Será que os meus pés souberam o que era calçado? Estiveram calçados, disso não tenho dúvidas, mas se sentiram conforto e proteção, essa é outra história. Sim, os pés contam sempre outra história. Como podia ser de outra maneira, se encaram a vida sob o peso de um corpo que nem sempre os respeita? Qual será a melhor versão, aquela que tem os pés assentes no chão e que conhece o sabor da terra, ou aquela que os olhos contam em direção aos céus? Cada qual terá o seu valor. Os meus pés finalmente têm descanso e são lavados por mãos carinhosas e que sabem o que fazem. Pés que são pés dignos desse nome nunca devem deixar de andar. Enquanto houver uma unha para cortar e um calo para tratar, eles devem caminhar sem vacilar. Se alguém fez o homem à sua imagem e lhe colocou nas extremidades inferiores uns pés, alguma razão teria.
Não reconheço este uniforme. Não me parece a jovem que me
ajuda a adormecer. No entanto, ela olha-me com compaixão. Eu não gosto que me
olhem com compaixão, é um olhar que me sabe a morte. Que digo eu? Isto é o
orgulho a falar, de certeza que é, mesmo moribundo ainda sou eu, necessitado,
mas sem favores, coitadinhos murmurados sem escrúpulos nem cuidado. Atenção,
ela aproxima-se. Devo fingir que estava a dormir, ou mantenho os olhos abertos,
pregados no teto do quarto? Agora já não vale a pena, ela já olhou para mim.
Está acordado, Sr. Jorge? Não vê que estou, minha querida
menina? Porque acha você que eu tenho os olhos abertos? Posso ter dificuldade
em falar, mas os olhos ainda conseguem ver. Não precisa de responder, Sr.
Jorge. O meu nome é Filomena e hoje o turno da tarde é meu. Quero saber dos
meus olhos verdes, os olhos da Isabel. Não tive coragem para perguntar.
Desculpei-me dizendo a mim próprio que seria deselegante e pouco simpático se o
fizesse. Recordo uma festa de aniversário em casa do Rui. Já tínhamos partido o
bolo e estávamos todos na sala a dançar músicas lentas, em pares muito
agarradinhos. Eu estava de fora e esperava por uma oportunidade. Enquanto
esperava, olhava para a Maria Júlia e sonhava. Bastava esperar que a música
acabasse e intrometer-me entre o João e ela. Era tão simples, mas não
aconteceu. A música acabou e eu, de tanto esperar, perdi a oportunidade para o
Zé. Acabou por ser a Maria José a puxar-me para um “Yesterday” que já tinha
começado. A Maria José já tinha corpo de mulher e os rapazes mais velhos, e com
as hormonas mais irrequietas, esqueciam a fealdade da rapariga em troca do
prazer que os fazia endurecer. Mas eu era um romântico e não apreciei a
oportunidade. Sempre deixei passar comboios à espera de um que estivesse vazio.
Isto é coisa de quem usava os transportes públicos à hora de ponta. Aqui não
temos esse problema, até porque aqui os transportes públicos são tão raros que
o problema é outro. Isto tudo para lhe dizer que sempre fui um cobarde no que
diz respeito a revelar os meus sentimentos ao sexo oposto. Mas eu acho que já
tive esta conversa consigo, Isabel. Estou a ficar confuso. Não é o meu anjo que
está ao pé de mim. Os olhos são escuros e maduros, de uma colheita antiga, de
finais de oitenta. Chama-se Filomena e ainda não me conhece para além da
doença. O meu coração está fraco e não me permitem visitas, mas eu estou
desconfiado de que é tudo mentira, uma mentira piedosa. Eu quase que jurava que
já vi gente ao pé dos meus companheiros de quarto. E, quando me refiro a gente,
estou a falar de pessoas sem uniforme. Sem batas, sejam elas grandes ou
pequenas, brancas ou cinzentas, de médicos, enfermeiros ou auxiliares. Alguém
me disse que, quando eu melhorar, vou mudar de quarto e aí sim vou poder ter a
visita de familiares e amigos. Familiares e amigos… talvez a minha vizinha me
venha visitar, ela que tem sido o único ser humano a preocupar-se comigo. O
único que eu deixei aproximar-se nestes últimos anos.
Onde está o meu anjo? Onde estou? Já morri? Saiam de cima de
mim, por amor de Deus, estão a apertar-me o peito. Colocam-me uma máscara que
me tapa a boca e o nariz, enquanto apertam uma espécie de balão. Sinto que me
vou embora e deixo de ter dores ou falta de ar. É agora? Porque é que ninguém
me responde? É assim, deixam-me ir embora sem uma palavra de despedida, de
conforto? Está bem, eu vou! Viro as costas a tudo e piro-me daqui. Tchau, boa
noite e um queijo da serra. Parto em direção ao pôr do sol montado numa
serpente de vento. Levo na mão as sagradas escrituras, as leis do universo,
para atestar da minha fé. Carrego comigo uma mochila com todas as pedras que
fui encontrando pelo caminho. Quando as verter aos vossos pés, poderão ajuizar
das minhas escolhas. Estou pronto para concretizar o que não pode ser evitado!
Estou pronto…
O quarto encontra-se escuro e silencioso. Apenas os equipamentos
médicos apresentam sinais de vida. O uniforme branco mudou novamente de pessoa.
A bata do uniforme tem um nome, Fernando.
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