Também tive
meias nos pés, meias brancas que se sujaram de lama junto de valas para o
saneamento básico. Para mim eram só buracos que se atravessavam no meu caminho.
Um dia atravessei-os sozinho em busca da minha mãe. Foi a minha primeira grande
aventura. Nunca as meias tinham saído de casa sem companhia. Nos pés as meias
significam conforto, um ambiente sem perigos, o porto seguro que é o lar. Qual
o farol que me guiava nessa altura, que indicava o caminho a esses pés infantes,
ignorantes e inocentes apenas porque não conheciam a moral que determina a
culpa. Porque levei eu meias calçadas para o ambiente estranho e hostil? Um
dia, quando perguntarem às meias, elas dirão de sua justiça. Haja quem registe
o seu testemunho e o inclua na história dos peúgos aventureiros.
Mas uma coisa é certa, não são os peúgos quem define os pés, mesmo sendo estes
de tenra idade.
São 9 horas da manhã e a azáfama é grande. Na cama em frente da
minha, uma mulher luta pela vida acompanhada por 3 batas brancas. Aparentemente
o pós-operatório não correu como esperado e o coração da velha senhora desistiu
perante tanta insistência da medicina. Bata que é bata não desiste assim tão
facilmente e por esse motivo foi necessário partir algumas costelas e submeter
aquele corpo decrépito e enrugado a diversos choques elétricos. A tudo isso eu
assisti, impávido e sereno, imaginando-me aquele ser desistente. Terei eu tempo
para agitar uma bandeira branca que permita evitar agressões desnecessárias? Por
favor, não quero mais, não batam neste corpo cansado e dorido, por favor
mantenham-no íntegro na morte assim como o tentaram manter na vida. Será que
foi assim que procederam com a minha mãe, prefiro não saber depois de todo o
mal que lhe causei, no fim de contas nunca lhe agradeci. Assim como veio, a
velha senhora se foi, tapada com um lençol que lhe cobria o corpo, só que desta
vez também a cabeça estava tapada.
Lembro-me do Eduardo. Não vi quando o retiraram do
quarto de hotel, nem sei se a agulha ainda estava espetada na veia de um dos
braços, seringa pendurada com restos de sangue de 2 ou 3 lavagens. Lembro-me do
meu vizinho, rapaz pequeno e franzino com cara de sonhador. O que é isso de
cara de sonhador? No caso do Eduardo era o cabelo encaracolado
disparando em todas as direções, o olhar negro e profundo que adivinhava outras
visões quando se encontrava com o nosso, o corpo desengonçado pelo frenesim de
uma vida que não se contentava com a banalidade do dia a dia. Vivia 2 prédios
abaixo do meu, no número 23. Isto para dizer que o número da minha porta era o
19 o que significava, em termos geográficos, que estávamos localizados
sensivelmente a meio da rua. Juntamente com o João fazíamos um trio inseparável,
uma espécie de 3 mosqueteiros sem D’Artagnan,
um por todos e todos por um na medida do possível. Sim,
porque nem sempre era possível, principalmente quando as adversidades se mediam
pela força dos oponentes, geralmente os rapazes mais velhos da rua. Mas, como
toda a regra que se quer regra tem de haver uma exceção e esta era a única exceção.
No que dizia respeito às malandrices havia um pacto de segredo que nem os pais
conseguiam quebrar, mesmo recorrendo às técnicas mais ferozes, açoites no rabo,
proibição de brincadeiras na rua, dinheiro para rebuçados e pastilhas, idas
precoces para a cama, tareias de cinto com fivela à mostra, chapadas na cara e
cabeças contra a parede, enfim, tudo o que é necessário para obter uma
confissão. Viver tinha o mal e o bem, quem decidia eram eles. Sabia lá eu que
esses males eram paixões e que podia modificá-las em virtudes bastando para tal
uma conversão que passava pelo assumir da idade adulta numa rendição absoluta à
cultura da sociedade que aceitara a minha rendição, todos os meus demónios
convertidos em Anjos. Mas na altura quem mandava em nós era o nosso corpo,
disso não tínhamos dúvida nenhuma. Corria porque o corpo me mandava, rebolava
no chão porque assim ele exigia, testava a minha força porque era essa a sua
vontade. Mesmo agora, que me encontro deitado numa cama de hospital, é ele que
manda, é ele que me diz para não desistir ainda, não me entregar tão cedo ao
mundo para lá da Terra, e deixo que a minha alma transpareça essa vontade. Não
sei porque me vêm estas ideias à cabeça, sei que não sou eu, espírito, mas sim
a matéria que as provoca. Nessa altura éramos 3 corpos Virgens que resistiam a
uma educação imposta prestes a cair nas mãos do primeiro que ensinasse a
contrariá-la. Outros corpos com outras vontades. Na altura essas vontades tinham um nome, o nome de uma banda de
música popular anglo saxónica, Beatles. A nossa paixão era a música e as
raparigas que corriam atrás dela, a preto e branco, nos ecrãs de televisão. George,
Paul and John, desprezando o baterista que viria a demonstrar a sua longevidade.
