Bom dia doutor. Há quanto tempo não vinha cá vê-lo. Teve saudades minhas? Não? Não fico admirado. Ter saudades é um luxo que não é para todos. Eu mesmo confundo saudades com lembranças. Será porque revivo todas as lembranças com saudade? Tenho saudades de mim, de todas minhas ações, das boas e das más, de tudo o que foi a minha vida e procuro viver cada instante como se fosse o último.
Não consigo falar muito que me cansam os olhos.
Desde que falo com os olhos que a garganta me dói, seca de tanto silêncio. Todos os dias me lavam os olhos com uma toalhinha embebida numa água perfumada. É esse o cheiro da manhã. Os cheiros identificam a hora do dia. As refeições são referências primordiais, horas sagradas de saudável convívio onde a disposição abunda. Nada melhor que uma boa refeição. Por motivos óbvios estou sempre acompanhado às refeições. ELA segue-me para onde quer que eu vá.
Ainda consigo mastigar e bebo tudo com palhinha, água, vinho, aguardente, cerveja, café, tudo. Não precisa de se preocupar que eu bebo tudo com moderação, sou um verdadeiro moderado, até parece mentira, Doutor. Às vezes não me reconheço em tanta moderação.
Peço desculpa mas já estou cansado de olhar para si, tanta conversa cansa-me os olhos. Prometo ser mais assíduo daqui por diante, o Doutor sabe que eu adoro conversar consigo.
Saio do consultório sem ter noção do tempo ou do espaço, para sempre perdido num amor infinito.
Está sol e o azul do céu é perfeito. A refinaria está calma e na sala onde me encontro ouve-se o motor ao longe. Deixo-me embalar e entro mar dentro...