Pelo meio ficaram os sapatos de biqueira de aço. O frio das ferramentas que manipulei também me marcou. As mãos ganharam calos rijos de homem feito operário. Os sapatos apertados também provocaram estragos nos pés. À noite, quando os libertava, sentia a sua alegria e a sua satisfação. Por mais que os massacrasse, os meus pés aguentavam tudo, desde o trabalho até ao divertimento. Chegavam a aguentar 48 horas sem dormir, sem…. Tenho saudades desses pés, da sua resiliência, da sua juventude, da sua boa disposição. Nunca mais serão os mesmos, eu sei, mas nem por isso fico mais satisfeito. A idade deixou-lhes um gosto amargo. Da juventude desses pés, guardo sensações que nunca mais senti, guardo também emoções que ficaram marcadas para sempre na minha consciência, seja lá ela o que for. Foi com eles que tive contato com a morte, com a perda e com o sofrimento por ela provocado. Foi com eles que eu caminhei até ao cemitério e foi em cima deles que derramei lágrimas inconsoláveis, como se estas pudessem ser de outra forma. Foi com eles que eu carreguei o sofrimento por mais de dois anos até ficarem em sangue. Nunca foram tão maltratados e eu nunca devi tanto a uma parte do meu corpo... Gostava de lhes ter passado um cremezito, mergulhá-los em água quente, algo que os reconfortasse e lhes desse vigor, mas nunca lhes dei essa satisfação. Se um dia os levar para a cova, tenho a certeza que irão descansados, pois livrar-se-ão do meu peso. Resta-me essa consolação, já que mais não posso fazer.
Volta a confusão. As manhãs perturbam-me, não me deixam
pensar, pelo menos como eu gostava. A sala está cheia de batas brancas, umas
mais importantes que outras. Que estou eu para aqui a dizer, como se não fossem
todas importantes. Sei que umas vestem médicos e outras enfermeiros e que de
todos eu preciso. A maior parte das batas estão de volta do rapaz que entrou e
que não para de gemer, agora que os sedativos começam a perder o seu efeito. O
André, a única bata da qual conheço o nome, já se virou para mim duas vezes,
mas não teve coragem de se aproximar. Possivelmente uma das batas que está com
ele cobrar-lhe-ia esse abandono, deserção injustificada perante as leis da
medicina. Sendo assim fecho os olhos novamente e procuro na minha memória
vestígios da minha ex-mulher. Quando a conheci, estava convencido de que seria
um amor eterno, talvez porque tivesse sido uma paixão à primeira vista, pelo
menos é assim que eu a relembro. Não tinha o hábito de me meter com mulheres
que não conhecia, nem mesmo quando bebia, mas naquela noite, com a cabeça cheia
de mortes, eu não era o mesmo. Tinha uma sensação de urgência, como se a
solidão fosse um veneno, um ácido que iria corroer a minha alma até ao seu
desaparecimento. Entrei sozinho no bar, pensando em abandonar tudo, quem sabe
ir ter com o João que por esta altura, segundo informações de um amigo comum, encontrava-se
a trabalhar na Venezuela. A ideia de
partir agradava-me sobremaneira, insinuava-se no meu espírito mostrando-me
caminhos que eu imaginava redentores. As luzes do bar, no entanto, destruíam a
magia dos meus pensamentos e obrigavam-me a retornar a uma realidade que eu
ainda não estava disposto a aceitar. Sim, foi esse o estado de espírito, o
enquadramento racional sobre o qual a visão da minha ex-mulher se impôs. Peço
desculpa por este mau hábito. Esta história de classificar seres humanos com
sentimento de posse não faz sentido, muito menos quando me refiro a alguém como
‘’ex’’. Correção feita, aproveito o momento para dar um nome à mulher por quem
me apaixonei nesse período turbulento da minha vida. De nome Cecília, era uma
mulher alta, ligeiramente mais alta que eu, magra, cabelos negros até meio das
costas, nariz aquilino, maçãs do rosto salientes, olhos escuros de um negro misterioso.
