doerem, até sentir que as órbitas se fecham sobre mim próprio ocultando a visão para sempre. Tento manipular o passar do tempo, a cronologia lenta das noites no hospital, a existência dos lobos na minha vida. O paciente junto à janela está a ser devorado por dentro. Deixou de gemer, possivelmente porque já não tem pulmões e o ar deixou de fazer ruídos no seu corpo. Será a sua existência povoada por lobos? Se ele estivesse acordado poderíamos partilhar lobos. De longe o seu medo parece diferente. Pode ter uma forma diferente, mas a cor é a mesma. A cor do medo é sempre a mesma, mesmo que estejamos cegos por ela. É uma cor ambígua que permite todo o espectro visível e, quem sabe, também o invisível. Agora que olho melhor, vejo que o paciente tem a cor do medo. Por fora tem a forma do desprendimento, do desapego. É sempre assim o disfarce visível de quem aterroriza, a falsa serenidade de quem atormenta, a armadilha de quem caça. Pedro, o nome na bata branca, voltou. Barricado no seu refúgio Pedro vigia atentamente a sala. Dentro de pouco tempo todos estarão dormindo, ele incluído. Não pretendo ser dissonante e por isso solicito medicação para me tornar indiferente e pactuante. Pedro ministrou-me 2 comprimidos que eu ingeri com ajuda de um copo de água. Abençoada foi a enxurrada que me mergulhou num sono profundo. Mesmo profundo o sono não varreu os lobos da minha cabeça. Ouço-os cá dentro procurando pelo que resta da minha alma. Sinto a carne rasgada naquilo que de mais ressentido eu sou. Estou molhado, ensopado dos líquidos que não distingo. Imagino que seja sangue de uma ferida provocada por raivosas mordidas de lobo, mas não tenho a certeza. Quando era muito novo tinha medo de cães, muito medo, poderei mesmo dizer, pavor. Enquanto muitos se abraçavam ao animal de 4 patas, de braços estendidos e olhos sorridentes, eu chorava. Pode ter sido essa a razão por que fui mordido em tenra idade, dizem que os cães pressentem o medo nos humanos. Não tenho conhecimentos que me permitam afirmar tal coisa, também não foinada que me levasse a pesquisar livros na biblioteca. Poderia ter corrigido o problema com as modernices atuais, uma qualquer inteligência artificial que respondesse às minhas dúvidas, mas não fiz. Para inteligência já basta a minha, que não sendo artificial dá tanto trabalho como se fosse. Mas o que sei eu de inteligência artificial para debitar pensamentos sem fundamento? Sei o suficiente para não me meter nesses assuntos. Quais as paixões da minha vida? Ainda hoje, passados tantos anos, não sei dar resposta a esta pergunta. Ainda não consigo distinguir entre gosto e paixão, prazer e prazer com sofrimento. Agora que o verbalizo apercebo-me de que apenas tive gostos e que os meus sofrimentos nunca tiveram prazer. Estou a ser injusto comigo mesmo, os lobos dentro de mim provocam essa injustiça. De espada na mão sou cego a argumentos, ceifo da direita para a esquerda e da esquerda para a direita sem piedade. Os fluídos arrefeceram parte do meu corpo, mais concretamente as partes baixas. Desconfio que não é sangue que me molha o sexo, mas urina, líquido que não sendo considerado nobre é, no entanto, de vital importância. O que seríamos nós se não houvesse urina, onde colocaríamos esses resíduos amoniacais, esse produto da lavagem do nosso corpo? Teríamos de esperar pelos anos 60, por um autor que, sob efeito de estupefacientes e alucinógenos, escrevesse um romance de ficção científica onde um povo no deserto sobrevivia através da regeneração da urina. Não é esse o meu caso, a minha urina não é novamente absorvida pelo meu corpo. É guardada em recipientes para depois ser descartada ou analisada. O saco que me alimenta contém uma mistela amarelada, caldo de várias substâncias que me mantêm vivo sob alimentação forçada. Mas que interessa isso, agora que me encontro literalmente ensopado em urina? Valerá a pena acordar o Pedro que dorme, Pedro que descansa enquanto devia velar? Melhor será esperar pela manhã. Sinto-me pequeno, muito pequeno, com medo do escuro, esperando que alguém me acuda. Mãe vem cá, olha para mim que estou todo molhado, muda-me a roupa e leva-me para a cama contigo. Eu sei que tens a cama vazia, que o pai foi trabalhar e que não te pode aquecer. Nunca serei pai, mas poderei ser o filho que sempre te amará. Também  na altura esperei pela manhã, gelado de fluídos amoniacais. Por que não me acordastes, Jorge? Estás todo ensopado, não admira que depois fiques doente. Olho-te envergonhado, sem coragem para te dizer que te amo, sem coragem para te dizer que queria o calor do teu corpo. Seria errado dizer-te isto, mãe? O padrão de símbolos azuis pintados na parede deixa-me desconfortável porque me faz lembrar o mar, e a sua humidade nas minhas partes baixas assadas pelo líquido que já foi quente. Faço um esforço para me lembrar dos teus gestos, mas tudo o que recordo é o teu rosto. Sinto a tua falta, o teu abraço à janela do quarto nas noites de falta de ar. Regulava a minha respiração pelo bater do teu coração e o ar voltava a circular nos meus pulmões. A magia da tua maternidade, pressuposto de ser mãe, parte de uma determinação inata que a todas as mulheres pertence e que foi sedimentado na sociedade desde o começo dos tempos, ainda hoje me fascina. Na altura só queria o teu calor e toda esta retórica não me pertencia. Penso que foi nessa altura que aprendi a gostar do silêncio, mas não tenho a certeza, nunca gostei de certezas. Perco-me no meu sonhar e não sei se durmo, se faço vigília. A bata branca acordou e neste momento olha para mim. Involuntariamente sinto-me culpado e estou prestes a confessar. Sim Pedro, fui eu que urinei na cama, fui eu que não o chamei, se calhar vou ficar doente e se ficar a culpa é minha. O que quer que lhe diga, não senti o apelo da maternidade na sua bata branca, não quis o seu calor nem o seu pregão acusatório. Desconfio que uma das funções dos enfermeiros é serem detetives. Como explicar que ele sem dizer nada levantou os lençóis da minha cama para se certificar da minha incontinência? Limitou-se a piscar o olho na minha direção e a comentar, não se preocupe senhor Jorge vamos já tratar disso. O “vamos já tratar disso” referia-se à auxiliar, moça demasiado nova para me deixar à vontade com o manuseamento que fez do meu corpo. Não porque algo tenha crescido em mim, porque em mim já nada cresce, mas apenas pela beleza que a moça apresentava àquela hora da madrugada, uma beleza celestial digna da origem dos tempos, digna dos deuses. Com mãos hábeis a rapariga limpou e trocou os lençóis sem me retirar da cama com uma desenvoltura digna de louvor. Tão nova e tão competente, pensei. Poderá um ordenado mínimo compensar esta competência? No meu entender estas competências nunca são bem remuneradas, logo nunca são bem reconhecidas. Voltei a adormecer e só acordei quando levantaram as persianas. A bata já tem outro nome e as 2 camas que se encontravam vazias encontram-se agora ocupadas.

