2026-05-28

A Vida e a Morte do Sr. Jorge - quarto acto; Pedro

 Um dia houve em que troquei os sapatos por ténis. As bolas que rolavam entravam na baliza que eu defendia, 20 passos separados por 2 pedras. Nunca tive uma bola ao poste, essa linha imaginária que eu não percebia onde acabava, mas que acreditava pertencer ao chefe do grupo, ou ao dono da bola. Fosse como fosse sempre corri atrás dela, da bola, bem entendido, como se o futuro não fosse mais que uma invenção. E assim os meus passos conduziram-me à linha de caminho de ferro e à ribanceira no fundo da minha rua. Lembro-me de outras fronteiras, a escadaria até à estrada que levava, passando por baixo da ponte, até às portas de Benfica, e as instalações militares. Sei o nome da estrada, mas não sei porque tenho medo de o dizer. Dos militares nunca tive medo, possivelmente por ignorância, ou por ler muitos livros do Asterix e pensar que os soldados não eram mais que peões nos punhos do Obelix. A guerra ainda era no ultramar e os soldados ainda desejavam felicidades e um próspero Ano-Novo. Ai a minha cabeça que tudo baralha. Saberia eu já do Holocausto? Penso que não. Isso foi antes ou depois do pulôver de malha amarela cuja marca eu me lembro, mas que também não quer dizer. Será Ted Lapidus um nome, ou um cartão de sócio de uma agremiação de janotas?

 

