2026-07-16

Não quero acordar deste sonho 06H21m

Quantas vezes acordo durante a noite? Ainda não as contei. Sem registos que me permitam reclamar recordes, limito-me a testemunhar estes renascimentos forçados. Se os escrevesse, quem perderia o seu tempo a ler tal digiscrito? Inventem-se as palavras que se quiserem; nunca serão suficientes para descrever os estados de consciência. O que eu escrevo é infrascrito por luzes vermelhas que sabem ler os meus olhos, mas, à noite, quando os olhos estão fechados por fora, a luz deixa de ter importância.


Encaminho a minha cadeira para a sala de jogo. Tenho um lugar reservado à mesa; só preciso encontrá-lo. Não tenho pressa: sou um jogador acessório, com um papel determinado pelo Mestre Organizador. Estaciono a eletropoltrona com minúcia. As minhas competências estão disfarçadas por deficiências unanimemente aceites como tal. Espero pelo tempo de existência da personagem inventada. O Mestre manobra com mestria as matérias ao seu dispor. A floresta desapareceu, e o Grande Rio ficou para trás. A cidade que se aproxima insinua-se como uma miragem. Os seus cheiros são inventados, mas a matéria de que consistem é a essência dos sonhos. Inspiro profundamente antes de falar. As sílabas são articuladas com perícia. Estou orgulhoso com o meu desempenho. Agradeço com uma vénia o aplauso geral. Volto a sentar-me e manobro as seis rodas com incentivos verbais. Onde está o meu quarto? Sento-me à secretária, com urgência de socialidade entrelaçada.

 

Tenho várias redes à disposição. Qual delas a melhor? Cada uma preenche uma lacuna da vida; por isso, eu uso todas as que se encontram disponíveis. Sou um ser completo que só precisa socializar. No ecrã, as interações são seguras. Podes sempre desligá-lo, mas quem é que tem coragem para tal? Eu, não! Algo me avisa que, sem ele, não sou ninguém. Escolho uma cara num pequeno círculo e analiso o candidato. Nada tenho para lhe dizer, mas insisto numa visualização. De tanto insistir, a pessoa materializa-se no quarto. Procuro um comando que reverta a minha solidão, que elimine a matéria humana do meu espaço privado. Falta-me o ar, e não consigo articular as palavras de socorro. De joelhos, encosto a cabeça no chão em sinal de respeito.

 

Sinto-me a deslizar pela água. Tenho na boca o sabor do seu sal. A cada braçada, um apelo ao silêncio. O mar envolve o meu corpo, reclamando a sua posse. Deveria ter aceitado o convite enquanto podia. Fui rejeitado. Estou deitado na areia da praia. Ouço o nadador-salvador declarar que não há mais nada a fazer.

 

Onde está o meu mar? Apalpo a areia dos meus lençóis à procura de um destino que ainda não chegou. Por debaixo da cabeça, as algas da almofada tentam reconfortar a minha desilusão. Estou na cama com ELA, mas, pior do que isso, estou novamente acordado.

2026-07-13

Não quero acordar deste sonho 05H19m

 A Casa Branca é ladeada pelo Big Ben, do seu lado esquerdo, e, do lado direito, pelo edifício da ONU, mas nem sempre é assim. Uma mão misteriosa baralha as suas moradas. Gosto de as saber inconstantes, obrigando-me a novo olhar todos os dias. Já pensei comprar a Torre de Belém, mas a nossa torre não é digna de tal honra por parte de tão prestigiosa marca. A LEGO acompanhou a minha infância. Foi confidente da minha imaginação, um abraço de plástico nas tardes chuvosas de inverno. Quando o ar me voltou, guardei-a em caixas e escondi-as no armário. É curioso vê-la decorar os meus sonhos.

 

O carro dos bombeiros é um dos veículos que o quartel alberga. Também existe uma ambulância e um reboque. Sou eu que decido o lugar de cada um deles. Hoje sou um carro de bombeiros: tenho uma escada e uma cor vermelha de fazer inveja. Atravesso a ponte sobre o Tejo, mas não sei qual. Tenho urgências que tudo desculpam e empurro quem se atravessa no meu caminho. Quero chegar sem saber aonde, e a minha vontade sobrepõe-se à razão das coisas. Todo eu sou autoridade, e a minha integridade é soberana.

Sou uma viatura desportiva de dois lugares. Tenho uma capota preta, e a carroçaria é feita de peças brancas. Vivo debaixo de um alpendre, junto a uma pequena moradia. Quando chego a casa, tenho de abrir uma cancela que dá acesso ao jardim. Hoje fui à praia, mas perdi o meu dono.

 

Não encontro o meu carro e enfio-me numa camioneta de caixa aberta. Chego às portagens vindo do sul. A via verde está descongestionada, e eu não hesito em tomar a sua disponibilidade. Fico satisfeito com a minha decisão, mas…

Há sempre um “mas” disposto a sabotar uma boa decisão. Podia ser outra qualquer contingência, obstáculo anónimo com objetivos misteriosos, uma surpresa disfarçada de casualidade, mas não. O que sucedeu foi óbvio e ordinário.

Olho para o para-brisas e não vejo o identificador. À minha frente, um agente da autoridade faz-me sinal para eu sair da viatura. Tenho os braços no ar e desculpo-me com um mal-entendido. O agente da autoridade manda-me seguir com ameaças veladas. Prossigo cautelosamente, para não atrair a atenção das forças policiais, que se encontram espalhadas pela cidade. Arrumo a camioneta no parque de estacionamento da zona comercial e entro num enorme edifício. Estou disfarçado no meio da multidão que circula pelos corredores, com sacos na mão. Só eu é que não tenho um saco, e isso deixa-me preocupado. Alguém agarra o meu braço. Diz que tem o meu carro e pretende que eu lhe devolva a camioneta. Trocamos chaves e indicações e afastamo-nos em direções opostas. Dirijo-me para a torre de lançamento. O foguetão vai partir em breve. Acabado de construir, ainda cheira ao cartão onde estava guardado. A contagem não é decrescente e caminha para o infinito. A mão da criança atinge o foguetão, partindo-o ao meio.

 

A Casa Branca está envolta na penumbra. À porta, um segurança acende uma lanterna, enquanto grita ameaças ao Big Ben que, imperturbável, marca as horas do meu sono. Ao lado, no edifício da ONU, exibe-se um espetáculo trágico. Da janela saem os rugidos das bestas sedentas de sangue.

 

Quando amanhecer, vou apagar o sol…

2026-07-10

Não quero acordar deste sonho 04H31m

 Não encontro razões que justifiquem esta revolta. As unhas cravam-se na palma da mão e provocam um gemido de dor. Reconheço-me nesse gemido e ilusiono uma carícia no braço dormente. Invento-me dolente para coincidir com a noite chuvosa. Nunca fui competente a inventar ilusões, mas reconheço a sua deficiência, e aceito a sua utilidade. Longe vão os tempos onde navegava por mares de espectativas, e sorvia espumantes de promessas. Ainda tenho na boca o sabor a sal, só não me lembro da sua origem. Faltam-me peças que não estão na caixa.

 

Desapareceu-me a pontuação perco-me no meio das palavras e a máquina onde escrevo recusa-me o portuário ouço as explosões ficcionadas nos noticiários o prédio semidestruído é abrigo de mercenários e insuspeitos jornalistas a cada grupo uma mesa eu escrevo compulsivamente tentando anular o rugido das ogivas mas ninguém se perturba com os meus receios de um lado limpam-se as armas do outro ajustam-se dicções silêncio que se vai cantar o fado as vozes lá fora cantam odes ao horror na língua universal da metralha gigantesca tourada onde o touro se recusa a morrer a senhora gorda nunca mais se cala será necessário lançar a bomba quem o diz é o médico de serviço enquanto aposta alguns instrumentos cirúrgicos numa bizarra partida de poker faltam-me vírgulas para falar gostava de teclar um ponto que fosse o final de tudo isto mas não o encontro decido procurá-lo noutro parágrafo

As ruas são estreitas e sem sinais que me condicionem o caminho os bares estão abertos e na noite repleta de pessoas verte-se álcool nos copos e o incenso nas mortalhas há quem sinta um frenesim de alergia levam de olhos postos no paraíso as mãos às narinas para sorver o ar noturno retiro do bolso do casaco um pequeno bloco e uma esfera gráfica confirmo aquilo que me parecia evidente o mundo continuava mergulhado num caos sem prontuário que o salve apanho um comboio de foliões e deixo-me levar pela respiração o elétrico imobiliza-se a poucos metros do local onde me encontro o condutor pergunta-me se eu quero entrar mas esqueceu-se do ponto de interrogação para me fazer acreditar na amabilidade insinuada quem sou eu para o convencer que aquele elétrico não irá longe exclamo um obrigado sem ponto e vou à minha vida com um assobio soprado entre dentes procuro sem reticências dois pontos que me permitam introduzir um travessão de modo a poder revelar o porquê da minha indignação

O sinal ficou verde e eu posso finalmente avançar deixo atrás de mim os destroços de uma cidade destruída não sei se numa faixa se noutro qualquer pedaço de terra alguém que escolha a cor do fogo a chama dificilmente se apaga no meu deserto de palavras

Fecho a máquina de escrever e encosto o corpo às ruínas não vale a pena procurar pontos onde não se deu nenhum nó

 

Abro um olho devagar. A pontuação voltou, mas de resto continua tudo na mesma.