2026-05-27

A Vida e a Morte do Sr. Jorge - terceiro acto; Isabel

 Não sei quando calcei os sapatos pela primeira vez, mas de uma coisa tenho a certeza, nunca mais fui o mesmo. Sem querer aprisionei as minhas sensações mais imediatas e desaprendi o chão que pisava. Julgando-me protegido comecei a olhar em frente, a encher o peito e a julgar-me decente. Sem querer tinha mordido a maçã. Toda a minha juventude cuspi caroços sem saber que o que cuspia eram porções de mim. Naveguei na puberdade como um barco de papel num esgoto a céu aberto. Sem chão para pisar comecei a ler, e como não sabia ler inventei nas entrelinhas tudo aquilo que não percebia. Desse tempo os braços estendidos e as cruzes, os uniformes e o desencanto do amor. Nunca entendi a revolução até perder a virgindade. Foi num canto de um café que me converti, mas isso é outra história.

 

O uniforme branco reparou em mim. Olhou-me e sorriu antes de se aproximar. Transportava dentro de si uma mulher muito bonita que teria pouco mais de 20 anos. Lembrei-me do meu primeiro amor e das noitadas no liceu. Talvez 75, processo revolucionário em curso, 10 anos de idade passados entre a escola primária e a sede do Movimento de Esquerda Socialista. Gostava tanto de me recordar do seu nome, mas apenas a memória da sua silhueta deitada na relva perdura em mim. Estava escuro e os arbustos escondiam a minha ansiedade. Tinha mais 2 anos que eu e deixava-se tocar guiando a minha mão pelas suas intimidades, um peito precoce e um ventre de onde despontavam as primeiras flores. Não me lembro de ter tido uma ereção, apenas os meus dedos tinham sensações. De olhos fechados tentava imaginar o que tocava. Procurei repetir a experiência, mas nunca mais o consegui. A sua anatomia era disputada por outro amigo, e o que me calhou em sorte, não me bastando, serviu para despertar os primeiros desejos. Naquela altura o liceu tinha aulas à noite e a mãe da rapariga trabalhava como auxiliar no período noturno. Nem sempre a levava, e nem sempre a podia ter só para mim, mas aquele dia ficou para sempre gravado nos meus dedos, mapa de um tesouro que não aprendi nos livros.

 

Isabel, é esse o nome da mulher que veste uniforme branco. Leio o nome na bata e tento balbuciar as sílabas que o compõem para lhe dar dimensão e corpo. E que corpo, mas o que mais me impressiona naquela mulher são os olhos, de um verde-esmeralda que ofusca tudo à sua volta. Chamo a sua atenção e peço-lhe não sei o quê apenas para lhe ver os olhos. Está tudo bem senhor Jorge? Precisa de alguma coisa? Respondo-lhe que sim, que está tudo bem, e que preciso de alguma coisa. Se tivesse ficado por aqui ambas as respostas correspondiam à verdade, mas eu especifiquei a minha necessidade e aí, menti. Disse-lhe que tinha sede, a primeira coisa que me veio à cabeça, talvez por ser a necessidade mais básica. Não tive coragem para lhe dizer que estava apaixonado pelos seus olhos. Enquanto bebia, com a sua ajuda, perdi-me naquele verde e recuei no tempo. Tinha uma mala com asas e carregava-a às costas. Não era uma mochila, nem nada que se parecesse com isso. Apresentava uma etiqueta de uma conhecida marca de material escolar, Âmbar. A mala era castanha e fechava com fecho de mola. Quando corria, os cadernos bandeavam lá dentro provocando-me uma sensação de desconforto. Frequentava o segundo ano do ciclo preparatório e as aulas eram divididas entre os barracões verdes e a nova escola recentemente construída. O contraste era enorme. De um lado tudo cheirava a novo, atravessava-se a estrada e parecia que tínhamos entrado num campo de concentração. Sempre fiquei com essa ideia. Não me lembro de ter amigos na escola, talvez um, mas esse conhecia-o da minha rua. Enquanto olhava para a Isabel a escola ia-se tornando mais real e por lá apareceu aquela miúda loura de casaco de malha branco, ou pérola, com um cheiro doce de casa aconchegada. Apaixonei-me à primeira vista. Mais tarde, quando me disseram que isso era quase impossível, nunca fui capaz de os contrariar, mas sabia que podia ser uma realidade, pelo menos foi a minha realidade. Foi a primeira vez que sofri, e que passei noites em vigília ansiando pela manhã, pelo chegar à escola, por senti-la perto de mim. Mas nunca a tive perto de mim, ou pelo menos assim me lembro. Nunca tive coragem de me sentar ao lado dela na carteira, e se o fiz foi na aula de desenho porque o professor tudo baralhava para não criar maus hábitos. Cheguei a segui-la de longe, daí saber que morava no edifício Oeiras, o maior edifício da cidade, com 15 andares, ou coisa parecida. Tento lembrar-me de qual o andar onde, numa janela, aparecia luz alguns minutos depois dela ter entrado no edifício. Um dia acompanhei-a casa, mas apenas porque ia com o meu amigo Rui, o tal vizinho que morava com um tio, mas era de Setúbal. Foi a primeira vez que fiz de “pau de cabeleira”. Tive ciúmes, ganhei-lhe raiva, e acabei por me afastar dele. Dela guardei memória de uma grande desilusão, mas também da minha cobardia. Aquele namoro acabou por durar pouco tempo, mas o trauma que me provocou não me deixou ver nesse fim uma nova oportunidade. E este foi apenas o primeiro. Foi no ciclo que fumei o meu primeiro cigarro e que mascarei o sabor comendo cascas de tangerina, algo horrível, mas que compensava pela sensação de que estava a enganar os meus pais. Fumei um SG ventil que me deixou azamboado e agoniado. Não sei se o fumei todo.

 

Apercebo-me que estou novamente sozinho. A enfermeira Isabel saiu de ao pé de mim e encontra-se ocupada com o outro paciente, aquele que se deita na cama junto à janela. Aparentemente o homem passa mal, qualquer coisa a ver com o pâncreas, o fígado, e a dependência alcoólica. Isabel pediu ajuda a um colega e ouço-os conferenciar sobre a melhor maneira de acalmar a dependência do homem. Aparentemente sedaram o homem na noite anterior, mas a Isabel tem dúvidas sobre a repetição do processo e confidencia essas dúvidas ao seu colega que lhe confirma ser essa a melhor maneira de passar o resto do turno tranquila. O homem encontra-se agitado e debita palavreado avulso e sem nexo. Diz-se importante e ameaça fazer queixas a todos e mais alguns, primeiro à filha, depois ao genro, e por fim à polícia. Não me sentisse eu apaixonado e outras memórias me chegariam.

 

A enfermeira Isabel está agora menos ocupada. O senhor António está mais sossegado. Tem um tubo que lhe sai da mão e vai até um frasco com medicamento. A magia do medicamento dentro do frasco transformou o senhor António numa pessoa serena. Deitado na minha cama invejo essa serenidade enquanto observo o gotejar do soro subvertido em droga. Gota a gota confundo os meus pensamentos no líquido dentro do pequeno cilindro que separa o frasco com medicamento do tubo ligado à mão de António. Só agora reparei que por cima do balcão existe um relógio. Ainda não sei, mas será essa a minha lua particular. Quando a noite tomar conta do quarto, o branco do mostrador será referência. Nele os números serão vales e montanhas e os ponteiros rios inexistentes levando partículas de tempo que irão sedimentar na madrugada.

