Sapatos vêm, sapatos vão, e por altura dos anos 80, mesmo no começo da década, os sapatos fizeram-se botas, botas de andar na estrada. Com as botas veio o casaco de cabedal do meu avô e uma camisola de malha. Da estrada que separava a minha casa do liceu passei à estrada que separava o bairro do mundo. O mundo, que começava logo ali, parecia não ter fim e por mais solas que eu gastasse não lhe encontrava a fronteira. Mais tarde percebi que o problema era das botas. Elas não conheciam todos os caminhos e eu não as sabia ensinar. Um dia chegará o tempo do entendimento, e quando esse tempo chegar o calçado deixará de ter importância, quando esse tempo chegar caminharei pelo meu próprio pé, mesmo que descalço. Num dossier escolar abro as argolas e coloco 25 folhas de papel de linhas. Nele a primeira insónia e o primeiro armistício. Por essa altura tinha atravessado o portão do liceu e, com o peito cheio de ar, passeava a idade do desconhecimento, da ignorância feita saber. Se tinha feridas no joelho, já não tinha calções para as mostrar. Despontavam pelos nos sítios mais impróprios, próprios das primeiras colheitas. Dessem eles tempo às primeiras estações e deles germinariam as primeiras angústias.
Isabel, a minha Santa Isabel, a minha bata branca preferida. A
morta abalou e ficámos três, eu, o António, e a Cristina. Ainda não falei dela,
pois não? Chegará o tempo em que ela não me deixará dormir, mas isso será no
turno do Pedro. Por enquanto só chateia a Isabel, retirando o oxímetro do dedo
e fazendo apitar o equipamento que monitoriza a sua oxigenação. Não faça isso
dona Cristina, implora Isabel, com o cuidado que se deve ter quando se fala com
pessoas que têm idade para ser nossos avós. Antes do fim do turno esse respeito
desaparecerá substituído pela exasperação causada pelo cansaço da repetição, ó dona
Cristina, já não lhe disse para não fazer isso? Será que tenho de lhe amarrar
as mãos? A dona Cristina ri-se por detrás da máscara que a ajuda a respirar e
que ela teima em retirar quando não consegue chegar ao dedo onde o oxímetro lhe
morde a unha. Tento não sorrir para não enervar a minha Santa, sei que lá para
o final do turno lhe irei pedir um ajudante para conseguir dormir. Vêm-me à ideia
umas folhas de papel que eu guardava num dossier de argolas. Nelas as minhas
primeiras angústias, as minhas primeiras insónias, os meus primeiros demónios.
As primeiras palavras em papel nunca tiveram o amor como assunto, nem uma
mulher como musa. Tão novo, já com o coração queimado, deixava que a minha
imaginação tortuosa se pavoneasse por outros universos. Também não ajudou ouvir
Doors pela primeira vez. Malfadado Jim que tão bem soube captar as minhas
aflições quando se referiu à supressão sonora da música e me convidou a apagar
a luz. Tenho a certeza que foi ele que me levou a escrever as primeiras
palavras não escolares. Os meus primeiros poemas não rimavam, não eram quadras,
nem sonetos, e ainda hoje não sei o que eram. Tenho-os guardados num dossier
que não deitei fora, mas que tenha certeza que ninguém lerá. Quando eu morrer,
tudo o que está dentro daquela casa morrerá comigo. Assim é a vida, tanto
trabalho a acumular recordações que se tornam lixo logo após a morte. Desculpe
Isabel, falar destas coisas, logo a si que tanto faz para me manter vivo.
Parece coisa de gente parva, mas verdade seja dita que ultimamente não tenho
sido lá muito esperto. Dez anos a viver sozinho não ajudam lá muito, não acha
Isabel? A bata branca não está ao pé de mim. A Cristina monopoliza toda a sua
atenção, cheia de sorrisos e trejeitos de gozo. Fico com o João e com o Eduardo,
ali em meados dos anos 80, quando pela primeira vez tocámos num bar em Lisboa.
