A ambulância do INEM entrou na rua sem pressa e estacionou defronte a uma moradia decrépita e manchada de humidades. O amarelo-pálido da sua frontaria deixava antever a falta de cuidado a que os seus donos a tinham votado. À porta de entrada uma velha senhora, tão decrépita como a casa que guardava, recebeu com frieza o médico e o enfermeiro acabados de sair da viatura estacionada, pirilampos azuis atestando da sua urgência. O homem estendido no chão do wall de entrada encontrava-se imóvel e a sua cor, mármore acabado com o tempo, não indiciava nada de muito favorável. Foi por isso que o médico ao debruçar-se sobre o corpo reagiu com surpresa ao ligeiro soprar que saía das fossas nasais do homem inerte. De alguma forma estava preparado para declarar um óbito e despachar o assunto, porque sendo os recursos tão escassos não havia necessidade de os usar com quem já não precisava deles. Não tendo então um corpo morto entre as mãos teria de garantir que ele chegava vivo ao hospital. Verificou o pulso do homem e instruiu o enfermeiro para os procedimentos normais de transportes de doentes em estado comatoso. Surpreendida, a velha senhora, tão decrépita como a casa, respondeu às perguntas do médico. Disse que tinha ouvido ruídos na casa do vizinho, seguidos de um barulho de queda, foi por isso que se deslocou até a porta do senhor Silva. Chamou por ele várias vezes, mas ele não respondeu. Como tinha a chave da casa decidiu abrir a porta, não fosse ter dado alguma coisa ao senhor Silva. Mal entrou viu-o naqueles propósitos, sem acordo de si, mais parecendo que a vida o tinha abandonado. Apanhei um susto que os senhores nem imaginam. Quando recuperei, telefonei logo para o 112 e fui para a porta esperar pela ambulância. A velha senhora identificou-se, chamo-me Maria, afinal todas somos Marias, mas o que me distingue das outras é o meu nome de casada, Pereira, e continuou, tenho 79 anos acabados de fazer na semana passada, o meu segundo nome é Rosário, sou Maria do Rosário Pereira e sou vizinha do senhor Silva vai para 10 anos. E mais não quis saber o médico que lhe agradeceu a amabilidade e lhe desejou um resto de um bom dia. O trajecto até o hospital não demora mais de 10 minutos. Foi esse o tempo que levou o senhor Silva a acordar. Quando o fez abriu os olhos e perguntou onde estava. Se ninguém o ouviu foi apenas porque da sua boca não saiu nenhuma palavra. Mas deixemos de tratar o senhor Silva pelo último nome e passemos a chamar-lhe Jorge, o seu primeiro nome. Jorge, 60 anos, vive sozinho numa moradia alugada na cidade de Vila Nova de Santo André. Foi lá que teve o ataque cardíaco e, quem sabe, será lá que irá falecer. Para já não se ouve a sua voz e apenas os olhos mostram sinais exteriores de vida. O enfermeiro que o acompanha sabe que aquele homem está vivo e não precisa dos olhos de Jorge para o comprovar. Tem-no ligado a uma máquina que lhe dá essa preciosa informação, mas nem por isso deixa de notar o movimento das pálpebras nos olhos do senhor Silva e relata-o ao médico de forma profissional dizendo, este já acordou, é capaz de se safar, ao que o médico respondeu, não tinha de ser, não era o dia dele. Jorge da Silva irá entrar no hospital com direito a ultrapassagem pela direita. Não se irá lembrar da cor da pulseira nem se esta existiu. Encontra-se agora num quarto, ligado a uma máquina que diz da sua existência. Nesse quarto subsistem mais três camas, mas apenas duas estão ocupadas, a dele, e outra junto à janela. Junto à porta, um balcão corrido ocupa toda a parede do lado esquerdo. Por detrás desse balcão um enfermeiro vigia atentamente todo o quarto largando roncos breves, mas profundos. É de noite e Jorge está acordado, mas não sabe qual o seu estado. Estará vivo, ou morto? Embora não sendo uma questão existencial é suficientemente complexa para o deixar perplexo. Ainda há pouco encontrava-se em casa, preparado para um lanche, algo fora de horas e que tem sempre o mesmo nome. No meio da penumbra apercebe-se da presença de equipamentos que debitam cliques e outros estalidos surdos, ao mesmo tempo que monitores apresentam riscos verdes, estranhas assinaturas em certidões de vida futuristas.
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