2026-05-11

LISBOA AINDA ESTÁ ONDE A DEIXEI

 Abalei de Lisboa em 93, mas nunca deixei de a chorar. Trabalhei à beira-mar lá para os lados dos Olivais. O meu Tejo era mais sujo e a democracia ainda era adolescente, mas nem por isso os encantos daquela periferia eram menores. Abalei de Lisboa, no entanto, parte de mim ficou lá.

No outro dia voltei à baixa por questões profissionais. Tinha uma reunião marcada para as dez da manhã, mas tinha decidido madrugar e atravessei a ponte às seis. Lisboa tem, para quem a atravessa a ponte àquela hora, um encanto especial. Dizem os que têm alma sensível que a luminosidade é a responsável pela magia, outros dirão que é o abraço do Cristo Rei que abençoa Lisboa com uma das mais bonitas paisagens do Mundo. Ainda bem que ao partir deixei o Tejo para trás, não sei se teria a mesma coragem se tivesse olhado Lisboa nos olhos, mas adiante. Estava nas ruas da baixa numa das melhores alturas do ano, a primavera, e o ar fresco encontrava-se moderadamente limpo provocando em mim uma enorme vontade encher os pulmões com ele. Assim caminhei em direção ao rio, palmilhando a rua, dita Augusta, até passar pelo arco que tem o mesmo nome. Tudo isto são lugares-comuns do conhecimento de qualquer condutor de Tuk-Tuks, mas quando eu falo de Lisboa é de sentimentos que eu falo, de sensações que ficaram gravadas em mim. Mais lugares-comuns que só são comuns porque foram partilhados por toda uma geração que viveu a Lisboa dos anos oitenta. Os nomes que me ficaram são muitos e enquanto respiro o ar fresco junto ao Tejo vão desfilando mentalmente pelos meus olhos. O cais do Sodré com o Dallas, o Tokyo., o Sangri-La e o inevitável Jamaica. Ao longe o outro lado do rio evoca outros sons, mas eu estou nesta margem que me lembra outras margens.

Apanhava o comboio na estação da Amadora. Lisboa sempre partiu de lá e eu habituei-me a sair do túnel do Rossio como quem sai da toca de um coelho. Para mim a chegada à estação do Rossio sempre foi um momento mágico, da escuridão para uma explosão de luz e de cor num pestanejar que a minha imaginação infantil transformou numa história de aventuras. E era realmente uma aventura para alguém tão pequeno, mas com uma imaginação tão grande. Descia do comboio pela mão da minha mãe, aquela mão quente e suave que fazia sentir maior, de tamanho indefinido, mas maior. Assim protegido enfrentava os enormes lances de escada que nos faziam desaguar entre os Restauradores e a avenida da Liberdade. Subíamos Liberdade acima até ao Tivoli e entrávamos num prédio antigo onde um Doutor de calvície venerável prometia à minha mãe a cura do menino. Esteja descansada que as vacinas vão aliviar-lhe as alergias e por consequência as crises de asma. À volta trazia no coração a esperança de uma outra liberdade. A 11 de março de 75 estava no Éden com o meu pai. O filme, os três mosqueteiros e as joias da rainha, não me deixou perceber que Lisboa fervilhava com o ataque dos paraquedistas de Tancos ao Regimento de artilharia n°1 de Lisboa e que desse dia até 25 de novembro do mesmo ano viveríamos um dos períodos mais conturbados da nossa jovem democracia. E os grandes armazéns, os do Chiado e logo ao lado os   do Grandela, e a discoteca do Carmo com os seus vinis de importação, e a montra da Custódio Cardoso Pereira que me faziam sonhar com os seus instrumentos reluzentes e…

Já não estou na praça do Comércio, sem querer os passos tomaram conta de mim e levaram-me na direção da estação de Santa Apolônia. Vejo-me agora de uniforme verde a caminho do Entroncamento enquanto outras imagens se sobrepõem, desta vez a preto e branco. São imagens de televisão e mostram os heróis antifascistas, o Cunhal e o Soares, à vez, bem entendido, que liberdade e democracia nem sempre são traços de união. Está na hora de voltar para trás. Apercebo-me que tenho uma mensagem no telemóvel. No meu tempo Lisboa tinha outro tipo de mensagens. Enquanto faço o caminho de volta, subindo a rua do Ouro, lembro Alfama e o Chapitô. Lembro Essencialmente a sua esplanada onde assisti a uma trovoada épica, porque de artes performativas sempre fui um zero à esquerda. Talvez porque se aproxima a hora de almoço vem-me ao nariz os cheiros de croquetes e bifanas e na garganta a frescura de uma imperial, enquanto no corpo sinto a pressão do balcão da Portugália na Almirante Reis.  E porque estou na Almirante Reis dou mais uns passos até à rua da Palma, até ao antigo palacete que foi sede do PSR e onde se bebiam umas cervejas e se ouviam arranhar uns acordes de Punk. O melhor é não ir por aí senão nunca mais paro.

Estou ao pé do Condes e alguém chama pelo meu nome enquanto acena com a mão. À minha volta ouve-se o burburinho babilônico das grandes metrópoles cosmopolitas que se renderam ao dinheiro do turismo. Apercebo-me agora que pouco vi enquanto caminhava. Do Tejo eu lembro-me, mas tenho dificuldades em recordar o mar de esplanadas e de lojas de souvenirs fabricados vá-se lá saber onde.    Melhor assim, no fim de contas esta Lisboa já não é minha, hoje não passo de um turista. Vale-me que quando voltar a atravessar a ponte deixo Lisboa para trás. Se assim não fosse, sabe-se lá se conseguiria resistir aos seus encantos.

 

Nota do autor: Este pequeno texto devia integrar uma compilação sobre Lisboa. A Editora que me endossou o convite esteve envolvida na publicação dos meus livros e esta seria a minha segunda participação…Pena que eu tenha lido o convite já depois do prazo ter acabado. Enfim, qualquer pretexto é válido para escrever. Foi esse o motivo que me levou a aceitar o desafio e a publicar o resultado. O tema principal é Lisboa e tem menos de mil palavras.


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