2026-05-21

O Poeta ( do caos à ilusão)

 (Gravação efetuada durante uma sessão de psicanálise. De fonte anônima)

 

Psicólogo: Pode desenvolver esse tema?

João: O meu último trabalho?

P: O método e o papel do poeta na sua obra. Se estiver disposto pode tentar enquadrar tudo isso com as suas espectativas, passadas e futuras.

J: Está a pedir muito.

P: E você dá o que entender. Estou aqui para si, até para os seus silêncios.

J: Desculpe, não me tenho sentido muito bem. Desde a morte do meu irmão que a minha cabeça não me deixa dormir. Já passou um ano e ainda sonho com ele. Este é o meu primeiro trabalho após a sua morte.

(silencio durante 23s)

J: A inspiração apareceu depois de ler o livro do Paulo. A Madalena tinha-se ausentado e eu não suportava ficar sozinho. O Poeta apareceu quando eu mais precisava. Coisas do destino. Esperava por ele todos os dias sentado à porta da casa. Posso mesmo afirmar que o fazia com uma certa ansiedade. Só quando ele chegava é que o meu espírito acordava. Ele sentava-se ao meu lado e desbloqueava a minha mão. Tinha em mim um efeito catalisador e as reações que desencadeava eram inebriantes. A mão deslizava pelo papel como se não fosse minha. Cheguei a mostrar-lhe os meus últimos trabalhos que não o impressionaram positivamente. Verdade seja dita que eu também não sentia orgulho neles. Acabei por lhes pegar fogo.

P: Fogo?

J: Sim, fogo. Um fogo libertador e renovador, algo que emancipou e quebrou finalmente um ciclo de luto que teimava em permanecer na minha alma. Foi quando os queimei que libertei o meu irmão. Isto aconteceu pouco antes da apresentação do meu trabalho, da Revelação ao Caos. Sabe que esse trabalho foi todo efetuado durante a noite? Pois é como lhe digo, durante a noite. Quase não dormi durante este período. Descansava um pouco depois de almoço quando o Poeta se ia embora. Foi este o meu método durante dois meses.

P: E o Poeta?

J: O Poeta era uma presença silenciosa. Cheguei mesmo a duvidar da sua presença. Não fosse o livro de poemas e eu teria até duvidado da sua existência.

(silêncio durante 9s)

J: Só conversávamos à hora de almoço. Trocávamos impressões sobre a atualidade. Para ser honesto, era ele que me mantinha a par do que acontecia no mundo. Uma guerra aqui, uma epidemia acolá, escândalos de perversão consensual para todos os gostos e sempre dinheiro, muito dinheiro a circular. Enfim, o ser humano a fazer o que sabe melhor, ser humano. Falávamos, mas sempre sem nos atropelarmos, mesmo quando não estávamos de acordo. Eram sempre almoços muito sossegados.

(silêncio durante 13s)

J: Ele passava a maior parte do tempo a observar-me e a tirar notas.

P: Isso incomodava-o?

J: Não, fazia parte do processo que tínhamos acordado. O trabalho final ganhou muito com essa observação. Os poemas que ele escreveu para “do Caos à Ilusão” foram um excelente complemento aos meus painéis. Não que eles não tivessem valor por si. Na minha opinião até estavam mais bem estruturados, e o fato de seguirem um guião pré-estabelecido emprestavam-lhe uma coerência que de algum modo faltava aos que tinham dado origem ao nosso projeto.

P: Q que ficou da vossa relação.

J: Um vazio difícil de explicar. O seu desaparecimento deixou-me um sabor amargo pois não tive oportunidade de me despedir convenientemente. Ficou algo por dizer.

(pausa de 5s)

J: Aconteceu o mesmo com o meu irmão…

(a gravação termina abruptamente com o ruído de alguém que se levantou)



Sem comentários: