2026-06-05

A Vida e a Morte do Sr. Jorge - nono acto; Filomena

 Será que os meus pés souberam o que era calçado? Estiveram calçados, disso não tenho dúvidas, mas se sentiram conforto e proteção, essa é outra história. Sim, os pés contam sempre outra história. Como podia ser de outra maneira, se encaram a vida sob o peso de um corpo que nem sempre os respeita? Qual será a melhor versão, aquela que tem os pés assentes no chão e que conhece o sabor da terra, ou aquela que os olhos contam em direção aos céus? Cada qual terá o seu valor. Os meus pés finalmente têm descanso e são lavados por mãos carinhosas e que sabem o que fazem. Pés que são pés dignos desse nome nunca devem deixar de andar. Enquanto houver uma unha para cortar e um calo para tratar, eles devem caminhar sem vacilar. Se alguém fez o homem à sua imagem e lhe colocou nas extremidades inferiores uns pés, alguma razão teria.

 

Não reconheço este uniforme. Não me parece a jovem que me ajuda a adormecer. No entanto, ela olha-me com compaixão. Eu não gosto que me olhem com compaixão, é um olhar que me sabe a morte. Que digo eu? Isto é o orgulho a falar, de certeza que é, mesmo moribundo ainda sou eu, necessitado, mas sem favores, coitadinhos murmurados sem escrúpulos nem cuidado. Atenção, ela aproxima-se. Devo fingir que estava a dormir, ou mantenho os olhos abertos, pregados no teto do quarto? Agora já não vale a pena, ela já olhou para mim.

Está acordado, Sr. Jorge? Não vê que estou, minha querida menina? Porque acha você que eu tenho os olhos abertos? Posso ter dificuldade em falar, mas os olhos ainda conseguem ver. Não precisa de responder, Sr. Jorge. O meu nome é Filomena e hoje o turno da tarde é meu. Quero saber dos meus olhos verdes, os olhos da Isabel. Não tive coragem para perguntar. Desculpei-me dizendo a mim próprio que seria deselegante e pouco simpático se o fizesse. Recordo uma festa de aniversário em casa do Rui. Já tínhamos partido o bolo e estávamos todos na sala a dançar músicas lentas, em pares muito agarradinhos. Eu estava de fora e esperava por uma oportunidade. Enquanto esperava, olhava para a Maria Júlia e sonhava. Bastava esperar que a música acabasse e intrometer-me entre o João e ela. Era tão simples, mas não aconteceu. A música acabou e eu, de tanto esperar, perdi a oportunidade para o Zé. Acabou por ser a Maria José a puxar-me para um “Yesterday” que já tinha começado. A Maria José já tinha corpo de mulher e os rapazes mais velhos, e com as hormonas mais irrequietas, esqueciam a fealdade da rapariga em troca do prazer que os fazia endurecer. Mas eu era um romântico e não apreciei a oportunidade. Sempre deixei passar comboios à espera de um que estivesse vazio. Isto é coisa de quem usava os transportes públicos à hora de ponta. Aqui não temos esse problema, até porque aqui os transportes públicos são tão raros que o problema é outro. Isto tudo para lhe dizer que sempre fui um cobarde no que diz respeito a revelar os meus sentimentos ao sexo oposto. Mas eu acho que já tive esta conversa consigo, Isabel. Estou a ficar confuso. Não é o meu anjo que está ao pé de mim. Os olhos são escuros e maduros, de uma colheita antiga, de finais de oitenta. Chama-se Filomena e ainda não me conhece para além da doença. O meu coração está fraco e não me permitem visitas, mas eu estou desconfiado de que é tudo mentira, uma mentira piedosa. Eu quase que jurava que já vi gente ao pé dos meus companheiros de quarto. E, quando me refiro a gente, estou a falar de pessoas sem uniforme. Sem batas, sejam elas grandes ou pequenas, brancas ou cinzentas, de médicos, enfermeiros ou auxiliares. Alguém me disse que, quando eu melhorar, vou mudar de quarto e aí sim vou poder ter a visita de familiares e amigos. Familiares e amigos… talvez a minha vizinha me venha visitar, ela que tem sido o único ser humano a preocupar-se comigo. O único que eu deixei aproximar-se nestes últimos anos.

 

Onde está o meu anjo? Onde estou? Já morri? Saiam de cima de mim, por amor de Deus, estão a apertar-me o peito. Colocam-me uma máscara que me tapa a boca e o nariz, enquanto apertam uma espécie de balão. Sinto que me vou embora e deixo de ter dores ou falta de ar. É agora? Porque é que ninguém me responde? É assim, deixam-me ir embora sem uma palavra de despedida, de conforto? Está bem, eu vou! Viro as costas a tudo e piro-me daqui. Tchau, boa noite e um queijo da serra. Parto em direção ao pôr do sol montado numa serpente de vento. Levo na mão as sagradas escrituras, as leis do universo, para atestar da minha fé. Carrego comigo uma mochila com todas as pedras que fui encontrando pelo caminho. Quando as verter aos vossos pés, poderão ajuizar das minhas escolhas. Estou pronto para concretizar o que não pode ser evitado! Estou pronto…

 

O quarto encontra-se escuro e silencioso. Apenas os equipamentos médicos apresentam sinais de vida. O uniforme branco mudou novamente de pessoa. A bata do uniforme tem um nome, Fernando.

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