2026-05-26

A Vida e a Morte do Sr. Jorge - segundo acto; I André

No início os pés caminhavam sobre a relva fresca que crescia em liberdade. O sol, no céu azul, indicava o dia mediano, quando, na vertical, obrigava a uma observação perpendicular. Nesse tempo as articulações acabadas de nascer exercitavam-se em movimentos juvenis sedentos de saber. Se das nuvens caía água era motivo para rir até que as lágrimas de um choro carregassem os pequenos riachos que se formavam nas ruas e desaguavam nas sarjetas. Algumas vezes fiquei eu olhando para dentro da sua escuridão procurando decifrar os caminhos que ela me escondia. Para lá dos passeios fui correndo atrás do que não via, mas que sabia por debaixo dos meus pés. Nesse tempo sabia o que era sonhar e inventei todos os mundos. Nunca conseguirei quantificar a amplitude da minha quimera. Quisera eu ser, sem preocupações, medos ou anseios.

 

É de dia e já abriram as persianas das janelas. Pressente-se a azáfama fora do quarto, mas aqui tudo está calmo. O homem de branco já acordou e ocupa-se com a papelada. Passou a ronda pelas camas, verificou sinais e gráficos, cateteres e tubos, sinais estranhos de fluidos orgânicos, pulsações e respirações, testemunhos de vida que lhe garantam uma passagem de turno tranquila. Sinto necessidades, mas não me atrevo a confessá-las. Aperto a bexiga com força, com músculos que desconheço, mas que sei que existem dentro de mim, e com isso acalmo vontades orgânicas, possíveis incontinências que assim se submetem à minha vontade. Ainda ninguém me disse, ou pelo menos disso não tenho conhecimento, mas sobrevivi a qualquer coisa. Terá sido um enfarte? Um AVC? Qualquer outro acidente crítico? Não sei. Se me disseram, se me explicaram e discriminaram porquês, não tomei disso conhecimento, talvez preocupado em manter-me vivo. Seja como for, aqui estou deitado numa cama, aparentemente de boa saúde e com controlo dos movimentos. Ainda não tentei falar, tenho medo de não conseguir fazê-lo. Sempre ouvi dizer que há falhas que tiram a capacidade de nos podermos exprimir. Mais do que as de movimento, são estas que me assustam, não poder dizer ao que venho, não poder dizer o que quero, e o que não quero, expressar vontades, que em última análise são a razão de viver. Tenho-me quieto, preso numa ansiedade que me consome. Acabei por adormecer. Não sei quanto tempo dormi, mas acordei com a voz de alguém que chamava por mim. A voz pertencia a um uniforme e esse uniforme tinha um nome, André. Ouvi-me dizer qualquer coisa, mas não tenho a certeza se o som das minhas palavras teve eco nos ouvidos do uniforme branco. Presumi que sim, pois a cara sorridente de um jovem dos seus 35 anos respondeu-me dizendo que iria tratar já do assunto. Apercebi-me de que lhe tinha pedido para me ajudar a urinar, pelo recipiente com que ele abordou as minhas partes baixas. Envergonhado comentei qualquer coisa, algo sobre o meu nascimento. Lembrei-me de ter ouvido falar desse momento, de ficar escrito que nasci na madrugada de dia 25 de abril de 1965, na maternidade Alfredo da Costa, freguesia de são Sebastião da Pedreira, concelho e distrito de Lisboa. Julgo que o disse ao enfermeiro André. A minha mãe sangrou até morrer, ou quase, visto nunca ter recuperado completamente a saúde após o meu nascimento. Devo-lhe duplamente a vida, mas não me lembro de lhe ter agradecido a bênção. Sabe, André, é que eu nasci com a saúde debilitada, pulmões fracos, alergias várias, brônquios entupidos, e uma propensão apaixonada por constipações gripes e viroses afins. Não foi por isso de admirar que uma broncopneumonia me atirasse para a cama e quase me matasse. Ficou dito na minha Memória que tinha dois anos quando isso aconteceu e para mim essa história tornou-se a minha realidade. Não me pergunte outra memória porque não a tenho. Memórias vividas tenho-as, mas são outras. Adenoides, amígdalas, gelados, expetorantes, papas de linhaça, Vick Vaporub, supositórios, óleo de fígado de bacalhau, gemadas com cerveja preta e açúcar, noites à janela com falta de ar, visitas avulsas ao hospital, e vacinas, muitas vacinas. Estou a chateá-lo com a minha conversa, senhor enfermeiro? Não, senhor Jorge, até estou a gostar de o ouvir, assim tenho a certeza que você está vivo. Não leve a mal senhor Jorge, estou a brincar consigo. Claro que não, André. Posso tratá-lo por André? Claro que pode senhor Jorge, você podia ser meu pai. Sabe que o meu pai tem a sua idade? Claro que não se sabe, como podia você saber se eu não lhe tinha dito? Ouço-me a falar de mim, da minha infância. Agora já