Eurico; o rapaz que não sabia falar
A desesperança levou-o a sentir uma suave melancolia.
O amor esculpiu na pedra fria o torpor moral, um falso repouso
para a tristeza e para a desilusão.
A ferida, de ferro em brasa, nunca sarou, e o Poeta contemplou
em si mesmo a paixão cadáver.
Naufrago nas mesas dos cafés, nunca foi um copo competente.
Afogado e pendente, nunca sentiu indecência pelo gesto
infantil. Nos manuscritos selados ficaram a raiva e o rancor.
Do amor nada restou, nem a rolha que tapou uma garrafa vazia.
As suas noites ocorriam vagarosas, e o céu tinha o brilho baço
das lágrimas que inventou para si.
Imperceptível foi, a diferença entre a solidão absolutamente
tétrica e os gritos do sangue jovem que louvaram a alegria.
Para ele, tudo foi silêncio; desertos sonoros sem fronteiras
para definir instantes.
Deitado na cama vazia, com aromas de urina maturada, numa cela
mal fechada e com as persianas corridas onde a luz nunca persistia, ele cantou
louvores ao seu ego.
Está cego, mas não sabe.
Quase morto, pensou que respirava.
Sobreviveu por simpatia, de olhos postos nos tubos que, escorrendo
líquidos na parede da enfermaria, lhe salvaram a vida.
− Porquê? Qual o objectivo sombrio? – Sempre a ilusão de um destino
traçado por entidades manipuladoras. − Porque ninguém me ouve? – Eterna alucinação,
intoxicação cultural e religiosa que, também nele, encontrou terra fértil para germinar.
Língua para dentro, lambendo um céu da boca que já foi seu, gaguejou
articulações impossíveis para ouvidos moucos.
Mudo para o mundo, restou-lhe alucinar o que inventou de si.
Sem comentários:
Enviar um comentário