Abalei de Lisboa em 93, mas nunca deixei de a chorar. Trabalhei à beira-mar lá para os lados dos Olivais. O meu Tejo era mais sujo e a democracia ainda era adolescente, mas nem por isso os encantos daquela periferia eram menores. Abalei de Lisboa, no entanto, parte de mim ficou lá.
No outro dia voltei à baixa por questões profissionais.
Tinha uma reunião marcada para as dez da manhã, mas tinha decidido madrugar e
atravessei a ponte às seis. Lisboa tem, para quem a atravessa a ponte àquela
hora, um encanto especial. Dizem os que têm alma sensível que a luminosidade é
a responsável pela magia, outros dirão que é o abraço do Cristo Rei que abençoa
Lisboa com uma das mais bonitas paisagens do Mundo. Ainda bem que ao partir
deixei o Tejo para trás, não sei se teria a mesma coragem se tivesse olhado
Lisboa nos olhos, mas adiante. Estava nas ruas da baixa numa das melhores
alturas do ano, a primavera, e o ar fresco encontrava-se moderadamente limpo provocando
em mim uma enorme vontade encher os pulmões com ele. Assim caminhei em direção
ao rio, palmilhando a rua, dita Augusta, até passar pelo arco que tem o mesmo
nome. Tudo isto são lugares-comuns do conhecimento de qualquer condutor de
Tuk-Tuks, mas quando eu falo de Lisboa é de sentimentos que eu falo, de
sensações que ficaram gravadas em mim. Mais lugares-comuns que só são comuns
porque foram partilhados por toda uma geração que viveu a Lisboa dos anos
oitenta. Os nomes que me ficaram são muitos e enquanto respiro o ar fresco
junto ao Tejo vão desfilando mentalmente pelos meus olhos. O cais do Sodré com
o Dallas, o Tokyo., o Sangri-La e o inevitável Jamaica. Ao longe o outro lado
do rio evoca outros sons, mas eu estou nesta margem que me lembra outras
margens.
Apanhava o comboio na estação da Amadora. Lisboa sempre
partiu de lá e eu habituei-me a sair do túnel do Rossio como quem sai da toca de
um coelho. Para mim a chegada à estação do Rossio sempre foi um momento mágico,
da escuridão para uma explosão de luz e de cor num pestanejar que a minha
imaginação infantil transformou numa história de aventuras. E era realmente uma
aventura para alguém tão pequeno, mas com uma imaginação tão grande. Descia do
comboio pela mão da minha mãe, aquela mão quente e suave que fazia sentir maior,
de tamanho indefinido, mas maior. Assim protegido enfrentava os enormes lances
de escada que nos faziam desaguar entre os Restauradores e a avenida da Liberdade.
Subíamos Liberdade acima até ao Tivoli e entrávamos num prédio antigo onde um Doutor
de calvície venerável prometia à minha mãe a cura do menino. Esteja descansada
que as vacinas vão aliviar-lhe as alergias e por consequência as crises de
asma. À volta trazia no coração a esperança de uma outra liberdade. A 11 de março de 75 estava no Éden com o meu pai. O filme,
os três mosqueteiros e as joias da rainha, não me deixou perceber que Lisboa
fervilhava com o ataque dos paraquedistas de Tancos ao Regimento de artilharia
n°1 de Lisboa e que desse dia até 25 de novembro do mesmo ano viveríamos um dos
períodos mais conturbados da nossa jovem democracia. E os grandes armazéns, os do Chiado e logo ao lado os do
Grandela, e a discoteca do Carmo com os seus vinis de importação, e a montra da
Custódio Cardoso Pereira que me faziam sonhar com os seus instrumentos
reluzentes e…
Já não estou na praça do Comércio, sem querer os passos
tomaram conta de mim e levaram-me na direção da estação de Santa Apolônia. Vejo-me
agora de uniforme verde a caminho do Entroncamento enquanto outras imagens se
sobrepõem, desta vez a preto e branco. São imagens de televisão e mostram os heróis
antifascistas, o Cunhal e o Soares, à vez, bem entendido, que liberdade e democracia
nem sempre são traços de união. Está na hora de voltar para trás. Apercebo-me
que tenho uma mensagem no telemóvel. No meu tempo Lisboa tinha outro tipo de
mensagens. Enquanto faço o caminho de volta, subindo a rua do Ouro, lembro
Alfama e o Chapitô. Lembro Essencialmente a sua esplanada onde assisti a uma
trovoada épica, porque de artes performativas sempre fui um zero à esquerda.
Talvez porque se aproxima a hora de almoço vem-me ao nariz os cheiros de croquetes
e bifanas e na garganta a frescura de uma imperial, enquanto no corpo sinto a
pressão do balcão da Portugália na Almirante Reis. E porque estou na Almirante Reis dou mais uns
passos até à rua da Palma, até ao antigo palacete que foi sede do PSR e onde se
bebiam umas cervejas e se ouviam arranhar uns acordes de Punk. O melhor é não
ir por aí senão nunca mais paro.
Estou ao pé do Condes e alguém chama pelo meu nome enquanto
acena com a mão. À minha volta ouve-se o burburinho babilônico das grandes metrópoles
cosmopolitas que se renderam ao dinheiro do turismo. Apercebo-me agora que
pouco vi enquanto caminhava. Do Tejo eu lembro-me, mas tenho dificuldades em
recordar o mar de esplanadas e de lojas de souvenirs fabricados vá-se lá saber
onde. Melhor assim, no fim de
contas esta Lisboa já não é minha, hoje não passo de um turista. Vale-me que quando
voltar a atravessar a ponte deixo Lisboa para trás. Se assim não fosse, sabe-se
lá se conseguiria resistir aos seus encantos.
Nota do autor: Este pequeno texto devia integrar uma compilação
sobre Lisboa. A Editora que me endossou o convite esteve envolvida na publicação
dos meus livros e esta seria a minha segunda participação…Pena que eu tenha
lido o convite já depois do prazo ter acabado. Enfim, qualquer pretexto é válido
para escrever. Foi esse o motivo que me levou a aceitar o desafio e a publicar
o resultado. O tema principal é Lisboa e tem menos de mil palavras.
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