 

2026-07-08

Não quero acordar deste sonho 03H37m

 Acordei antes de o carro se precipitar no fundo do abismo. Fiquei desagradado com a minha inesperada vigília. Certamente que teria sido interessante desvendar o segredo por detrás de um embate violento. É para isto que os sonhos sevem? Não tenho uma resposta definitiva, nem poderia ter. A imperfeição que me afeta, e que é comum a todos os homens, não me permite tal arrogância. Ainda agora a terra tremeu, um barulho surdo que subiu as escadas e desaguou nas portadas das janelas, fazendo-as gemer. Mesmo assim, somos arrogantes. Capazes de criar uma inteligência superior à nossa, decidimos elevar-nos a um estatuto infinitamente superior. Porque em nós tudo se quer infinito, de dimensões inultrapassáveis. Somos obcecados pelos extremos: o maior e o mais pequeno, o mais feio e o mais bonito, o mais magro e o mais gordo, o mais forte e o mais fraco — um infindável ranking onde medimos certezas e verdades inquestionáveis. Não gosto de me ver numa tabela; rouba o sabor das coisas.

Sem açúcar, se faz favor. Bebo um café enquanto espero. O Museu ainda tem as portas fechadas e olha para mim com insolência: Quem és tu, pequena insignificância? – Procuro esclarecer o ilustre edifício que a minha visita não tem pretensões, nem arrogâncias. Estou no seu interior, no local onde os objetos nos julgam. Sentado no banco dos réus, ouço as acusações das tintas derramadas por Pollock. “Pena máxima para o réu!”. Sou estúpido e ignorante, tenho os olhos cheios de remelas e de sujidades indizíveis, e permaneço vivo. Sou levado para um piso inferior por dois seguranças rigorosamente vestidos. Sinto-lhes o odor requintado de finos tecidos. Fazem-me entrar num espaço amplo, mas enigmaticamente acolhedor. Estou na terra de ninguém. O balcão não tem empregados a servir, e eu decido ultrapassar essa barreira proibida. O teto da sala está repleto de enormes colunas de som. Uma, em particular, chama a minha atenção. É um objeto formidável, de beleza e ostentação. Tem a pele de madeira. Encontra-se finamente trabalhada e afirma a sua ascendência Tannoy. Digna-se dirigir-me uma suave melodia durante breves instantes. Os seguranças voltaram e mostram os braços musculados como promessa de dolorosas agressões. A sala está cheia, e ninguém me presta atenção. Um casal jovem e bem vestido dirige-me a palavra. Pretendem visitar o Museu. Vislumbro uma oportunidade para sair dali e ofereço-me para os acompanhar. Eles fazem notar que a minha indumentária não é apropriada. Sublinho a pertinência da observação, mas argumento em minha defesa que eu ficarei à porta. Será esse o meu destino, ficar à porta das coisas? Subo as escadas do museu e encaminho-os através de escuros corredores. Vamos dar a um balcão de cinema. Sentamo-nos sem fazer barulho. Sei que o filme já começou pelo desagrado demonstrado pelos espetadores. O documentário anuncia o fim de algo muito importante. Perante a minha falta de interesse, alguém, manifestamente indignado, grita com alarde. Ouço comentários depreciativos sobre a paupérrima dimensão do meu intelecto. Farto de julgamentos, levanto voo. Realizo uma manobra arriscada, que me leva a sobrevoar a plateia num arremedo de decapitação. Enquanto deixo a sala para trás, ouço uma enérgica salva de palmas que se prolonga no tempo. Sentado na esplanada do café, continuo a ouvir a estrondosa ovação.

Levanto-me, apenas para confirmar que permaneço deitado. Estúpida coerência, que me faz aceitar este cativeiro com orgulho. A coerência é, quando se prolonga no tempo, parceira cúmplice do orgulho teimoso. Só é benéfica quando afeta discursos numa mesma linha de raciocínio. Faz parte da necessidade de entendimento e aceitação de ideais normativos. Estou acordado e tento-me coerente. Quero fazer sentido, dar à minha vida uma lógica defensável, mas como é isso possível às quatro e meia da manhã?

2026-07-06

Não quero acordar deste sonho 02H40m

 Estou, e não estou. A televisão desligou-se por minha vontade. Milagre da tecnologia, que permite obediências programadas. Conto até dez e espero que um sonho me volte. A respiração presa por um cordel, e os olhos perdidos num abismo. Onde estão os sons que me fizeram voar? Sinto que eles me fogem entre os dedos, minúsculas partículas que não consigo aprisionar na palma da mão.

Escuta! No fundo do quintal consegues ouvir melhor. Encosto o corpo ao muro e perco a idade. Do outro lado estão as eternidades inventadas nos velórios carpidos. Escondo-me por detrás das oliveiras. Elas crescem com as cinzas dos mortos sem fé. Todos os dias eu rezo, junto ao bacio esmaltado, para respirar como os outros meninos. Cheguei à alameda das couves. Estou em terreno aberto, e resta-me a fuga dos corajosos. Afinal, eu também sou um herói. A medalha, transbordando heroísmo, espeta o seu ferrão na pele do meu peito. O mestre das abelhas está orgulhoso. Ouço o seu zumbido, mas não me atrevo a mexer uma única parte do meu corpo. Estou em sentido, e não respiro. Afinal, era esse o truque. Quais janelas abertas, e orações de joelhos. Meia dúzia de hinos, berrados em sentido, braço direito estendido às cores da bandeira, e o ar a voltar. Adeus, janela, adeus, estrelas, adeus, abraço materno com cheiro a eucalipto, adeus, menino frágil e incapaz, adeus! Voltei um homem, barro de outra terra, moldado por mãos profanas.

Um pires de tremoços e uma imperial. Por onde andaste? A pergunta jogada sem direção, mas que eu tomo para mim, como uma boia de salvação. Quero responder, e empurro a voz pelo intervalo dos dentes. Olho para as frases que se despenharam no chão. Palavras e símbolos, estilhaços que perderam qualquer significado, lixo espalhado por debaixo das mesas. Empresta-me a pá e uma vassoura, que eu limpo já isto tudo. Vais ver, que ninguém vai saber da minha existência. Sabes quem era esse gajo que estava aí sentado? Qual gajo?

Não consigo encontrar as portas do jardim. Vim de longe para vos ver, mas ninguém estava à minha espera. Fui ao bar junto ao lago, mesmo no centro do parque. O dono nunca foi com a minha cara. Compreendo-o, eu também nunca gramei a minha pessoa. Estou bêbado, e deslizo junto às grades até encontrar uma saída. Há sempre uma saída para quem a procura. Esperam-me lá fora dois amigos, que eu não reconheço. Sou convidado a entrar num carro. É um convite que eu não posso recusar.

Sentado num banco, sinto as mãos algemadas. Uma mulher convida-me a repousar a cabeça no seu colo. Afinal, sempre valeu a pena a viagem. Não concordo com o Poeta. Mesmo quando a alma é pequena, alguma coisa deve valer. Olhem o exemplo deste homem, com a cabeça no regaço de uma prostituta; O mundo todo naquelas pernas que o acolheram sem julgamento. Mesmo sendo breve o conforto, valeu por tudo na sua vida. A sua alma, coxa e ferida, levará esse aconchego consigo.

Liberto de todas as algemas, tento explicar a uma mulher culta, que a minha alma é insipiente à primeira vista. Não vale a pena, o nosso encontro nunca terá existência suficiente. Hoje, não quero ficar bêbado.

Corro pelas ruas da cidade. Pessoas, junto a cafés, chamam por mim, mas eu não me detenho. Abro os braços ao relento da noite, à humidade fresca que me convida a voar.

O carro circula, de luzes apagadas, quando a estrada acaba abruptamente.

 

2026-07-04

Não quero acordar deste sonho 02H02m

 Abro os olhos para confirmar que não estou a sonhar. Nem sempre funciona, mas desta vez é quanto basta. Estou no meu corpo, este saco de ossos sem utilidade. Quero voltar ao meu sonho, seja ele qual for. Fecho os olhos e procuro um espaço vazio. Respiro com a consciência, e tento sentir o dedo indicador da mão direita. Todo eu sou esse indicador, mas algo impede que concretize a transformação. O meu corpo, quase morto, tem um arremedo de vida num sítio improvável. Um endurecimento involuntário que persiste para além da minha vontade.

 

Será verdade? Tudo tem uma causa, basta saber procurar. A mulher agarra-se à máquina e abana-a com suave violência. Tem o fato-macaco amarrado à cintura e veste uma camisola de manga curta. A sua pele tem a cor do chocolate de leite. Eu permaneço sentado, enquanto a observo silencioso. Ela vira-se para mim e ri. Tem um sorriso maroto, que roça o atrevimento. Eu conheço-a, e retribuo a cumplicidade. O pacote de bolachas teima em não cair. Ela volta a abanar a máquina para a frente e para trás. Os seios tremem-lhe debaixo da camisola branca.

Estou deitado por cima dela. O quarto escuro deixa ver o essencial. Sinto o calor do seu corpo nu, enquanto lhe beijo os lábios tentando acordá-la. O contato com o seu ventre endurece-me até à dor, mas a sua imobilidade impede os meus instintos. Levanto-me da cama, decidido a acabar com o meu sofrimento. Estou na casa-de-banho. Agarro o membro endurecido, quando a ouço perguntar – Porque te foste embora? – Estou a fazer xixi. Volto já – foi uma resposta simpática, que não revelava o meu incomodo. Podia ter dito que estava a mijar, e que não queria que ela me chateasse.

