2026-06-20

A Vida e a Morte do Sr. Jorge - décimo sétimo acto; Pedro

 Quando pisamos solo pátrio, é natural sentir conforto. É uma sensação uterina e protetora. Aqui dentro, ninguém nos vai fazer mal, que a mãe não deixa. Sabemos que ele sentiu de maneira diferente o nosso regresso. Nem poderia ser de outra forma. No que nos diz respeito, o regresso só teve vantagens. Passámos a dormir uma hora depois de almoço, a ir ver o pôr do sol na praia, a passar horas no cadeirão enquanto ele dormia: um sem-número de atividades de pouco desgaste. É certo que o seu pai necessitava de muita atenção, mas nada que se comparasse com o trabalho na plataforma. Foram tempos de descanso como nunca tivemos.

 

Sofri muito quando ele morreu. Quem me ajudou muito foi a minha vizinha do lado, a Dona Maria. Vem dessa altura a minha decisão de lhe dar uma cópia da chave da porta de minha casa. Ouvi dizer que foi isso que me salvou, mas não cheguei a confirmar. Ele partiu em paz. Primeiro, fechou a boca e, depois, arrancou tudo o que lhe permitisse manter a sua presença por cá. Morreu no hospital, ao fim de um dia de internamento. Os dois últimos anos coincidiram com a pandemia, e o isolamento roubou-lhe o que restava de lucidez. Ele nunca entendeu a mudança das nossas rotinas, e desconfio que me atribuiu a responsabilidade por ela. Nunca o verbalizou, mas também já não conseguia fazê-lo. Foi o seu olhar melindrado que me fez ter uma certeza quase absoluta. Ao fim de algum tempo, esqueceu as antigas rotinas, e o seu olhar melindrado passou a revelar apenas tristeza. Assim é a doença do esquecimento. Mesmo desorientado e com medo, nunca me tratou mal, e foi relativamente fácil cuidar dele. Devo-lhe um obrigado por esse motivo. Estou a ser injusto com o meu pai. Durante a sua doença, eu aprendi a dar valor à vida, e a sua companhia evitou que eu caísse novamente num abismo.

 

O dia nasceu, mas já pouco me ligam. Sinto-me melhor e não percebo porque não me transferem para a outra ala. Ponho-me de pé e chamo pelo Pedro. Ele passa por mim e ignora-me. Se eu fosse outro, ficava ofendido e não o deixaria ir embora sem um pedido de desculpas. Mas ficámos assim: eu, em pé, junto da cama, e ele, caminhando em direção aos lavabos.

 

Continuo sem me lembrar do que aconteceu durante a doença do meu pai. Sei que foi antes da pandemia; essa é a única certeza que eu tenho. Olho para mim e vejo-me sentado no sofá, com o corpo vergado sobre os joelhos. O meu pai olha-me sem compreender. Há alguém junto de mim que me abraça. Percebo que é uma mulher, mas não a consigo reconhecer. Mais cedo ou mais tarde, hão de vir à memória os pormenores dessa recordação. Por agora, o melhor é não pensar mais no assunto.

 

Hoje esqueceram-se do meu almoço. É verdade que eu também não tenho fome, mas podiam ter dito alguma coisa; assim, escusava de esperar feito parvo pela paparoca.

Já que me deixaram à seca, vou tentar dormir um pouco. Talvez a enfermeira Filomena se mostre mais simpática que o Pedro.

 

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