2026-05-23

O Poeta ( da realidade ao sonho)


(excerto do depoimento de Madalena à polícia judiciária após o João ter participado o desaparecimento do Poeta)

Inspetor: Pedimos desculpas pelo inconveniente, mas o seu depoimento é fulcral para podermos encerrar a investigação.

Madalena: Não se preocupe Sr. Inspetor, o interesse é todo meu em ver este assunto resolvido. Eu também fui apanhada de surpresa. Só quando voltei a casa do João é que tive consciência da gravidade da situação. Estive dois meses em digressão de final de temporada. Eu nem era para ir, mas uma das atrizes adoeceu e eu era a sua substituta. Como eram só dois meses aceitei. Se soubesse que isto ia acontecer nunca teria ido.

I: Pode descrever-nos a sua relação com o Sr. João?

M: Podemos dizer que somos namorados. Conheci o João no funeral do seu irmão. O meu pai era o editor do Paulo e eu aceitei acompanhá-lo. O sofrimento do João não me deixou indiferente. Eu conhecia a obra do Paulo, mas desconhecia que ele tinha um irmão artista. Eu acho que foi a sua vulnerabilidade o que mais me atraiu nele. Começámos a encontrar-nos regularmente e acabei por ir viver com ele. O meu trabalho também não estava grande coisa e eu encontrava-me muito insegura por não ter sido a primeira opção para o papel na peça que a companhia andava a ensaiar. Acabámos por nos apoiar um ao outro. Só depois é que fiquei a saber da relação atribulada que existia entre o Paulo e o João.
I: Podia ser mais especifica, dona Madalena?

M: Por favor Sr. Inspetor não me trate por dona que me envelhece. Pode tratar-me por menina, menina Madalena.

I: Ok. Podia então ser mais especifica acerca da relação entre os irmãos, menina Madalena?

M: Vê, Sr. Inspetor, soa muito melhor.

(ligeiro silêncio em que o Inspetor resistiu ao olhar de Madalena e a instigou a continuar com um gesto de cabeça. Madalena substituiu o ar de provocação por uma postura mais formal)


M: Parece que o problema entre eles tinha a ver com o pai. O pai deles vivia sozinho já há uns anos desde que a sua segunda mulher morreu. Do que me foi dado a entender o João nunca aceitou essa relação e afastou-se definitivamente do pai. Quando este ficou acamado após um enfarte foi o Paulo que cuidou dele. Na altura vendeu a casa de Lisboa e comprou o monte onde o João vive atualmente. Também vendeu a casa do pai e ficaram a viver juntos no monte. O João sabia de tudo porque o Paulo nunca lhe escondeu nada, mas ele nunca quis saber do pai nem do irmão. E se o Paulo passou mal. Isso eu sei porque cheguei a ir visitá-lo com o meu pai e ele queixava-se da vida que levava. A relação que ele tinha com o namorado acabou para não melindrar o pai que nunca aceitara o fato do seu filho preferido ser homossexual, os seus livros não vendiam e a sua vida social resumia-se ao quotidiano com a dona Alzira e as cuidadoras que contratara para o ajudar e que lhe levaram o resto das poupanças. Eu sei que ele nunca recuperou a alegria de viver. O meu pai ainda pensou que a morte do pai do Paulo o libertasse, mas isso não aconteceu e ele afundou-se afogado em antidepressivos e álcool até o coração parar.

I: Há aqui uma questão que eu não entendo. O sofrimento do João era genuíno?

M: Era. Algo se passou na sua cabeça que o transformou completamente. Eu assisti ao processo porque foi o período em que começamos a andar. Fiquei a saber depois que ele era narcisista e misógino, que tinha dois filhos não assumidos e que as inúmeras relações anteriores terminaram todas em violência doméstica, queixas na polícia e vários processos em tribunal. Mas não foi esse o João que conheci. O João que eu conheci era tímido, inseguro e extremamente infeliz. Mal o irmão foi cremado pegou nas cinzas e veio para o Alentejo. Quando decidimos viver juntos ele já cá estava o tempo quase todo.

I: Quando é que se apercebeu que ele incorporou a identidade do irmão?

M: Eu diria que foi a entidade do irmão que ele incorporou, pois é essa a opinião do psiquiatra que o anda a tratar e que o medicou. A princípio era só a culpa que o martirizava. Ele sentia-se culpado pela morte do irmão. Depois encontrou os rascunhos que dariam origem ao livro “Da Revelação Ao Caos” e o processo acelerou. Não só foi ele que deu o título ao livro como me pressionou para que falasse com o meu pai para o editar. A partir desse momento começou a atender aos dois nomes.

I: E isso não a assustou?

M: No início causou-me estranheza, mas a vida com ele era calma e tranquila. Ele só saia de casa para ir ao psicólogo e ao psiquiatra. Dizia que um era para o fazer pensar e que o outro era para o drogar. Eu tenho a certeza de que ele só foi ao psiquiatra porque eu insisti. A situação só piorou quando eu lhe disse que me ia ausentar dois meses para substituir a minha colega. Ele sabia que eu tinha tido uma relação com um colega, mas que terminara tudo para ir viver com ele, no entanto isto provocou-lhe uma crise de ciúmes. Não foi nada de grave nem violento, apenas um mau estar que o fez assumir quase completamente a entidade do irmão, como se estivesse a fugir ao antigo João. Foi com o “Paulo” que eu fui ao evento cultural do município. Foi o livro dele que eu fui apoiar e foi ele que me deixou sozinha. Parti deixando o “Paulo”, mas ao longe só falei com o João. Eu apercebi-me, mas nunca pensei que tivesse esta atitude.

I: Esteja descansada. Com o seu depoimento e o relatório médico tudo se irá resolver.

 





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