Quando pisamos solo pátrio, é natural sentir conforto. É uma sensação uterina e protetora. Aqui dentro, ninguém nos vai fazer mal, que a mãe não deixa. Sabemos que ele sentiu de maneira diferente o nosso regresso. Nem poderia ser de outra forma. No que nos diz respeito, o regresso só teve vantagens. Passámos a dormir uma hora depois de almoço, a ir ver o pôr do sol na praia, a passar horas no cadeirão enquanto ele dormia: um sem-número de atividades de pouco desgaste. É certo que o seu pai necessitava de muita atenção, mas nada que se comparasse com o trabalho na plataforma. Foram tempos de descanso como nunca tivemos.
Sofri muito quando ele morreu. Quem me ajudou muito foi a
minha vizinha do lado, a Dona Maria. Vem dessa altura a minha decisão de lhe
dar uma cópia da chave da porta de minha casa. Ouvi dizer que foi isso que me
salvou, mas não cheguei a confirmar. Ele partiu em paz. Primeiro, fechou a boca
e, depois, arrancou tudo o que lhe permitisse manter a sua presença por cá.
Morreu no hospital, ao fim de um dia de internamento. Os dois últimos anos
coincidiram com a pandemia, e o isolamento roubou-lhe o que restava de lucidez.
Ele nunca entendeu a mudança das nossas rotinas, e desconfio que me atribuiu a
responsabilidade por ela. Nunca o verbalizou, mas também já não conseguia
fazê-lo. Foi o seu olhar melindrado que me fez ter uma certeza quase absoluta.
Ao fim de algum tempo, esqueceu as antigas rotinas, e o seu olhar melindrado
passou a revelar apenas tristeza. Assim é a doença do esquecimento. Mesmo
desorientado e com medo, nunca me tratou mal, e foi relativamente fácil cuidar
dele. Devo-lhe um obrigado por esse motivo. Estou a ser injusto com o meu pai.
Durante a sua doença, eu aprendi a dar valor à vida, e a sua companhia evitou
que eu caísse novamente num abismo.
O dia nasceu, mas já pouco me ligam. Sinto-me melhor e não
percebo porque não me transferem para a outra ala. Ponho-me de pé e chamo pelo
Pedro. Ele passa por mim e ignora-me. Se eu fosse outro, ficava ofendido e não
o deixaria ir embora sem um pedido de desculpas. Mas ficámos assim: eu, em pé,
junto da cama, e ele, caminhando em direção aos lavabos.
Continuo sem me lembrar do que aconteceu durante a doença do
meu pai. Sei que foi antes da pandemia; essa é a única certeza que eu tenho.
Olho para mim e vejo-me sentado no sofá, com o corpo vergado sobre os joelhos.
O meu pai olha-me sem compreender. Há alguém junto de mim que me abraça.
Percebo que é uma mulher, mas não a consigo reconhecer. Mais cedo ou mais
tarde, hão de vir à memória os pormenores dessa recordação. Por agora, o melhor
é não pensar mais no assunto.
Hoje esqueceram-se do meu almoço. É verdade que eu também não
tenho fome, mas podiam ter dito alguma coisa; assim, escusava de esperar feito
parvo pela paparoca.
Já que me deixaram à seca, vou tentar dormir um pouco. Talvez
a enfermeira Filomena se mostre mais simpática que o Pedro.
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