Fazíamos covers dos Beatles de uma forma minimalista condizente com a nossa
falta de jeito e de conhecimento. Quase sou tentado a afirmar que eram versões
punk dos Beatles. Foi por essa altura que o Eduardo se perdeu. Logo a seguir ao
pequeno concerto e entre duas bebidas deixou-se levar por aquela miúda de
cabelos negros e compridos que simulava os perdidos anos 60. A primeira vez que
o vi vomitar pensei que tivesse sido por abuso de álcool, mal sabia eu que o
caminho era outro. O Eduardo era o único que sabia cantar e conseguia fazê-lo
ao mesmo tempo que tocava guitarra ritmo. Tocávamos com um baterista emprestado
que variava duas em cada três atuações. O João tocava baixo e fazia as segundas
vozes, e eu fingia que cantava enquanto enfiava a cabeça na mão direita para
não falhar os solos de guitarra. Que eu me lembre só fizemos um original,
música minha e do João com letra de Eduardo, uma coisa básica, mas que continha
toda a insatisfação que mais tarde viria a revelar-se na sua vida. Quer que eu a
cante Isabel? Ainda me lembro da letra toda. Também não era muito grande, tinha
três estrofes de quatro versos e um pequeno refrão:
Vou-te levar pela mão
Vou-te mostrar o luar
Levantar-te do chão
Ensinar-te a voar
Vou-te mostrar as cores
No meu arco de magia
Não são rosas as flores
No Jardim da fantasia
Quando o Sol amanhecer
E eu te poisar no chão
Não serás uma mulher
Nem precisarás de perdão
E o refrão era assim:
Da minha alma ao Paraíso vai um pequeno passo
Se seguires o meu sorriso andarás sempre ao acaso
A música não tinha mais de dois minutos e meio, mas foi a
nossa primeira música e eu gostava muito dela. Embora as notas fossem sempre as
mesmas, nunca a tocámos da mesma maneira, mais por aselhice e por efeito dos
comprimidos que tomávamos, do que propriamente por opção musical. Eu sei que a
letra é infantil, mas trauteando-a hoje faz todo o sentido tendo em conta o que
foi o futuro de cada um de nós. Apenas o Eduardo era capaz desse arco de magia,
apenas ele conseguia atingir esse Jardim onde as rosas não eram flores e do
qual eu nunca tomei conhecimento, talvez por perceber muito pouco de floricultura.
Não pense que eu era um Anjinho, Isabel, mas a minha imaginação nunca se
desenvolveu por efeito psicotrópico. Cada macaco no seu galho, as minhas
viagens sensoriais não tinham imagens, mas sons. Sabe enfermeira, nunca fui uma
pessoa muito interessante. Mesmo pertencendo a uma banda de rock nunca chamei a
atenção de ninguém. Cedo me convenci que teria de arranjar companhia de outra
forma. Desculpe-me a franqueza, enfermeira Isabel, mas o que eu quero dizer é que
tive de me satisfazer sexualmente nas casas da especialidade, a troco de
dinheiro. Nos ensaios apareciam raparigas que gostavam da atenção e do frenesim
que o movimento de uma banda atraía. O João e o Eduardo facilmente arranjavam
companhia do sexo oposto, isto para não dizer do género oposto, que nesse
aspecto nunca deveria haver oposição. Enfim, não estou a utilizar a palavra
certa, talvez a minha geração nunca tenha utilizado a palavra certa, mas isso
não me serve de desculpa para não ter mudado. Estou para aqui a dar voltas, mas
o que eu quero mesmo dizer, é que a companhia era feminina e que embora me atraísse,
nunca se sentiu atraída por mim. Esta situação deixava-me com uma inveja de
morte dos meus dois companheiros, que facilmente trocavam de companhia, como
quem troca algo já usado. Quantas vezes não andei eu atrás de destroços
chorosos por terem sido abandonadas? Não vou enumerar essas vezes, mas confesso
que foram as suficientes para desistir de procurar no feminino a minha
satisfação. Não, não estou a entrar em contradição, para mim o sexo pago não
tinha género. A conversa desagrada-lhe enfermeira? Não faça cerimónia comigo,
no fim de contas você conhece as minhas entranhas e tudo o que eu digo não é
mais que o reflexo verbal de um monte de carne numa estrutura óssea.
