O dia e a noite (exerto do diário O Mundo Hoje!)
O dia da noite
O que os distingue
O dia e a noite são dinâmicas
fundamentais na vida de qualquer animal. Podíamos falar do preto e do branco,
da presença e da ausência, da existência e da não-existência, da dualidade
entre a vida e a morte, mas, neste caso, não é disso que tratamos. Como
qualquer trabalhador, que exerça as suas funções em turnos contínuos, e sem
folga fixa, sabe, o dia e a noite referem-se a estados de luminosidade cujo
significado pode ser facilmente subvertido em nome dos variados interesses,
nomeadamente os económicos. Mas também a doença tem particularidades que levam
os seus possuidores as vigílias contrarias aos normais hábitos biológicos de um
ser humano saudavel. Neles, a noite funde-se no dia e não permite uma fronteira
definida. O cansaço dita as regras e o sono é intermitente durante as vinte e
quatro horas que o planeta demora a rodar sobre si mesmo. O dia se faz noite, e
a noite sucumbe ao dia. A luminosidade, que os devia distinguir, é tormento e
tortura que perdura numa interminável sucessão de ciclos disformes e
imperceptíveis. Com o permanente estado de exaustão chegam as alucinações credíveis,
e as ilusões de sobrevivência. No final, tudo perde importância e o tempo celebra
uma monotonia continua, onde o dia e a noite deixam de ser necessários, e onde
será impossível distingui-los.
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