2026-05-20

O Poeta ( da revelação ao caos)

 (excerto do interrogatório efetuado pela polícia judiciária ao João sobre o desaparecimento do Paulo)

João: Conheci o Paulo num evento cultural patrocinado pelo Município de Santiago.

Inspetor: E isso foi quando?

J: Há Aproximadamente três meses.

I: Pode descrever-nos esse encontro?

J: Foi pura casualidade. Eu estava extremamente aborrecido e esperava ansiosamente que aquilo terminasse para poder voltar para casa. Foi esse o motivo por que me aproximei da banca onde o Paulo se encontrava. Agradou-me o fato de ser aquela que tinha menos pessoas. Para dizer a verdade era a única que estava vazia. Se peguei num livro foi apenas uma desculpa para estar ali. Meti conversa porque o Paulo não parava de me observar fixamente. Não me recordo das palavras exatas que dissemos um ao outro, só sei que ele acabou por me oferecer o livro e eu, por cortesia, prometi-lhe um convite para um almoço quando terminasse do ler. Depois despedi-me e fui ter com a minha namorada. Quando voltei a olhar para a banca onde ele estava já não o vi. Presumo que se tenha ido embora.

I: Ele estava sozinho?

J: Que eu tenha dado conta não o vi com mais ninguém.

I: A sua namorada lembra-se dele?

J: Não. Ela nunca o viu pessoalmente. A imagem que ela tinha dele era aquela que estava na contracapa do livro.

I: Você chegou a concretizar a sua promessa?

J: Sim, uma semana depois convidei-o para almoçar comigo.

I: Em sua casa?

J: Na casa que tenho no monte.

I: Só tem essa casa?

J: Não, esta é a minha segunda casa. A minha morada fiscal é em Sintra, dentro da vila. Também tenho lá um estúdio logo à saída para as praias. Neste momento prefiro trabalhar no Alentejo, estou apaixonado pela luz e pelo espaço das planícies. As árvores têm outra sombra.

I: Você tem por hábito convidar estranhos para sua casa?

J: Depois de o ler deixou de ser um estranho.

I: Não acha que é pouco para dizer que se conhece um indivíduo?

J: Um artista revela muito do que é pelo seu trabalho, principalmente se esse trabalho não está contaminado por motivos exclusivamente comerciais. No caso do livro do Paulo isso pareceu-me evidente. Na altura mostrou-se um bom ponto de partida para iniciar um novo projeto. O trabalho poético, sem ser brilhante, era suficientemente honesto e abordava uma temática que há muito eu queria explorar.

I: Que era?

J: O Apocalipse, ou a Revelação, se preferir.

I: Foi, portanto, o seu trabalho que motivou os vossos encontros diários?

J: Não era só o meu trabalho. O Paulo com a sua perspetiva poética iria debruçar-se sobre o processo criativo resultando daí uma parceria abordando dois aspetos artísticos distintos, mas que se complementavam, o que aliás veio a acontecer.

(aqui o Inspetor parou a gravação e fez uma pausa para um café)

I: Vamos parar um pouco. Vou buscar um café. Quer alguma coisa?

J: Aceitava de bom grado um chá de camomila sem açúcar se me fizesse esse favor. 





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