Castiguei o meu membro e voltei ao quarto. Ela vira-se de costas e pede-me para a agarrar. Obedeço e tento adormecer. Que estou eu a fazer na cama com a mão que me alimenta? Como é possível estar a trair a mulher que amo? O “Eu” narrativo desculpa-se com o “Eu” sensitivo. A culpa é dele, se não te levasse ao ato de amolecimento, tinhas feito asneira. Mas, se quiseres, eu invento outra história?

Saio de minha casa, aliviado. Sei que te traí, que vou ter contigo sem uma resposta aceitável. Peço ao meu “Eu” narrativo que invente uma justificação plausível, algo em que ele possa acreditar. Sentados no carro olhamos um para o outro. Espero pelas palavras de ofensa e desdém, mas já não me lembro porquê.

O quarto está vazio e eu continuo deitado. Consigo levar a mão direita entre as pernas, apenas para confirmar que tudo continua na mesma. São duas e quarenta da madrugada e o meu corpo permanece quase morto.

2026-07-02

Não quero acordar deste sonho 01H13m

   Novamente acordado – E sempre este desconforto. Abro os olhos para o vazio, para o quarto repleto de objetos impossíveis. Olho para o meu pai e para a minha mãe: ela, tão nova, e ele, tão velho. A culpa é minha, que escolhi assim as fotografias. A televisão continua ligada. No ecrã, os atores matam a granel. O leitor de CDs exibe a duração do último álbum que engoliu. Lá fora, a chuva cai suavemente. Fixo o olhar no teto e faço uma declaração: Universo, natureza de tudo o que existe e não existe, regenera esta ínfima porção de matéria.

Repito a declaração infinitas vezes. Da minha boca, não sai uma única sílaba. Na garganta, a saliva emite um ruído surdo.

Levanto-me e saio pela porta intransponível. Desço as escadas a correr. Estou atrasado. Sinto esse atraso dentro de mim, como uma corda prestes a partir-se.

O corredor ilumina-se com os meus passos. As paredes são lisas e contrastam com a rugosidade das mãos que as tateiam. Sou puxado para o interior daquela lisura. Estou numa repartição com atendimento ao público. No balcão, que atravessa toda a sala, estão duas mulheres de meia-idade. Ambas digitam, com violência, um teclado de computador. Os impactos são calculados com lentidão, mas a sua execução é rápida. Sinto-me compelido a interpelar uma delas, mas não me consigo decidir. Tento encontrar sinais de empatia nas feições antipáticas. Acabo por me dirigir à que se encontra mais perto. Da minha boca saem palavras de humilde desculpa. A mulher olha-me por cima dos óculos, transbordando impaciência e incómodo. Os meus lábios esboçam um pedido de desculpa onde não me reconheço. Ela levanta bruscamente o braço e atira um dedo indicador na direção da outra mulher. Dirijo-me, obediente, no sentido ordenado. Estou em frente da outra funcionária, que repete simetricamente o gesto da primeira. Afasto-me do balcão, apenas para constatar que ambas riem: um riso estridente, saído de dois buracos negros rodeados por fileiras de enormes dentes brancos. Saio a correr por uma porta inexistente.

Estou novamente no corredor. Sinto o conforto daquelas paredes lisas e deixo o corpo escorregar pela sua superfície polida. Alguém chama por mim. O apelo faz-me levantar e voltar por onde vim. Uma voz feminina avisa-me do meu atraso e convida-me a apressar o passo. Sinto enorme satisfação por ouvir aquela voz, ao mesmo tempo meiga e autoritária.

Cheguei ao laboratório. Recebo o turno e começo a trabalhar. Estou a preparar uma digestão com ácido sulfúrico. Manuseio o frasco com destreza, enquanto introduzo o líquido viscoso numa proveta. Tudo me parece fácil e conhecido. Estou sozinho, sou dono dos meus atos e sinto-me orgulhoso do que consegui. Anoiteceu, o turno acabou e eu caminho calmamente em direção à portaria. São quinhentos metros de calçada rodeada de relva. Já estou a andar há algum tempo, mas não tenho noção de me aproximar do destino. Sinto-me a cair e vejo-me no chão. Estou rodeado por pessoas que me incentivam e estendem as mãos, mas eu não me consigo levantar.

A via rápida está escura. Tenho as mãos num volante, mas não sei para onde vou. No meio da penumbra, distingo o meu pai e a minha mãe. Ela, tão nova, e ele, tão velho.

Nota sobre as alterações de pontuação: Corrigi a pontuação do último capítulo sobretudo para melhorar a fluidez da leitura e evitar pausas desnecessárias. Substituí a vírgula inicial de “Novamente acordado, e sempre este desconforto” por travessão, por se tratar de uma interrupção expressiva com valor enfático. Acrescentei vírgulas em “ela, tão nova, e ele, tão velho” e em “No meio da penumbra, distingo...” para marcar melhor os incisos e a deslocação sintática. Removi vírgulas antes de “e” quando a coordenação era direta, como em “paredes lisas e deixo” e “levantar e voltar”, mantendo a cadência mais natural. Também eliminei a vírgula em “buracos negros rodeados...” porque “rodeados por...” restringe o nome e não deve ser separado por vírgula.

2026-06-30

Não quero acordar deste sonho 00H30m

 I (00H30m)

 

Na escuridão vejo os ponteiros fluorescentes. Dormi meia hora, coisa pouca para tanto cansaço. A televisão está ligada com o som no mínimo. No ecrã, as personagens do filme são bonecos aos quais eu não dou importância. Lá fora a chuva cai, indiferente ao ambiente acolhedor do meu quarto. Durmo sentado porque assim é mais fácil sonhar. O problema é adormecer.

 

Os olhos estão fechados. Repito, sem verbalizar, uma frase, um manifesto de liberdade. Peço à mente que se liberte do corpo. Tenho uma âncora no pé esquerdo que não me deixa zarpar. Nos bares junto ao cais ouve-se o marulhar dos copos. Lá dentro, as bocas sedentas engolem vórtices de espuma. Levo a mão direita ao peito. Sinto o coração bater na palma da mão. É um batimento suave, sem atropelos. Longe vão os tempos das arritmias, do descontrole percutido que apressava a minha existência. Sai-me uma “Ave Maria” murmurada entre dentes; Ave Maria cheia de graça, o Senhor é convosco…rogai por nós, pecadores, agora, e na hora da nossa morte, Ámen. Calo a minha oração porque alguém me chama. Dirijo-me a uma mesa e sento-me. Quem chamou por mim apresenta-me aos restantes convivas. A mesa encontra-se a um canto da sala. Não distingo as feições que me rodeiam. Uma rapariga mete conversa comigo. É a única mulher do grupo. O seu cabelo loiro está repleto de caracóis. Cortado curto, deixa ver duas orelhas repletas de pequenos brincos. Sinto o ar fresco da noite. Um dos rapazes esbraceja, enquanto grita palavras de aviso. A rua é estreita e mal iluminada. A rapariga pega-me na mão e convida-me a segui-la. Hesito por breves instantes antes de me deixar levar. Corremos rua abaixo, numa vertigem que me dá a ilusão de um voo. É ela que abre a porta daquele prédio. Eu limito-me a ir atrás dela. Subimos as velhas escadas de madeira até chegarmos ao último andar. A sensação de urgência desapareceu. Ouço uma campainha e vejo que alguém aparece à porta do apartamento. Ela diz palavras amáveis que eu não consigo perceber. O homem esboça um sorriso rançoso e, convida-nos a entrar. Ela puxa por mim com carinho e entramos num hall de entrada com quatro saídas. Estou sentado no chão. Tenho as pernas cruzadas e a capa de um disco no colo. Estou a manipular substâncias enquanto ouço música. As luzes do teto são coloridas e, teimam na sua intermitência. Procuro pela rapariga, mas não a vislumbro. À minha volta tenho caras que se riem de mim. Recebo um beijo na face e afasto-me desconfiado. Ela abraça-me pela cintura entramos no táxi. A pista de dança é nossa. Deixo que ela me conduza em cornucópias incertas. Por cima de mim as estrelas indicam caminhos. Sinto-me tonto e fecho os olhos à procura de equilíbrio. O rio faz-nos companhia. Começou a amanhecer. A cidade aceita essa inevitabilidade com uma preguiça sensual. Fugindo pela janela de um velho edifício a melodia de uma guitarra portuguesa senta-se ao nosso lado. Traz com ela um lamento feminino que me entristece. A rapariga chora. É dela o lamento. Pouso a guitarra e, abraçando-a, dou-lhe um beijo nos lábios.

 

A minha âncora deslocou-se fazendo tombar o meu pé esquerdo. Faço um esforço para o fazer subir. Ela coloca o meu pé em cima da cama e desaparece na penumbra do quarto. O relógio é testemunho silencioso da hora. Nos seus braços a indicação que passam treze minutos da uma da manhã.

2026-06-29

Um blogue, ou um aquário?

 É uma pergunta aparentemente sem sentido. Serão as palavras peixes? As palavras talvez não, mas os pensamentos que lhes deram origem, assim como as ideias que elas representam, podem aproximar-se, metaforicamente falando, de peixes num aquário.


Eu trato do meu blogue como tratei do meu aquário. E o que fiz eu ao meu aquário? Limpei-o e mudei-lhe a água. Dispus adereços para lhe inventar novidade. Alimentei os três peixes em cativeiro e fiquei observando enquanto eles comiam. Mas o mais importante foi o porquê de ter feito. Criar, cuidar e observar a criação. Estive perto de ser um Deus criador, que é a perceção primeira dos seres inferiores. Ao meu blogue, também eu o limpei e mudei adereços. Alimentei-o enquanto o via crescer e tive atitudes prepotentes, como as deve ter um Deus criador.

