Não encontro razões que justifiquem esta revolta. As unhas cravam-se na palma da mão e provocam um gemido de dor. Reconheço-me nesse gemido e ilusiono uma carícia no braço dormente. Invento-me dolente para coincidir com a noite chuvosa. Nunca fui competente a inventar ilusões, mas reconheço a sua deficiência, e aceito a sua utilidade. Longe vão os tempos onde navegava por mares de espectativas, e sorvia espumantes de promessas. Ainda tenho na boca o sabor a sal, só não me lembro da sua origem. Faltam-me peças que não estão na caixa.
Desapareceu-me a pontuação perco-me no meio das palavras e a máquina
onde escrevo recusa-me o portuário ouço as explosões ficcionadas nos noticiários
o prédio semidestruído é abrigo de mercenários e insuspeitos jornalistas a cada
grupo uma mesa eu escrevo compulsivamente tentando anular o rugido das ogivas mas
ninguém se perturba com os meus receios de um lado limpam-se as armas do outro
ajustam-se dicções silêncio que se vai cantar o fado as vozes lá fora cantam
odes ao horror na língua universal da metralha gigantesca tourada onde o touro
se recusa a morrer a senhora gorda nunca mais se cala será necessário lançar a
bomba quem o diz é o médico de serviço enquanto aposta alguns instrumentos cirúrgicos
numa bizarra partida de poker faltam-me vírgulas para falar gostava de teclar
um ponto que fosse o final de tudo isto mas não o encontro decido procurá-lo
noutro parágrafo
As ruas são estreitas e sem sinais que me condicionem o caminho
os bares estão abertos e na noite repleta de pessoas verte-se álcool nos copos
e o incenso nas mortalhas há quem sinta um frenesim de alergia levam de olhos
postos no paraíso as mãos às narinas para sorver o ar noturno retiro do bolso
do casaco um pequeno bloco e uma esfera gráfica confirmo aquilo que me parecia
evidente o mundo continuava mergulhado num caos sem prontuário que o salve apanho
um comboio de foliões e deixo-me levar pela respiração o elétrico imobiliza-se
a poucos metros do local onde me encontro o condutor pergunta-me se eu quero
entrar mas esqueceu-se do ponto de interrogação para me fazer acreditar na
amabilidade insinuada quem sou eu para o convencer que aquele elétrico não irá
longe exclamo um obrigado sem ponto e vou à minha vida com um assobio soprado
entre dentes procuro sem reticências dois pontos que me permitam introduzir um
travessão de modo a poder revelar o porquê da minha indignação
O sinal ficou verde e eu posso finalmente avançar deixo atrás
de mim os destroços de uma cidade destruída não sei se numa faixa se noutro
qualquer pedaço de terra alguém que escolha a cor do fogo a chama dificilmente se
apaga no meu deserto de palavras
Fecho a máquina de escrever e encosto o corpo às ruínas não
vale a pena procurar pontos onde não se deu nenhum nó
Abro um olho devagar. A pontuação voltou, mas de resto continua
tudo na mesma.
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