 

Fechei os olhos e acho que estou a dormir. Estou debaixo de uma mesa e a toalha que a cobre permite-me um refúgio seguro. Não estou sozinho. A rapariga que está comigo mora no terceiro andar. A imagem, já de si diluída, desvanece-se por completo, como se não pertencesse a este turno. Ao mesmo tempo ouço um rolar acompanhado de um chocalhar metálico. Talvez por isso abri os olhos e inclinei a cabeça na direção da porta. A enfermeira Isabel, apercebendo-se do meu gesto, sossegou-me. Não se preocupe senhor Jorge, o jantar está quase a chegar. Acho que sorri, pelo menos assim indicia o olhar cúmplice que Isabel me devolveu.

 

Tive direito a uma canja sem sal e a uma fatia de pão. Acordado o tempo passa devagar, tão devagar que já fixei os pormenores da minha cama. Antes de apagarem as luzes distribuem um chá e umas bolachas. Enquanto como as bolachas fecho os olhos e tento recordar-me dos pormenores que fixei. Apercebo-me que afinal não fiz um bom trabalho. Falhei nos botões do comando elétrico que permite a cama adaptar-se ao meu corpo. A bata branca trouxe-me um comprimido, tome senhor Jorge, vai ver que descansa melhor. Abro a boca e agradeço a gentileza com os olhos. Depois de dois golos de água e um engasgo consigo arremedar um adeus que me sai sibilado entre os dentes. Uma nova bata apresenta-se ao serviço e substitui o meu anjo de olhos verdes. Procuro um nome na bata, algo mais que a distinga, algo para além dos olhos e do sexo. Pedro, é o nome que identifico no meio da escuridão e que dá nome àquele jovem de barba rala e pele bexiguenta. Será ele a velar por mim, serei eu o seu cordeiro. Durante toda a noite sonhei com lobos, e mais qualquer coisa.

2026-05-26

A Vida e a Morte do Sr. Jorge - segundo acto; André

No início os pés caminhavam sobre a relva fresca que crescia em liberdade. O sol, no céu azul, indicava o dia mediano, quando, na vertical, obrigava a uma observação perpendicular. Nesse tempo as articulações acabadas de nascer exercitavam-se em movimentos juvenis sedentos de saber. Se das nuvens caía água era motivo para rir até que as lágrimas de um choro carregassem os pequenos riachos que se formavam nas ruas e desaguavam nas sarjetas. Algumas vezes fiquei eu olhando para dentro da sua escuridão procurando decifrar os caminhos que ela me escondia. Para lá dos passeios fui correndo atrás do que não via, mas que sabia por debaixo dos meus pés. Nesse tempo sabia o que era sonhar e inventei todos os mundos. Nunca conseguirei quantificar a amplitude da minha quimera. Quisera eu ser, sem preocupações, medos ou anseios.

 

É de dia e já abriram as persianas das janelas. Pressente-se a azáfama fora do quarto, mas aqui tudo está calmo. O homem de branco já acordou e ocupa-se com a papelada. Passou a ronda pelas camas, verificou sinais e gráficos, cateteres e tubos, sinais estranhos de fluidos orgânicos, pulsações e respirações, testemunhos de vida que lhe garantam uma passagem de turno tranquila. Sinto necessidades, mas não me atrevo a confessá-las. Aperto a bexiga com força, com músculos que desconheço, mas que sei que existem dentro de mim, e com isso acalmo vontades orgânicas, possíveis incontinências que assim se submetem à minha vontade. Ainda ninguém me disse, ou pelo menos disso não tenho conhecimento, mas sobrevivi a qualquer coisa. Terá sido um enfarte? Um AVC? Qualquer outro acidente crítico? Não sei. Se me disseram, se me explicaram e discriminaram porquês, não tomei disso conhecimento, talvez preocupado em manter-me vivo. Seja como for, aqui estou deitado numa cama, aparentemente de boa saúde e com controlo dos movimentos. Ainda não tentei falar, tenho medo de não conseguir fazê-lo. Sempre ouvi dizer que há falhas que tiram a capacidade de nos podermos exprimir. Mais do que as de movimento, são estas que me assustam, não poder dizer ao que venho, não poder dizer o que quero, e o que não quero, expressar vontades, que em última análise são a razão de viver. Tenho-me quieto, preso numa ansiedade que me consome. Acabei por adormecer. Não sei quanto tempo dormi, mas acordei com a voz de alguém que chamava por mim. A voz pertencia a um uniforme e esse uniforme tinha um nome, André. Ouvi-me dizer qualquer coisa, mas não tenho a certeza se o som das minhas palavras teve eco nos ouvidos do uniforme branco. Presumi que sim, pois a cara sorridente de um jovem dos seus 35 anos respondeu-me dizendo que iria tratar já do assunto. Apercebi-me de que lhe tinha pedido para me ajudar a urinar, pelo recipiente com que ele abordou as minhas partes baixas. Envergonhado comentei qualquer coisa, algo sobre o meu nascimento. Lembrei-me de ter ouvido falar desse momento, de ficar escrito que nasci na madrugada de dia 25 de abril de 1965, na maternidade Alfredo da Costa, freguesia de são Sebastião da Pedreira, concelho e distrito de Lisboa. Julgo que o disse ao enfermeiro André. A minha mãe sangrou até morrer, ou quase, visto nunca ter recuperado completamente a saúde após o meu nascimento. Devo-lhe duplamente a vida, mas não me lembro de lhe ter agradecido a bênção. Sabe, André, é que eu nasci com a saúde debilitada, pulmões fracos, alergias várias, brônquios entupidos, e uma propensão apaixonada por constipações gripes e viroses afins. Não foi por isso de admirar que uma broncopneumonia me atirasse para a cama e quase me matasse. Ficou dito na minha Memória que tinha dois anos quando isso aconteceu e para mim essa história tornou-se a minha realidade. Não me pergunte outra memória porque não a tenho. Memórias vividas tenho-as, mas são outras. Adenoides, amígdalas, gelados, expetorantes, papas de linhaça, Vick Vaporub, supositórios, óleo de fígado de bacalhau, gemadas com cerveja preta e açúcar, noites à janela com falta de ar, visitas avulsas ao hospital, e vacinas, muitas vacinas. Estou a chateá-lo com a minha conversa, senhor enfermeiro? Não, senhor Jorge, até estou a gostar de o ouvir, assim tenho a certeza que você está vivo. Não leve a mal senhor Jorge, estou a brincar consigo. Claro que não, André. Posso tratá-lo por André? Claro que pode senhor Jorge, você podia ser meu pai. Sabe que o meu pai tem a sua idade? Claro que não se sabe, como podia você saber se eu não lhe tinha dito? Ouço-me a falar de mim, da minha infância. Agora já não falo das doenças. Um recanto na Amadora, paredes meias com uma encosta verde, uma casa de três assoalhadas, um hall de entrada, uma cozinha, uma despensa, e duas casas de banho, um luxo que na altura custou 160 contos. Mais uma vez a Memória é implantada. Estou a falar dos 160 contos que me foram contados, conto a conto, prestação a prestação numa altura em que um ordenado de 2000 escudos era um luxo. O rés do chão ficava para as traseiras que ainda não estavam urbanizadas, quero com isto dizer que eram um baldio entre dois prédios. A entrada principal dava para o passeio e para um pequeno largo em terra batida circundado por um muro que sustinha um pequeno barranco, fronteira para o nível superior por onde passava a estrada. Quem por ali andasse vindo da direita para a esquerda iria dar a um beco sem saída. Olho à minha volta, estou sozinho, quer isto dizer que o André está sentado por detrás do balcão e o ocupante da outra cama queda-se enfermo, fechado nas suas doenças. Continuo a ouvir-me e não paro de falar. Já me lavaram, mas não dei por isso. A esponja com detergente verde circulou pelo meu corpo, manejada por mãos experientes. Esteve nos meus pés, nas minhas pernas, nas partes íntimas, na barriga e no tronco, debaixo dos meus braços e, possivelmente, também na minha cara. Como posso eu ter deixado tocar assim no meu corpo sem uma palavra de agradecimento ou de apreço, sem um nome ou uma imagem para recordar? Sinto a criança que fui, enleada num abraço de luta. Sinto o hálito a leite com chocolate e a crosta de uma ferida junto aos meus olhos. É uma luta de força em que a submissão é o objetivo. À minha volta ouço vozes de incitamento. Estou nas escadas de um prédio, arena de batalhas juvenis. É aqui que se decide a hierarquia dos mais jovens. Os mais velhos decidem-na em jogos mais perigosos. É o Mário que luta comigo, mas já lutei com o Eduardo e com o João. A luta está equilibrada e não se decide. À nossa volta os mais velhos começam a impacientar-se e dão-nos pontapés para ver se a balança do combate se inclina para algum dos lados, mas o nosso abraço é mais forte e o equilíbrio prevalece. No fim, nenhum de nós venceu, e havendo necessidade de humilhação, humilharam-nos aos dois. Acabei a tarde a lanchar na casa do Mário e a jogar O Jogo da Glória. Mesmo quando alguém ganhava, esse alguém tinha um momento de glória muito curto. O espetáculo oferecido tinha de ser repetido inúmeras vezes até que o respeito fosse conquistado. Acabávamos vezes sem conta na casa uns dos outros compartilhando fatalidades e jogos pueris. Foi assim que fizemos uma cabana de madeira e criámos um clube. Um cão por doze e quinhentos, coisa que hoje parece pouco, mas que na altura era toda uma fortuna quase impossível de alcançar. Já não me lembro de quantos éramos, mas lembro-me do Zé Alberto e do Mário. Lembro-me também do Lord, nome que demos ao cão para que ele se distinguisse entre os demais rafeiros da rua. Para não ficarem atrás os donos do seu irmão batizaram-no de Nero, triste nome se pensarmos no incêndio de Roma. Por ironia do destino o Nero foi atropelado ainda novo e passou o resto dos seus dias a coxear perdendo a dignidade que o nome lhe emprestara. Assim se prova que um nome não faz o destino daquele que o carrega, isto se considerarmos o primeiro, já o último poderá trazer algo mais ao fado de cada um. De qualquer maneira, se a guitarra que toca for fatalista, não haverá nome que o salve. Assim é a vida e sempre será, nomes e desejos à parte. A vida é um jogo de decisões e infortúnios cujo final é sempre o mesmo. Também assim aconteceu ao nosso clube, morte prematura apenas com alguns meses de existência. Acabada a construção da cabana foi altura de definirmos algumas regras. Só havia uma chave e o Zé Alberto ficou com ela, muito por influência do seu pai que foi quem nos ajudou a construir a cabana. Mal sabíamos nós que ela serviria de abrigo às ferramentas do pai do Zé Alberto e que nós seríamos expulsos da nossa sede. Mas na altura lá definimos uma senha para entrar, regras de conduta que incluíam a confidencialidade de tudo o que se passava no clube, por ironia do destino tudo tão igual à primeira empresa onde trabalhei, multinacional de interesses obscuros em vários continentes. Ainda lá fizemos umas reuniões para delinear projetos de aventura. Ainda lá jogámos ao monopólio e a outros jogos de tabuleiro. Do clube ficou o Lord, que acabou na casa do Mário com a mãe deste como tutora do canino. Ai André, se eu lhe contasse tudo o que fazíamos nunca mais saía desta cama de hospital.

