2026-05-22

O Poeta ( da ilusão à realidade)

 

(excerto de um diálogo telefônico entre o João e a Madalena. Fez parte de um conjunto de dados cedidos pela empresa de comunicações à polícia judiciária)

-Após um período relativamente longo com o sinal de chamada sem que alguém atenda finalmente uma voz masculina-

João: Sim?

Madalena: Sou eu João.

J: Sim.

M: Estava preocupada. Há três dias que não davas sinal de vida.

J: Não te quis chatear.

M: Não me lixes João, estás farto de saber que isto não funciona assim. Os teus silêncios deixam-me preocupada. A tua tagarelice só me chateia quando estás virado do avesso.

J: Sim.

M: Tens tomado a medicação?

J: Sim.

M: Toda?

J: Sim.

M: Só sabes dizer “Sim”?

J: Não.

M: Queres que eu desligue?

J: Não desligues, por favor.

M: Está tudo bem contigo?

J: Sinto a tua falta.

M: Eu sei, já falta pouco. Mais uma semana e estou de volta.

J: Volta depressa.

M: Eu volto meu querido. Tens trabalhado?
J: Sim. Estou a trabalhar num projeto com um poeta que conheci naquele evento cultural a que tu me levaste, aquele patrocinado pelo Município.
M: Qual poeta?

J: O Paulo. Não te falei dele?

M: Não.
J: Devo ter-me esquecido. Tenho passado os dias com ele a fazer esboços para um trabalho sobre o seu último livro. Em compensação ele está a escrever sobre o meu processo criativo.

M: O Paulo?

J: Sim, o Paulo. Estamos pensando em fazer a apresentação dos trabalhos em simultâneo.

M: A dona Alzira tem ido aí?

J: Todos os dias. É ela que tem cozinhado para nós.

M: Para ti e para o Paulo?

J: Sim, parece que não me estás a ouvir.

M: Claro que estou querido, desculpa.

(um curto período de silêncio)

M: Estás a dar-te bem com o Paulo?

J: Sim, mas fiquei um pouco desiludido com a sua reação quando lhe mostrei os painéis quase terminados.
M: Então porquê? O Paulo não gostou?

J: Não foi propriamente uma crítica. Ele pura e simplesmente não conseguiu ver nada para além do negro dos painéis. Fiquei chocado.

M: Falaste com ele sobre isso?

J: Pouco. Disse-lhe apenas que estava à espera de que ele tivesse reconhecido na minha pintura a sua poesia.

M: E ele?

J: Fez um comentário sobre a perturbação que o negro lhe causava. Não achas estranho este comportamento?

M: Falaste ao médico sobre isto?

J: Para quê? Além disso tenho passado as noites em branco sempre a pintar. Quero ter a obra terminada quando tu chegares.

M: João não podes faltar às consultas. Tu prometeste-me que cumprias a rotina.

J: Tu também me prometeste que nunca mais o vias…

M: Estás a ser injusto. Sabes perfeitamente bem que eu tinha de cumprir o contrato e fazer esta digressão.

J: Desculpa, estou a ser idiota. O meu amor por ti cria em mim estranhos sentimentos de posse.

M: Está bem, meu querido. Quando eu voltar a casa resolvemos tudo. Agora por favor, não deixes de tomar a medicação. E tem paciência com o Paulo, vocês são muito mais parecidos do que tu pensas.

J: Eu sei amor.

M: Vá, tenho que desligar. Beijo muito grande. Vê lá se amanhã não te esquecer de telefonar.

J: Prometo que não. Beijo grande para ti.

-A chamada acaba com um ruído seco de quebra de ligação-


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