2026-05-17

O Pintor (da ilusão à realidade)

  Por essa altura o meu pai apresentava um quadro clínico mais estável o que me permitiu organizar a minha rotina de forma a incluir as visitas diárias ao monte do João. Tinha ficado combinado que estas ocorreriam da parte da manhã com almoço eventualmente incluído. Isto disponibilizava para cada um de nós o tempo necessário para outros compromissos e não invalidava qualquer mudança que considerássemos oportuna. Chegava por volta das oito da manhã já com o pequeno-almoço tomado. O João era madrugador e encontrava-o muitas das vezes sentado numa cadeira à porta de casa desenhando a carvão o que ele dizia serem esboços para os trabalhos finais. Eu cumprimentava-o de maneira simples e tranquila procurando não perturbar o sossego da manhã e ele respondia-me da mesma forma e com um sorriso. Ele tinha sempre uma cadeira ao seu lado para eu me sentar. Só a sua presença bastava para mostrar que o convite estava implícito. Eu costumava ficar a observá-lo antes de abrir uma sebenta de folhas brancas onde garatujava frases dispersas e palavras que funcionavam como marcos para a memória. Ambos fazíamos esboços que depois trabalhávamos sozinhos. Isto acontecia naturalmente. O silêncio era para nós uma maneira de partilhar o que tínhamos de mais íntimo. O nosso silêncio era feito de expressões e de olhares. Quem nos visse diria que éramos velhos e inseparáveis amigos. A princípio ainda estranhei e cheguei a ter dúvidas se conseguiria corresponder ao desafio que me tinha sido proposto, mas passada uma semana já me parecia o processo mais natural de mundo, algo de tal maneira orgânico que se transformou numa necessidade. O João só quebrava o silêncio em duas ocasiões, quando a meio da manhã me oferecia um café e à hora de almoço onde nos permitíamos deambular pelas trivialidades mundanas.

Durante o primeiro mês nunca tive oportunidade de conhecer os trabalhos em curso. Durante todo esse período manteve-me afastado do seu estúdio. Tudo o que eu via eram esboços fugazes de cavalos e cavaleiros. Talvez por isso eu mantive silêncio sobre o meu trabalho. No entanto eu não me sentia incomodado. Havia em mim muita curiosidade, mas sem qualquer tipo de ansiedade que me perturbasse o espírito. Foi, portanto, com naturalidade que aceitei o convite para observar o que o meu amigo tinha produzido até agora. Aí sim, senti uma inquietação que não consegui disfarçar. Encostadas a uma das paredes do estúdio estavam quatro enormes painéis totalmente pintados de negro. O que achas? Durante alguns segundos fiquei em silêncio. Não sabia o que responder e por breves momentos julguei que o João estava a brincar comigo, mas não. A cara do meu amigo mantinha-se séria e de olhar fixo nos painéis. Então, não dizes nada? O João insistia e acabei por dar uma resposta vaga, não estava à espera de um trabalho desta dimensão. É só isso que tens a dizer?  Não reconheces os teus cavaleiros? O João continuava a insistir e eu continuava sem saber o que responder. A muito custo acabei por confessar que só via tinta preta naqueles painéis, mas que o efeito visual era perturbador pela sensação de vazio que transmitia ao observador. O meu amigo murmurou sem tirar os olhos da sua obra, tive esperança que conseguisses ver. Abandonei o estúdio em silêncio. O João nem deu pela minha ausência e durante o meu regresso a casa pensava se não seria melhor acabar com esta relação. Durante a noite mal dormi, mas quando amanheceu eu tinha tomado uma resolução. Tomei um banho, vesti-me, comi uma fruta e fui ter com o João.


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