 

O médico veio visitar-me perto da hora de almoço. Senhor Jorge, disse ele, você teve um ataque cardíaco. Disse-o sem olhar diretamente para mim, com uns papéis na mão, de olho já na próxima cama. Teve sorte, continuou ele, aparentemente não ficou com lesões, mas o melhor é pôr-se a pau, você fuma, bebe, se sim o melhor é pensar em acabar com isso, e a alimentação também tem de ser corrigida, a julgar pelas análises que eu aqui tenho. Colesterol, triglicéridos e os açúcares, estão bem lá em cima. Vamos deixá-lo em observação mais uns dias nos cuidados intensivos, não vá à máquina pregar-lhe mais alguma partida. De seguida virou-se para o enfermeiro e continuou, mantém-no a soro. Quero repetir a eletrocardiograma que lhe fizeram ontem e também as análises ao sangue. Comida de dieta e descanso, amanhã passo por cá. E assim se despachou o assunto do senhor Jorge Silva, o paciente na cama número 1 logo a seguir ao balcão. O senhor Jorge Silva sou eu.

 

É costume dizer que o tempo voa quando ele, sem peso, passa por nós e leva um pedaço da nossa vida sem darmos por isso. Quando a convalescença é curta e lutamos pela sobrevivência sem termos de isso consciência, também o tempo voa, carregando coisas que mais tarde nos farão falta. Assim aconteceu com o Jorge, o qual não deu pela mudança de turno. Saiu o André e entrou outra bata branca à qual o Jorge não deu importância. Talvez tenha dormido, ou apenas fechado os olhos. Só ele saberá dizer o que aconteceu. Muitas vezes, de olhos fechados, fingimos dormir para não nos incomodarem. Jorge, como todos os portugueses, é um poeta sem saber. Quer isto dizer que o seu pensamento é intrinsecamente poético, mesmo que ele não tenha disso consciência. Jorge escreve poesia numa sebenta de folhas brancas e sem linhas. Muitas vezes o seu sono é povoado de pensamentos poéticos que ele teima em ignorar, convencido que estes se resumem a ruídos que ele converte em sonoridades conforme os ritmos sonhados. O som é a zona de conforto de Jorge, e ele sentiu-se confortável durante todas aquelas horas que vagueou entre o fingimento, a vigília e pequenos fragmentos dos quais não se lembra, e que por isso mesmo poderemos considerar que foram períodos em que dormiu. Talvez que um dos seus poemas possa explicar melhor a relação que Jorge tem com a escuridão. Eu, que agora me assumo como narrador, tenho acesso a essa sebenta e estou prestes a cometer uma inconfidência que ele, tenho a certeza, não iria condenar se dela tivesse conhecimento. Assim sendo, aqui vai o desvendar do véu literário. Vejamos então o que ele escreveu na quinta página da sua sebenta:

 

Quando cego os olhos,

vou aonde as minhas mãos não podem ir.

Consigo ouvir as palavras despidas do seu significado,

e por não pensar,

viajo no seus ritmos e melodias.

Dessas viagens trago a liberdade do que senti,

e do que senti,

a liberdade de nada ter visto.

