2026-06-21

A Vida e a Morte do Sr. Jorge - décimo oitavo acto; Filomena

Não sentimos as pernas. As mãos, que ainda há pouco estavam presas, rodopiam no ar simulando um estranho bailado enquanto cantam:

 

Uma à frente e outra atrás,

como faz quem precisa.

Uma levanta-se e avisa

que quem vem, não traz.

 

Mas quem tem, não precisa,

se o mundo lhes pertence;

podem despir a camisa,

podem fingir-se indigentes.

 

Vamos abrir o punho e fingir,

que o mundo não é nosso;

que o deixámos cair,

só por sentir remorsos

 

Nós sabemos dançar, mas nunca aprendemos a escrever. Isso é coisa de mãos que foram à escola. Nós também por lá fizemos vida, que elas sem nós não iam. A carteira sempre nos separou, elas em cima, escrevendo e folheando, e nós, em baixo, ansiando pelo intervalo. Mas isto não é tempo de recordar diferenças, até porque, se olharmos bem para a nossa relação, momentos houve, de grande intimidade.  

 

A casa perdeu a graça. Eu perdi a graça. A minha vida perdeu a graça. Pensei muito na Cecília, nos primeiros anos da nossa relação, e no nosso filho. Ela escreveu-me quando o miúdo acabou o curso de enfermagem. Junto com a carta vinha uma fotografia. Nela, um rapaz bem-apessoado exibia um sorriso imaculado. Trazia vestida a farda de um hospital da capital. Junto dele, uma colega olhava-o de viés. Nos seus olhos percebia-se que o rapaz não lhe era indiferente. O meu filho tinha os olhos da mãe, e a expressão também, mas as restantes feições eram minhas: os lábios carnudos numa boca bem desenhada, o queixo com uma covinha, as faces coradas, um nariz um pouco largo e uma testa proporcional que revelava emoções quando ele a franzia. O cabelo era castanho-escuro e cortado a preceito. Não tinha falta de cabelo, e a orelha esquerda ostentava uma pequena argola prateada. Ainda hoje tenho essa fotografia numa moldura, na cabeceira da cama. Sonhei muitas vezes com ele. Talvez fosse para compensar a ausência de pensamentos quando estava acordado. Sempre pensei em visitar o rapaz quando regressasse a Portugal. Sei que casou e que comprou um apartamento com o dinheiro que tínhamos na conta conjunta. Mais tarde, também fiquei a saber que a rapariga da fotografia engravidou. De tudo isso eu sei, porque a Cecília o escreveu numa carta. As cartas que ele enviou são anteriores a ter terminado o curso. Por essa altura, a Cecília decidiu contar a verdade sobre a nossa separação. Nunca pensei que ela aguentasse tanto tempo.

Filomena, já lhe tinha dito que a minha mãe também foi enfermeira? Fez pelos outros o que não fizeram por ela. Não ligue, Filomena, isto é a mágoa a falar. O meu avô materno também morreu num hospital. O outro finou-se no trabalho, que é um lugar digno para quem não soube fazer mais nada na vida. As minhas avós foram mais pacatas e decidiram levar para o caixão os aromas do lar. Só eu é que não sei qual o ar que irei levar.

Uma manhã, recebi uma chamada da Cecília. Precisava falar urgentemente comigo. Respondi-lhe que, no dia seguinte, iria a Lisboa, porque hoje não tinha ninguém para ficar com o meu pai. A Cecília disse-me que o assunto não podia esperar e que ainda hoje viria a minha casa. Estranhei a impulsividade da sua decisão, pois nem sabia a minha morada, mas ela lá teria as suas razões. Chegou depois de almoço. Vinha sozinha. Tinha deixado o marido num café para podermos falar à vontade. Convidei-a a sentar-se na sala e ofereci-me para lhe trazer qualquer coisa. Ela recusou de uma forma que me era familiar e me fez recordar outros tempos. Continuava uma bonita mulher, talvez mais bonita ainda. Uma beleza madura e serena que nem a falta de maquilhagem, nem as lágrimas nos olhos, conseguia estragar.

 

Que digo eu? De que lágrimas falo eu? Agora que estou para me ir embora é que a memória se lembra de fazer as suas manobras manipuladoras? Filomena, ainda tenho tempo para uma última recordação? Só uma. Como quando eu era pequeno e te pedia para ficar na rua só mais um bocadinho. Vá lá, mãe, deixa lá. Deixas? Está, Jorge, mas é só mais uma, que o André está a chegar e ele é que te vai levar. Obrigado, mãe.

 

Quais foram as palavras exatas que a Cecília utilizou? O André morreu. O meu silêncio e o meu pai a perguntar: “O quê?”, e eu calado, sem palavras para querer confirmar, para saber porquê. Um acidente de automóvel levou-me a esperança de uma reconciliação. O tempo e a espera. Sempre esperei tempo demais. A mesma desculpa e o mesmo medo. Agora nada podia fazer. Verguei o corpo e encostei a cabeça aos joelhos. Deixei que a Cecília me abraçasse e entreguei-me à triste realidade que atingira a minha vida. Finalmente, preenchi o vazio que me atormentava. O velório, o funeral, o crematório foram decisões da Cecília e da minha nora. Conheci a minha neta, mas a minha atitude de completa abstração não ajudou a uma aproximação. Por esses dias ficou traçado o meu futuro.

 

Pronto, já está. Depois da morte do teu neto, vivi para dar algum conforto aos últimos dias do teu marido. Foi uma questão de tempo até que a falta de vontade para continuar vivo desse os seus frutos. Quando o corpo escorreu pela parede, pensei: coisa fácil de resolver com um balde meio-cheio de água, uma tampa de detergente e uma esfregona. Mãe, estou pronto.

 

Jorge, olha quem aí vem!

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