No meu aquário os peixes eram a razão da sua existência. Vi nas suas vidas os sinais da minha mortalidade e acompanhei-os com a expectativa de quem observa uma vela a arder. Sabia que um dia a escuridão iria substituir a sua chama. Vários foram os peixes que acabaram no caixote do lixo. Só o seu espírito sobreviveu.

Eu tive um aquário e um blogue. Hoje só alimento ideias. No dia em que morrerem alguém as deitará no lixo. Delas ficará o espírito, se houver quem as recorde.

2026-06-26

Obituário literário

 A morte literária da minha obra, tardiamente editada, era uma fatalidade previsível. Não lhe dispensei a atenção necessária, nem me preocupei com o seu desenvolvimento. Foi parida como um último grito de afirmação existencial. Posso mesmo afirmar, que foi um ato egoísta, motivado por orgulho. Um bolsar de arrogância, que me permitiria encarar o destino de cabeça levantada.  Não posso deixar de sentir vaidade neste último assomo de rebeldia. No entanto, os seus últimos dias deixaram-me pesaroso. Eu que ignorei todos os pedidos de ajuda, as inúmeras garrafas que elas lançaram ao mar, na esperança que as resgatasse daquele deserto de indiferença, onde morriam lentamente, sofro agora com o seu infortúnio.


Quando decidi publicar, não quis passar pelo tortuoso processo de aceitação e merecimento, e paguei para ser editado. A obra teria de se promover por si própria, visto que, o autor, já não estaria presente para assistir ao seu sucesso improvável, ou ao fracasso quase certo. Mas, o tempo passou e a indiferença atingiu-me no que sobrava da minha dignidade, do meu convencimento. O contrato garante três anos de disponibilidade ao público, podendo esse prazo ser prolongado se as vendas assim o justificarem. A divulgação é da minha responsabilidade; assim ficou escrito.

 

Antes que as obras desapareçam deixo, no meu blogue, a  lápide da sua breve existência:

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O livro Testemunho, Tudo o que Encontrei (Cadernos I, II e III) da autoria de Paulo Saboga Guerreiro (o mesmo autor do livro anterior), foi publicado em junho de 2024 pela editora Primeiro Capítulo. [1]

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2026-06-25

Aceitação, rendição, submissão e humilhação

 Todos estes conceitos estão ligados quando aplicados a um evento na vida de uma pessoa. Todos eles pressupõem uma determinada atitude perante esse evento. Os três primeiros podem levar ao quarto, se as suas consequências conduzirem a um estado de frustração e desânimo — estas duas condições são necessárias. A questão que eu coloco é a seguinte: poderão eles existir como atos independentes?

Existem duas perspetivas que são comuns a qualquer realidade: a interior e a exterior. Em qualquer delas, podemos optar pela positiva e justificar essa resposta, tentando esconder os razões por detrás dela. Vejamos porquê, com um exemplo simples.

Um homem, numa batalha, aceita a rendição como alternativa a uma morte certa. Na sua mente, esta aceitação não é uma rendição nem uma humilhação, mas apenas um interregno com vista a uma fuga que lhe permita combater novamente. A aceitação serve os seus propósitos e torna desnecessárias as outras definições. Pelo contrário, o soldado que o prendeu, por estar convicto da sua superioridade, vê a rendição e a submissão como um facto inevitável. Possivelmente, tudo fará para humilhar o seu adversário.

Também eu tenho essa ambiguidade em relação à minha doença. Nos dias melhores, sinto orgulho na minha estoica aceitação. Nos dias menos bons, vejo-me rendido, preso num corpo que não me deixa mexer. Nos dias azedos, a submissão vem ao de cima e peço coisas que não devia pedir. Mas, quando o céu fica escuro e ameaça com trovoada, a chuva que cai escorre dos meus olhos-nuvens, e o sentimento que me invade é de humilhação.

Talvez, por ser estes todos, não possa responder afirmativamente à pergunta que coloquei no início. Porquê estes desvaneios? Porque eles preservam a minha sanidade mental.

2026-06-24

Residências do Pinhal (arquivo quase morto); o perdão que me faltou

 Traço leve no papel branco. Traço incerto na procura da palavra que personifique a ideia, a ideia ligada a uma imagem. E sempre este alheamento estéril que destrói conexões. O edifício depois da curva, que nome lhe hei de chamar?...

A Residência ressoa em mim as vozes gastas do tempo…

O papel apresenta riscos organizados, desenhos de letras de isolada inoperância, de solidão e inocência. A ideia vagueia de forma perfeitamente natural sem que a consiga isolar (consolidar)…

Vozes de um tempo anterior.

E os olhos que as suportam são baços…

A sensação de esvaziamento que aquela curva me dá, uma curva apertada, um cotovelo no meu pescoço, o aperto no peito enquanto viro o volante numa espiral familiar e, no entanto, tudo tão estranho. O que procuro eu nos olhos que me segredam segredos ansiosos?

E as vozes são incolores.

Prendem-me as suas melopeias, sereias de outros tempos…

E a porta… será ela capaz de se abrir à primeira? Ela nunca se abriu à primeira. O meu dedo pressiona nervoso aquele plástico branco onde uma insignificância luminosa de tonalidade rósea se esforça por chamar a minha atenção.

 

Juntam -se em grupos.

Imploram sem pedir.

Corpos moles derramados em cadeiras móveis.

andarilhos estacionados, bengalaspernas…

Enquanto subo, olho para a grande árvore, pinheiro manso de seu nome, como se a sua mansidão fosse o reflexo do casarão. Escondo-me do espelho que algum dionisíaco impotente colocou numa das faces interiores do elevador. Não, não me vou pentear, afagar o colarinho da camisa ou apertar-lhe um botão indecoroso; sou íntegro, não me deixo levar por imagens refletidas, a ilusão de que sou luz e pouco mais…

Faço uma vénia envergonhada.

Beijo caras e aperto mãos por interposta pessoa.

Sou o homem que anda sem ser empurrado.

Sou o homem que se mexe sem ser amparado…

O elevador demora a parar. O tempo fica suspenso durante uma fração de si mesmo, e eu suspendo a minha vida por solidariedade. Fixo a porta metálica com um olhar ansioso, enquanto o meu corpo espera pela imobilidade. A abertura revela um cenário com figuras de cera em posições cuidadosamente pré-estabelecidas. Apercebo-me do movimento, quase impercetível, de algumas pupilas aguadas…

Eis o meu corpo para ser admirado.

Matéria de invejável qualidade.

Produto seminovo, ligeiro transbordamento de uma meia centena de primaveras.

Eis o meu corpo a fugir em estonteante mobilidade…

A disposição do edifício consiste numa espécie de quadrado aberto, versão senil do quadrado de Aljubarrota. Gosto de imaginar que o lado que percorro é a ala dos namorados. Nomes de árvores assinalam nomes de pessoas, retratos verdes e viçosos substituindo imagens rugosas de semblante desamparado. Brinco com uma ideia: as árvores morrem de pé; estas precisam de uma cama, no mínimo um encosto onde poder desaguar. Ai meu rico filho, o meu rio está tão cansado, secam-se-lhe as águas. Culpa das represas que fui construindo ao longo da vida…

Sempre aquele poço.

Aquele buraco fingido lembrando tormentos da infância.

O poço é dele.

e eu sou refém daquele poço…

2019/10/15


2026-06-23

Ausência

 A tua ausência será luz;

um vazio que seduz,

no meio de tanto ruído.

 

 

A tua lembrança, um poema

que não obriga a um tema,

será livre e fantasia.

 

A tua recordação é herança,

uma fonte de esperança,

para quem leu o que escrevias.

 

Recordarei a tua mão,

e também o coração

que me guiou nesta utopia.


2026/06/23

Confessionário Poético

 

Não me lembro quando foi a primeira vez.

Olhei ao redor; a vida à minha frente,

não iria chegar para tudo o que eu queria fazer.

 

Talvez isso tenha acontecido com uma cerveja na mão,

no meio de uma tempestade de copos, espalhados pela mesa,

num bar onde ainda se podia fumar.

 

Mas de uma coisa tenho a certeza;

a sensação de urgência nunca mais acabou,

e desde esse dia, findou o meu sossego.

 

Devo ter pensado: “OK, estás por tua conta.”

E perguntado: “Agora, o que vais fazer?”

E devo ter respondido: “Vou beber mais uma!”

 

Quantas bebi eu até perceber

que só perdia tempo,

que tudo o que tinha era medo de perder?

 

Duas hepatites depois, ainda não tinha a resposta.

Os copos transformaram-se em garrafas,

e as garrafas distorceram o tempo.

 

Esqueci a origem da urgência e do desassossego.

Agarrei a mão que tinha livre e fugi;

levei o “puto” dentro de mim e parti.

 

 

Naveguei sem tocar na paisagem.

Sempre com uma névoa no olhar,

e um torpor de substâncias que me fingiam voar.

Naveguei até encalhar,

com movimentos desajeitados,

nas coisas do mundo.

 

Agarrado a corrimãos,

fiz, da vida, uma pista de obstáculos;

a minha alucinação/criação pessoal,

o meu purgatório intimista,

o meu sonho real.

 

O tempo escoou rápido.

Como a areia numa ampulheta partida.

Olho para os vidros no chão.

Percebo que a urgência é uma ilusão,

e o tempo que falta, uma medida.

Não irá chegar para tudo o que queria fazer.

