Na Espuma dos Dias
O Mestre, o Outono, os Mendigos, e “Eu”
A claridade do Outono impele
levianamente o véu que cobre a janela. Entra no quarto, e restitui
expectativas.
O Mestre Mendigo guia os seus
discípulos. Em cada um, uma mão que se estende prolonga a percepção. Envoltos
em cobertores imundos, exalam os aromas da humanidade. Em si, os odores não são
fabricados.
O Mestre Mendigo carrega no seu
peito o fardo da erudição empírica. Dele emana a aura do desprendimento.
O vento do Outono ilumina as
paredes do quarto. Os tons cinzas derramam no meu olhar a nostalgia de um
século anterior.
Os Mendigos seguem o seu mestre.
Na vanguarda do cortejo dos pedintes, dois rafeiros saúdam, com as caudas sujas
esvoaçantes, a multidão de transeuntes voluntariamente amorfos.
O Mestre Mendigo exibe com
cândida tendenciosidade a taça da mendicidade. Dos seus gestos subentendidos
ecoam as energias de outras dimensões.
Os Mendigos cantam louvores
emudecidos. Das suas bocas silenciosas brotam ecos do que é infinito sem ser
universal.
O Outono acompanha o calendário
despótico da humanidade, no entanto é reconhecida a sua narrativa humilde e
frígida. A chuva cai mansa e as folhas das árvores acompanham o seu movimento.
O Mestre Mendigo move-se em
total comunhão com os elementos. Para ele tudo não passa de um sonho,
manipulação ilusória de conceitos discriminatórios pela sua mente imperfeita.
Um dia, teve por momentos, a visão exterior dessa abstracção.
Vertido na cama do meu quarto,
eu sou um dos mendigos.
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