Os meus pés estão junto dos teus. Que felizes foram os meus pés. Dormiam dedos com dedos, entrelaçados em carinhos miúdos. O que aconteceu aos nossos pés para ficarem de calcanhares voltados, dormindo cada um para seu lado, caminhando cada um na sua direção? Aconteceu o que acontece a todos os pés que deixam de partilhar o mesmo caminho. Mais dia, menos dia, acabam por ficar tão afastados que não se conseguem ouvir. Nunca voltei a ter, junto dos meus, uns pés como os teus. Os meus pés estão junto dos teus: é esse o seu sonho, o seu desejo. Se o sonho não se concretiza, a culpa não é deles. Mais acima, a parte racional do corpo decidiu de outra forma. Cada cabeça por si, sem olhar a meios, afastou estes pés que tanto se amaram.
Estou feliz. O André voltou para a minha beira. O quarto
encheu-se de sol. Terá sido a sua presença? Seja qual for a razão, sinto-me
menos morto, mais presente. Não falo e não me mexo, mas estou em paz, e isso é
quanto me basta. Já só me alimentam pelas veias. Por lá entra tudo o que
necessito para continuar vivo.
Sei que a decisão foi dos dois, mas não partilhámos a
verdadeira razão. Pelo menos foi isso que aconteceu comigo. Quero acreditar que
o motivo foi semelhante, mas nunca poderei ter a certeza. Hoje, o tempo é
escasso para confissões tardias, e de convicções está o mundo cheio. Recordo a
minha, para ficar registada a minha confissão, o meu propósito egoísta. Pode
ser que sirva de atenuante quando estiver na presença do tribunal divino. Sim,
Sr. Doutor Juiz, sua meritíssima excelência, agora em minúsculas, para não
abusar, eu admito que o fiz sem amor, apenas com o objetivo de salvar a minha
relação com a Cecília. Não, meritíssimo, agora com letra maiúscula, para
amansar a sua ira, o meu casamento não foi católico. Posso mesmo afirmar que
não teve nada de católico. Mas o que poderia ser católico numa relação repleta
de imponderáveis e construída sobre compromissos improváveis? Se rimou, a culpa
não é minha, mas dos termos do nosso contrato, que nos permitia desacordos sem
necessidade de compromissos. Posso afirmar que fomos de desacordo em desacordo
até ao desacordo final. E foi isso mesmo o que aconteceu: eu, perdido na
revolta, e ela, farta de mim. Como podia eu assumir a paternidade sempre fora
de casa, e com tantas tentações? Eu sei que a carne é fraca, mas a cabeça
poderia ter compensado essa fraqueza. Tudo começou num plenário na fábrica. Eu
já era delegado sindical, mas foi aí que aceitei o desafio. O cargo de
dirigente sindical era muito mais exigente e obrigava a um altruísmo ao qual eu
não estava habituado. Bem diz a sabedoria popular que uma coisa é falar, e
outra é fazer. Se tive boas intenções, disso não tive dúvidas. Entreguei o
corpo e a alma à função, também por orgulho, com medo de me mostrar incapaz de
desempenhar a tarefa, de desiludir quem tinha apostado em mim. É aqui que entra
em cena uma mulher roliça, de olhos verde-esmeralda. Ela trabalhava no
secretariado do sindicato, mas também fazia parte dos quadros do partido. Tinha
estado na preparação daquele célebre plenário, e fora ela que me recrutara para
dirigente. Não será necessário somar dois mais dois para chegar ao número
quatro, e quatro foi demais. André, tenho pena de que não me consiga ouvir.
Gostava de saber o que você teria feito se tivesse conhecido uma mulher como a
Maria do Carmo. Entreguei-me, totalmente seduzido. Tudo nela me seduzia, mas o
que mais me atraía era o seu carisma. Aos quarenta anos de idade, era
totalmente independente. Foi mãe solteira aos quinze anos, começou a trabalhar
na fábrica aos dezasseis, e aos dezoito já militava no partido. Daí para a
estrutura do partido foi um pulinho. Manteve-se ligada ao movimento sindical,
onde ganhou fama pela sua capacidade de mobilização das forças trabalhadoras.
Os homens não se serviam dela; era ela que se servia deles. Foi também esse o
meu caso. Escusado será dizer que, da frustração ao álcool, não demorou mais de
um ano. Entretanto, a Cecília cuidava do miúdo sozinha. Se alguma razão havia
para o nascimento daquela criança, no que dizia respeito à minha pessoa, ela
tinha perdido a validade. Tudo o que me aconteceu depois foi inteiramente
merecido. Hoje, olho para o passado e percebo porque me quis castigar, mas
percebo também que castiguei o meu filho. Para tapar um buraco, abri outro
ainda maior. André, se você me pudesse compreender, dar-me uma palmadinha nas
costas como prova da sua solidariedade, olhar-me nos olhos e dizer qualquer
frase que me ajudasse a conciliar-me com o passado... O André já não me está a
ouvir. Quando estamos bem, o tempo voa, mesmo quando o bem é relativo.
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