2026-10-20

Herculano dos nossos dias "Relato da confissão de Eurico"

 

Herculano dos nossos dias

 

Relato da confissão de Eurico

 

Mais um dia!

Dia formoso de Inverno, em que os raios de sol resvalam sem aquecer.

Depois virá a noite, húmida e fria, como as que a precederam.

Espalhados, estão os fragmentos do passado, farrapos de uma juventude forjada.

A luz bate, melancólica, no relevo monótono da superfície rugosa do corpo; estrutura física de um organismo em decadência, num confronto directo do corpo, e do seu oposto.

Material outrora eréctil, é hoje massa de matéria que cede à compressão, deformando-se sem rebentar.

Viveu, ligeiro, os dias da mocidade.

Mil foram as provas de afecto imenso, de paixão desmesurada pela inutilidade.

Tem, num minúsculo cofre, pequeno móvel em forma de caixa, um resumo simplificado, a ínfima síntese do saber aprendido.

 

Vassalo crente, apaixonado, e fiel, da sublime poesia − esse foi o seu sonho. −

Da desregrada imaginação que ambicionou, queimou-lhe o fogo o viço da existência.

A melancolia piegas que o devorou, consumiu-lhe as forças.

Sangrou o pouco que restava, do que, com imensa boa vontade, se poderia apelidar de genialidade.

Um véu de muda tristeza cobriu-lhe a qualidade do que é real.

Assim disfarçado, de fonte entenebrecida, fingiu-se banal, e abraçou a ignorância que, suspensa na superfície das coisas, lhe permitiu a invisibilidade, a confortável imaterialidade do ser.

 

Brota da sua boca um sussurro de palavras inarticuladas, um ciciar de aragem, que agita, ao de leve, a erva tenra no leito silencioso.

Sentado no extremo norte da sorte, esmoreceu-lhe o coração, e desvaneceu-se a clareza do espírito.

A luz, que antes iluminava, é agora um fingir de demência.

Nunca esteve tão lúcido!

Penitente de um destino, afogado em ironia e sem lugar para onde fugir, a sua precária inteligência perde-se em labirintos poéticos, onde belezas divinas, com vista para o inferno, são a única saída.

Hoje, que já não sabe fingir, pode inventar uma história.

Pode dizer, de si, o que não foi, o que se lembra do que poderia ter sido, e pode dizê-lo sem mentir.

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