Por ironia do destino gravou este ano um novo álbum aclamado pela crítica.
Mesmo que sob um pedestal o baterista ficava lá atrás e o charme estava
presente em grandes quantidades na fila da frente. A brincadeira começou com a
audição de uma coletânea e resistiu ao passar dos anos. Mais tarde haveria de
ser banda com nome português a condizer numa altura que o rock se falava com
esse idioma. Mas não é altura de me lembrar dessa história senhor enfermeiro,
ainda estamos na primária, talvez no seu último ano, “Verão Quente” a ferver
com militares na rua e manifestações a granel pelas ruas da capital. O gira-discos
fazia girar a maçã e enquanto cantávamos agarrávamos em vassouras, ou no bate
carpetes que se assemelhava ao formato de uma guitarra, e imitávamos os nossos
heróis.
Está na hora do almoço? A carripana metálica chocalha
utensílios domésticos, pratos metálicos, talheres ensacados, copos de vidro
baços e usados, sobremesas tapadas por película aderente transparente, tudo uma
delícia para os olhos, menu dos deuses para quem passa fome. Explico à bata
branca que não tenho fome, que a fome que eu passo não é fome, é falta de
vontade, enjoo de vida em forma de alimento. Não, senhor Jorge, você não pode
ficar sem comer nada, faça um esforço e coma pelo menos a sopa. O André faz-me
lembrar o meu filho mais novo, aquele que não me fala e que eu não vejo há mais
de 10 anos, por isso eu como sopa mesmo que não haja uma razão válida para tal.
Tento lembrar-me do dia em que o meu filho mais novo nasceu, mas não consigo,
nem o nome dele me vem à ideia. No entanto tenho uma fotografia lá em casa em
que ele está presente no meio de dois adultos sorridentes. Agora que recordo
esses sorrisos tenho a perceção de que nunca mais os repeti, perdidos para sempre
naquela fotografia. Os álbuns de fotografias são para mim repartições de achados e
perdidos onde eu acho o que perdi, muitas vezes sem ter noção de o ter perdido.
Agora que a sopa já foi, reparo que a sobremesa, gelatina de
sabor açucaradamente incerto, também marchou à boa maneira militar, sem vontade
nenhuma e de consciência adormecida. Fecho os olhos e ouço a água a correr. Não
sei por onde ela corre, mas ouço-a correr e para mim isso basta. Adormeci e
quando acordei a água ainda corria e eu mantinha os olhos fechados. Tive medo
de os abrir e por causa desse medo fiquei com eles fechados. Ao longe,
juntamente com o barulho da água a correr, ouço a voz da Isabel, a bata branca
que entra às 4 da tarde.
E aqui estou eu novamente, o Narrador que está de fora, assistindo
de um qualquer primeiro balcão, recordação de outros tempos, que de outros
tempos se trata o que aqui se ouve, e por esse motivo posso divulgar o que Jorge
escreveu na página 2 da sua sebenta,
Cansei-me da poesia que vê,
Da palavra que inventa sentimentos dentro dos rios
E os devolve secos e áridos
Como se eu nunca os pudesse ter visto.
No outro dia cheguei-me à beira de um riacho,
Coisa pequena e sem importância,
Algo merecedor de desprezo fotográfico
E fechei os olhos.
Ouvi a água a correr
E não pensei de onde ela vinha,
Quais os compostos que faziam dela o que é,
Nem tão pouco se a podia beber.
Limitei-me a ouvir a água.
Não lhe adivinhei direções nem transparências,
Não a supus quente de um sol que não via,
Nem fria do inverno que não veio.
Quando abri os olhos
Olhei para ela,
Não sabia o que escrever.
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