O meu nome é Paulo e a história que vou contar não é sobre mim. João era um amigo recente. Conhecera-o há dois anos numa festa em que, por motivos diferentes, nos sentíamos desconfortáveis. O meu desconforto tinha origem no ambiente social em que se desenrolava o evento. Organizado pelas autoridades culturais do município, com vista à divulgação de novos autores de posia, era um misto de pessoas interessadas e gente que apenas queria aparecer. Muito mais críticos que leitores falavam de tudo um pouco e nada sobre os autores que tinham dado origem ao evento. Eu tinha-me refugiado junto a uma pequena banca onde o meu livro mal se vendia. Absorto em pensamentos de enfado folheava um livro de um colega do qual já lera alguns trabalhos interessantes e ansiava pela hora de voltar a casa para poder ler descansado a obra que tinha em mãos. O João, contou-me ele mais tarde, estava muito perturbado com o comportamento da sua mais recente namorada, uma jovem com metade da sua idade. A jovem, além de muito bonita, o que por si já atraia os olhares de todos os presentes, sem distinção de gênero ou de sexo, juntava a esse predicado uma alegria e uma irreverência contagiantes. O meu futuro amigo ruído de ciumes aproximara-se da banca e agarrou alheado um dos meus livros. Apercebendo-se que eu o observava curioso dirigiu-se-me com uma observação descuidada, mas inconveniente, vale a pena? Ao que eu respondi, espero bem que sim. A julgar pelo trabalho que me deu escrevê-lo seria uma desilusão se assim não fosse. Embora tivesse dado a minha resposta com um sorriso conciliador o meu futuro amigo sentiu-se atingido e na obrigação de se justificar, peço desculpa, não era minha intenção ofendê-lo. Ao que eu retorqui, não se preocupe, não é nada que não tenha fácil reparação. E continuei, você leva o livro e depois de o ler dá-me a sua opinião. O João meio atrapalhado ainda puxou da carteira, mas eu cortei-lhe o gesto dizendo, não é preciso pagar, fica como caução por possíveis danos psicológico. Perante a minha tirada rimo-nos os dois. Foi dele a idéia de marcar um encontro no seu estúdio de trabalho. Assim, em troca da minha opinião você dá uma vista de olhos pelos meus quadros e depois diz-me de sua justiça. Ainda sorrindo respondi-lhe que eu não era um entendido e que ele ficava a perder com a troca. Devolveu-me um sorriso cúmplice dizendo, então estamos em iguais circunstâncias, eu também não percebo nada de posia. Foi assim que fiquei sabendo que o João era Pintor e que o seu estúdio se situava num pequeno monte no Conselho de Santiago. Despedimo-nos nessa noite com um aperto de mão faterno. Da minha parte estava contente por não ter sido uma noite perdida. Conhecer alguém disposto a trocar idéias sobre poesia e pintura não era algo que se pudesse desprezar, ainda por cima o João parecia ser um sujeito simpático e acessível. Com este pensamento na idéia arrumei a banca e meti tudo no carro, não sem antes me despedir da organização com um pedido de desculpas. Nada como um problema familiar com um parente proximo, o que não era totalmente mentira pois eu vivia sozinho com o meu pai e ele tinha tido um enfarte há pouco tempo. Embora estivesse melhor e não apresentasse razão para preocupações sempre juntava o útil ao agradável matando assim dois coelhos com uma cajadada só. Tirando o mau gosto da alusão à morte dos coelhos o fato é que era uma saída airosa e que não fechava a porta com os pés. Enfim, foi assim que começou a minha relação de amizade com o João. Longe estava eu de imaginar onde ela me iria levar.
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