 

 

05/06/2022

 


2026-06-22

A Vida e a Morte do Sr. Jorge - último acto; André e Jorge

 A história deixou de ser nossa. O Jorge já não precisa dos serviços de dois humildes trabalhadores que carregaram consigo uma vida inteira. Olhamos para ele com saudades precoces. O Jorge ainda é, mas já tomou uma decisão. Não houve despedidas com abraços e beijos, nem apertos de mão prometendo futuros encontros. Abalou sem olhar para trás, de mãos dadas com outra vida.

 

Tenho uma mala na mão direita. Sei que está vazia. Não tenho nada para levar. É um adereço para aquilo que sou ir mais composto. O André deu-me um abraço quando chegou, e só depois cumprimentou a Filomena:

— Olá, avó!

— Olá, André!

Tudo simples e familiar. Se houve um sorriso cúmplice, ele foi dissimulado. O André pegou-me na mão livre e convidou-me a sair do quarto. Deixei-me levar até à porta. Virei-me e passei os olhos pelo quarto. Estava escuro e encontrava-se vazio. Não me surpreendeu vê-lo assim. Sorri e voltei-me para o André. Ele devolveu-me o sorriso e disse qualquer coisa que eu não entendi.

 

É noite, mas os corredores encontram-se fortemente iluminados. Está tudo silencioso e não se vê ninguém. Caminhamos de mão dada até chegarmos à porta do elevador. A porta abre-se e as luzes acendem-se. Atrás de nós, os corredores escurecem. O elevador inicia o seu movimento, mas não consigo perceber se sobe ou se desce. Instintivamente, dirijo o olhar para os números digitais que indicam o piso, procurando informação que não me será útil. De qualquer maneira, o meu olhar não consegue descodificar o que vê. O elevador imobiliza-se e a porta abre-se. Junto a mim, o André espera pela minha decisão. À minha frente, tudo perdeu dimensão e a luminosidade é indefinida. Também eu perco dimensão, e o que de mim sobra deixa-se levar. Nunca me senti tão bem.

 

Em casa do Sr. Jorge, encontra-se uma sebenta aberta. Repousa na mesa da cozinha. Junto dela, a caneta que escreveu um último poema…

 

Quando me entrego à cegueira,

vou aonde as minhas mãos não podem ir.

Consigo ouvir as palavras despidas do seu significado,

e, por não pensar,

viajo nos seus ritmos e melodias.

Dessas viagens trago a liberdade do que senti,

e, do que senti,

a liberdade de nada ter visto.

2026-06-21

A Vida e a Morte do Sr. Jorge - décimo oitavo acto; Filomena

Não sentimos as pernas. As mãos, que ainda há pouco estavam presas, rodopiam no ar simulando um estranho bailado enquanto cantam:

 

Uma à frente e outra atrás,

como faz quem precisa.

Uma levanta-se e avisa

que quem vem, não traz.

 

Mas quem tem, não precisa,

se o mundo lhes pertence;

podem despir a camisa,

podem fingir-se indigentes.

 

Vamos abrir o punho e fingir,

que o mundo não é nosso;

que o deixámos cair,

só por sentir remorsos

 

Nós sabemos dançar, mas nunca aprendemos a escrever. Isso é coisa de mãos que foram à escola. Nós também por lá fizemos vida, que elas sem nós não iam. A carteira sempre nos separou, elas em cima, escrevendo e folheando, e nós, em baixo, ansiando pelo intervalo. Mas isto não é tempo de recordar diferenças, até porque, se olharmos bem para a nossa relação, momentos houve, de grande intimidade.  

 

A casa perdeu a graça. Eu perdi a graça. A minha vida perdeu a graça. Pensei muito na Cecília, nos primeiros anos da nossa relação, e no nosso filho. Ela escreveu-me quando o miúdo acabou o curso de enfermagem. Junto com a carta vinha uma fotografia. Nela, um rapaz bem-apessoado exibia um sorriso imaculado. Trazia vestida a farda de um hospital da capital. Junto dele, uma colega olhava-o de viés. Nos seus olhos percebia-se que o rapaz não lhe era indiferente. O meu filho tinha os olhos da mãe, e a expressão também, mas as restantes feições eram minhas: os lábios carnudos numa boca bem desenhada, o queixo com uma covinha, as faces coradas, um nariz um pouco largo e uma testa proporcional que revelava emoções quando ele a franzia. O cabelo era castanho-escuro e cortado a preceito. Não tinha falta de cabelo, e a orelha esquerda ostentava uma pequena argola prateada. Ainda hoje tenho essa fotografia numa moldura, na cabeceira da cama. Sonhei muitas vezes com ele. Talvez fosse para compensar a ausência de pensamentos quando estava acordado. Sempre pensei em visitar o rapaz quando regressasse a Portugal. Sei que casou e que comprou um apartamento com o dinheiro que tínhamos na conta conjunta. Mais tarde, também fiquei a saber que a rapariga da fotografia engravidou. De tudo isso eu sei, porque a Cecília o escreveu numa carta. As cartas que ele enviou são anteriores a ter terminado o curso. Por essa altura, a Cecília decidiu contar a verdade sobre a nossa separação. Nunca pensei que ela aguentasse tanto tempo.

Filomena, já lhe tinha dito que a minha mãe também foi enfermeira? Fez pelos outros o que não fizeram por ela. Não ligue, Filomena, isto é a mágoa a falar. O meu avô materno também morreu num hospital. O outro finou-se no trabalho, que é um lugar digno para quem não soube fazer mais nada na vida. As minhas avós foram mais pacatas e decidiram levar para o caixão os aromas do lar. Só eu é que não sei qual o ar que irei levar.

Uma manhã, recebi uma chamada da Cecília. Precisava falar urgentemente comigo. Respondi-lhe que, no dia seguinte, iria a Lisboa, porque hoje não tinha ninguém para ficar com o meu pai. A Cecília disse-me que o assunto não podia esperar e que ainda hoje viria a minha casa. Estranhei a impulsividade da sua decisão, pois nem sabia a minha morada, mas ela lá teria as suas razões. Chegou depois de almoço. Vinha sozinha. Tinha deixado o marido num café para podermos falar à vontade. Convidei-a a sentar-se na sala e ofereci-me para lhe trazer qualquer coisa. Ela recusou de uma forma que me era familiar e me fez recordar outros tempos. Continuava uma bonita mulher, talvez mais bonita ainda. Uma beleza madura e serena que nem a falta de maquilhagem, nem as lágrimas nos olhos, conseguia estragar.

 

Que digo eu? De que lágrimas falo eu? Agora que estou para me ir embora é que a memória se lembra de fazer as suas manobras manipuladoras? Filomena, ainda tenho tempo para uma última recordação? Só uma. Como quando eu era pequeno e te pedia para ficar na rua só mais um bocadinho. Vá lá, mãe, deixa lá. Deixas? Está, Jorge, mas é só mais uma, que o André está a chegar e ele é que te vai levar. Obrigado, mãe.

 

Quais foram as palavras exatas que a Cecília utilizou? O André morreu. O meu silêncio e o meu pai a perguntar: “O quê?”, e eu calado, sem palavras para querer confirmar, para saber porquê. Um acidente de automóvel levou-me a esperança de uma reconciliação. O tempo e a espera. Sempre esperei tempo demais. A mesma desculpa e o mesmo medo. Agora nada podia fazer. Verguei o corpo e encostei a cabeça aos joelhos. Deixei que a Cecília me abraçasse e entreguei-me à triste realidade que atingira a minha vida. Finalmente, preenchi o vazio que me atormentava. O velório, o funeral, o crematório foram decisões da Cecília e da minha nora. Conheci a minha neta, mas a minha atitude de completa abstração não ajudou a uma aproximação. Por esses dias ficou traçado o meu futuro.

 

Pronto, já está. Depois da morte do teu neto, vivi para dar algum conforto aos últimos dias do teu marido. Foi uma questão de tempo até que a falta de vontade para continuar vivo desse os seus frutos. Quando o corpo escorreu pela parede, pensei: coisa fácil de resolver com um balde meio-cheio de água, uma tampa de detergente e uma esfregona. Mãe, estou pronto.

 

Jorge, olha quem aí vem!

2026-06-20

A Vida e a Morte do Sr. Jorge - décimo sétimo acto; Pedro

 Quando pisamos solo pátrio, é natural sentir conforto. É uma sensação uterina e protetora. Aqui dentro, ninguém nos vai fazer mal, que a mãe não deixa. Sabemos que ele sentiu de maneira diferente o nosso regresso. Nem poderia ser de outra forma. No que nos diz respeito, o regresso só teve vantagens. Passámos a dormir uma hora depois de almoço, a ir ver o pôr do sol na praia, a passar horas no cadeirão enquanto ele dormia: um sem-número de atividades de pouco desgaste. É certo que o seu pai necessitava de muita atenção, mas nada que se comparasse com o trabalho na plataforma. Foram tempos de descanso como nunca tivemos.