 

Agora, de olhos abertos, Jorge procura recuperar o tempo perdido e identificar o uniforme branco. Por detrás do balcão o uniforme branco levanta-se revelando o corpo de uma mulher. Tal como o outro, este uniforme tem um nome, Isabel.

 

 

 

 

 


2026-05-25

A Vida e a Morte do Sr. Jorge - primeiro acto; Maria

A ambulância do INEM entrou na rua sem pressa e estacionou defronte a uma moradia decrépita e manchada de humidades. O amarelo-pálido do edifício deixava antever a falta de cuidado a que os seus donos a tinham votado. À porta de entrada uma velha senhora, tão decrépita como a casa que guardava, recebeu com frieza o médico e o enfermeiro acabados de sair da viatura estacionada, pirilampos azuis atestando da sua urgência. O homem estendido no chão do Wall de entrada encontrava-se imóvel e a sua cor, mármore acabado com o tempo, não indiciava nada de muito favorável. Foi por isso que o médico ao debruçar-se sobre o corpo reagiu com surpresa ao ligeiro soprar que saía das fossas nasais do homem inerte. De alguma forma estava preparado para declarar um óbito e despachar o assunto, porque sendo os recursos tão escassos não havia necessidade de os usar com quem já não precisava deles. Não tendo então um corpo morto entre as mãos teria de garantir que ele chegava vivo ao hospital. Verificou o pulso do homem e instruiu o enfermeiro para os procedimentos normais de transportes de doentes em estado comatoso. Surpreendida, a velha senhora, tão decrépita como a casa, respondeu às perguntas do médico. Disse que tinha ouvido ruídos na casa do vizinho, seguidos de um barulho de queda, foi por isso que se deslocou até à porta do senhor Silva. Chamou por ele várias vezes, mas ele não respondeu. Como tinha a chave da casa decidiu abrir a porta, não fosse ter dado alguma coisa ao senhor Silva. Mal entrou viu-o naqueles propósitos, sem acordo de si, mais parecendo que a vida o tinha abandonado. Apanhei um susto que os senhores nem imaginam. Quando recuperei, telefonei logo para o 112 e fui para a porta esperar pela ambulância. A velha senhora identificou-se, chamo-me Maria, afinal todas somos Marias, mas o que me distingue das outras é o meu nome de casada, Pereira, e continuou, tenho 79 anos acabados de fazer na semana passada, o meu segundo nome é Rosário, sou Maria do Rosário Pereira e sou vizinha do senhor Silva vai para 10 anos. E mais não quis saber o médico que lhe agradeceu a amabilidade e lhe desejou um resto de um bom dia. O trajeto até o hospital não demora mais de 10 minutos. Foi esse o tempo que levou o senhor Silva a acordar. Quando o fez abriu os olhos e perguntou onde estava. Se ninguém o ouviu foi apenas porque da sua boca não saiu nenhuma palavra. Mas deixemos de tratar o senhor Silva pelo último nome e passemos a chamar-lhe Jorge, o seu primeiro nome. Jorge, 60 anos, vive sozinho numa moradia alugada na cidade de Vila Nova de Santo André. Foi lá que teve o ataque cardíaco e, quem sabe, será lá que irá falecer. Para já não se ouve a sua voz e apenas os olhos mostram sinais exteriores de vida. O enfermeiro que o acompanha sabe que aquele homem está vivo e não precisa dos olhos de Jorge para o comprovar. Tem-no ligado a uma máquina que lhe dá essa preciosa informação, mas nem por isso deixa de notar o movimento das pálpebras nos olhos do senhor Silva e relata-o ao médico de forma profissional dizendo, este já acordou, é capaz de se safar, ao que o médico respondeu, não tinha de ser, não era o dia dele. Jorge da Silva irá entrar no hospital com direito a uma ultrapassagem pela direita. Não se irá lembrar da cor da pulseira nem se esta existiu. Encontra-se agora num quarto, ligado a uma máquina que diz da sua existência. Nesse quarto existem mais três camas, mas apenas duas estão ocupadas, a dele, e outra junto à janela. Junto à porta, um balcão corrido ocupa toda a parede do lado esquerdo. Por detrás desse balcão um enfermeiro vigia atentamente todo o quarto largando roncos breves, mas profundos. É de noite e Jorge está acordado, mas não sabe qual o seu estado. Estará vivo, ou morto? Embora não sendo uma questão existencial é suficientemente complexa para o deixar perplexo. Ainda há pouco encontrava-se em casa, preparado para um lanche, algo fora de horas e que tem sempre o mesmo nome. No meio da penumbra apercebe-se da presença de equipamentos que debitam cliques e outros estalidos surdos, enquanto monitores apresentam riscos verdes, estranhas assinaturas em certidões de vida futuristas.


2026-05-24

O Pintor e o Poeta (do sonho à revelação)

 

Prefácio do livro “Do Sonho À Revelação” de João Sambock.

Fui visitar o meu irmão ao museu. Sei que ele me aguarda todos os dias. Sentei-me à sua frente e olhei-o nos olhos que eu lhe pintei, olhei-o no corpo frágil com que o representei, protegido por uma reluzente armadura de prata e ouro e montado num imponente cavalo branco. Ele devolveu-me o olhar com palavras que só eu devia ouvir e os meus olhos encheram-se de lágrimas que contive para não deixar no meu irmão uma última imagem de tristeza.  Despedi-me com um “até breve” na esperança de o voltar a encontrar. Também isso ele me deu, a esperança. Se voltei a ser homem antes de ser artista foi porque ele me guiou. Por isso eu fui libertá-lo, fui libertá-lo da sua existência espiritual neste mundo. O seu trabalho está feito e este livro de poemas que hoje assumo como meu é prova disso. Devia-lhe um pedido de desculpas. Devia-lhe muito mais que um simples pedido de desculpas. Devia-lhe a vida. Deixei-o sozinho quando ele mais precisou de mim e ele não me abandonou. Hoje sei que lhe devia acima de tudo um agradecimento. Paulo, meu querido e talentoso irmão, este livro é para ti. Sem a tua presença estas palavras nunca teriam sido escritas.

 

(Excerto de uma notícia de jornal relatando o desaparecimento de um dos painéis da obra do pintor João Sambock, “Da Revelação Ao Caos”, exposta no MAR, Museu de Arte Rejeitada, na cidade da Amadora)

Foi dado hoje como desaparecido um dos painéis da controversa obra de João Sambock, Da Revelação Ao Caos. A obra estava exposta a título permanente no Museu de Arte Rejeitada, na Amadora. A obra é composta por quatro painéis representando cada um deles um dos Cavaleiros do Apocalipse, tendo desaparecido o mais consensual e menos polêmico dos quatro, o Cavaleiro Branco. Os restantes três representando a guerra, a fome e a morte têm semelhanças inequívocas com os três maiores líderes mundiais. A obra suscitou veementes protestos dos visados através das embaixadas dos respetivos países. Por causa desta polêmica o MAR transformou-se num local de encontro da esquerda intelectual e filosoficamente partidarizada. O desaparecimento do Cavaleiro Branco levanta várias questões às autoridades que, entretanto, tomaram conta do caso. Em primeiro lugar não se encontraram vestígios de arrombamento e o sistema de vídeo vigilância não detetou qualquer ocorrência no interior. O Ministro da Cultura do Governo português aproveitou, entretanto, para exigir que o MAR retire a obra da exposição permanente. Em declarações ao canal público disse…


FIM

2026-05-23

O Poeta ( da realidade ao sonho)


(excerto do depoimento de Madalena à polícia judiciária após o João ter participado o desaparecimento do Poeta)

Inspetor: Pedimos desculpas pelo inconveniente, mas o seu depoimento é fulcral para podermos encerrar a investigação.

