Não tenho como saber se eles voltarão a andar. Gostava de os confortar com palavras de incentivo. Olharia para eles, olheiras nos calos, e debitaria parágrafos repletos de lugares-comuns disfarçados de originalidade e inteligência. E eles, do alto das suas micoses, ficariam de dedos à banda com o meu saber das coisas do mundo. Veriam refletido nas minhas ramelas um charme de reputada dimensão. Isto, porque quem ama é cego a pequenas nódoas de personalidade.
Não temos
essa cegueira de que falas. Conhecemos-te todas as nódoas, todas as
imperfeições de carácter que nos fizeram dar passos inúteis. Repara como fomos
gentis. Poderíamos ter referido os caminhos errados que nos obrigaste a
percorrer. Mesmo estando sós, tu numa ponta e nós na outra, não há de ser a
distância que nos vai separar. Sempre ouvimos dizer que os extremos se tocam.
Tu, do alto, e nós, cá em baixo, na prática queremos a mesma coisa. Não é por
comeres carne e nós o pó que tens mais valor. Esquece lá isso da cegueira por
amor. Se não precisássemos de ti, já tínhamos descalçado esta bota há mais
tempo. Mas não penses que ficas melhor sem nós.
Pois é, Pedro. Às vezes andamos uma vida toda enganados só
porque não queremos ver. Peço desculpa se estou a incomodar. Pelo que vejo,
continua de greve. Esse autocolante ao peito não engana. Quer que lhe conte uma
história engraçada? É sobre a greve de 98, aquela greve que todas as pessoas
julgavam impossível. Quer que eu não me mexa? Mas, ó Pedro, eu já não consigo
mexer nada! Mais quieto do que isto, só depois de morto, e mesmo assim não sei.
Olhe que há por aí mortos muito irrequietos. Basta ver as notícias para
confirmar a sua teimosia. Há aqueles que morrem no hospital e fogem da urna só
para apoquentar familiares pesarosos e direções incompetentes. Também há
aqueles que morrem na guerra e depois se escondem em valas comuns para
aborrecer os zelosos funcionários da guerra. Há aqueles outros que toda a gente
sabe que morreram, mas que se mantêm desaparecidos. Esses lembram-me alguns
miúdos lá da rua que continuavam escondidos, mesmo depois de o jogo acabar.
Você não imagina a raiva que isso me dava. Com o tempo contado até à berraria
do jantar, e eles enfiados sabe-se lá aonde. Existem mortos aos quais se perdoa
a teimosia. Como pedir ao cadáver de uma criança soterrada em Gaza para acudir
aos apelos dos pais, até porque também podem estar mortos? Mal é arrebanharem
esses corpos infantis e fazerem de uma vala algo banal e comum. Estou a ser
inconveniente? Não? Ainda bem. Sabe, Pedro, é que, depois de perder a voz,
tornei-me um fala-barato. Afinal, sempre quer ouvir a história da minha greve?
Foi a primeira como delegado sindical. Isto não há amor como o primeiro. As
primeiras reuniões, os primeiros plenários do lado de lá, os primeiros
confrontos com a administração, a adrenalina da desobediência, que, mesmo
legal, era sujeita a pressões e ameaças. Sim, Pedro, mas isto sempre teve
consequências. Só depois da greve é que as sentíamos, mas fazia tudo parte do
jogo. A vida não passa de um enorme jogo coletivo onde cada um de nós decide o
que há de apostar. Nem sempre se aposta dinheiro e nem sempre se ganha dinheiro.
Às vezes ganha-se vida; outras vezes perde-se parte dela. O mais importante é
não a perder toda. É verdade que nem sempre estamos dispostos a correr riscos,
mas o sentimento de injustiça pode ser avassalador, e a necessidade de deitar
cá para fora tudo o que engolimos pode levar-nos a pôr as fichas todas na mesa.
Acho que foi isso que me levou à subcomissão de trabalhadores e, depois, ao
sindicato. O partido veio no fim, e foi por sua causa que acabei por largar
tudo. Você deve estar a pensar: porque não vai este indivíduo diretamente ao
assunto? Eu prometo que não vou mais engonhar. A partir de agora vai tudo de
seguida. Passei duas semanas que mal fui a casa. Saía do trabalho e ficava por
lá a reunir nos setores com os trabalhadores. Quando chegou o dia da greve, fiz
parte do piquete durante três dias. Íamos à vez dormir um pouco na sala da
subcomissão, onde havia duas cadeiras e uma mesa. Eu, como não era muito
grande, encolhia-me e dormia em cima da mesa. O meu camarada Rui, sei que
dormia no chão. Não vou entrar em pormenores e vou direto ao ponto que
interessa: a greve foi um sucesso e quebrou um longo jejum de lutas
inconsequentes. Com esta adesão, levaríamos outros argumentos à mesa das
negociações. No último dia, cansados, sem tomar banho, mas eufóricos por tudo o
que acontecera nesses três dias, fomos almoçar a uma churrasqueira que havia na
zona industrial. Era uma casa com preços para a malta que trabalhava na
ferrugem, de longos bancos corridos, de madeira gasta, e mesas sempre cheias. Nesse
dia, para não variar, a casa estava a abarrotar e quase não ouvíamos o que cada
um dizia. Pedimos jarros de tinto, febras grelhadas com batata frita e, para
entrada, uns queijos secos, pão e azeitonas. A meio da refeição, deixei de
ouvir o Rui, que estava ao meu lado. Quando olhei para ele, não queria
acreditar no que via. O Rui dormia abraçado ao prato, com a cara encostada às
febras, que lhe serviam de almofada. Quando chamei a malta à atenção, todos
desatámos a rir. Com a galhofa, o Rui acabou por acordar. Olhou, estremunhado,
para nós, resmungou meia dúzia de palavras que ninguém percebeu e continuou a
comer como se não fosse nada com ele. O mais engraçado é que nem a cara limpou,
e o molho das febras escorria-lhe pela face e ameaçava pingar pelo queixo. Está
a entender, Pedro? Era muito mais do que a luta. O verdadeiro combustível que
nos alimentava nesses dias era a camaradagem e a solidariedade, a certeza de um
ombro ao nosso lado que não nos deixaria vacilar. Pedro, você já sentiu essa
força? Estou a incomodar, não é? Vou deixá-lo sossegado. Agora que já posso
comer pela minha mão, vou aproveitar esta sopinha enquanto ainda está quente.
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