 

Sofri muito quando ele morreu. Quem me ajudou foi a minha vizinha do lado, a Dona Maria. Vem dessa altura a minha decisão de lhe dar uma cópia da chave da porta de minha casa. Ouvi dizer que foi isso que me salvou, mas não cheguei a confirmar. Ele partiu em paz. Primeiro, fechou a boca e, depois, arrancou tudo o que lhe permitisse manter a sua presença por cá. Morreu no hospital, ao fim de um dia de internamento. Os dois últimos anos coincidiram com a pandemia, e o isolamento roubou-lhe o que restava de lucidez. Ele nunca entendeu a mudança das nossas rotinas, e desconfio que me atribuiu a responsabilidade por ela. Nunca o verbalizou, mas também já não conseguia fazê-lo. Foi o seu olhar melindrado que me fez ter uma certeza quase absoluta. Ao fim de algum tempo, esqueceu as antigas rotinas, e o seu olhar melindrado passou a revelar apenas tristeza. Assim é a doença do esquecimento. Mesmo desorientado e com medo, nunca me tratou mal, e foi relativamente fácil cuidar dele. Devo-lhe um obrigado por esse motivo. Estou a ser injusto com o meu pai. Durante a sua doença, eu aprendi a dar valor à vida, e a sua companhia evitou que eu caísse novamente num abismo.

 

O dia nasceu, mas já pouco me ligam. Sinto-me melhor e não percebo porque não me transferem para a outra ala. Ponho-me de pé e chamo pelo Pedro. Ele passa por mim e ignora-me. Se eu fosse outro, ficava ofendido e não o deixaria ir embora sem um pedido de desculpas. Mas ficámos assim: eu, em pé, junto da cama, e ele, caminhando em direção aos lavabos.

 

Continuo sem me lembrar do que aconteceu durante a doença do meu pai. Sei que foi antes da pandemia; essa é a única certeza que eu tenho. Olho para mim e vejo-me sentado no sofá, com o corpo vergado sobre os joelhos. O meu pai olha-me sem compreender. Há alguém junto de mim que me abraça. Percebo que é uma mulher, mas não a consigo reconhecer. Mais cedo ou mais tarde, hão de vir à memória os pormenores dessa recordação. Por agora, o melhor é não pensar mais no assunto.

 

Hoje esqueceram-se do meu almoço. É verdade que eu também não tenho fome, mas podiam ter dito alguma coisa; assim, escusava de esperar feito parvo pela paparoca.

Já que me deixaram à seca, vou tentar dormir um pouco. Talvez a enfermeira Filomena se mostre mais simpática que o Pedro.

 

2026-06-18

A Vida e a Morte do Sr. Jorge - décimo sexto acto; Fernando

 Na plataforma, o equilíbrio é essencial. Vivemos numa ilha metálica, e o ambiente que nos rodeia é hostil. Foram quase vinte anos de trabalhos esforçados. A meio da viagem, eu acho que perdemos a noção do tempo. Mas isso também pouco interessa. Se ele quiser contar como passaram esses anos, que peça a palavra e diga de sua justiça. Nós sofremos, essa é que é a verdade. Se ele queria fustigar a alma, não era preciso levar-nos com ele. São sempre os inocentes a sofrer com as decisões das cabeças pensantes, mas, mesmo contrariados, nunca ficaram por cumprir as tarefas que ele nos delegou. A lealdade faz parte da nossa natureza.

 

Já me posso levantar, mas não me mexo do lugar. Tenho receio de não conseguir voltar. É de noite, e o silêncio incomoda-me. Vai ser difícil habituar-me ao escuro.

 

O escuro fez-me voltar a Portugal. O meu pai cegou de um olho, e a mulher acabou por abandoná-lo. Pouco tempo depois, foi a alma que escureceu. Demência depressiva, esse foi o primeiro nome. Alzheimer veio substituir o primeiro e manteve essa posição até ele morrer.

Cheguei a Portugal no inverno. Chovia que Deus a mandava, e tive vontade de voltar para África enquanto a via cair pela janela do avião. De vontades está o mundo cheio, e a minha não há de ser diferente das outras. Subjuguei-a ao dever moral, ao apelo silencioso de uma consciência em colapso.

Atravessei o Tejo e aluguei uma moradia em Vila Nova de Santo André. No mesmo dia, fui ao lar ver o meu pai e decidi, naquele momento, que o iria acompanhar na sua última caminhada. O dinheiro não seria um problema, pelo menos foi isso que eu pensei na altura. Trouxe-o para casa no final do mês. Durante um ano, ainda soube o meu nome. Eu passava os dias com ele. As rotinas repetiam-se religiosamente, e recuperei o meu gosto pela guitarra. A doença gostava de música, e eu aprendi a apaziguar o seu temperamento instável. Recomecei a escrever e fiz desse hábito um relato muito pessoal da vida de um cuidador. Não pedi ajudas ao Estado, apenas porque tinha uma descrença endémica nas instituições governamentais. Ao fim de dois anos, o estado do meu pai obrigou-me a contratar alguém para me ajudar. Mais uma vez, entreguei a minha vida. Se em Angola foi o corpo, em Portugal foi a alma.

 

Tenho a impressão de estar a esquecer alguma coisa. Faço um esforço para me recordar e acabo por chorar sem saber porquê. Fecho mais os olhos e procuro dentro de mim a razão para aquelas lágrimas. Quando os abro, percebo que procurei um vazio. Quem foi que apagou o sumário do quadro antes de eu ter tempo de o passar para o caderno? Ninguém se acusa? Eu só quero saber o que se passou. Consigo distinguir todos os pormenores do quarto, apesar de ser noite e de as luzes se encontrarem apagadas. A minha visão melhorou muito. Adquiri algum tipo de superpoder. Sou herói de mim mesmo. Estou no meio da rua e vejo-me esvoaçar com a capa presa ao pescoço. Reconheço, nas letras que ela ostenta, a minha identidade postiça. O “Supereu”, sou “Superdeus” do meu mundo. Aquele SE na capa diz muito sobre a minha vida. A noite está quase no fim. Da janela do meu quarto vê-se o nascer do sol, e os galos já o anunciaram há mais de uma hora.

2026-06-16

A Vida e a Morte do Sr. Jorge - décimo quinto acto; Filomena

 Os meus pés andaram perdidos e só se encontravam ao balcão de um qualquer estabelecimento que vendesse bebidas alcoólicas. Conheceram a noite e abraçaram-na com uma entrega que não estabeleceu limites, nem os do esquecimento.

Bebe, que quem te leva sou eu. Antes de a luz chegar, ao abrigo dos astros no céu, quantas vezes vou tropeçar e carregar o que é teu. Encostar-te o corpo ébrio nas esquinas da cidade e ver-te chorar e rir sem qualquer necessidade; procurar no fundo do bolso o conforto de uma cama que não te ama. Deixaste peúgos espalhados em cama alheia, enquanto o corpo se deitava numa teia. Não conhecesse eu a cidade e terias dormido na rua, encostado às portas da estação, com baba no canto da boca, sonhando por uma vida que não fosse oca. De madrugada, às primeiras horas da manhã, obriguei-te a comer canja com folhas de hortelã. Guiei-te por becos que não recordas, enquanto bebias sobras; os olhos pesados da culpa que inventaste para te punir onde falhaste. Nunca olhaste para mim, nunca me perguntaste porque te dizia sempre que sim. Quem te fala é o meu irmão, o pé direito. Mas eu, que sou esquerdo, dir-to-ia do mesmo jeito.

 

O tempo voa. Ainda agora falava com o Pedro e quem está ao meu lado é você. Não me entenda mal, enfermeira Filomena, eu não tenho nada contra si. É que, num repente, a tarde foi-se, desapareceu como por magia. Posso fazer-lhe uma pergunta? Agora que estou melhor, quando é que me mudam de quarto? Sabe, eu gostava de estar num quarto com televisão, daqueles que têm horário para as visitas, e onde os doentes se podem levantar e passear pelos corredores. Eu sei que não depende de si, mas podia dar uma palavrinha ao médico. Por mim? Não é preciso prometer. Eu acredito em si. Enfermeira Filomena, já lhe disse que é muito parecida com a minha mãe? Não me olhe dessa maneira. O que eu quero dizer é que a imagem que guardei dela tem muitas semelhanças consigo. A minha mãe morreu muito nova, ainda não tinha chegado aos cinquenta, além disso, parecia ter menos idade. Ela era muito bonita e estava sempre bem arranjada, por isso não deve ficar ofendida com a comparação. Estivesse ela viva e a minha vida nunca teria dado a volta que deu.

Lá estou eu outra vez a planar por cima do quarto. Junto da minha cama, a enfermeira Filomena aconchega-me a almofada. Ia jurar que ela olhou para mim e sorriu. Devo estar a sonhar. Estar tantos dias fechado confundiu-me o juízo.

Onde estou agora? O meu corpo está sentado à mesa com a Cecília. O meu filho também lá está. Já está tão crescido! Que idade terá ele? Espera! Isto foi no dia em que disse à Cecília que tinha um assunto sério para falar com ela. Reconheço aquela expressão que me informava não serem necessárias muitas palavras. E não foram mesmo necessárias. Ela ditou as condições do divórcio e eu aceitei em silêncio. Enquanto eu andei entretido com o sindicato, com o partido e com a Maria do Carmo, ela tratara sozinha dos papéis do divórcio. Estava mesmo acabado! E não me refiro à relação. Na altura, deve ter sido um alívio para ela o nosso casamento ter terminado. Olho para mim e mal me reconheço. Estou magro, tenho barba de preguiça, olheiras de solidão, uma cor macilenta na pele, unhas grandes e sujas, cabelo comprido desgrenhado e uma roupa que tinha dias a mais no meu corpo. O meu filho olha-me sem ressentimento, mas com uma tristeza profunda. Como foi possível eu não ter olhado para a sua cara? Deixa-te de merdas, tu sabes bem porquê! Tinhas acabado definitivamente com a Maria do Carmo e tinhas apanhado uma bebedeira de caixão à cova. Mas não te ficaste por aí! Foste para uma reunião com a administração totalmente ressacado e sem ter dormido. O teu hálito cheirava tanto a álcool que te colocaram na ponta da mesa. Só não foste despedido porque estavas a tempo inteiro no sindicato. Só depois foste para casa, onde chegaste naquele estado.

