2006-09-22

Explicação

Comecei a trabalhar aos dezassete, oficialmente. Uma das primeiras pessoas que conheci vai-se embora este ano, reformou-se. Tal como eu, veio de Lisboa, uns anos depois de mim, mas não interessa, veio! Companheira, camarada, pouco importa, foi ela que me apresentou os pontenciografos, as muflas, as provetas graduadas com rolha e esmerilado, os espectrófotometros, os bicos de busen e um sem número de objectos que faziam parte do quotidiano…Cabo Ruivo, laboratório, viras à direita…Em frente ao rio…De frente para a outra margem. Essas primeiras imagens, essas primeiras experiências, tão receptivo que eu fui. Como eu gostaria de puder espantar-me…Como da primeira vez…
Ontem? Sim foi ontem!
Ontem organizou-se um jantar de despedida…Aliás, meteram no mesmo saco duas despedidas. Por esse motivo o número de pessoas envolvidas extravasou o laboratório e chegou ao director, alguém que eu vejo uma vez em cada dois anos e com quem tive azedas conversas de falsa cortesia. Bom…Eu não fui ao jantar…Fiquei com a minha filha…Ajudei-a no banho, jantei com ela, deitei-a cedo para a conseguir acordar de manhã.
Que a decisão foi correcta, não tenho dúvidas. Eu não tenho dúvidas porque tenho noção das minhas prioridades neste caso…Também ela percebeu.
Fui coerente comigo mas trago o sabor da derrota na boca…E sabe mal que se farta…
Não tenho de me justificar.
Hoje de manhã ressacava de uma auto flagelação estúpida e sem sentido.
Demorei tempo a perceber que no meio disto tudo não me perdi, continuei a ser quem era. Não preciso que me admirem ou odeiem, apenas que percebam até onde podem ir.
Cheguei a casa…Vim devagar…sessenta quilómetros por hora numa estrada de duas vias totalmente desimpedida…Vidros abertos, para sentir o cheiro dos pinheiros molhados a secar…Pois…Cheguei a casa e lembrei-me do que tinha escrito ontem, desse olhar absorvente pela desgraça…Faltava qualquer coisa para finalizar aquele texto que fui buscar ao baú das recordações (Doces anos oitenta…Mas tantos amigos perdidos…). Faltou explicar que ontem, de alguma forma acabou um ciclo…Para mim.
As prisões existem, são reais, servimo-nos delas para marcar territórios, delimitar consensos, abreviar relações ou extrapolar outras. Muitas vezes nem damos conta desse facto.
Escrevo enquanto vou pensando e isso não é muito bom…
Ainda me arrependi de ter postado aquilo, aquele texto de tempos quase esquecidos…
Fui à casa de banho antes de ir à cozinha buscar um copo que enchi de Whisky…Lembrei-me do que tinha escrito ontem…Li os comentários…E achei que vos devia uma explicação…
Também a mim eu tive que explicar umas tantas coisas…

14 comentários:

pb disse...

Como te percebo, meu amigo, tantos ciclos de vida que ja fechei, tantos companheiros de luta diaria que ja perdi, tantas memorias que ficaram guardadas. Dos companheiros que comecaram comigo, ja não resta nenhum, foram saindo para outras vidas. Qualquer dia sou eu que saio, sou eu que fecho um ciclo e os que ficarem, hão-de ficar com a memoria de mim. Um abraço e bom fim semana

Tita - Uma mulher, Um blog, algumas palavras disse...

Antes demais, envio já um daqueles abraços enormes. Sei que hoje vai-te saber bem.
O fecho de um ciclo é sempre dificil. MAs é também, sempre o inicio de um outro.
MAno vai almoçar um dia destes com essa colega e faz a V despedida,À V. maneira, com o teu jeito de ser, mas poe um sorriso nessa cara, porque vêm aí um novo ciclo e vai ser bom.
Beijo enorme!

copa-rota disse...

