Um dia
houve em que troquei os sapatos por ténis. As bolas que rolavam entravam na
baliza que eu defendia, 20 passos separados por 2 pedras. Nunca tive uma bola
ao poste, essa linha imaginária que eu não percebia onde acabava, mas que
acreditava pertencer ao chefe do grupo, ou ao dono da bola. Fosse como fosse
sempre corri atrás dela, da bola, bem entendido, como se o futuro não fosse
mais que uma invenção. E assim os meus passos conduziram-me à linha de caminho
de ferro e à ribanceira no fundo da minha rua. Lembro-me de outras fronteiras,
a escadaria até à estrada que levava, passando por baixo da ponte, até às
portas de Benfica, e as instalações militares. Sei o nome da estrada, mas não
sei porque tenho medo de o dizer. Dos militares nunca tive medo, possivelmente
por ignorância, ou por ler muitos livros do Asterix e pensar que os soldados
não eram mais que peões nos punhos do Obelix. A guerra ainda era no ultramar e
os soldados ainda desejavam felicidades e um próspero Ano-Novo. Ai a minha
cabeça que tudo baralha. Saberia eu já do Holocausto? Penso que não. Isso foi
antes ou depois do pulôver de malha amarela cuja marca eu me lembro, mas que
também não quer dizer. Será Ted Lapidus um nome, ou um cartão de sócio de uma
agremiação de janotas?
Berlindes, guelas, bilas, abafadores, o que têm estes
3 nomes em comum? Referem-se a um objeto esférico utilizado num jogo de crianças.
Jogar ao berlinde, era uma atividade recorrente e que requeria poucos recursos.
De plástico ou de vidro, tudo dependia da sua origem. Podiam ser comprados ou
simplesmente aproveitamentos. Os abafadores eram sempre de vidro e de tamanho
maior. Gostava de jogar às 3 covinhas, pequenos buracos que fazíamos na terra e
onde tentávamos enfiar os berlindes. Pelo caminho ficavam os berlindes em que
acertávamos, vítimas da fúria dos abafadores assassinos. A corrida ao terceiro
buraco era feroz e aquele que primeiro jogava tinha vantagem. nos joelhos
ficavam as marcas de terra. Não sei porque sonhei com lobos. Depois dos lobos
partirem ficou o Benfica, o cão da praceta, animal protetor que nos acompanhava
para todo o lado. Mas o que eu gostava mesmo era quando estávamos sozinhos, eu
e ele, o rapaz magricela e o seu protetor. Que revelações não terei eu feito
junto daquele focinho húmido. Tirei-lhe muitas carraças por detrás das orelhas.
O olhar agradecido do animal nunca mais me saiu da ideia, assim como não
esqueci o seu olhar moribundo quando as varejeiras não o largavam e eram
pronúncia dos seus
últimos dias. Não sei porque sonhei com lobos, a Lua não estava cheia e o uivar
era humano e vinha da cama junto da janela. Mas os lobos teimavam em ocupar os
meus sonhos. Negros como a noite só os seus olhos perduravam na escuridão. Sei
que eles estão lá, que se abrirem a boca mostrarão fileiras de dentes brancos e
aguçados, que lhes escorrerá baba do focinho, e que lhes adivinharei o calor do
ventre durante a digestão. Acordo suado e tento ladrar, mas sai-me um uivo
tímido, quase um gemido. Naquele quarto somos 2 a uivar numa diagonal que
divide o quarto em 2 triângulos escalenos, um ângulo reto e 2 agudos unidos por
uma reta que faz fronteira e que define o espaço de cada um. Cheguei a ser dono
do mundo. Joguei pneus a arder pelas escadas que eram trincheira e muralha de
castelo. Para lá da estrada ficava todo o mundo de ruidosos automóveis, motores
uivantes de olhos arregalados na escuridão, dentes afiados nas grelhas cromadas
marcadas por símbolos, lobos mecânicos que percorriam os meus sonhos chiando de
borracha negra com odores luciferianos, terei eu adivinhado os vapores de
enxofre, ou limitei-me a cheirá-los sem ver. Estou suado e não consigo dormir.