A Cecília deixou-me dormir lá em casa nessa noite. Quando acordei de manhã, sabia o que tinha de fazer. Pouco queria levar: meia dúzia de livros que ainda não tinha lido, a minha viola, os CDs do Zeca e uma mala de roupa. Consegui um quarto numa pensão em Lisboa. Nesse tempo, ainda se conseguiam estes pequenos milagres. Este foi o primeiro de muitos quartos onde vivi. Liberto de responsabilidades, fui de mal a pior. Meti baixa psicológica e alimentei-me com uma mistura explosiva de antidepressivos e álcool. Passados poucos meses, comecei a falhar com a pensão de alimentos. A Cecília perdoou-me essa falha, mas não fez o mesmo quando faltei aos fins de semana com o miúdo. Foram tempos muito difíceis. Ainda hoje me dói pensar neles.

 

O que se passa, Filomena? Porque estão tantas batas brancas à minha volta?

 

A Rosa trabalhava numa fábrica na Amadora. Conheci-a num plenário e nunca mais a tinha visto até aquele dia. Encontrei-a por acaso junto ao estádio do Estrela. Eu tinha-me mudado há pouco tempo para um quarto que arrendara na Damaia e vagueava sem destino por ruas já esquecidas. Foi ela que me convidou para jantar. Vivia perto da praça da igreja, com a mãe e um cãozinho branco de raça indeterminada. O pai tinha morrido, havia um ano, com um tumor nos pulmões, presente da tabaqueira, a premiar, com diploma dourado, os cinquenta anos de consumo intensivo. Foi à mesa daquela casa modesta que eu me rendi à mãe de Rosa. Sim, Dona Amélia, um dia destes trago cá o miúdo. Esta promessa não foi um pacto de sangue, mas teve o mesmo efeito: deu-me o incentivo que a Rosa não conseguira dar-me sozinha. Primeiro os comprimidos, depois o álcool e, por fim, o abuso de haxixe; larguei tudo em menos de um mês. Já morava com elas e, durante esse mês, nunca saí de casa sem a sua companhia. Não vou mentir, sofri imenso, principalmente da cabeça, mas estava focado e determinado a cumprir a minha promessa. Nos meses seguintes, tudo se passou muito depressa. Larguei o sindicato e o partido e pedi a reintegração no meu posto de trabalho. Equilibrei as minhas contas e voltei a pagar a pensão de alimentos. Só faltava cumprir a minha promessa à Dona Amélia. Demorei algum tempo até ganhar coragem para voltar a ver o meu filho.

 

Vejo-me à porta do meu antigo apartamento. Tenho o cabelo cortado muito curto e a barba aparada. Não estou deslumbrante, mas o meu aspeto é asseado. A roupa ainda cheira a nova e empresta-me uma outra idade, uma outra identidade, talvez mais dignidade. Tenho orgulho naquele homem que se apresenta àquela porta com uma postura tímida, quem sabe, envergonhada. Resisto à vontade que tenho de o abraçar. Entretanto, a porta abriu-se e quem aparece é um menino feito homenzinho, como acontece a todos aqueles que a vida fez crescer mais depressa. O homem que está à porta olha para o rapaz e tem dificuldade em suster as lágrimas. O miúdo devolve o olhar do pai com uma serenidade demasiado madura para a sua idade. Cecília aparece por detrás dele e pergunta-lhe: “Não dás um beijo ao teu pai?”. Vejo o rapaz abraçar-me e dar-me um beijo na face. Não consigo perceber, mas ia jurar que o homem foi incapaz de impedir que uma lágrima se libertasse e escorresse discreta pela face oculta da cara. Falta-me coragem para assistir ao que aconteceu depois. Ainda me lembro do esforço que aquele homem fez para não cair aos pés de Cecília e implorar que ela o aceitasse de volta. Nesse dia, levou o seu filho para a casa da Rosa e pagou finalmente a promessa que havia feito à Amélia.

 

Será que não saem de cima de mim? Mas, o que é que se passa que não me deixam em paz.

 

Julguei que era mais forte, mas os contactos regulares com a Cecília deram cabo de mim. De tal forma fui egoísta que ansiava pelos fins de semana com o meu filho apenas para a ver por breves instantes. Não queria admitir, mas estava novamente apaixonado por Cecília. O que se passou depois fui só eu a ser eu próprio. Fraco a confessar sentimentos, não aguentei quando vi aquele homem bem parecido e de aspeto saudável que um dia abriu a porta do meu antigo apartamento. Fugi, que mais pode fazer um cobarde? Abandonei quem me ajudou e abandonei o meu filho. Incapaz de resolver o meu conflito interior e sem coragem para ser honesto e admitir o que sentia, menti à Rosa e parti. O que me custou mais foi despedir-me da mãe de Rosa. A Dona Amélia tinha um sexto sentido que a avisava de que eu não estava a ser honesto e que isso faria sofrer a sua filha.

 

A enfermeira Filomena olha entristecida para mim. Não olha para o meu corpo, mas para cima, como se quisesse dizer-me alguma coisa. De repente vejo-me novamente no meu corpo. Este vai e vem, está a dar cabo de mim.

 

Que mentiras eu contei, que meias-verdades deixei escapar? Disse que o dinheiro era pouco e que tinha recebido uma oferta para ir trabalhar para Angola que era irrecusável. Disse também que era um trabalho de gestão e que poderia vir a casa de três em três meses, por períodos de quinze dias. Iria enviar dinheiro todos os meses para ajudar no que fosse necessário e que a amava muito.

Fui eu que me ofereci para ir trabalhar para a plataforma de exploração de petróleo como técnico especializado de manutenção. Receberia muitíssimo bem, e em dólares. Efetivamente, poderia vir a casa de três em três meses, mas eu tencionava aproveitar todo o tempo livre para ganhar mais dinheiro. Mantive uma renda generosa à Rosa durante quatro anos; foi esse o tempo que demorou a substituir-me. Quanto ao amor, decidi guardá-lo numa gaveta e deitar fora a chave. Do dinheiro ganho, reparti-o em quatro partes iguais: uma para a Rosa, outra para mim, uma para a Cecília, e a última parte numa conta cujos titulares eram o miúdo e eu.

O miúdo atingiu a maioridade ainda eu trabalhava na costa africana. Por essa altura, a Rosa deixou de me escrever. As redes sociais começavam a ocupar o espaço de convívio, mas eu não fui seduzido; por isso, só havia três formas de entrar em contacto comigo: o telefone, que eu não atendia, o mail, que eu lia ao final do dia, e as cartas, que me davam uma agradável sensação de proximidade e às quais eu respondia regularmente. Durante todos esses anos, foi assim que mantive a ligação com o meu filho. Tenho guardadas todas as cartas que me escreveu. Estão guardadas na minha mesa de cabeceira. Ainda hoje as leio com nostalgia desses tempos de solidão.

É noite, e o quarto está vazio. Ao longe ouço a voz do Fernando. Vem fazer o turno da escuridão. Quem sabe se não estará com paciência, e eu possa recordar com ele um dos momentos mais traumáticos da minha viagem por este mundo. Cala-te, Jorge, que ele vem ai.

 

2026-06-15

A Vida e a Morte do Sr. Jorge - décimo quarto acto; Pedro

 Não tenho como saber se eles voltarão a andar. Gostava de os confortar com palavras de incentivo. Olharia para eles, olheiras nos calos, e debitaria parágrafos repletos de lugares-comuns disfarçados de originalidade e inteligência. E eles, do alto das suas micoses, ficariam de dedos à banda com o meu saber das coisas do mundo. Veriam refletido nas minhas ramelas um charme de reputada dimensão. Isto, porque quem ama é cego a pequenas nódoas de personalidade.

Não temos essa cegueira de que falas. Conhecemos-te todas as nódoas, todas as imperfeições de carácter que nos fizeram dar passos inúteis. Repara como fomos gentis. Poderíamos ter referido os caminhos errados que nos obrigaste a percorrer. Mesmo estando sós, tu numa ponta e nós na outra, não há de ser a distância que nos vai separar. Sempre ouvimos dizer que os extremos se tocam. Tu, do alto, e nós, cá em baixo, na prática queremos a mesma coisa. Não é por comeres carne e nós o pó que tens mais valor. Esquece lá isso da cegueira por amor. Se não precisássemos de ti, já tínhamos descalçado esta bota há mais tempo. Mas não penses que ficas melhor sem nós.

