2026-09-11

Abstracções: Primeira experiência

 

Abstracções

 

Primeira experiência

Sentado no meu quintal, absorvo os aromas de um final de Verão. As temperaturas altas não me molestam. De corpo nu ao sol, desafio o seu poder místico. Tenho numa mão um pequeno cálice de vida. Na outra, um cigarro fumegante asperge os meus sentimentos ocultos. Eu sou essas duas mãos e os pés desnudos no chão; o resto é conhecimento recordado. Quando me lembrar de mim, quase completo, voltarei, novamente, a esquecer.

    Caminho sobre a areia da praia. No rosto, trago o sal das jornadas atlânticas. Vim de longe, mas quase não me movi. Parti à procura do que já possuía e vim com a alma limpa. Adquiri experiências mundanas que, ao fim de algum tempo, se revelaram repetitivas e inconsequentes. Adornei e afoguei-me nas terras secas das planícies meridionais com as mesmas perguntas sem resposta. Sou um homem repleto de saberes empíricos certificados por carimbos de geografias longínquas. Sou um homem venerado, mas só eu sei que não me sinto absoluto.

    Escrevo nas margens das folhas. Os meus livros são também o diário dos meus pensamentos. Escrevi, por exemplo, nas páginas de “A Morte de Ivan Ilitch”, que os opiáceos são muito úteis para as dores, mas não resolvem o verdadeiro problema. Escrevi também que, no processo de reagrupamento emocional, só precisamos de silêncio. Esse silêncio é completo quando, no funeral, a nossa morte exorciza finais alheios. Essa última dádiva é um verdadeiro acto de amor. Em “A Casa dos Mortos”, escrevi: como aprender a eternidade sem sair do mesmo lugar. Eu sou um escritor de margens vazias. Há quem escreva livros, mas eu não quero ofender ninguém.

    Imaginei-me, um dia, parido por uma mulher: um nascimento lembrado desde o primeiro momento. Porque somos privados da recordação sublime do nosso próprio nascimento? Por onde andavam os nossos sentidos, para não terem registado a maior experiência das nossas vidas? Terá sido culpa do cérebro, que estava distraído no meio de tantos fluidos? Estamos condenados a confiar na história que nos contam. Será assim o resto das nossas vidas, mas nunca iremos admiti-lo.

 

   

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