Olho para o lado e apercebo-me que
estou a falar sozinho. Tenho sede e não consigo chegar ao copo de água, que me
tenta, apoiado que está na mesa de cabeceira. Por fim verbalizo a minha vontade
com uma voz que me pareceu esganiçada. Acredito que tenha mesmo sido esganiçada
porque a enfermeira Isabel olhou espantada para mim como se eu tivesse emitido
um grunhido, algo inumano digno de um animal selvagem. O que pretende senhor
Jorge? Não é preciso gritar assim. Desculpe Isabel. Foi esse o murmúrio que me
saiu dos lábios, desta vez tão baixo que a enfermeira não me ouviu. No entanto
a bata branca aproximou-se dizendo, diga lá o que quer senhor Jorge, olhe que
você não é o único paciente nos cuidados intensivos. Saiu-me uma desculpa que
mais parecia uma lamentação, não foi por mal enfermeira Isabel, eu não posso
destruir esta ténue relação com a bata que me trata. Não saíram as palavras,
mas saiu um gesto que apontou para o copo de água, assim como um olhar que
mendigava por este líquido vital. Eu não queria assustá-la, enfermeira. Deixe
lá isso senhor Jorge, mas não repita porque pode assustar-me num momento
impróprio. Imagine que estou com uma seringa na mão, ou com uma agulha, e
alguém grita como você gritou? Já imaginou o que poderia acontecer? Sim
enfermeira, mas foi sem querer, saiu-me, a culpa foi das minhas recordações. E
o que recordava você senhor Jorge? A minha banda de garagem, o sonho juvenil do
sucesso que morreu precoce por não haver argamassa de qualidade que nos
ligasse. Se eu melhorar, prometo enviar-lhe uma gravação, é que eu ainda fiquei
com uma cassete, algo que servia de cartão de visita para os poucos espetáculos
que realizámos. Fica combinado senhor Jorge, quando você melhorar envie-me uma
das suas músicas em MP3. Minhas não, da banda. Agora que me lembro melhor, não
foi só uma música que nós fizemos. Aquela cassete a que me referi tem pelo
menos seis originais. Que estupidez a minha, como poderia esquecer a minha
primeira canção completa, letra e música de Jorge Silva. Se calhar é essa que
eu lhe vou mandar. Olho em volta e a minha Santa Isabel já desapareceu,
novamente de volta da dona Cristina. Maldita velha que me rouba a minha Santa.
Não faz mal, há muito tempo que deixei de ter inveja ou ciúme. Já lhe disse que
as minhas letras nunca falaram de amor não correspondido nem daquele outro que o
é? As minhas letras falavam de sons e de sensações do espaço escuro onde a
sonoridade se perde e nos desvenda formas que não conseguimos explicar
totalmente. Escrevi aquela letra numa noite de insónia, sozinho no quarto
depois de uma noite onde todos encontraram companhia que os levasse a casa.
Confesso que nesse dia estava embriagado, foi a primeira vez em que me senti
verdadeiramente embriagado, tinha 17 anos. A inquietação era muita e não me
deixava deitar, pelo que fiquei sentado à secretária com uma caneta na mão. Com
o som no mínimo, coloquei um disco no gira-discos, o meu herói do momento, o Jim
Morrison. As referências estavam lá, o abandono e a incompreensão. A sedução
que eu não conseguia, que para ele era tão fácil e que ele desprezava.
No escuro sou escuro
O som que se cala e que me deixa à beira do precipício
No escuro sou o vazio
O espaço por preencher num corpo sem fim nem princípio
No escuro ninguém me vê
A irrelevância da minha presença e a minha consciência
No escuro à espera de um som
Uma guitarra acende-se e uma voz declama
Outro tipo de transcendência
Isto não era bem cantado, era um murmúrio entre guinchos de
guitarra e alucinações gritadas pelo Eduardo. Depressa deixámos de a tocar, mas
tenho a certeza que o Eduardo adorava esta canção. Confessou-me um dia, num dia
de ressaca em que pediu dinheiro para uma dose de heroína. Tenho a certeza que
não foi bajulação, mas uma espécie de confissão. Quanto ao João, por essa
altura fazia as malas para a Holanda, primeira paragem num coffee shop antes de
seguir viagem para qualquer destino.
E agora, o Narrador volta a meter o bedelho. Que para mais
serve um Narrador, numa história que já tem um? Enfim, como poderá o Jorge
saber que João também escrevia, quem sabe numa sebenta branca sem linhas? Nesse
caderno, e por esta altura, encontravam-se estas palavras:
Acima de tudo o ato,
A resolução capturada no meio de tantas outras.
O chão que piso e o horizonte.
