Ainda sou do tempo…
Eis um começo que tem a virtude de repelir quem faz da sua
vida uma tendência sempre actualizada. Ainda ser de um tempo, é um pecado capital
nesta nova modernidade. A constante mudança de códigos é um requisito essencial
para a obtenção de um certificado que comprove a aptidão para desempenhar funções
numa sociedade que se pretende na vanguarda civilizacional. Mesmo correndo esse
risco, será essa a introdução.
Eu ainda sou do tempo do Facebook como sinónimo de
modernidade. Lembro-me de ter criado uma conta pensando qual seria a sua utilidade.
Olho para esse passado e ele parece muito mais distante do que está na
realidade. Hoje, usar o Facebook é assumir que parámos no tempo, possivelmente
já estamos reformados, tomamos medicamentos para a tensão e o colesterol, e somos
merecedores de silenciosa condescendência. As redes sociais segregaram os
utilizadores por faixas etárias, desenvolvimento económico e condição social. O
que é realmente importante é continuarmos ligados. Na verdade, o algoritmo
precisa de todos nós para melhorar as previsões. Eu cumpro com a minha parte pagando
o tributo em palavras. A base de dados tem em mim um fornecedor de confiança. Eu
sei que podia dar mais de mim, e nem era preciso escrever, mas o que dou é
regular e cede o suficiente sem, no entanto, escancarar.
Ao meu Facebook têm faltado caras e sobrado palavras, mas,
como é costume dizer, quem vê caras, não vê corações. É provável que encontrem
o meu no meio das minhas palavras.
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