Tenho os pés para a cova, mas nem sempre os tive nessa direção. Também é verdade que houve alturas em que não estiveram assentes no chão, mas a culpa não foi deles, a cabeça é que andava no ar. Seja como for, acabaram por ser eles a levarem-me ao altar. E tão elegantes que eles iam. Um pouco apertados, mas elegantes. Nessa noite acabaram a dançar sozinhos. Eu devo ter deixado de os sentir após não sei quantos balões de brandy. De manhã percebi que não os tinha abandonado. Estou a ser injusto, foram eles que não se esqueceram de mim e me deitaram na cama. Traí a Cecília logo na primeira noite, e com uma garrafa de brandy. Os meus pés perdoaram-me, mas a Cecília não foi capaz de esquecer.
Olho para o quarto e vejo-me deitado. Por cima do mundo,
observo o meu corpo doente. Quanto tempo lhe resta? Um dia destes, abalo de vez
e abandono-o à sua sorte. Não sei qual será o seu destino. Não deixei nada
preparado e o dinheiro que tenho no banco mal chega para as despesas. Quem se
irá preocupar com o destino do invólucro biológico de um homem solitário? Será
que vão chatear o meu filho? Deus queira que não. Talvez o Estado trate de tudo
e me conceda um funeral com suficiente dignidade para poder afirmar que não
deixa ao abandono nenhum dos seus cidadãos. Uma vala comum com vista para o
mar, não vá o diabo tecê-las, e os olhos saírem das órbitas e voltarem à
superfície para um último olhar. Seria algo digno de ser visto.
Continuo a ver o meu corpo, mas já não está sozinho. Ao seu
lado está o corpo de Cecília. Tão novos os dois, navegando em lençóis de paixão
carnal. Acabaram de fazer sexo e estão ambos ofegantes. Reconheço o T1 para
onde fomos viver juntos em meados dos anos noventa. A renda levava um terço do
nosso rendimento e o resto das despesas não nos deixava folga para grandes
avarias. O país andava eufórico com o dinheiro da Europa e os portugueses
sentiam-se uns centímetros mais altos. O que é certo é que o dinheiro chegava
às pessoas certas para manter uma maioria. Embora não tenha sido contemplado
com uma teta gorda, este foi o período mais feliz da minha vida. Amava e
sentia-me amado como nunca me tinha acontecido antes. Já não sonhava com bandas
de rock, mas o meu gosto pela música manteve-se. Continuei a tocar a minha
guitarra acústica, uma Maison de cordas de nylon, e a ouvir muita música. Os
CDs surgiram por esta altura, mas o preço era proibitivo para a minha bolsa.
Isto, já para não falar dos leitores de CDs. Mas a minha Cecília tudo
compensava, o amor e uma cabana, algo em que eu não acreditava. Quanto tempo
durou o paraíso na Terra? Julgo que até ao começo do século XXI. A eternidade
tem pernas curtas e a minha felicidade também. Não foram necessárias maçãs,
serpentes, ou árvores, bastou o quotidiano sem expectativas para corroer as
fundações da nossa relação. É sempre assim, quando nos esquecemos dos trabalhos
de manutenção, não há edifício que aguente. Esta foi a primeira e a última
relação estável que construí. Mas tenho de ser justo, mesmo com um final
infeliz, houve algo que prevaleceu e nos manteve em contacto. O nosso filho
nasceu já no final da nossa relação e cresceu com a culpa da nossa separação.
Esse estigma acompanhou-o até deixar de me falar. Tenho na minha ideia que
deixou de me querer ver quando entendeu, finalmente, que a culpa que carregou
durante tantos anos não era sua. Seja como for, nunca deixei de o amar. Posso
até afirmar que é graças a ele que estou vivo, pelo menos por enquanto.
Voltei ao meu corpo. Estou novamente imóvel, novamente refém de tubos e de máquinas. O enfermeiro Fernando dorme. Consigo antecipar a sua respiração por debaixo do uniforme branco. Por brincadeira, procuro sintonizar a minha respiração com a dele. É assim que chega a manhã, eu dormindo e o Fernando a passar o turno. O André voltou.
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