Os passos que dou quando atravesso a ponte
E o que deixo os olhos contemplar
Para lá da margem, para lá deste lugar.
Tão novo e uma sede tão grande.
O destino, sem quem o mande,
Obrigou-me a abalar.
Darei notícias quando chegar.
Sou eu que aqui continuo, a dar cor ao espaço que foi
desocupado pelo Jorge. Adormeceu e com ele o silêncio tornou-se definitivo na
nossa história. Mais sabe ele que internamente o coração continua fraco e que
arritmias se sucedem como premunição de algo fatal. Para já, vai ganhando a
batalha, mesmo que não tenha consciência de estar lutando. Só lá para a hora de
jantar o João dará acordo de si, com um aperto no peito que mal o deixa respirar.
Posso aqui dar conta de todos os esforços da enfermeira Isabel para o retornar à
vida. Desta vez conseguiu, não sendo necessário partir nenhuma costela, nem
aplicar o desfibrilhador. Mesmo habituada a estas situações, não deixou de se
assustar, e a sua cara transpareceu um ar de alívio quando viu a máquina
revelar vida. No fim surgiram-lhe na testa pequenas gotas de suor, que ela
limpou com o braço nu. Quem sabe, se por brio profissional, mas fazia questão
em que ninguém morresse no seu turno. Depois do susto chamou o médico de serviço,
que a acalmou, depois de uma breve avaliação ao senhor Jorge. Não te preocupes
Isabel, este se morrer é no turno da noite. Isabel, mesmo tendo ficado um pouco
mais descansada, não se fiou nas palavras do médico e manteve-se alerta até ao
Pedro chegar. Colocou a sua cadeira entre a cama da Cristina e a do Jorge, um
olho no burro e outro no cigano. Quanto ao António, sedado como estava, não representava
um problema.
Tenho o peito dorido, mas não sei explicar porquê. À minha
direita, a bata branca encontra-se sentada com uma expressão apreensiva. Não me
apetece perguntar-lhe porquê, talvez porque não queira saber a resposta. Sempre
ouvi dizer que quem não quer ouvir o que não convém, não deve fazer perguntas.
E eu, o que quero eu ouvir? Que sou Eterno? Não me parece, a minha imortalidade
nunca foi um problema. Espero serenamente que algo me aconteça, sempre esperei,
não está na altura de mudar. Sinto-me fraco, como se os fluxos da vida tivessem
diminuído de intensidade dentro de mim. As mãos mais brancas, as forças mais
fracas, as carnes mais moles e insipientes. Pergunto a mim mesmo se chegarei a
ver o André. Olho para o lado e tento perceber o que se encontra dentro da bata
branca, se é a Isabel ou se é o Pedro. A bata branca levanta-se e dirige-se ao
balcão. Uma outra bata branca entrou e dirigiu-se à primeira bata branca,
àquela que se encontrava junto de mim. Tenho a vista turva, só distingo formas,
e cores desvanecidas percorrem o meu campo visual. O barulho silencioso do
quarto do hospital tem um efeito sonoro que faz eco na minha cabeça. Apercebo-me
da voz do Pedro na bata que acabou de entrar, e isso leva-me a concluir que
chegou a noite. Não me lembro de ter comido, mas agora que olho melhor apercebo-me
que o soro tem uma cor amarelada e que o meu jantar se encontra naquela
miscelânea líquida. Pelo menos é isso que eu penso. Mas não me serve de nada
pensar nisso, nunca iria apaziguar a minha fome, mesmo se eu a tivesse. Nunca o
pensamento matou a fome, outras fomes terá matado, mas não esta. Estou
hesitante, consegui olhar para a mesa de cabeceira e descortino um copo que
talvez tenha chá, um chá que já foi quente e que agora está gelado, faz
companhia a um pequeno pacote de bolachas Maria. Serão Maria? Que nome terão
elas agora? Uma coisa é certa, são mais escuras do que aquelas que eu comia
quando era criança, aquelas que eu barrava com manteiga até terem mais manteiga
que bolacha. Jorge não ponhas tanta manteiga, divide por outra bolacha. Sim
mãe, já com a bolacha na boca e outra na mão preparado para repetir o processo.
Sento-me, possivelmente com um ligeiro sorriso, um hastear de extremidades nos
cantos da boca, nada que deixe ver os meus dentes amarelados do tabaco e do
café. Ai
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