"Espera por mim
Nesse bairro antigo.
Vou a caminho,
Procuro um amigo.

Trago na alma
Aquilo que sou.

Do que me julgo,
Do meu interior,
Revelo janelas,
Caminhos de amor.

Sou pecador
Honesto e honrado!"

( P.Guerreiro )

- não digo nada... deixo o meu abraço, para quando precisares...

Bom descanso, Paulo!


Miguel

copa-rota disse...

Gostei de sentir o cheiro dos pinheiros molhados...

Obrigado, por abrires o vidro.

Bom-fim-semana!

Suga_Mentes disse...

Um jantar é um jantar , uma vida é uma vida ...
A vida é assim mesmo , um aeroporto onde pessoas chegam , pessoas partem e nós parecemos não ir a lado nenhum .
Tu própio deste a resposta , " Não preciso que me admirem ou odeiem ", basta estares bem com a tua consciencia . Certo que isso nao cura a dor da ausencia , cura-la-á talvez o tempo , mas ficará a cicatriz , se nao fosse assim como saberias quem sao aqueles que amas ?

Anónimo disse...
Este comentário foi removido por um gestor do blogue.
naturalissima disse...

Maravilhosa a forma como descreves o teu ser, os teus sentimentos, a tua atitude... perante uma situação dolorosa, de ver uma amiga/colega fechar a sua porta profissional!
Admiro a forma como manifestas o carinho por essa pessoa e a tristeza de a veres seguir outro caminho...
Pensa que a vida é feita destes ciclos de constantes mudanças!

Um beijo e um belo Domingo
Daniela

Misteriosa disse...

Olá meu querido amigo
desculpa se nao gostas que te trate assim ,mas tenho um carinho por ti ,sabes porquê?
Porque vejo em ti uma pessoa sincera...
Agora sim posso dizer o que penso do do teu text.
Sabes meu amigo tu nao tens que dar explicaçao a ninguem das tuas acçoes e actos em cada pessoa existe um caracte,r e ela nao deve de o perder por causa dos outros que possam pensar.
eu desde jovem (que sempre fui rebelde e fiz o que me dava na gana) sempre disse: Aceitem me como eu sou e não como querem que eu seja,porque eu sou como sou.
Pois é migo tu és assim e nunca mudes tenho acerteza que em casa as maiores admiradoras que tens ,são a tua esposa e filhota.
Elas aceitam te como tu és e sem duvidas te amam.
desejo te um lindo Domingo na companhia dos teus dois amores.
deixo te o meu
:))))))))))))))
beijoooooooooo

Misteriosa disse...

Ah esqueçi faço te o convite
,para conheçeres o blog que tenho junto com o amor da minha vida,a mesma pessoa que eu penso quando escrevo os textos.
È verdade tudo do que eu eskrevo é real :)))))))
beijoooooo


http://sempreluar.blogspot.com/

Isabel disse...

Não te arrependas do que escreves... do que escreveste...
Como tu próprio dizes, as prisões existem, são reais,servimo-nos delas para marcar territórios, delimitar consensos, abreviar relações ou extrapolar outras. Muitas vezes nem damos conta desse facto.
É bom que tomemos conta desse facto...
Já não basta a liberdade que nos tiram?
Não deixemos que sejamos nós os próprios a tirar a pouca que nos resta...

Isabel

Vanda Baltazar disse...

Gostei tanto do que li, que vou em busca do post anterior...

Van

Vanda Baltazar disse...

onde estão os anos 8o???

Nos estamos aqui.

Uns sonhos realizados.

outros ainda por realizar.

Maos ao trabalho, ainda temos tanto para construir!


Desde que o mundo, entretanto não rebente...

Vanda

Anónimo disse...

Obrigado por intiresnuyu iformatsiyu

Anónimo disse...

Nice dispatch and this fill someone in on helped me alot in my college assignement. Thanks you as your information.