não falo das doenças. Um recanto na Amadora, paredes meias com uma encosta verde, uma casa de três assoalhadas, um hall de entrada, uma cozinha, uma despensa, e duas casas de banho, um luxo que na altura custou 160 contos. Mais uma vez a Memória é implantada. Estou a falar dos 160 contos que me foram contados, conto a conto, prestação a prestação numa altura em que um ordenado de 2000 escudos era um luxo. O rés do chão ficava para as traseiras que ainda não estavam urbanizadas, quero com isto dizer que eram um baldio entre dois prédios. A entrada principal dava para o passeio e para um pequeno largo em terra batida circundado por um muro que sustinha um pequeno barranco, fronteira para o nível superior por onde passava a estrada. Quem por ali andasse vindo da direita para a esquerda iria dar a um beco sem saída. Olho à minha volta, estou sozinho, quer isto dizer que o André está sentado por detrás do balcão e o ocupante da outra cama queda-se enfermo, fechado nas suas doenças. Continuo a ouvir-me e não paro de falar. Já me lavaram, mas não dei por isso. A esponja com detergente verde circulou pelo meu corpo, manejada por mãos experientes. Esteve nos meus pés, nas minhas pernas, nas partes íntimas, na barriga e no tronco, debaixo dos meus braços e, possivelmente, também na minha cara. Como posso eu ter deixado tocar assim no meu corpo sem uma palavra de agradecimento ou de apreço, sem um nome ou uma imagem para recordar? Sinto a criança que fui, enleada num abraço de luta. Sinto o hálito a leite com chocolate e a crosta de uma ferida junto aos meus olhos. É uma luta de força em que a submissão é o objetivo. À minha volta ouço vozes de incitamento. Estou nas escadas de um prédio, arena de batalhas juvenis. É aqui que se decide a hierarquia dos mais jovens. Os mais velhos decidem-na em jogos mais perigosos. É o Mário que luta comigo, mas já lutei com o Eduardo e com o João. A luta está equilibrada e não se decide. À nossa volta os mais velhos começam a impacientar-se e dão-nos pontapés para ver se a balança do combate se inclina para algum dos lados, mas o nosso abraço é mais forte e o equilíbrio prevalece. No fim, nenhum de nós venceu, e havendo necessidade de humilhação, humilharam-nos aos dois. Acabei a tarde a lanchar na casa do Mário e a jogar O Jogo da Glória. Mesmo quando alguém ganhava, esse alguém tinha um momento de glória muito curto. O espetáculo oferecido tinha de ser repetido inúmeras vezes até que o respeito fosse conquistado. Acabávamos vezes sem conta na casa uns dos outros compartilhando fatalidades e jogos pueris. Foi assim que fizemos uma cabana de madeira e criámos um clube. Um cão por doze e quinhentos, coisa que hoje parece pouco, mas que na altura era toda uma fortuna quase impossível de alcançar. Já não me lembro de quantos éramos, mas lembro-me do Zé Alberto e do Mário. Lembro-me também do Lord, nome que demos ao cão para que ele se distinguisse entre os demais rafeiros da rua. Para não ficarem atrás os donos do seu irmão batizaram-no de Nero, triste nome se pensarmos no incêndio de Roma. Por ironia do destino o Nero foi atropelado ainda novo e passou o resto dos seus dias a coxear perdendo a dignidade que o nome lhe emprestara. Assim se prova que um nome não faz o destino daquele que o carrega, isto se considerarmos o primeiro, já o último poderá trazer algo mais ao fado de cada um. De qualquer maneira, se a guitarra que toca for fatalista, não haverá nome que o salve. Assim é a vida e sempre será, nomes e desejos à parte. A vida é um jogo de decisões e infortúnios cujo final é sempre o mesmo. Também assim aconteceu ao nosso clube, morte prematura apenas com alguns meses de existência. Acabada a construção da cabana foi altura de definirmos algumas regras. Só havia uma chave e o Zé Alberto ficou com ela, muito por influência do seu pai que foi quem nos ajudou a construir a cabana. Mal sabíamos nós que ela serviria de abrigo às ferramentas do pai do Zé Alberto e que nós seríamos expulsos da nossa sede. Mas na altura lá definimos uma senha para entrar, regras de conduta que incluíam a confidencialidade de tudo o que se passava no clube, por ironia do destino tudo tão igual à primeira empresa onde trabalhei, multinacional de interesses obscuros em vários continentes. Ainda lá fizemos umas reuniões para delinear projetos de aventura. Ainda lá jogámos ao monopólio e a outros jogos de tabuleiro. Do clube ficou o Lord, que acabou na casa do Mário com a mãe deste como tutora do canino. Ai André, se eu lhe contasse tudo o que fazíamos nunca mais saía desta cama de hospital.