 

Pois é, Pedro. Às vezes andamos uma vida toda enganados só porque não queremos ver. Peço desculpa se estou a incomodar. Pelo que vejo, continua de greve. Esse autocolante ao peito não engana. Quer que lhe conte uma história engraçada? É sobre a greve de 98, aquela greve que todas as pessoas julgavam impossível. Quer que eu não me mexa? Mas, ó Pedro, eu já não consigo mexer nada! Mais quieto do que isto, só depois de morto, e mesmo assim não sei. Olhe que há por aí mortos muito irrequietos. Basta ver as notícias para confirmar a sua teimosia. Há aqueles que morrem no hospital e fogem da urna só para apoquentar familiares pesarosos e direções incompetentes. Também há aqueles que morrem na guerra e depois se escondem em valas comuns para aborrecer os zelosos funcionários da guerra. Há aqueles outros que toda a gente sabe que morreram, mas que se mantêm desaparecidos. Esses lembram-me alguns miúdos lá da rua que continuavam escondidos, mesmo depois de o jogo acabar. Você não imagina a raiva que isso me dava. Com o tempo contado até à berraria do jantar, e eles enfiados sabe-se lá aonde. Existem mortos aos quais se perdoa a teimosia. Como pedir ao cadáver de uma criança soterrada em Gaza para acudir aos apelos dos pais, até porque também podem estar mortos? Mal é arrebanharem esses corpos infantis e fazerem de uma vala algo banal e comum. Estou a ser inconveniente? Não? Ainda bem. Sabe, Pedro, é que, depois de perder a voz, tornei-me um fala-barato. Afinal, sempre quer ouvir a história da minha greve? Foi a primeira como delegado sindical. Isto não há amor como o primeiro. As primeiras reuniões, os primeiros plenários do lado de lá, os primeiros confrontos com a administração, a adrenalina da desobediência, que, mesmo legal, era sujeita a pressões e ameaças. Sim, Pedro, mas isto sempre teve consequências. Só depois da greve é que as sentíamos, mas fazia tudo parte do jogo. A vida não passa de um enorme jogo coletivo onde cada um de nós decide o que há de apostar. Nem sempre se aposta dinheiro e nem sempre se ganha dinheiro. Às vezes ganha-se vida; outras vezes perde-se parte dela. O mais importante é não a perder toda. É verdade que nem sempre estamos dispostos a correr riscos, mas o sentimento de injustiça pode ser avassalador, e a necessidade de deitar cá para fora tudo o que engolimos pode levar-nos a pôr as fichas todas na mesa. Acho que foi isso que me levou à subcomissão de trabalhadores e, depois, ao sindicato. O partido veio no fim, e foi por sua causa que acabei por largar tudo. Você deve estar a pensar: porque não vai este indivíduo diretamente ao assunto? Eu prometo que não vou mais engonhar. A partir de agora vai tudo de seguida. Passei duas semanas que mal fui a casa. Saía do trabalho e ficava por lá a reunir nos setores com os trabalhadores. Quando chegou o dia da greve, fiz parte do piquete durante três dias. Íamos à vez dormir um pouco na sala da subcomissão, onde havia duas cadeiras e uma mesa. Eu, como não era muito grande, encolhia-me e dormia em cima da mesa. O meu camarada Rui, sei que dormia no chão. Não vou entrar em pormenores e vou direto ao ponto que interessa: a greve foi um sucesso e quebrou um longo jejum de lutas inconsequentes. Com esta adesão, levaríamos outros argumentos à mesa das negociações. No último dia, cansados, sem tomar banho, mas eufóricos por tudo o que acontecera nesses três dias, fomos almoçar a uma churrasqueira que havia na zona industrial. Era uma casa com preços para a malta que trabalhava na ferrugem, de longos bancos corridos, de madeira gasta, e mesas sempre cheias. Nesse dia, para não variar, a casa estava a abarrotar e quase não ouvíamos o que cada um dizia. Pedimos jarros de tinto, febras grelhadas com batata frita e, para entrada, uns queijos secos, pão e azeitonas. A meio da refeição, deixei de ouvir o Rui, que estava ao meu lado. Quando olhei para ele, não queria acreditar no que via. O Rui dormia abraçado ao prato, com a cara encostada às febras, que lhe serviam de almofada. Quando chamei a malta à atenção, todos desatámos a rir. Com a galhofa, o Rui acabou por acordar. Olhou, estremunhado, para nós, resmungou meia dúzia de palavras que ninguém percebeu e continuou a comer como se não fosse nada com ele. O mais engraçado é que nem a cara limpou, e o molho das febras escorria-lhe pela face e ameaçava pingar pelo queixo. Está a entender, Pedro? Era muito mais do que a luta. O verdadeiro combustível que nos alimentava nesses dias era a camaradagem e a solidariedade, a certeza de um ombro ao nosso lado que não nos deixaria vacilar. Pedro, você já sentiu essa força? Estou a incomodar, não é? Vou deixá-lo sossegado. Agora que já posso comer pela minha mão, vou aproveitar esta sopinha enquanto ainda está quente. 

2026-06-12

A Vida e a Morte do Sr. Jorge - décimo terceiro acto; Fernando

 Levarei a imagem dos meus pés; mais não será necessário. Os meus pés já não se arrastam, não percorrem a fábrica para lá e para cá, não se esgotam nos corredores das administrações, em negociações infindáveis, ou nas inúmeras reuniões do partido. Estão leves. A ausência do seu peso faz-me duvidar da sua existência material. Talvez noutra dimensão lhes possa tocar. A estranha leveza dos meus pés poderia ser objeto de um estudo científico sobre a imaterialidade morfológica dos membros inferiores. Temos tanto orgulho na verticalidade adquirida que distinguimos as classes através duma escala baseada nessa posição relativa. O que dizemos de quem se dobra? E de quem se coloca de joelhos? E de quem se deita em submissão suprema? Quem não aspira a ter o mundo a seus pés? E o supremo orgulho de morrer de pé? De fincar o pé? De não arredar o pé? E aquele conselho que nos diz para não irmos para fora de pé? Tem cuidado, não fiques sem pé! Enfim, um sem-número de pés que regem as nossas relações. Que dizer das ordens: “Chega-te ao pé de mim!”; “Não te quero ver ao pé de mim!” Ou da fanfarronice: “Fui eu que lhe dei com os pés” ou “mantive-me de pé”. Também os queixumes têm os seus pés: “Levei com os pés” ou “levei um pontapé”. Se quiser ameaçar alguém, também há pés que podemos usar: “Levas um pontapé” ou “corro contigo ao pontapé”. E qual é o jogo mais popular? Se responderam em português, posso então perguntar-lhes qual é a parte do corpo mais usada nesse jogo?

Levarei uma imagem difusa dos meus pés, e a minha verticalidade deixou de estar neles.

 

 

Vou deitado, disso não tenho dúvidas. Neste momento, não venho nem vou. Deitado estou e assim permanecerei. Com um sorriso nos lábios, procurando caminhos com astrolábios que comprei numa terça-feira, em Lisboa. Digo coisas à toa, mas juro que sou boa pessoa. Perguntem na minha rua se o Jorge uivava à lua, se a vida que viveu foi maior do que a sua. Não irão encontrar quem se lembre do chão que pisei. O meu rasto fui eu que o apaguei. Fugi num dia de verão e nunca mais voltei. Quis o destino que fosse essa a viagem, que atravessasse o rio para a outra margem.

 

Fernando, está aí? Consegue ouvir os meus devaneios? Continuo deitado e viajo para outro lado.

 

A greve está marcada para quinta e sexta. É um piscar de olhos ao horário normal, que também agrada ao turno das 8 às 16. Escolhemos, para começar a greve, um turno de fortes convicções. É muito importante arrancar com um turno forte, mas não podemos dar nada como garantido. A indignação e a revolta que nos fazem lutar têm de ser cuidadosamente regadas. Com falta de água morrem; com excesso dela, apodrecem. A monitorização dos dias que antecedem a greve é fundamental. Entre outros, é esse o papel do delegado sindical. Somos batedores que vivem na trincheira e sentem a mesma fome. Somos os olhos da Direção Distrital. É na Direção Nacional que toda a informação é centralizada. Compete aos membros da direção assumir as negociações nas reuniões com as entidades patronais. Eventualmente, alguns delegados podem estar presentes. Enquanto delegado, sempre preferi ficar na fábrica.

 

Nos dias em que estava escalado para rondas de esclarecimento, ia para a fábrica à meia-noite. Levava uma pequena mochila com sandes, sumos e três maços de SG filtro. Geralmente éramos três, eventualmente dois. Muito raramente íamos sozinhos, mas também podia acontecer se o setor fosse o nosso local de trabalho. Nem sempre isso era uma vantagem, pois os santos da casa tendem a perder os poderes milagreiros. Nalguns casos mais bicudos, chegávamos a pedir ajuda a um membro da direção, geralmente alguém com muita experiência e que não se perturbava quando as discussões aqueciam. E aqueciam sempre. Às vezes, levantavam fervura e vinham por fora. Tínhamos sempre como limpar esses derrames: um cigarro, um café e uma conversa a sós, com as estrelas como únicas testemunhas. Ia-se o ímpeto heroico e revelava-se o homem. As diferenças desvaneciam-se e perdiam importância. Todos queríamos o mesmo: mais dinheiro, tempo livre, condições no local de trabalho. Depois vinha o resto: os subsídios, o tempo para a reforma, o preço da hora extra, as férias frias, o prémio de regularidade, a assiduidade, a prevenção, o seguro de saúde, tudo preto no branco e assinado no acordo coletivo de trabalho. Tudo selado com um forte abraço e sem ressentimentos. Agora só faltava a promessa de adesão. “Então, estás com a malta?”; “Deixa-me pensar, pá! Sabes que não é uma decisão fácil. Eu contava meter cá o miúdo para o ano, estás a ver?”. E eu via sempre, ou pelo menos tentava. Às vezes era eu que fazia de “polícia mau”. Tudo era combinado com antecedência. Havia pouca margem para improvisos emocionais, e mesmo esses eram antecipados e tinham um plano de fuga. Éramos uma máquina bem oleada, e tenho muito orgulho no que conseguimos com as lutas reivindicativas dos trabalhadores. Na direção nunca senti este tipo de satisfação. Há pessoas que não são talhadas para funções dirigentes, e eu sou uma delas. Se passei despercebido, foi apenas porque sou bom a disfarçar a mediocridade.