2026-07-31

A Escolha

 

A Escolha

 

Num quadrado ou com botão,

Com mão no ar ou mãos no chão,

Lá teremos de escolher,

Mesmo sem compreender

O que nos querem dar,

O que nos estão a oferecer.

Entre a promessa e a presunção,

Simulando revolução,

Escrevemos por escrever,

Opinamos por dever,

Veneramos o vulgar

Só para não o transcender.

Em liberdade ou na prisão,

Porque sim ou porque não,

O que interessa é ofender,

Esmorecer, emudecer,

Ter razão, deliberar,

Mas sem nunca conceder.

Com um voto e presunção,

Resignada inspiração,

Vou riscar e escarnecer.

Vou fingir que vou escolher,

Vou chorar, ou vou louvar,

Quem de novo corromper.

Rendido à subversão

De que escolho em eleição,

Vejo tudo emagrecer.

Desde o corpo a padecer,

Até à alma a protestar,

Só me resta enlouquecer.

2026-07-30

A Quantificação da Revolta

 

A Quantificação da Revolta

 

Tenho uma mão na balança, e na outra a revolta.

A espada manchada de sangue mede o tamanho da morte.

Sou merceeiro da infâmia, traficante da desgraça,

“Trova do vento que passa” sem propósito nem destino.

Uso palavras alheias para saciar a dor e o desencanto.

Não tenho um Deus para culpar.

Faleceu de outras doenças, ainda eu não era nascido.

A culpa que vive no homem é herança desses tempos.

Hoje o Homem é Deus!

Louvado seja o Homem em suas imperfeições,

Bendito o fruto que procria da sua vontade,

A vontade que justifica a sua permanência e a sua arrogância.

 

Esse Homem é universal,

Inventou-se distinto, com medo da sua origem.

Animal feito de carne, é um mamífero assassino.

Procura os seus defeitos nos outros.

A sua revolta nunca poderá ser plenamente concretizada sem a extinção da espécie.

Depois do Homem, a Máquina.

O Humanismo deixará de ser diferença.

Na indiferença se concretizará a ausência,

E a evolução seguirá o seu caminho.

 

Na mão tenho um saco de papel pardo.

Lá dentro,

A revolta que comprei aos filósofos,

Uma ínfima quantidade,

Digna do meu entendimento,

A suficiente para sobreviver,

Para dizer que a culpa não é minha.

Enquanto encontrar culpados, posso dormir descansado.

Agarro o saco com medo que ele fuja,

Que mo tirem das mãos.

Transviado da minha vista, será mera recordação,

E eu serei memória da sua existência.

O que será da Revolta?

Sem o Homem para lhe dar significado.

“Pergunto à máquina que passa,

Notícias do meu país.

E ela, que calou a revolta,

Nada me diz.”

2026-07-29

Interlúdio Necessário (Dez minutos de intervalo para uma taça de vinho)

 A Quantificação tem propósitos diversos e sujeitos independentes. Se a existência é uma entidade una e mensurável, o mesmo pode ser feito com as partes que a constituem. Assim acontece com a revolta. Medi-a cuidadosamente, com requintes científicos, mas não foi isso que anotei; tampouco o seu peso, analisado com incrível precisão e detalhe.

Retirei um pouco de matéria representativa da sua essência e coloquei-a num copo de ensaio. Adicionei, então, diversos reagentes vulgares, que todos experienciam no seu quotidiano: um pouco de inveja trasvestida, duas gotas de indignação concentrada, uma pitada de razão individual macerada numa solução de verdade absoluta, uma dose generosa de paixão indescritível e, por fim, 100 ml de injustiça diária diluída em frustração.

Aguardei meia hora e levei à ebulição numa placa de aquecimento. Por cima do copo, coloquei um vidro de relógio, para evitar projeções. Aos poucos, a solução desenvolveu colorações que foram da angústia e do desânimo até se fixarem na raiva e na ira. Os cristais de vingança começaram a formar-se no meio de um precipitado nebuloso e opaco.

Chegado a este ponto, retirei o copo da placa e deixei arrefecer. Medi, cuidadosamente, 5 ml da preparação para dentro de um balão aferido de 25 ml e preenchi até ao traço com aguardente da região. No final, agitei vigorosamente o balão, tendo o cuidado de aliviar a tampa para libertar a pressão, e bebi o conteúdo.

O que se segue é o resultado deste processo.


