2026-07-30

A Quantificação da Revolta

 

A Quantificação da Revolta

 

Tenho uma mão na balança, e na outra a revolta.

A espada manchada de sangue mede o tamanho da morte.

Sou merceeiro da infâmia, traficante da desgraça,

“Trova do vento que passa” sem propósito nem destino.

Uso palavras alheias para saciar a dor e o desencanto.

Não tenho um Deus para culpar.

Faleceu de outras doenças, ainda eu não era nascido.

A culpa que vive no homem é herança desses tempos.

Hoje o Homem é Deus!

Louvado seja o Homem em suas imperfeições,

Bendito o fruto que procria da sua vontade,

A vontade que justifica a sua permanência e a sua arrogância.

 

Esse Homem é universal,

Inventou-se distinto, com medo da sua origem.

Animal feito de carne, é um mamífero assassino.

Procura os seus defeitos nos outros.

A sua revolta nunca poderá ser plenamente concretizada sem a extinção da espécie.

Depois do Homem, a Máquina.

O Humanismo deixará de ser diferença.

Na indiferença se concretizará a ausência,

E a evolução seguirá o seu caminho.

 

Na mão tenho um saco de papel pardo.

Lá dentro,

A revolta que comprei aos filósofos,

Uma ínfima quantidade,

Digna do meu entendimento,

A suficiente para sobreviver,

Para dizer que a culpa não é minha.

Enquanto encontrar culpados, posso dormir descansado.

Agarro o saco com medo que ele fuja,

Que mo tirem das mãos.

Transviado da minha vista, será mera recordação,

E eu serei memória da sua existência.

O que será da Revolta?

Sem o Homem para lhe dar significado.

“Pergunto à máquina que passa,

Notícias do meu país.

E ela, que calou a revolta,

Nada me diz.”

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