Não sei quando calcei os sapatos pela primeira vez, mas de uma coisa tenho a certeza, nunca mais fui o mesmo. Sem querer aprisionei as minhas sensações mais imediatas e desaprendi o chão que pisava. Julgando-me protegido comecei a olhar em frente, a encher o peito e a julgar-me decente. Sem querer tinha mordido a maçã. Toda a minha juventude cuspi caroços sem saber que o que cuspia eram porções de mim. Naveguei na puberdade como um barco de papel num esgoto a céu aberto. Sem chão para pisar comecei a ler, e como não sabia ler inventei nas entrelinhas tudo aquilo que não percebia. Desse tempo os braços estendidos e as cruzes, os uniformes e o desencanto do amor. Nunca entendi a revolução até perder a virgindade. Foi num canto de um café que me converti, mas isso é outra história.
O uniforme branco reparou em mim. Olhou-me e sorriu antes de
se aproximar. Transportava dentro de si uma mulher muito bonita que teria pouco
mais de 20 anos. Lembrei-me do meu primeiro amor e das noitadas no liceu.
Talvez 75, processo revolucionário em curso, 10 anos de idade passados entre a
escola primária e a sede do Movimento de Esquerda Socialista. Gostava tanto de
me recordar do seu nome, mas apenas a memória da sua silhueta deitada na relva
perdura em mim. Estava escuro e os arbustos escondiam a minha ansiedade. Tinha
mais 2 anos que eu e deixava-se tocar guiando a minha mão pelas suas
intimidades, um peito precoce e um ventre de onde despontavam as primeiras
flores. Não me lembro de ter tido uma ereção, apenas os meus dedos tinham
sensações. De olhos fechados tentava imaginar o que tocava. Procurei repetir a
experiência, mas nunca mais o consegui. A sua anatomia era disputada por outro
amigo, e o que me calhou em sorte, não me bastando, serviu para despertar os
primeiros desejos. Naquela altura o liceu tinha aulas à noite e a mãe da
rapariga trabalhava como auxiliar no período noturno. Nem sempre a levava, e
nem sempre a podia ter só para mim, mas aquele dia ficou para sempre gravado nos
meus dedos, mapa de um tesouro que não aprendi nos livros.
Isabel, é esse o nome da mulher que veste uniforme branco. Leio
o nome na bata e tento balbuciar as sílabas que o compõem para lhe dar dimensão
e corpo. E que corpo, mas o que mais me impressiona naquela mulher são os olhos,
de um verde-esmeralda que ofusca tudo à sua volta. Chamo a sua atenção e
peço-lhe não sei o quê apenas para lhe ver os olhos. Está tudo bem senhor
Jorge? Precisa de alguma coisa? Respondo-lhe que sim, que está tudo bem, e que
preciso de alguma coisa. Se tivesse ficado por aqui ambas as respostas
correspondiam à verdade, mas eu especifiquei a minha necessidade e aí, menti. Disse-lhe
que tinha sede, a primeira coisa que me veio à cabeça, talvez por ser a
necessidade mais básica. Não tive coragem para lhe dizer que estava apaixonado
pelos seus olhos. Enquanto bebia, com a sua ajuda, perdi-me naquele verde e
recuei no tempo. Tinha uma mala com asas e carregava-a às costas. Não era uma
mochila, nem nada que se parecesse com isso. Apresentava uma etiqueta de uma
conhecida marca de material escolar, Âmbar. A mala era castanha e fechava com
fecho de mola. Quando corria, os cadernos bandeavam lá dentro provocando-me uma
sensação de desconforto. Frequentava o segundo ano do ciclo preparatório e as
aulas eram divididas entre os barracões verdes e a nova escola recentemente
construída. O contraste era enorme. De um lado tudo cheirava a novo, atravessava-se
a estrada e parecia que tínhamos entrado num campo de concentração. Sempre
fiquei com essa ideia. Não me lembro de ter amigos na escola, talvez um, mas
esse conhecia-o da minha rua. Enquanto olhava para a Isabel a escola ia-se
tornando mais real e por lá apareceu aquela miúda loura de casaco de malha
branco, ou pérola, com um cheiro doce de casa aconchegada. Apaixonei-me à
primeira vista. Mais tarde, quando me disseram que isso era quase impossível,
nunca fui capaz de os contrariar, mas sabia que podia ser uma realidade, pelo
menos foi a minha realidade. Foi a primeira vez que sofri, e que passei noites
em vigília ansiando pela manhã, pelo chegar à escola, por senti-la perto de
mim. Mas nunca a tive perto de mim, ou pelo menos assim me lembro. Nunca tive
coragem de me sentar ao lado dela na carteira, e se o fiz foi na aula de
desenho porque o professor tudo baralhava para não criar maus hábitos. Cheguei
a segui-la de longe, daí saber que morava no edifício Oeiras, o maior edifício
da cidade, com 15 andares, ou coisa parecida. Tento lembrar-me de qual o andar
onde, numa janela, aparecia luz alguns minutos depois dela ter entrado no
edifício. Um dia acompanhei-a casa, mas apenas porque ia com o meu amigo Rui, o
tal vizinho que morava com um tio, mas era de Setúbal. Foi a primeira vez que
fiz de “pau de cabeleira”. Tive ciúmes, ganhei-lhe raiva, e acabei por me
afastar dele. Dela guardei memória de uma grande desilusão, mas também da minha
cobardia. Aquele namoro acabou por durar pouco tempo, mas o trauma que me
provocou não me deixou ver nesse fim uma nova oportunidade. E este foi apenas o
primeiro. Foi no ciclo que fumei o meu primeiro cigarro e que mascarei o sabor
comendo cascas de tangerina, algo horrível, mas que compensava pela sensação de
que estava a enganar os meus pais. Fumei um SG ventil que me deixou azamboado e
agoniado. Não sei se o fumei todo.