2026-07-28

Na Fronteira da Esperança

 

Na fronteira da esperança

 

Procuro do mundo a graça,

Ilusão do homem que chora.

Eterna demanda sem honra,

Morte num vento que passa.

 

Se tudo o que vejo é desgraça,

Caprichos de um Deus que devora,

Porque me perco em demoras?

Porque verto meu sangue na taça?

 

Eu sou na vida, a Esperança,

Onde o que é sonho persiste,

Um canto, um hino à loucura.

 

E mesmo que a tua vingança

Revele em mim o que é triste

Serei a voz que perdura

 

2026-07-27

O Meu Sonho

 O meu sonho

 

Sou a água que se derrama do céu e cobre a Terra toda.

Sou o oceano que leva e traz e por isso mesmo sou todos os oceanos.

Tudo o que em mim navega é vida, cada viagem um risco de espuma.

 

Sonho acordado e levo aos lábios o copo onde os líquidos são espaço sem deixarem de ser fronteira.

Quando adormecer o copo estará vazio.

 

Gosto de acordar de copo cheio, todo inteiro para me poderem navegar.

No outono as águas vão-se recolhendo para escorrer na minha janela.

Lá fora a música é líquido e a falta dele.

Navego nas suas ausências.

O meu Porto de abrigo é uma cadeira por detrás de um vidro.

Protegido pela sua transparência não tenho medo de nada.

 

Ontem corri, rua abaixo, de cabelos ao vento.

O ar morno da tempestade que se adivinhava aquecia o meu desejo.

Corri como se mais nada fosse preciso fazer.

Corri e não me cheguei a cansar.

 

Hoje fiquei ao pé de uma árvore.

Tentei percebê-la e por esse motivo permaneci ao seu lado, totalmente imobilizado, só os meus braços abanavam ligeiramente, estremecendo as extremidades das minhas mãos.

Sonhei que as sentia, dedos soltos vogando na minha vontade, à minha vontade.

 

Os meus nervos são cordas de um instrumento precioso.

Tangidas, essas cordas contam a minha história.

Acordes de vida, pontilhados de escalas,

maiores e menores.

 

O meu sonho é feito de improvisos, imprevistos que eu imagino ao acaso.

Já me tentei transcendente, mas não tenho alma para tal; Quantas substâncias ingeridas procurando os limites da perceção.

Tudo não passa de um engano. A minha fantasia não se satisfaz com compostos químicos. Ludibriada, vinga-se mostrando a carne viva por debaixo da pele.

 

Com gestos iniciáticos o homem de negro retira de uma pequena bolsa um punhado de areia.

Num gesto que enleia, laçando os sonhos numa teia, semeia os grãos no vazio.

Não será o meu que irá escapar.

 

No interior do círculo de fogo traçado no chão, as alucinações têm delírios de liberdade.

Fora do círculo todas as portas se fecham.

No seu exterior a emancipação conquista-se derrubando muros e os muros derrubam-se vertendo o sangue das carnes na realidade esventrada.

 

O calor que me sobe no braço nunca mais será o mesmo.

Impossível repetir um sonho de amor.

 

O inverno dissimula os aromas residuais do outono.

Quando a geada eternizar o chão do meu Jardim, eu serei a água que brota do centro da fonte.

Na primavera, a primeira papoila que nascer terá cor do meu sangue.

Por cada malmequer desfolhado, uma decisão entregue ao acaso.

Tal como o meu sonho tudo não passa de uma ilusão.

 

Deixei de ter ilusões.

Sonho com a realidade, e a minha realidade não passa de um sonho.

Sonho-a acordado sempre à espera de adormecer.

2026-07-25

Adeus ao Amor

 

Adeus ao Amor

 

Exaltarei em ti o amor ausente,

De ti lembrarei tempos passados,

Os nossos corpos enamorados

Cativos na memória silente.

 

Farei de ti um amor presente,

Forma de contornos delicados.

Por ti e por mim concertados,

Desenho de obra eminente.

 

Mas do que sobrar, o meu resto,

Mesmo que poesia ou em prosa,

Será da minha arte uma parte.

 

E do amor que ficar no meu gesto,

Frugal alma inquieta e teimosa,

Sobrará de mim um estandarte.

2026-07-24

Reflexão sobre o esquecimento

 

Reflexão sobre o esquecimento

 

Eu esqueço-me,

Tu lembras-te

E ele procura.

Preso na memória

Invento outra história.

