Abstracções
Primeira experiência
Sentado no meu quintal, absorvo os aromas de um final de Verão.
As temperaturas altas não me molestam. De corpo nu ao sol, desafio o seu poder místico.
Tenho numa mão um pequeno cálice de vida. Na outra, um cigarro fumegante asperge
os meus sentimentos ocultos. Eu sou essas duas mãos e os pés desnudos no chão;
o resto é conhecimento recordado. Quando me lembrar de mim, quase completo,
voltarei, novamente, a esquecer.
Caminho sobre a
areia da praia. No rosto, trago o sal das jornadas atlânticas. Vim de longe,
mas quase não me movi. Parti à procura do que já possuía e vim com a alma limpa.
Adquiri experiências mundanas que, ao fim de algum tempo, se revelaram
repetitivas e inconsequentes. Adornei e afoguei-me nas terras secas das planícies
meridionais com as mesmas perguntas sem resposta. Sou um homem repleto de
saberes empíricos certificados por carimbos de geografias longínquas. Sou um
homem venerado, mas só eu sei que não me sinto absoluto.
Escrevo nas
margens das folhas. Os meus livros são também o diário dos meus pensamentos.
Escrevi, por exemplo, nas páginas de “A Morte de Ivan Ilitch”, que os opiáceos
são muito úteis para as dores, mas não resolvem o verdadeiro problema. Escrevi
também que, no processo de reagrupamento emocional, só precisamos de silêncio.
Esse silêncio é completo quando, no funeral, a nossa morte exorciza finais
alheios. Essa última dádiva é um verdadeiro acto de amor. Em “A Casa dos Mortos”,
escrevi: como aprender a eternidade sem sair do mesmo lugar. Eu sou um escritor
de margens vazias. Há quem escreva livros, mas eu não quero ofender ninguém.
Imaginei-me, um
dia, parido por uma mulher: um nascimento lembrado desde o primeiro momento.
Porque somos privados da recordação sublime do nosso próprio nascimento? Por
onde andavam os nossos sentidos, para não terem registado a maior experiência
das nossas vidas? Terá sido culpa do cérebro, que estava distraído no meio de
tantos fluidos? Estamos condenados a confiar na história que nos contam. Será
assim o resto das nossas vidas, mas nunca iremos admiti-lo.
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