Apercebo-me que estou novamente sozinho. A enfermeira Isabel
saiu de ao pé de mim e encontra-se ocupada com o outro paciente, aquele que se deita
na cama junto à janela. Aparentemente o homem passa mal, qualquer coisa a ver
com o pâncreas, o fígado, e a dependência alcoólica. Isabel pediu ajuda a um
colega e ouço-os conferenciar sobre a melhor maneira de acalmar a dependência
do homem. Aparentemente sedaram o homem na noite anterior, mas a Isabel tem
dúvidas sobre a repetição do processo e confidencia essas dúvidas ao seu colega
que lhe confirma ser essa a melhor maneira de passar o resto do turno tranquila.
O homem encontra-se agitado e debita palavreado avulso e sem nexo. Diz-se
importante e ameaça fazer queixas a todos e mais alguns, primeiro à filha, depois
ao genro, e por fim à polícia. Não me sentisse eu apaixonado e outras memórias
me chegariam.
A enfermeira Isabel está agora menos ocupada. O senhor António
está mais sossegado. Tem um tubo que lhe sai da mão e vai até um frasco com
medicamento. A magia do medicamento dentro do frasco transformou o senhor
António numa pessoa serena. Deitado na minha cama invejo essa serenidade enquanto
observo o gotejar do soro subvertido em droga. Gota a gota confundo os meus
pensamentos no líquido dentro do pequeno cilindro que separa o frasco com
medicamento do tubo ligado à mão de António. Só agora reparei que por cima do
balcão existe um relógio. Ainda não sei, mas será essa a minha lua particular.
Quando a noite tomar conta do quarto, o branco do mostrador será referência.
Nele os números serão vales e montanhas e os ponteiros rios inexistentes
levando partículas de tempo que irão sedimentar na madrugada.
Fechei os olhos e acho que estou a dormir. Estou debaixo de
uma mesa e a toalha que a cobre permite-me um refúgio seguro. Não estou
sozinho. A rapariga que está comigo mora no terceiro andar. A imagem, já de si
diluída, desvanece-se por completo, como se não pertencesse a este turno. Ao
mesmo tempo ouço um rolar acompanhado de um chocalhar metálico. Talvez por isso
abri os olhos e inclinei a cabeça na direção da porta. A enfermeira Isabel,
apercebendo-se do meu gesto, sossegou-me. Não se preocupe senhor Jorge, o
jantar está quase a chegar. Acho que sorri, pelo menos assim indicia o olhar cúmplice
que Isabel me devolveu.
Tive direito a uma canja sem sal e a uma fatia de pão. Acordado
o tempo passa devagar, tão devagar que já fixei os pormenores da minha cama.
Antes de apagarem as luzes distribuem um chá e umas bolachas. Enquanto como as
bolachas fecho os olhos e tento recordar-me dos pormenores que fixei. Apercebo-me
que afinal não fiz um bom trabalho. Falhei nos botões do comando elétrico que
permite a cama adaptar-se ao meu corpo. A bata branca trouxe-me um comprimido, tome
senhor Jorge, vai ver que descansa melhor. Abro a boca e agradeço a gentileza
com os olhos. Depois de dois golos de água e um engasgo consigo arremedar um
adeus que me sai sibilado entre os dentes. Uma nova bata apresenta-se ao
serviço e substitui o meu anjo de olhos verdes. Procuro um nome na bata, algo
mais que a distinga, algo para além dos olhos e do sexo. Pedro, é o nome que
identifico no meio da escuridão e que dá nome àquele jovem de barba rala e pele
bexiguenta. Será ele a velar por mim, serei eu o seu cordeiro. Durante toda a
noite sonhei com lobos, e mais qualquer coisa.
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