Berlindes, guelas, bilas, abafadores, o que têm estes 3 nomes em comum? Referem-se a um objeto esférico utilizado num jogo de crianças. Jogar ao berlinde, era uma atividade recorrente e que requeria poucos recursos. De plástico ou de vidro, tudo dependia da sua origem. Podiam ser comprados ou simplesmente aproveitamentos. Os abafadores eram sempre de vidro e de tamanho maior. Gostava de jogar às 3 covinhas, pequenos buracos que fazíamos na terra e onde tentávamos enfiar os berlindes. Pelo caminho ficavam os berlindes em que acertávamos, vítimas da fúria dos abafadores assassinos. A corrida ao terceiro buraco era feroz e aquele que primeiro jogava tinha vantagem. nos joelhos ficavam as marcas de terra. Não sei porque sonhei com lobos. Depois dos lobos partirem ficou o Benfica, o cão da praceta, animal protetor que nos acompanhava para todo o lado. Mas o que eu gostava mesmo era quando estávamos sozinhos, eu e ele, o rapaz magricela e o seu protetor. Que revelações não terei eu feito junto daquele focinho húmido. Tirei-lhe muitas carraças por detrás das orelhas. O olhar agradecido do animal nunca mais me saiu da ideia, assim como não esqueci o seu olhar moribundo quando as varejeiras não o largavam e eram pronúncia dos  seus últimos dias. Não sei porque sonhei com lobos, a Lua não estava cheia e o uivar era humano e vinha da cama junto da janela. Mas os lobos teimavam em ocupar os meus sonhos. Negros como a noite só os seus olhos perduravam na escuridão. Sei que eles estão lá, que se abrirem a boca mostrarão fileiras de dentes brancos e aguçados, que lhes escorrerá baba do focinho, e que lhes adivinharei o calor do ventre durante a digestão. Acordo suado e tento ladrar, mas sai-me um uivo tímido, quase um gemido. Naquele quarto somos 2 a uivar numa diagonal que divide o quarto em 2 triângulos escalenos, um ângulo reto e 2 agudos unidos por uma reta que faz fronteira e que define o espaço de cada um. Cheguei a ser dono do mundo. Joguei pneus a arder pelas escadas que eram trincheira e muralha de castelo. Para lá da estrada ficava todo o mundo de ruidosos automóveis, motores uivantes de olhos arregalados na escuridão, dentes afiados nas grelhas cromadas marcadas por símbolos, lobos mecânicos que percorriam os meus sonhos chiando de borracha negra com odores luciferianos, terei eu adivinhado os vapores de enxofre, ou limitei-me a cheirá-los sem ver. Estou suado e não consigo dormir. Sinto um frio desconfortável, mas não tenho coragem para me queixar. Os lobos andam por aqui, as bocas abertas mostrando o fundo dos estômagos, os ventres quentes da morte, largados numa correria desenfreada pelos corredores do hospital. Estou no quintal da minha avó, junto ao cemitério da aldeia. O Quintal só me é permitido enquanto o sol não se põe. Para lá desse limite luminoso os lobos aparecem para proteger as trevas. Sei do poço, da Figueira com o balouço, do galinheiro e da coelheira, da pocilga e da Parreira armada na vereda que dá para as Oliveiras. Sei do muro que separa O Quintal do cemitério. De tudo isso eu sei, e por saber, por tudo isso eu choro, pela privação, pela impossibilidade da viagem, pelo cerco noturno que os lobos, olhos vermelhos de sangue, fazem ao meu castelo. Na casa da minha avó tinha sempre a hipótese de fugir para dentro dos muros protetores da cozinha, a divisão que ficava mais perto do quintal. Lá, no inverno, estava o lar, sempre com brasas protetoras, braços invisíveis que me acolhiam e resguardavam no seu colo. Está frio e sinto o suor nas minhas costas encharcar o lençol que me separa do plástico do colchão hospitalar. Pressinto os lobos para o lado da porta de entrada, por detrás da janela do quarto, dentro da bata branca onde o enfermeiro Pedro desapareceu. Fecho os olhos com força até me doerem, até sentir que as órbitas se fecham sobre mim próprio ocultando a visão para sempre. Tento manipular o passar do tempo, a cronologia lenta das noites no hospital, a existência dos lobos na minha vida. O paciente junto à janela está a ser devorado por dentro. Deixou de gemer, possivelmente porque já não tem pulmões e o ar deixou de fazer ruídos no seu corpo. Será a sua existência povoada por lobos? Se ele estivesse acordado poderíamos partilhar lobos. De longe o seu medo parece diferente. Pode ter uma forma diferente, mas a cor é a mesma. A cor do medo é sempre a mesma, mesmo que estejamos cegos por ela. É uma cor ambígua que permite todo o espectro visível e, quem sabe, também o invisível. Agora que olho melhor, vejo que o paciente tem a cor do medo. Por fora tem a forma do desprendimento, do desapego. É sempre assim o disfarce visível de quem aterroriza, a falsa serenidade de quem atormenta, a armadilha de quem caça. Pedro, o nome na bata branca, voltou. Barricado no seu refúgio Pedro vigia atentamente a sala. Dentro de pouco tempo todos estarão dormindo, ele incluído. Não pretendo ser dissonante e por isso solicito medicação para me tornar indiferente e pactuante. Pedro ministrou-me 2 comprimidos que eu ingeri com ajuda de um copo de água. Abençoada foi a enxurrada que me mergulhou num sono profundo. Mesmo profundo o sono não varreu os lobos da minha cabeça. Ouço-os cá dentro procurando pelo que resta da minha alma. Sinto a carne rasgada naquilo que de mais ressentido eu sou. Estou molhado, ensopado dos líquidos que não distingo. Imagino que seja sangue de uma ferida provocada por