Sinto um frio desconfortável, mas não tenho coragem para me queixar. Os lobos
andam por aqui, as bocas abertas mostrando o fundo dos estômagos, os ventres
quentes da morte, largados numa correria desenfreada pelos corredores do
hospital. Estou no quintal da minha avó, junto ao cemitério da aldeia. O
Quintal só me é permitido enquanto o sol não se põe. Para lá desse limite
luminoso os lobos aparecem para proteger as trevas. Sei do poço, da Figueira
com o balouço, do galinheiro e da coelheira, da pocilga e da Parreira armada na
vereda que dá para as Oliveiras. Sei do muro que separa O Quintal do cemitério.
De tudo isso eu sei, e por saber, por tudo isso eu choro, pela privação, pela
impossibilidade da viagem, pelo cerco noturno que os lobos, olhos vermelhos de
sangue, fazem ao meu castelo. Na casa da minha avó tinha sempre a hipótese de
fugir para dentro dos muros protetores da cozinha, a divisão que ficava mais
perto do quintal. Lá, no inverno, estava o lar, sempre com brasas protetoras,
braços invisíveis que me acolhiam e resguardavam no seu colo. Está frio e sinto
o suor nas minhas costas encharcar
o lençol que me separa do plástico do colchão hospitalar. Pressinto os lobos
para o lado da porta de entrada, por detrás da janela do quarto, dentro da bata
branca onde o enfermeiro Pedro desapareceu. Fecho os olhos com força até me
doerem, até sentir que as órbitas se fecham sobre mim próprio ocultando a visão
para sempre. Tento manipular o passar do tempo, a cronologia lenta das noites
no hospital, a existência dos lobos na minha vida. O paciente junto à janela
está a ser devorado por dentro. Deixou de gemer, possivelmente porque já não
tem pulmões e o ar deixou de fazer ruídos no seu corpo. Será a sua existência
povoada por lobos? Se ele estivesse acordado poderíamos partilhar lobos. De longe
o seu medo parece diferente. Pode ter uma forma diferente, mas a cor é a mesma.
A cor do medo é sempre a mesma, mesmo que estejamos cegos por ela. É uma cor
ambígua que permite todo o espectro visível e, quem sabe, também o invisível. Agora
que olho melhor, vejo que o paciente tem a cor do medo. Por fora tem a forma do
desprendimento, do desapego. É sempre assim o disfarce visível de quem
aterroriza, a falsa serenidade de quem atormenta, a armadilha de quem caça. Pedro,
o nome na bata branca, voltou. Barricado no seu refúgio Pedro vigia atentamente
a sala. Dentro de pouco tempo todos estarão dormindo, ele incluído. Não
pretendo ser dissonante e por isso solicito medicação para me tornar
indiferente e pactuante. Pedro ministrou-me 2 comprimidos que eu ingeri com
ajuda de um copo de água. Abençoada foi a enxurrada que me mergulhou num sono
profundo. Mesmo profundo o sono não varreu os lobos da minha cabeça. Ouço-os cá
dentro procurando pelo que resta da minha alma. Sinto a carne rasgada naquilo
que de mais ressentido eu sou. Estou molhado, ensopado dos líquidos que não
distingo. Imagino que seja sangue de uma ferida provocada por raivosas mordidas
de lobo, mas não tenho a certeza. Quando era muito novo tinha medo de cães, muito
medo, poderei mesmo dizer, pavor. Enquanto muitos se abraçavam ao animal de 4 patas,
de braços estendidos e olhos sorridentes, eu chorava. Pode ter sido essa a
razão por que fui mordido em tenra idade, dizem que os cães pressentem o medo nos
humanos. Não tenho conhecimentos que me permitam afirmar tal coisa, também não
foinada
que me levasse a pesquisar livros na biblioteca. Poderia ter corrigido o
problema com as modernices atuais, uma qualquer inteligência artificial que
respondesse às minhas dúvidas, mas não fiz. Para inteligência já basta a minha,
que não sendo artificial dá tanto trabalho como se fosse. Mas o que sei eu de
inteligência artificial para debitar pensamentos sem fundamento? Sei o
suficiente para não me meter nesses assuntos. Quais as paixões da minha vida?
Ainda hoje, passados tantos anos, não sei dar resposta a esta pergunta. Ainda
não consigo distinguir entre gosto e paixão, prazer e prazer com sofrimento.