Madalena: Não se preocupe Sr. Inspetor, o interesse é todo meu em ver este assunto resolvido. Eu também fui apanhada de surpresa. Só quando voltei a casa do João é que tive consciência da gravidade da situação. Estive dois meses em digressão de final de temporada. Eu nem era para ir, mas uma das atrizes adoeceu e eu era a sua substituta. Como eram só dois meses aceitei. Se soubesse que isto ia acontecer nunca teria ido.

I: Pode descrever-nos a sua relação com o Sr. João?

M: Podemos dizer que somos namorados. Conheci o João no funeral do seu irmão. O meu pai era o editor do Paulo e eu aceitei acompanhá-lo. O sofrimento do João não me deixou indiferente. Eu conhecia a obra do Paulo, mas desconhecia que ele tinha um irmão artista. Eu acho que foi a sua vulnerabilidade o que mais me atraiu nele. Começámos a encontrar-nos regularmente e acabei por ir viver com ele. O meu trabalho também não estava grande coisa e eu encontrava-me muito insegura por não ter sido a primeira opção para o papel na peça que a companhia andava a ensaiar. Acabámos por nos apoiar um ao outro. Só depois é que fiquei a saber da relação atribulada que existia entre o Paulo e o João.
I: Podia ser mais especifica, dona Madalena?

M: Por favor Sr. Inspetor não me trate por dona que me envelhece. Pode tratar-me por menina, menina Madalena.

I: Ok. Podia então ser mais especifica acerca da relação entre os irmãos, menina Madalena?

M: Vê, Sr. Inspetor, soa muito melhor.

(ligeiro silêncio em que o Inspetor resistiu ao olhar de Madalena e a instigou a continuar com um gesto de cabeça. Madalena substituiu o ar de provocação por uma postura mais formal)


M: Parece que o problema entre eles tinha a ver com o pai. O pai deles vivia sozinho já há uns anos desde que a sua segunda mulher morreu. Do que me foi dado a entender o João nunca aceitou essa relação e afastou-se definitivamente do pai. Quando este ficou acamado após um enfarte foi o Paulo que cuidou dele. Na altura vendeu a casa de Lisboa e comprou o monte onde o João vive atualmente. Também vendeu a casa do pai e ficaram a viver juntos no monte. O João sabia de tudo porque o Paulo nunca lhe escondeu nada, mas ele nunca quis saber do pai nem do irmão. E se o Paulo passou mal. Isso eu sei porque cheguei a ir visitá-lo com o meu pai e ele queixava-se da vida que levava. A relação que ele tinha com o namorado acabou para não melindrar o pai que nunca aceitara o fato do seu filho preferido ser homossexual, os seus livros não vendiam e a sua vida social resumia-se ao quotidiano com a dona Alzira e as cuidadoras que contratara para o ajudar e que lhe levaram o resto das poupanças. Eu sei que ele nunca recuperou a alegria de viver. O meu pai ainda pensou que a morte do pai do Paulo o libertasse, mas isso não aconteceu e ele afundou-se afogado em antidepressivos e álcool até o coração parar.

I: Há aqui uma questão que eu não entendo. O sofrimento do João era genuíno?

M: Era. Algo se passou na sua cabeça que o transformou completamente. Eu assisti ao processo porque foi o período em que começamos a andar. Fiquei a saber depois que ele era narcisista e misógino, que tinha dois filhos não assumidos e que as inúmeras relações anteriores terminaram todas em violência doméstica, queixas na polícia e vários processos em tribunal. Mas não foi esse o João que conheci. O João que eu conheci era tímido, inseguro e extremamente infeliz. Mal o irmão foi cremado pegou nas cinzas e veio para o Alentejo. Quando decidimos viver juntos ele já cá estava o tempo quase todo.

I: Quando é que se apercebeu que ele incorporou a identidade do irmão?

M: Eu diria que foi a entidade do irmão que ele incorporou, pois é essa a opinião do psiquiatra que o anda a tratar e que o medicou. A princípio era só a culpa que o martirizava. Ele sentia-se culpado pela morte do irmão. Depois encontrou os rascunhos que dariam origem ao livro “Da Revelação Ao Caos” e o processo acelerou. Não só foi ele que deu o título ao livro como me pressionou para que falasse com o meu pai para o editar. A partir desse momento começou a atender aos dois nomes.

I: E isso não a assustou?

M: No início causou-me estranheza, mas a vida com ele era calma e tranquila. Ele só saia de casa para ir ao psicólogo e ao psiquiatra. Dizia que um era para o fazer pensar e que o outro era para o drogar. Eu tenho a certeza de que ele só foi ao psiquiatra porque eu insisti. A situação só piorou quando eu lhe disse que me ia ausentar dois meses para substituir a minha colega. Ele sabia que eu tinha tido uma relação com um colega, mas que terminara tudo para ir viver com ele, no entanto isto provocou-lhe uma crise de ciúmes. Não foi nada de grave nem violento, apenas um mau estar que o fez assumir quase completamente a entidade do irmão, como se estivesse a fugir ao antigo João. Foi com o “Paulo” que eu fui ao evento cultural do município. Foi o livro dele que eu fui apoiar e foi ele que me deixou sozinha. Parti deixando o “Paulo”, mas ao longe só falei com o João. Eu apercebi-me, mas nunca pensei que tivesse esta atitude.

I: Esteja descansada. Com o seu depoimento e o relatório médico tudo se irá resolver.

 





2026-05-22

O Poeta ( da ilusão à realidade)

 

(excerto de um diálogo telefônico entre o João e a Madalena. Fez parte de um conjunto de dados cedidos pela empresa de comunicações à polícia judiciária)

-Após um período relativamente longo com o sinal de chamada sem que alguém atenda finalmente uma voz masculina-

João: Sim?

Madalena: Sou eu João.

J: Sim.

M: Estava preocupada. Há três dias que não davas sinal de vida.

J: Não te quis chatear.

M: Não me lixes João, estás farto de saber que isto não funciona assim. Os teus silêncios deixam-me preocupada. A tua tagarelice só me chateia quando estás virado do avesso.

J: Sim.

M: Tens tomado a medicação?

J: Sim.

M: Toda?

J: Sim.

M: Só sabes dizer “Sim”?

J: Não.

M: Queres que eu desligue?

J: Não desligues, por favor.

M: Está tudo bem contigo?

J: Sinto a tua falta.

M: Eu sei, já falta pouco. Mais uma semana e estou de volta.

J: Volta depressa.

M: Eu volto meu querido. Tens trabalhado?
J: Sim. Estou a trabalhar num projeto com um poeta que conheci naquele evento cultural a que tu me levaste, aquele patrocinado pelo Município.
M: Qual poeta?

J: O Paulo. Não te falei dele?

M: Não.
J: Devo ter-me esquecido. Tenho passado os dias com ele a fazer esboços para um trabalho sobre o seu último livro. Em compensação ele está a escrever sobre o meu processo criativo.

