2026-05-24

O Pintor e o Poeta (do sonho à revelação)

 

Prefácio do livro “Do Sonho À Revelação” de João Sambock.

Fui visitar o meu irmão ao museu. Sei que ele me aguarda todos os dias. Sentei-me à sua frente e olhei-o nos olhos que eu lhe pintei, olhei-o no corpo frágil com que o representei, protegido por uma reluzente armadura de prata e ouro e montado num imponente cavalo branco. Ele devolveu-me o olhar com palavras que só eu devia ouvir e os meus olhos encheram-se de lágrimas que contive para não deixar no meu irmão uma última imagem de tristeza.  Despedi-me com um “até breve” na esperança de o voltar a encontrar. Também isso ele me deu, a esperança. Se voltei a ser homem antes de ser artista foi porque ele me guiou. Por isso eu fui libertá-lo, fui libertá-lo da sua existência espiritual neste mundo. O seu trabalho está feito e este livro de poemas que hoje assumo como meu é prova disso. Devia-lhe um pedido de desculpas. Devia-lhe muito mais que um simples pedido de desculpas. Devia-lhe a vida. Deixei-o sozinho quando ele mais precisou de mim e ele não me abandonou. Hoje sei que lhe devia acima de tudo um agradecimento. Paulo, meu querido e talentoso irmão, este livro é para ti. Sem a tua presença estas palavras nunca teriam sido escritas.

 

(Excerto de uma notícia de jornal relatando o desaparecimento de um dos painéis da obra do pintor João Sambock, “Da Revelação Ao Caos”, exposta no MAR, Museu de Arte Rejeitada, na cidade da Amadora)

Foi dado hoje como desaparecido um dos painéis da controversa obra de João Sambock, Da Revelação Ao Caos. A obra estava exposta a título permanente no Museu de Arte Rejeitada, na Amadora. A obra é composta por quatro painéis representando cada um deles um dos Cavaleiros do Apocalipse, tendo desaparecido o mais consensual e menos polêmico dos quatro, o Cavaleiro Branco. Os restantes três representando a guerra, a fome e a morte têm semelhanças inequívocas com os três maiores líderes mundiais. A obra suscitou veementes protestos dos visados através das embaixadas dos respetivos países. Por causa desta polêmica o MAR transformou-se num local de encontro da esquerda intelectual e filosoficamente partidarizada. O desaparecimento do Cavaleiro Branco levanta várias questões às autoridades que, entretanto, tomaram conta do caso. Em primeiro lugar não se encontraram vestígios de arrombamento e o sistema de vídeo vigilância não detetou qualquer ocorrência no interior. O Ministro da Cultura do Governo português aproveitou, entretanto, para exigir que o MAR retire a obra da exposição permanente. Em declarações ao canal público disse…


FIM

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