Não sentimos as pernas. As mãos, que ainda há pouco estavam presas, rodopiam no ar simulando um estranho bailado enquanto cantam:
Uma à
frente e outra atrás,
como faz quem
precisa.
Uma levanta-se
e avisa
que quem
vem, não traz.
Mas quem
tem, não precisa,
se o mundo
lhes pertence;
podem despir
a camisa,
podem
fingir-se indigentes.
Vamos abrir
o punho e fingir,
que o mundo
não é nosso;
que o deixámos
cair,
só por
sentir remorsos
Nós sabemos
dançar, mas nunca aprendemos a escrever. Isso é coisa de mãos que foram à escola.
Nós também por lá fizemos vida, que elas sem nós não iam. A carteira sempre nos
separou, elas em cima, escrevendo e folheando, e nós, em baixo, ansiando pelo
intervalo. Mas isto não é tempo de recordar diferenças, até porque, se olharmos
bem para a nossa relação, momentos houve, de grande intimidade.
A casa perdeu a graça. Eu perdi a
graça. A minha vida perdeu a graça. Pensei muito na Cecília, nos primeiros anos
da nossa relação, e no nosso filho. Ela escreveu-me quando o miúdo acabou o
curso de enfermagem. Junto com a carta vinha uma fotografia. Nela, um rapaz
bem-apessoado exibia um sorriso imaculado. Trazia vestida a farda de um
hospital da capital. Junto dele, uma colega olhava-o de viés. Nos seus olhos
percebia-se que o rapaz não lhe era indiferente. O meu filho tinha os olhos da
mãe, e a expressão também, mas as restantes feições eram minhas: os lábios
carnudos numa boca bem desenhada, o queixo com uma covinha, as faces coradas,
um nariz um pouco largo e uma testa proporcional que revelava emoções quando
ele a franzia. O cabelo era castanho-escuro e cortado a preceito. Não tinha
falta de cabelo, e a orelha esquerda ostentava uma pequena argola prateada.
Ainda hoje tenho essa fotografia numa moldura, na cabeceira da cama. Sonhei
muitas vezes com ele. Talvez fosse para compensar a ausência de pensamentos
quando estava acordado. Sempre pensei em visitar o rapaz quando regressasse a
Portugal. Sei que casou e que comprou um apartamento com o dinheiro que
tínhamos na conta conjunta. Mais tarde, também fiquei a saber que a rapariga da
fotografia engravidou. De tudo isso eu sei, porque a Cecília o escreveu numa
carta. As cartas que ele enviou são anteriores a ter terminado o curso. Por
essa altura, a Cecília decidiu contar a verdade sobre a nossa separação. Nunca
pensei que ela aguentasse tanto tempo.
Filomena, já lhe tinha dito que a minha mãe também foi enfermeira? Fez pelos
outros o que não fizeram por ela. Não ligue, Filomena, isto é a mágoa a falar.
O meu avô materno também morreu num hospital. O outro finou-se no trabalho, que
é um lugar digno para quem não soube fazer mais nada na vida. As minhas avós
foram mais pacatas e decidiram levar para o caixão os aromas do lar. Só eu é
que não sei qual o ar que irei levar.
Uma manhã, recebi uma chamada da Cecília. Precisava falar urgentemente comigo.
Respondi-lhe que, no dia seguinte, iria a Lisboa, porque hoje não tinha ninguém
para ficar com o meu pai. A Cecília disse-me que o assunto não podia esperar e
que ainda hoje viria a minha casa. Estranhei a impulsividade da sua decisão,
pois nem sabia a minha morada, mas ela lá teria as suas razões. Chegou depois
de almoço. Vinha sozinha. Tinha deixado o marido num café para podermos falar à
vontade. Convidei-a a sentar-se na sala e ofereci-me para lhe trazer qualquer
coisa. Ela recusou de uma forma que me era familiar e me fez recordar outros
tempos. Continuava uma bonita mulher, talvez mais bonita ainda. Uma beleza
madura e serena que nem a falta de maquilhagem, nem as lágrimas nos olhos,
conseguia estragar.
Que digo eu? De que lágrimas falo eu?
Agora que estou para me ir embora é que a memória se lembra de fazer as suas
manobras manipuladoras? Filomena, ainda tenho tempo para uma última recordação?
Só uma. Como quando eu era pequeno e te pedia para ficar na rua só mais um
bocadinho. Vá lá, mãe, deixa lá. Deixas? Está, Jorge, mas é só mais uma, que o
André está a chegar e ele é que te vai levar. Obrigado, mãe.
Quais foram as palavras exatas que a
Cecília utilizou? O André morreu. O meu silêncio e o meu pai a perguntar: “O
quê?”, e eu calado, sem palavras para querer confirmar, para saber porquê. Um
acidente de automóvel levou-me a esperança de uma reconciliação. O tempo e a
espera. Sempre esperei tempo demais. A mesma desculpa e o mesmo medo. Agora
nada podia fazer. Verguei o corpo e encostei a cabeça aos joelhos. Deixei que a
Cecília me abraçasse e entreguei-me à triste realidade que atingira a minha
vida. Finalmente, preenchi o vazio que me atormentava. O velório, o funeral, o
crematório foram decisões da Cecília e da minha nora. Conheci a minha neta, mas
a minha atitude de completa abstração não ajudou a uma aproximação. Por esses
dias ficou traçado o meu futuro.
Pronto, já está. Depois da morte do
teu neto, vivi para dar algum conforto aos últimos dias do teu marido. Foi uma
questão de tempo até que a falta de vontade para continuar vivo desse os seus
frutos. Quando o corpo escorreu pela parede, pensei: coisa fácil de resolver
com um balde meio-cheio de água, uma tampa de detergente e uma esfregona. Mãe,
estou pronto.
Jorge, olha quem aí vem!
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