(excerto de um diálogo telefônico
entre o João e a Madalena. Fez parte de um conjunto de dados cedidos pela empresa
de comunicações à polícia judiciária)
-Após um período relativamente
longo com o sinal de chamada sem que alguém atenda finalmente uma voz masculina-
João: Sim?
Madalena: Sou eu João.
J: Sim.
M: Estava preocupada. Há três dias
que não davas sinal de vida.
J: Não te quis chatear.
M: Não me lixes João, estás farto
de saber que isto não funciona assim. Os teus silêncios deixam-me preocupada. A
tua tagarelice só me chateia quando estás virado do avesso.
J: Sim.
M: Tens tomado a medicação?
J: Sim.
M: Toda?
J: Sim.
M: Só sabes dizer “Sim”?
J: Não.
M: Queres que eu desligue?
J: Não desligues, por favor.
M: Está tudo bem contigo?
J: Sinto a tua falta.
M: Eu sei, já falta pouco. Mais uma
semana e estou de volta.
J: Volta depressa.
M: Eu volto meu querido. Tens trabalhado?
J: Sim. Estou a trabalhar num projeto com um poeta que conheci naquele evento
cultural a que tu me levaste, aquele patrocinado pelo Município.
M: Qual poeta?
J: O Paulo. Não te falei dele?
M: Não.
J: Devo ter-me esquecido. Tenho passado os dias com ele a fazer esboços para um
trabalho sobre o seu último livro. Em compensação ele está a escrever sobre o
meu processo criativo.
M: O Paulo?
J: Sim, o Paulo. Estamos pensando
em fazer a apresentação dos trabalhos em simultâneo.
M: A dona Alzira tem ido aí?
J: Todos os dias. É ela que tem
cozinhado para nós.
M: Para ti e para o Paulo?
J: Sim, parece que não me estás a
ouvir.
M: Claro que estou querido,
desculpa.
(um curto período de silêncio)
M: Estás a dar-te bem com o Paulo?
J: Sim, mas fiquei um pouco desiludido
com a sua reação quando lhe mostrei os painéis quase terminados.
M: Então porquê? O Paulo não gostou?
J: Não foi propriamente uma crítica.
Ele pura e simplesmente não conseguiu ver nada para além do negro dos painéis.
Fiquei chocado.
M: Falaste com ele sobre isso?
J: Pouco. Disse-lhe apenas que
estava à espera de que ele tivesse reconhecido na minha pintura a sua poesia.
M: E ele?
J: Fez um comentário sobre a perturbação
que o negro lhe causava. Não achas estranho este comportamento?
M: Falaste ao médico sobre isto?
J: Para quê? Além disso tenho
passado as noites em branco sempre a pintar. Quero ter a obra terminada quando
tu chegares.
M: João não podes faltar às
consultas. Tu prometeste-me que cumprias a rotina.
J: Tu também me prometeste que
nunca mais o vias…
M: Estás a ser injusto. Sabes
perfeitamente bem que eu tinha de cumprir o contrato e fazer esta digressão.
J: Desculpa, estou a ser idiota. O
meu amor por ti cria em mim estranhos sentimentos de posse.
M: Está bem, meu querido. Quando eu
voltar a casa resolvemos tudo. Agora por favor, não deixes de tomar a medicação.
E tem paciência com o Paulo, vocês são muito mais parecidos do que tu pensas.
J: Eu sei amor.
M: Vá, tenho que desligar. Beijo
muito grande. Vê lá se amanhã não te esquecer de telefonar.
J: Prometo que não. Beijo grande
para ti.
-A chamada acaba com um ruído seco
de quebra de ligação-
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