Agora que o verbalizo apercebo-me de que apenas tive gostos e que os meus
sofrimentos nunca tiveram prazer. Estou a ser injusto comigo mesmo, os lobos
dentro de mim provocam essa injustiça. De espada na mão sou cego a argumentos, ceifo
da direita para a esquerda e da esquerda para a direita sem piedade. Os fluídos
arrefeceram parte do meu corpo, mais concretamente as partes baixas. Desconfio
que não é sangue que me molha o sexo, mas urina, líquido que não sendo
considerado nobre é, no entanto, de vital importância. O que seríamos nós se
não houvesse urina, onde colocaríamos esses resíduos amoniacais, esse produto
da lavagem do nosso corpo? Teríamos de esperar pelos anos 60, por um autor que,
sob efeito de estupefacientes e alucinógenos, escrevesse um romance de ficção
científica onde um povo no deserto sobrevivia através da regeneração da urina. Não
é esse o meu caso, a minha urina não é novamente absorvida pelo meu corpo. É
guardada em recipientes para depois ser descartada ou analisada. O saco que me
alimenta contém uma mistela amarelada, caldo de várias substâncias que me mantêm
vivo sob alimentação forçada. Mas que interessa isso, agora que me encontro
literalmente ensopado em urina? Valerá a pena acordar o Pedro que dorme, Pedro
que descansa enquanto devia velar? Melhor será esperar pela manhã. Sinto-me
pequeno, muito pequeno, com medo do escuro, esperando que alguém me acuda. Mãe
vem cá, olha para mim que estou todo molhado, muda-me a roupa e leva-me para a
cama contigo. Eu sei que tens a cama vazia, que o pai foi trabalhar e que não
te pode aquecer. Nunca serei pai, mas poderei ser o filho que sempre te amará.
Também na
altura esperei pela manhã, gelado de fluídos amoniacais. Por que não me
acordastes, Jorge? Estás todo ensopado, não admira que depois fiques doente. Olho-te
envergonhado, sem coragem para te dizer que te amo, sem coragem para te dizer
que queria o calor do teu corpo. Seria errado dizer-te isto, mãe? O padrão de
símbolos azuis pintados na parede deixa-me desconfortável porque me faz lembrar
o mar, e a sua humidade nas minhas partes baixas assadas pelo líquido que já
foi quente. Faço um esforço para me lembrar dos teus gestos, mas tudo o que
recordo é o teu rosto. Sinto a tua falta, o teu abraço à janela do quarto nas noites
de falta de ar. Regulava a minha respiração pelo bater do teu coração e o ar
voltava a circular nos meus pulmões. A magia da tua maternidade, pressuposto de
ser mãe, parte de uma determinação inata que a todas as mulheres pertence e que
foi sedimentado na sociedade desde o começo dos tempos, ainda hoje me fascina. Na
altura só queria o teu calor e toda esta retórica não me pertencia. Penso que
foi nessa altura que aprendi a gostar do silêncio, mas não tenho a certeza, nunca
gostei de certezas. Perco-me no meu sonhar e não sei se durmo, se faço vigília.
A bata branca acordou e neste momento olha para mim. Involuntariamente sinto-me
culpado e estou prestes a confessar. Sim Pedro, fui eu que urinei na cama, fui
eu que não o chamei, se calhar vou ficar doente e se ficar a culpa é minha. O
que quer que lhe diga, não senti o apelo da maternidade na sua bata branca, não
quis o seu calor nem o seu pregão acusatório. Desconfio que uma das funções dos
enfermeiros é serem detetives. Como explicar que ele sem dizer nada levantou os
lençóis da minha cama para se certificar da minha incontinência? Limitou-se a
piscar o olho na minha direção e a comentar, não se preocupe senhor Jorge vamos
já tratar disso. O “vamos já tratar disso” referia-se à auxiliar, moça
demasiado nova para me deixar à vontade com o manuseamento que fez do meu
corpo. Não porque algo tenha crescido em mim, porque em mim já nada cresce, mas
apenas pela beleza que a moça apresentava àquela hora da madrugada, uma beleza
celestial digna da origem dos tempos, digna dos deuses. Com mãos hábeis a
rapariga limpou e trocou os lençóis sem me retirar da cama com uma desenvoltura
digna de louvor. Tão nova e tão competente, pensei.
Poderá um ordenado mínimo compensar esta competência? No meu entender estas
competências nunca são bem remuneradas, logo nunca são bem reconhecidas. Voltei
a adormecer e só acordei quando levantaram as persianas. A bata já tem outro
nome e as 2 camas que se encontravam vazias encontram-se agora ocupadas.
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