A Quantificação da Revolta
Tenho uma mão na balança,
e na outra a revolta.
A espada manchada de
sangue mede o tamanho da morte.
Sou merceeiro da
infâmia, traficante da desgraça,
“Trova do vento que
passa” sem propósito nem destino.
Uso palavras alheias
para saciar a dor e o desencanto.
Não tenho um Deus
para culpar.
Faleceu de outras
doenças, ainda eu não era nascido.
A culpa que vive no homem
é herança desses tempos.
Hoje o Homem é Deus!
Louvado seja o Homem em
suas imperfeições,
Bendito o fruto que
procria da sua vontade,
A vontade que justifica
a sua permanência e a sua arrogância.
Esse Homem é
universal,
Inventou-se distinto,
com medo da sua origem.
Animal feito de
carne, é um mamífero assassino.
Procura os seus defeitos
nos outros.
A sua revolta nunca
poderá ser plenamente concretizada sem a extinção da espécie.
Depois do Homem, a
Máquina.
O Humanismo deixará
de ser diferença.
Na indiferença se concretizará
a ausência,
E a evolução seguirá
o seu caminho.
Na mão tenho um saco
de papel pardo.
Lá dentro,
A revolta que comprei
aos filósofos,
Uma ínfima quantidade,
Digna do meu entendimento,
A suficiente para
sobreviver,
Para dizer que a
culpa não é minha.
Enquanto encontrar
culpados, posso dormir descansado.
Agarro o saco com
medo que ele fuja,
Que mo tirem das mãos.
Transviado da minha
vista, será mera recordação,
E eu serei memória da
sua existência.
O que será da Revolta?
Sem o Homem para lhe
dar significado.
“Pergunto à máquina
que passa,
Notícias do meu país.
E ela, que calou a
revolta,
Nada me diz.”
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