M: O Paulo?

J: Sim, o Paulo. Estamos pensando em fazer a apresentação dos trabalhos em simultâneo.

M: A dona Alzira tem ido aí?

J: Todos os dias. É ela que tem cozinhado para nós.

M: Para ti e para o Paulo?

J: Sim, parece que não me estás a ouvir.

M: Claro que estou querido, desculpa.

(um curto período de silêncio)

M: Estás a dar-te bem com o Paulo?

J: Sim, mas fiquei um pouco desiludido com a sua reação quando lhe mostrei os painéis quase terminados.
M: Então porquê? O Paulo não gostou?

J: Não foi propriamente uma crítica. Ele pura e simplesmente não conseguiu ver nada para além do negro dos painéis. Fiquei chocado.

M: Falaste com ele sobre isso?

J: Pouco. Disse-lhe apenas que estava à espera de que ele tivesse reconhecido na minha pintura a sua poesia.

M: E ele?

J: Fez um comentário sobre a perturbação que o negro lhe causava. Não achas estranho este comportamento?

M: Falaste ao médico sobre isto?

J: Para quê? Além disso tenho passado as noites em branco sempre a pintar. Quero ter a obra terminada quando tu chegares.

M: João não podes faltar às consultas. Tu prometeste-me que cumprias a rotina.

J: Tu também me prometeste que nunca mais o vias…

M: Estás a ser injusto. Sabes perfeitamente bem que eu tinha de cumprir o contrato e fazer esta digressão.

J: Desculpa, estou a ser idiota. O meu amor por ti cria em mim estranhos sentimentos de posse.

M: Está bem, meu querido. Quando eu voltar a casa resolvemos tudo. Agora por favor, não deixes de tomar a medicação. E tem paciência com o Paulo, vocês são muito mais parecidos do que tu pensas.

J: Eu sei amor.

M: Vá, tenho que desligar. Beijo muito grande. Vê lá se amanhã não te esquecer de telefonar.

J: Prometo que não. Beijo grande para ti.

-A chamada acaba com um ruído seco de quebra de ligação-


2026-05-21

O Poeta ( do caos à ilusão)

 (Gravação efetuada durante uma sessão de psicanálise. De fonte anônima)

 

Psicólogo: Pode desenvolver esse tema?

João: O meu último trabalho?

P: O método e o papel do poeta na sua obra. Se estiver disposto pode tentar enquadrar tudo isso com as suas espectativas, passadas e futuras.

J: Está a pedir muito.

P: E você dá o que entender. Estou aqui para si, até para os seus silêncios.

J: Desculpe, não me tenho sentido muito bem. Desde a morte do meu irmão que a minha cabeça não me deixa dormir. Já passou um ano e ainda sonho com ele. Este é o meu primeiro trabalho após a sua morte.

(silencio durante 23s)

J: A inspiração apareceu depois de ler o livro do Paulo. A Madalena tinha-se ausentado e eu não suportava ficar sozinho. O Poeta apareceu quando eu mais precisava. Coisas do destino. Esperava por ele todos os dias sentado à porta da casa. Posso mesmo afirmar que o fazia com uma certa ansiedade. Só quando ele chegava é que o meu espírito acordava. Ele sentava-se ao meu lado e desbloqueava a minha mão. Tinha em mim um efeito catalisador e as reações que desencadeava eram inebriantes. A mão deslizava pelo papel como se não fosse minha. Cheguei a mostrar-lhe os meus últimos trabalhos que não o impressionaram positivamente. Verdade seja dita que eu também não sentia orgulho neles. Acabei por lhes pegar fogo.

P: Fogo?

J: Sim, fogo. Um fogo libertador e renovador, algo que emancipou e quebrou finalmente um ciclo de luto que teimava em permanecer na minha alma. Foi quando os queimei que libertei o meu irmão. Isto aconteceu pouco antes da apresentação do meu trabalho, da Revelação ao Caos. Sabe que esse trabalho foi todo efetuado durante a noite? Pois é como lhe digo, durante a noite. Quase não dormi durante este período. Descansava um pouco depois de almoço quando o Poeta se ia embora. Foi este o meu método durante dois meses.

P: E o Poeta?

J: O Poeta era uma presença silenciosa. Cheguei mesmo a duvidar da sua presença. Não fosse o livro de poemas e eu teria até duvidado da sua existência.

(silêncio durante 9s)

J: Só conversávamos à hora de almoço. Trocávamos impressões sobre a atualidade. Para ser honesto, era ele que me mantinha a par do que acontecia no mundo. Uma guerra aqui, uma epidemia acolá, escândalos de perversão consensual para todos os gostos e sempre dinheiro, muito dinheiro a circular. Enfim, o ser humano a fazer o que sabe melhor, ser humano. Falávamos, mas sempre sem nos atropelarmos, mesmo quando não estávamos de acordo. Eram sempre almoços muito sossegados.

(silêncio durante 13s)

J: Ele passava a maior parte do tempo a observar-me e a tirar notas.

P: Isso incomodava-o?

J: Não, fazia parte do processo que tínhamos acordado. O trabalho final ganhou muito com essa observação. Os poemas que ele escreveu para “do Caos à Ilusão” foram um excelente complemento aos meus painéis. Não que eles não tivessem valor por si. Na minha opinião até estavam mais bem estruturados, e o fato de seguirem um guião pré-estabelecido emprestavam-lhe uma coerência que de algum modo faltava aos que tinham dado origem ao nosso projeto.

P: Q que ficou da vossa relação.

J: Um vazio difícil de explicar. O seu desaparecimento deixou-me um sabor amargo pois não tive oportunidade de me despedir convenientemente. Ficou algo por dizer.

(pausa de 5s)

J: Aconteceu o mesmo com o meu irmão…

(a gravação termina abruptamente com o ruído de alguém que se levantou)



2026-05-20

O Poeta ( da revelação ao caos)

 (excerto do interrogatório efetuado pela polícia judiciária ao João sobre o desaparecimento do Paulo)

João: Conheci o Paulo num evento cultural patrocinado pelo Município de Santiago.

Inspetor: E isso foi quando?

J: Há Aproximadamente três meses.

I: Pode descrever-nos esse encontro?

J: Foi pura casualidade. Eu estava extremamente aborrecido e esperava ansiosamente que aquilo terminasse para poder voltar para casa. Foi esse o motivo por que me aproximei da banca onde o Paulo se encontrava. Agradou-me o fato de ser aquela que tinha menos pessoas. Para dizer a verdade era a única que estava vazia. Se peguei num livro foi apenas uma desculpa para estar ali. Meti conversa porque o Paulo não parava de me observar fixamente. Não me recordo das palavras exatas que dissemos um ao outro, só sei que ele acabou por me oferecer o livro e eu, por cortesia, prometi-lhe um convite para um almoço quando terminasse do ler. Depois despedi-me e fui ter com a minha namorada. Quando voltei a olhar para a banca onde ele estava já não o vi. Presumo que se tenha ido embora.

I: Ele estava sozinho?

J: Que eu tenha dado conta não o vi com mais ninguém.

I: A sua namorada lembra-se dele?

J: Não. Ela nunca o viu pessoalmente. A imagem que ela tinha dele era aquela que estava na contracapa do livro.

I: Você chegou a concretizar a sua promessa?