Os seios eram pequenos e no geral não era uma mulher que sobressaísse pela opulência
do seu corpo. Sentada ao balcão bebia tranquilamente um cocktail de cor
avermelhada. Sentei-me ao pé dela por pura atração, uma atração semelhante àquela
que uma traça sente por uma luz. No meio daquele ambiente anónimo ela surgia
como uma estrela a guiar o meu caminho. Sim, André, estou a soar um pouco
lamechas, descrevendo lugares-comuns, coisas sem sabor. Mas, sabe André, a vida
é um acumular de lugares-comuns, apenas as narrativas lhes dão importância e
cor. Vamos esquecer a estrela e a luz. Debrucemo-nos então sobre o ambiente
escuro e pesado do bar. As luzes perdiam-se na bola de espelhos, e na pista de
dança improvisada, onde uma névoa de suor e fumo de tabaco criava um ambiente
artificial, muito próximo da descrição de um pântano num livro de Sir Arthur Conan
Doyle. Quantas vezes olhei para ela até que ela desse por mim? Não sei
responder. Talvez ela tivesse olhado para mim mais cedo, num momento em que me
perdia observando as garrafas de bebidas alcoólicas alinhadas nas prateleiras
por detrás do barman. Sim, talvez tivesse olhado mais cedo, mas não o
posso afirmar. O que posso afirmar é que o nosso olhar se cruzou e que assim
nos mantivemos durante alguns segundos. Quem desbloqueou o momento fui eu, com
uma frase sem jeito, que ela teimou em me recordar mais tarde, «não achas que a
música está muito alta? Assim nem se consegue conversar». A resposta de Cecília
foi lapidar «Quem é que te disse que eu estou aqui para conversar?» e voltou a
sua atenção para o lado oposto. Não sei a razão por que não desisti, talvez
fosse o medo da solidão, o pânico de ficar sozinho nessa noite. Deixei que o
momento de tensão desanuviasse. Disse a mim próprio, ou pelo menos disso me
convenci, que se ela não se levantasse haveria outra hipótese de voltar a meter
conversa. Cecília voltou novamente a olhar para mim, e quando o fez perguntou,
«Ainda estás aí?». Desta vez não me acanhei e respondi-lhe «Sim, ainda aqui
estou. Esperava apenas uma palavra simpática da tua parte, para salvar o meu
dia». Espantada pelo meu atrevimento, Cecília manteve-se em silencio, olhando-me
com os seus olhos negros e perscrutando a minha alma. Por momentos senti-me nu,
como se todos os meus pensamentos tivessem sido revelados. E que pensamentos
tinha eu? Pouco mais que nada, solidão e vazio, tristeza e amargura. Receei que
tudo isso tivesse sido apercebido por aquela mulher e apressei-me a
oferecer-lhe uma bebida, convidando-a a sentar-se numa mesa junto á pista de
dança. Não sei quais foram as palavras exatas, o que é certo é que Cecília
aceitou o convite. Não, André, não acabei a noite na cama com Cecília, nem era
esse o meu objetivo. Queria apenas a companhia daquela mulher que se me
apresentava tão agradável. Saímos quando o bar fechou e levei-a a casa de táxi.
Foi ela que se predispôs a deixar-me um número de telefone, dizendo-me que se o
marcasse poderíamos, eventualmente, voltar a encontrar-nos. Só no dia seguinte
percebi que me encontrava irremediavelmente apaixonado.
Falo sozinho. André há muito que
abandonou a minha cama. Olho para os meus braços e constato que os pensos foram
mudados sem que eu desse por isso. Tenho um sabor amargo na boca, um sabor que
eu identifico com alguns medicamentos que eu tomava na minha infância. Tento
levar a minha mão direita ao peito, mas sem sucesso. Ao fim de alguns minutos e
após diversas tentativas frustradas, decido chamar por André. O som que sai
pela minha boca não se assemelha a nenhuma palavra, mas sim a um gemido de um
animal ferido. Tomo consciência do meu estado. Quantas vezes terá o meu coração
falhado? O que sobrará de mim?
O André chega-se à cama de Jorge. Eu,
que sou o narrador, posso revelar que Jorge declama um dos seus poemas sem que
isso seja audível.
«O meu sentido mais apurado é a audição,
por isso consigo ouvir um choro nas frequências mais baixas,
mesmo quando ele se propaga em Infrassons.
Já ouvi chorar em lugares distantes,
e senti a tristeza apenas porque escutei uma lágrima a cair.
Tudo se desvanece quando abro os olhos.
O meu superpoder não suporta a luz.
O mecanismo que regula as minhas emoções é sensível à corrosão,
e a luz corrói lentamente.»
Jorge adormeceu. Leva consigo a lembrança de Cecília e do seu
segundo encontro. Nele, pela primeira vez pegou na mão de Cecília. Quando o fez
sentiu estremecer todo o seu corpo. Aquela mão tão frágil, dedos longos de
pianista onde se sentiam todos os ossos, fazia-lhe lembrar o quão efémera é a
vida. Talvez tenha pensado na morte, talvez a tenha visto num vislumbre, mas
nada disto é certo e não me cabe a mim, narrador, desvendar coisas que não sei.
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