A história deixou de ser nossa. O Jorge já não precisa dos serviços de dois humildes trabalhadores que carregaram consigo uma vida inteira. Olhamos para ele com saudades precoces. O Jorge ainda é, mas já tomou uma decisão. Não houve despedidas com abraços e beijos, nem apertos de mão prometendo futuros encontros. Abalou sem olhar para trás, de mãos dadas com outra vida.
Tenho uma mala na mão direita. Sei que está vazia. Não tenho
nada para levar. É um adereço para aquilo que sou ir mais composto. O André
deu-me um abraço quando chegou, e só depois cumprimentou a Filomena:
— Olá, avó!
— Olá, André!
Tudo simples e familiar. Se houve um
sorriso cúmplice, ele foi dissimulado. O André pegou-me na mão livre e
convidou-me a sair do quarto. Deixei-me levar até à porta. Virei-me e passei os
olhos pelo quarto. Estava escuro e encontrava-se vazio. Não me surpreendeu
vê-lo assim. Sorri e voltei-me para o André. Ele devolveu-me o sorriso e disse
qualquer coisa que eu não entendi.
É noite, mas os corredores
encontram-se fortemente iluminados. Está tudo silencioso e não se vê ninguém.
Caminhamos de mão dada até chegarmos à porta do elevador. A porta abre-se e as
luzes acendem-se. Atrás de nós, os corredores escurecem. O elevador inicia o
seu movimento, mas não consigo perceber se sobe ou se desce. Instintivamente,
dirijo o olhar para os números digitais que indicam o piso, procurando
informação que não me será útil. De qualquer maneira, o meu olhar não consegue
descodificar o que vê. O elevador imobiliza-se e a porta abre-se. Junto a mim,
o André espera pela minha decisão. À minha frente, tudo perdeu dimensão e a
luminosidade é indefinida. Também eu perco dimensão, e o que de mim sobra
deixa-se levar. Nunca me senti tão bem.
Em casa do Sr. Jorge, encontra-se uma
sebenta aberta. Repousa na mesa da cozinha. Junto dela, a caneta que escreveu
um último poema…
Quando me entrego à cegueira,
vou aonde as minhas mãos não podem ir.
Consigo ouvir as palavras despidas do seu significado,
e, por não pensar,
viajo nos seus ritmos e melodias.
Dessas viagens trago a liberdade do que senti,
e, do que senti,
a liberdade de nada ter visto.
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