J: Sim, uma semana depois convidei-o para almoçar comigo.

I: Em sua casa?

J: Na casa que tenho no monte.

I: Só tem essa casa?

J: Não, esta é a minha segunda casa. A minha morada fiscal é em Sintra, dentro da vila. Também tenho lá um estúdio logo à saída para as praias. Neste momento prefiro trabalhar no Alentejo, estou apaixonado pela luz e pelo espaço das planícies. As árvores têm outra sombra.

I: Você tem por hábito convidar estranhos para sua casa?

J: Depois de o ler deixou de ser um estranho.

I: Não acha que é pouco para dizer que se conhece um indivíduo?

J: Um artista revela muito do que é pelo seu trabalho, principalmente se esse trabalho não está contaminado por motivos exclusivamente comerciais. No caso do livro do Paulo isso pareceu-me evidente. Na altura mostrou-se um bom ponto de partida para iniciar um novo projeto. O trabalho poético, sem ser brilhante, era suficientemente honesto e abordava uma temática que há muito eu queria explorar.

I: Que era?

J: O Apocalipse, ou a Revelação, se preferir.

I: Foi, portanto, o seu trabalho que motivou os vossos encontros diários?

J: Não era só o meu trabalho. O Paulo com a sua perspetiva poética iria debruçar-se sobre o processo criativo resultando daí uma parceria abordando dois aspetos artísticos distintos, mas que se complementavam, o que aliás veio a acontecer.

(aqui o Inspetor parou a gravação e fez uma pausa para um café)

I: Vamos parar um pouco. Vou buscar um café. Quer alguma coisa?

J: Aceitava de bom grado um chá de camomila sem açúcar se me fizesse esse favor. 





2026-05-18

O Pintor ( da realidade ao sonho)

 

Levei mais tempo a chegar ao monte do que era habitual. Embora tivesse perdido a noite a pensar nas palavras certas que permitiriam esclarecer as coisas sem deixar margem para dúvidas hoje todas elas me pareciam vazias e rudes. Foi por isso que decidi deixar fluir a situação e navegar conforme o vento e as correntes. Já fora do carro reparei que tudo se mantinha como era habitual. O João encontrava-se sentado à porta de casa desenhando. Ao seu lado a cadeira que me estava destinada esperava por mim. Decidi alinhar e cumprimentei o João como era costume. Ele devolveu-me o sorriso habitual e continuou a desenhar. Seria possível que ele não tivesse nada para me dizer depois do que se tinha passado? Experimentei provocá-lo e perguntei-lhe, queres ler o que escrevi ontem? Como nunca tal tinha acontecido esperava uma reação diferente daquela que obtive. O João limitou-se a olhar para mim e sorrindo disse, prefiro ouvir, não queres ler para mim? Apanhado de surpresa abri a minha sebenta e olhei para a última página escrita. Era um esboço sofrível que necessitava de muitas correções. Para ganhar tempo disse que precisava de um copo de água. Queres que chame a Alzira? Não é preciso incomodá-la, eu vou buscá-lo. Tudo tão natural, cordial, sem ponta de ansiedade. Seria eu a estar confundido? Entrei na casa e dirigi-me à cozinha.  Pelo ruído que vinha lá de dentro cheguei à conclusão de que a dona Alzira já estava a preparar o almoço, com toda a certeza uma deliciosa refeição à moda antiga feita de amor, carinho, saber e sem pressas. Procurei disfarçar as minhas preocupações colocando na cara um sorriso que não correspondia ao meu olhar. Bom dia, dona Alzira, vim buscar um copo de água.  Porque não me chamou Sr. Paulo? Não a quis incomodar dona Alzira. Pode ir lá para fora que eu levo já o seu copito de água. Não é preciso dona Alzira, já que vim até aqui levo eu o copo de água, obrigado. Para que estou eu a descrever o meu diálogo com a dona Alzira? Se o fiz é porque tenho uma razão importante. Quando eu estava para me vir embora a dona Alzira fez uma observação que me ia fazendo parar o coração e por pouco não larguei o copo que trazia na mão. E que observação fez ela para me deixar assim? Virou-se para mim e disse-me com o ar mais natural deste mundo, estão bonitos os cavaleiros que o Sr. João pintou, se bem que o amarelo me dê arrepios. Voltei-me e perguntei-lhe quando tinha visto os painéis e ela respondeu-me que tinha sido na manhã anterior. Aparentemente o João tinha trabalhado a noite toda e ela tinha-lhe levado o pequeno-almoço quando os viu. Segundo ela o João tinha comentado que aquilo que ela tinha a honra de testemunhar era consequência dos meus escritos. O comentário tinha boa intenção, mas só tinha um problema. Eu estivera junto aos painéis e não havia cavaleiros nenhuns. Decidi nesse momento que tinha de voltar ao estúdio, mas antes havia um poema que devia ler. Voltei para junto do meu amigo ainda sem ter decidido o que havia de escolhe, mas depois do que ouvira isso já não era importante. Mal me sentei bebi um golo de água e pousei o copo no chão. O João olhou para mim e perguntou, pronto? Respondi que sim enquanto abria a sebenta ao acaso. Olhei para uma das páginas e comecei a ler:

O dia começa a meio da noite e sem hora marcada. Sem luz, nasce perdido na escuridão e o Caos desfaz-se numa ilusão. É essa a minha fantasia, a ordem e a disciplina que guiam a rotina. De joelhos e numa bizarra oração construo penitências ao desconhecido. A sombra do dia faz-se fantástica silhueta de negro quando a noite se insinua e renasce numa imagem de luminosidade concebida. Brindemos então com divina bebida. Tenho um vislumbre de estrelas nos estilhaços dos cálices partidos na celebração e agarro-os apertando-os na mão. O vinho mistura-se com o sangue e dá-se o milagre. Da cegueira faço conhecimento e da fé procedimento. Do que tinha para fazer faço passado e do presente uma ilusão.

Parei de ler e esperei por uma reação. O João levantou a cabeça e perguntou, é sobre mim, ou refere-se ao trabalho? Olhei-o nos olhos e respondi, a nenhum dos dois. Ele olhou-me perplexo e eu acrescentei, refere-se ao método. O João sorriu e voltou a concentrar-se no desenho que tinha em mãos.

Depois do almoço fiz questão de ver novamente o seu trabalho. O meu amigo não se fez rogado e eu tive oportunidade de constatar mais uma vez que os painéis permaneciam negros. Devia ter desistido, mas não foi isso que fiz. Diz-se que a curiosidade pode ser fatal. No meu caso transformou-se numa prisão. No mês seguinte todos os dias fui acompanhar os progressos da obra sem que vislumbrasse outra coisa que fosse o negro daquelas superfícies. O que começou por mera curiosidade transformou-se em obsessão e quando o João deu a obra por terminada eu já não me encontrava cá. Passaram dois anos e encontro-me em exposição num dos museus da capital. No dia em que os painéis foram apresentados ao público ouvi a Madalena comentar ao ouvido do João, o cavaleiro branco é mesmo parecido ao teu poeta. Ele olhou para ela e sorriu, é mesmo. Que estranha coincidência. Um pouco afastada estava uma mesa com uma dezena de livros cujo título era “Do Caos à Ilusão”. Hoje não sei o que sou, mas quem vem ao museu não se vai embora sem me vir visitar.