raivosas mordidas de lobo, mas não tenho a certeza. Quando era muito novo tinha medo de cães, muito medo, poderei mesmo dizer, pavor. Enquanto muitos se abraçavam ao animal de 4 patas, de braços estendidos e olhos sorridentes, eu chorava. Pode ter sido essa a razão por que fui mordido em tenra idade, dizem que os cães pressentem o medo nos humanos. Não tenho conhecimentos que me permitam afirmar tal coisa, também não foinada que me levasse a pesquisar livros na biblioteca. Poderia ter corrigido o problema com as modernices atuais, uma qualquer inteligência artificial que respondesse às minhas dúvidas, mas não fiz. Para inteligência já basta a minha, que não sendo artificial dá tanto trabalho como se fosse. Mas o que sei eu de inteligência artificial para debitar pensamentos sem fundamento? Sei o suficiente para não me meter nesses assuntos. Quais as paixões da minha vida? Ainda hoje, passados tantos anos, não sei dar resposta a esta pergunta. Ainda não consigo distinguir entre gosto e paixão, prazer e prazer com sofrimento. Agora que o verbalizo apercebo-me de que apenas tive gostos e que os meus sofrimentos nunca tiveram prazer. Estou a ser injusto comigo mesmo, os lobos dentro de mim provocam essa injustiça. De espada na mão sou cego a argumentos, ceifo da direita para a esquerda e da esquerda para a direita sem piedade. Os fluídos arrefeceram parte do meu corpo, mais concretamente as partes baixas. Desconfio que não é sangue que me molha o sexo, mas urina, líquido que não sendo considerado nobre é, no entanto, de vital importância. O que seríamos nós se não houvesse urina, onde colocaríamos esses resíduos amoniacais, esse produto da lavagem do nosso corpo? Teríamos de esperar pelos anos 60, por um autor que, sob efeito de estupefacientes e alucinógenos, escrevesse um romance de ficção científica onde um povo no deserto sobrevivia através da regeneração da urina. Não é esse o meu caso, a minha urina não é novamente absorvida pelo meu corpo. É guardada em recipientes para depois ser descartada ou analisada. O saco que me alimenta contém uma mistela amarelada, caldo de várias substâncias que me mantêm vivo sob alimentação forçada. Mas que interessa isso, agora que me encontro literalmente ensopado em urina? Valerá a pena acordar o Pedro que dorme, Pedro que descansa enquanto devia velar? Melhor será esperar pela manhã. Sinto-me pequeno, muito pequeno, com medo do escuro, esperando que alguém me acuda. Mãe vem cá, olha para mim que estou todo molhado, muda-me a roupa e leva-me para a cama contigo. Eu sei que tens a cama vazia, que o pai foi trabalhar e que não te pode aquecer. Nunca serei pai, mas poderei ser o filho que sempre te amará. Também  na altura esperei pela manhã, gelado de fluídos amoniacais. Por que não me acordastes, Jorge? Estás todo ensopado, não admira que depois fiques doente. Olho-te envergonhado, sem coragem para te dizer que te amo, sem coragem para te dizer que queria o calor do teu corpo. Seria errado dizer-te isto, mãe? O padrão de símbolos azuis pintados na parede deixa-me desconfortável porque me faz lembrar o mar, e a sua humidade nas minhas partes baixas assadas pelo líquido que já foi quente. Faço um esforço para me lembrar dos teus gestos, mas tudo o que recordo é o teu rosto. Sinto a tua falta, o teu abraço à janela do quarto nas noites de falta de ar. Regulava a minha respiração pelo bater do teu coração e o ar voltava a circular nos meus pulmões. A magia da tua maternidade, pressuposto de ser mãe, parte de uma determinação inata que a todas as mulheres pertence e que foi sedimentado na sociedade desde o começo dos tempos, ainda hoje me fascina. Na altura só queria o teu calor e toda esta retórica não me pertencia. Penso que foi nessa altura que aprendi a gostar do silêncio, mas não tenho a certeza, nunca gostei de certezas. Perco-me no meu sonhar e não sei se durmo, se faço vigília. A bata branca acordou e neste momento olha para mim. Involuntariamente sinto-me culpado e estou prestes a confessar. Sim Pedro, fui eu que urinei na cama, fui eu que não o chamei, se calhar vou ficar doente e se ficar a culpa é minha. O que quer que lhe diga, não senti o apelo da maternidade na sua bata branca, não quis o seu calor nem o seu pregão acusatório. Desconfio que uma das funções dos enfermeiros é serem detetives. Como explicar que ele sem dizer nada levantou os lençóis da minha cama para se certificar da minha incontinência? Limitou-se a piscar o olho na minha direção e a comentar, não se preocupe senhor Jorge vamos já tratar disso. O “vamos já tratar disso” referia-se à auxiliar, moça demasiado nova para me deixar à vontade com o manuseamento que fez do meu corpo. Não porque algo tenha crescido em mim, porque em mim já nada cresce, mas apenas pela beleza que a moça apresentava àquela hora da madrugada, uma beleza celestial digna da origem dos tempos, digna dos deuses. Com mãos hábeis a rapariga limpou e trocou os lençóis sem me retirar da cama com uma desenvoltura digna de louvor. Tão nova e tão competente, pensei. Poderá um ordenado mínimo compensar esta competência? No meu entender estas competências nunca são bem remuneradas, logo nunca são bem reconhecidas. Voltei a adormecer e só acordei quando levantaram as persianas. A bata já tem outro nome e as 2 camas que se encontravam vazias encontram-se agora ocupadas.

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