2006-09-25

Sobro e Azinho



Á beira da estrada três montes lenha. Uma placa tosca com letras pintadas e uma seta leva-nos a percorrer um pequeno caminho de terra que nos retira do asfalto. Uma vedação, um portão aberto e logo a seguir um toldo de plástico onde repousa um velho tractor. Ao seu lado um homem bem entrado nos cinquenta, marcas do trabalho do campo na cara e nas mãos, previsivelmente também no corpo se o mostrasse. Sentado numa cadeira, que me lembra as que existiam nos cafés quando eu era pequeno, entretém-se com uma navalha e um pau. Separa-nos uma mesa de madeira forrada com um plástico transparente, reaproveitado de outros embrulhos. Um lápis, um bloco improvisado e pedaços de madeira, simulam destroços de uma tempestade, emprestando-lhe um ar desarrumado que não destoa.

Todos os anos compro lenha, uma tonelada, meia de sobro e meia de azinho, para o recuperador lá de casa e para os meus sogros. Não tenho especial fascínio pelo fogo mas agrada-me bastante observar o lume manso na lareira durante o Inverno. Os olhos abandonam o corpo e perdem-se na brasa e aquecem-se, aquecendo com eles todo o corpo. Não consigo explicar...É muito bom…

O azinho é melhor, tem uma combustão lenta e produz mais calor que o sobro, também é mais caro. São coisas que se fazem com antecedência, antes das chuvas e do tempo húmido. A madeira molhada pesa mais e custa a pegar fogo.

“Bom dia!”, o homem desvia o olhar das mãos e debruça-o em mim, retribui o cumprimento. O negócio é rápido mas a conversa lenta. Enquanto avalio o tamanho dos cavacos pergunto pelo preço, “Cento e vinte o azinho…O sobro fica a oitenta.”. “Este ano só quero azinho…”, “Você é que sabe…”.

Aproveitei a manhã de folga. A minha sogra deixou o carrinho de mão cá fora. Por debaixo da construção em alvenaria que serve de garagem e aproveitando o desnível do terreno, existe um espaço reservado para a lenha. Fica sempre em casa deles, quando precisamos vamos lá buscar, é perto e eu gosto de lá ir. Também gosto de arrumar os cavacos, escolhê-los pelo tamanho e pelo corte, garantir que não descaem, estacá-los de vez em vez. Enquanto espero vou arranjando espaço. As vespas fazem-me companhia, atraídas por três figos podres num balde, a um canto…Depois logo os deito fora.

Ouço vozes, a minha mulher dá indicações sobre o local de descarga. Quando chego lá acima já os primeiros pedaços de madeira rebolam pelo chão. Falo com um dos homens, o outro pouco percebe do luso verbo, do Leste? Não sei, não perguntei.

Acabaram, “Um bom dia de trabalho!”, “Obrigado! Olhe que você também não está mal servido.”.

Fiz a coisa nas calmas, a Deo ajudou-me e este ano acabei mais cedo. Olhei orgulhoso para a arrumação…Ainda ficou muito espaço livre…O meu sogro vai ficar contente.

Escolhi dois pedaços de lenha para o meu recuperador de calor…Para fazer vista…

É essa a imagem que deixo…

Um abraço a todos e boa semana!

7 comentários:

Vanda Baltazar disse...

O teu texto lembrou-me que este ano também já não vou a tempo de apanhar a lenha bem sequinha!

E as pinhas tambem se molharam...

esperemos que esteja agora uns dias sem chover para se fazer a compra...meia de sobro e meia de azinho, que nos dias frios bem precisamos de calor e rapido!


Ps- Mas ainda tenho na garagem umas centenas de kg que venceram o inverno passado :)

Van

Isabel disse...

Gostava de ter uma lareira...
Sou friorenta, tenho fascinio pelo fogo, e estou apaixonada...
Admito gostaria de ter uma lareira, para ficar em noites frias de inverno abraçada ao meu amor bebendo algo bom, fazendo algo bom , ou simplesmente olhando o crepitar das chamas.
Melhor seria uma lareira numa cabana junto a um lago num pais com neve. Mas como não tenho nas noites frias de Inverno, abraçada ao meu amor, sonhamos juntos como seria bom se tivessemos uma lareira...
Obrigada pela visita ao meu sitio.
Eu continuarei a passar por aqui...

Isabel

copa-rota disse...

E que bela imagem nos deixas, amigo Paulo.
Por agora vou...mas certo de que vou mais rico...

Adorei o texto...habituas-nos mal.


Um abraço, e uma música:

" Take ten " - Paul Desmond

Boa semana ;-)

pb disse...

fizeste uma bonita descrição, de um passado meu, não muito longinquo. a lareira ainda existe, mas num se acende, sujava a casa toda e o ar condicionado é mais comodo de se trabalhar...mas ainda não desisti de "recuperar" a lareira e colocar um recuperador de calor, é mais acolhedor e mais saudavel. Um abraço

Tita - Uma mulher, Um blog, algumas palavras disse...

Só consegui sorrir. Li, reli e tentei imaginar-te e ...sorri.
Deves saber porquê.

Beijos

Luar & Maria disse...

Olá meu amigo
Ai que maravilha um inverno ha lareira.
com os filhos ao lado para ler uma historia...
adorei o texto levas a gente a sentir cada palavra que escreves
desejo te um lindo dia
deixo te o meu
:))))))))))))
beijoooooooo

naturalissima disse...

Fico sempre com vontade de te ler mais e mais.
Sinto-te cheio de histórias de vidas, umas simples, outras de uma complexidade profunda sobre a existência do homem e seu habitat! Delas assistes pequenos momentos donde consegues transmitir valores a vários niveis com uma grandeza única.

Deu-me vontade de fazer cinema com estas histórias!

Gosto muito!
Um beijo
Daniela