 

O médico veio visitar-me perto da hora de almoço. Senhor Jorge, disse ele, você teve um ataque cardíaco. Disse-o sem olhar diretamente para mim, com uns papéis na mão, de olho já na próxima cama. Teve sorte, continuou ele, aparentemente não ficou com lesões, mas o melhor é pôr-se a pau, você fuma, bebe, se sim o melhor é pensar em acabar com isso, e a alimentação também tem de ser corrigida, a julgar pelas análises que eu aqui tenho. Colesterol, triglicéridos e os açúcares, estão bem lá em cima. Vamos deixá-lo em observação mais uns dias nos cuidados intensivos, não vá à máquina pregar-lhe mais alguma partida. De seguida virou-se para o enfermeiro e continuou, mantém-no a soro. Quero repetir a eletrocardiograma que lhe fizeram ontem e também as análises ao sangue. Comida de dieta e descanso, amanhã passo por cá. E assim se despachou o assunto do senhor Jorge Silva, o paciente na cama número 1 logo a seguir ao balcão. O senhor Jorge Silva sou eu.

 

É costume dizer que o tempo voa quando ele, sem peso, passa por nós e leva um pedaço da nossa vida sem darmos por isso. Quando a convalescença é curta e lutamos pela sobrevivência sem termos de isso consciência, também o tempo voa, carregando coisas que mais tarde nos farão falta. Assim aconteceu com o Jorge, o qual não deu pela mudança de turno. Saiu o André e entrou outra bata branca à qual o Jorge não deu importância. Talvez tenha dormido, ou apenas fechado os olhos. Só ele saberá dizer o que aconteceu. Muitas vezes, de olhos fechados, fingimos dormir para não nos incomodarem. Jorge, como todos os portugueses, é um poeta sem saber. Quer isto dizer que o seu pensamento é intrinsecamente poético, mesmo que ele não tenha disso consciência. Jorge escreve poesia numa sebenta de folhas brancas e sem linhas. Muitas vezes o seu sono é povoado de pensamentos poéticos que ele teima em ignorar, convencido que estes se resumem a ruídos que ele converte em sonoridades conforme os ritmos sonhados. O som é a zona de conforto de Jorge, e ele sentiu-se confortável durante todas aquelas horas que vagueou entre o fingimento, a vigília e pequenos fragmentos dos quais não se lembra, e que por isso mesmo poderemos considerar que foram períodos em que dormiu. Talvez que um dos seus poemas possa explicar melhor a relação que Jorge tem com a escuridão. Eu, que agora me assumo como narrador, tenho acesso a essa sebenta e estou prestes a cometer uma inconfidência que ele, tenho a certeza, não iria condenar se dela tivesse conhecimento. Assim sendo, aqui vai o desvendar do véu literário. Vejamos então o que ele escreveu na quinta página da sua sebenta:

 

Quando cego os olhos,

vou aonde as minhas mãos não podem ir.

Consigo ouvir as palavras despidas do seu significado,

e por não pensar,

viajo no seus ritmos e melodias.

Dessas viagens trago a liberdade do que senti,

e do que senti,

a liberdade de nada ter visto.

 

Agora, de olhos abertos, Jorge procura recuperar o tempo perdido e identificar o uniforme branco. Por detrás do balcão o uniforme branco levanta-se revelando o corpo de uma mulher. Tal como o outro, este uniforme tem um nome, Isabel.

 

 

 

 

 


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