Levei mais tempo a chegar ao monte do que era habitual. Embora
tivesse perdido a noite a pensar nas palavras certas que permitiriam esclarecer
as coisas sem deixar margem para dúvidas hoje todas elas me pareciam vazias e
rudes. Foi por isso que decidi deixar fluir a situação e navegar conforme o vento
e as correntes. Já fora do carro reparei que tudo se mantinha como era habitual.
O João encontrava-se sentado à porta de casa desenhando. Ao seu lado a cadeira
que me estava destinada esperava por mim. Decidi alinhar e cumprimentei o João
como era costume. Ele devolveu-me o sorriso habitual e continuou a desenhar. Seria
possível que ele não tivesse nada para me dizer depois do que se tinha passado?
Experimentei provocá-lo e perguntei-lhe, queres ler o que escrevi ontem? Como
nunca tal tinha acontecido esperava uma reação diferente daquela que obtive. O João
limitou-se a olhar para mim e sorrindo disse, prefiro ouvir, não queres ler
para mim? Apanhado de surpresa abri a minha sebenta e olhei para a última
página escrita. Era um esboço sofrível que necessitava de muitas correções.
Para ganhar tempo disse que precisava de um copo de água. Queres que chame a Alzira?
Não é preciso incomodá-la, eu vou buscá-lo. Tudo tão natural, cordial, sem
ponta de ansiedade. Seria eu a estar confundido? Entrei na casa e dirigi-me à cozinha. Pelo ruído que vinha lá de dentro cheguei à
conclusão de que a dona Alzira já estava a preparar o almoço, com toda a
certeza uma deliciosa refeição à moda antiga feita de amor, carinho, saber e
sem pressas. Procurei disfarçar as minhas preocupações colocando na cara um
sorriso que não correspondia ao meu olhar. Bom dia, dona Alzira, vim buscar um
copo de água. Porque não me chamou Sr. Paulo?
Não a quis incomodar dona Alzira. Pode ir lá para fora que eu levo já o seu
copito de água. Não é preciso dona Alzira, já que vim até aqui levo eu o copo
de água, obrigado. Para que estou eu a descrever o meu diálogo com a dona
Alzira? Se o fiz é porque tenho uma razão importante. Quando eu estava para me
vir embora a dona Alzira fez uma observação que me ia fazendo parar o coração e
por pouco não larguei o copo que trazia na mão. E que observação fez ela para
me deixar assim? Virou-se para mim e disse-me com o ar mais natural deste mundo,
estão bonitos os cavaleiros que o Sr. João pintou, se bem que o amarelo me dê
arrepios. Voltei-me e perguntei-lhe quando tinha visto os painéis e ela
respondeu-me que tinha sido na manhã anterior. Aparentemente o João tinha
trabalhado a noite toda e ela tinha-lhe levado o pequeno-almoço quando os viu.
Segundo ela o João tinha comentado que aquilo que ela tinha a honra de testemunhar
era consequência dos meus escritos. O comentário tinha boa intenção, mas só
tinha um problema. Eu estivera junto aos painéis e não havia cavaleiros
nenhuns. Decidi nesse momento que tinha de voltar ao estúdio, mas antes havia
um poema que devia ler. Voltei para junto do meu amigo ainda sem ter decidido o
que havia de escolhe, mas depois do que ouvira isso já não era importante. Mal
me sentei bebi um golo de água e pousei o copo no chão. O João olhou para mim e
perguntou, pronto? Respondi que sim enquanto abria a sebenta ao acaso. Olhei
para uma das páginas e comecei a ler:
O dia começa a meio da noite e sem hora marcada. Sem luz,
nasce perdido na escuridão e o Caos desfaz-se numa ilusão. É essa a minha fantasia,
a ordem e a disciplina que guiam a rotina. De joelhos e numa bizarra oração construo
penitências ao desconhecido. A sombra do dia faz-se fantástica silhueta de
negro quando a noite se insinua e renasce numa imagem de luminosidade concebida.
Brindemos então com divina bebida. Tenho um vislumbre de estrelas nos
estilhaços dos cálices partidos na celebração e agarro-os apertando-os na mão. O
vinho mistura-se com o sangue e dá-se o milagre. Da cegueira faço conhecimento
e da fé procedimento. Do que tinha para fazer faço passado e do presente uma
ilusão.
Parei de ler e esperei por uma reação. O João levantou a
cabeça e perguntou, é sobre mim, ou refere-se ao trabalho? Olhei-o nos olhos e
respondi, a nenhum dos dois. Ele olhou-me perplexo e eu acrescentei, refere-se
ao método. O João sorriu e voltou a concentrar-se no desenho que tinha em mãos.
Depois do almoço fiz questão de ver novamente o seu trabalho.
O meu amigo não se fez rogado e eu tive oportunidade de constatar mais uma vez
que os painéis permaneciam negros. Devia ter desistido, mas não foi isso que fiz.
Diz-se que a curiosidade pode ser fatal. No meu caso transformou-se numa prisão.
No mês seguinte todos os dias fui acompanhar os progressos da obra sem que
vislumbrasse outra coisa que fosse o negro daquelas superfícies. O que começou
por mera curiosidade transformou-se em obsessão e quando o João deu a obra por
terminada eu já não me encontrava cá. Passaram dois anos e encontro-me em
exposição num dos museus da capital. No dia em que os painéis foram
apresentados ao público ouvi a Madalena comentar ao ouvido do João, o cavaleiro
branco é mesmo parecido ao teu poeta. Ele olhou para ela e sorriu, é mesmo. Que
estranha coincidência. Um pouco afastada estava uma mesa com uma dezena de
livros cujo título era “Do Caos à Ilusão”. Hoje não sei o que sou, mas quem vem
ao museu não se vai embora sem me vir visitar.
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