Liberto de olvidos

Tu emendas o que ouves

E empenhado em pesquisar

Ele debita por glória.

 

Eu não me lembro,

Tu não esqueces

E ele procura.

Atracado na vergonha

Sou marinheiro d’águas paradas.

Tu que navegas nos mares

Trazes na boca outras estradas.

E num outro navegar,

Ele viaja com a rede no olhar

 

Eu já não sei,

Tu aprendeste

E ele procura.

No tribunal da verdade

Eu sou um réu respeitável.

Na escola do conhecimento

Tu dominas o momento,

E numa outra dimensão

Ele computa, formidável

2026-07-23

Uma Viagem Junto ao Mar (Sem que ele me possa tocar)

 

Uma viagem junto ao mar (sem que ele me possa tocar)

 

Pé ante pé, o corpo dentro.

A viagem vai começar.

O cinto apertado,

O vidro fechado,

E tudo o que me têm dado

Guardo numa mão que não fecha.

 

A paisagem ao redor

Desliza no vidro encardido,

Verte-se no inseto escondido,

No sangue e no líquido vertido

Que me esconde do Sol.

 

Deixo o meu olhar deslizar

Pelo exército vegetal

Que se perfila em silêncio.

Observo com desleixo

O atavio do pinhal

Mergulhado em incenso.

 

Chego à roda da fortuna

Que dirige os destinos.

Roda que roda a rotunda,

Roda que rodam felinos,

Os meninos peregrinos

Que se deixaram levar

Pela vontade revista,

Pela vontade do mar.

E o mar que se oculta

É cheiro de areia molhada,

Atrito salino de rocha.

Sinto-lhe na pele o rebordo,

A fronteira que o separa,

O continente e a costa.

Vejo ao longe o seu brilho

E a luz que ressalta em azul

Tem uma cor sobreposta.

 

Tenho uma visão paralela

Perto do mar, e na terra

Uma sensação digital.

E na lagrima vertida

Que escorre por dentro,

Restos de maré e de sal.

Abraço com o olhar

O líquido azul derramado

Num amplexo casual.

 

Venho de findada viagem,

De função quase cumprida,

Sem trazer qualquer bagagem

Da lembrança que guardei

Resta-me a celebração

Numa ténue imagem.

Terei sido eu que vagueei

O caminho que sonhei

E em que fui personagem?

2026-07-22

Maresias

 

Maresias

 

 

Hoje acordei com a chuva no olhar

E o cinzento dos teus olhos

Num vislumbre de tormenta

Turbilhão de mar e espuma

De canela e pimenta

Foi afecto a naufragar

 

Lancei os meus braços aos remos

E o meu corpo no teu barco

Navegou rumos sem cor

Por rotas de desencanto

Num abraço sem pudor

Sem rancor do que fizemos

 

No final do dia com a lua no olhar

E a escureza nos teus olhos

Na cegueira da ausência

Na fobia e aflição

Faltou-me a tua inocência

O que já não me podes dar

2026-07-21

Se eu voltar a nascer

 

Se eu voltar a Nascer

 

 

Se eu voltasse a nascer

E de novo percorresse

O caminho por onde vou

Era porque aprender

Não era querer

Era vida que murchou

 

Se eu voltasse a nascer

E de novo vacilasse

Sem escolher quem me salvou

Era porque no meu ser

O errar era saber

Era ferro que marcou

 

E se eu quando morrer

Não souber e me esquecer

Do que sei e do que sou

Será porque o que eu vivi

Só foi vida porque nasci

E alguém assim lembrou

2026-07-20

Quantificação da Existência

 

Quantificação da Existência

 

Quantas páginas por ler

Tanto, tanto por fazer

E eu sentado a meditar

Sempre no mesmo lugar

 

Quanta vida por viver

Tanto, tanto por escrever

E eu sentado a navegar

Sem lugar por onde andar

 

Quantas portas por abrir

Tanta vida por vestir

E eu com as mãos no ar

Sem lugar por onde ir

 

Sol que nasces por querer

Lembra-me o que posso dar

Lembra-me os dias por nascer

Só por ainda querer estar (cá andar)

 

Lembra-me na vida o destino

O sonho que adormeceu

O amor que é carinho

E ainda não morreu

 

Eu sou teu se tu quiseres

Se ao nascer me abraçares

Se o amor que tu me deres

Me aquecer e tu gostares

2026-07-19

Prefácio pouco credível

 Escrevo e apago. Nada me convém e pouco me satisfaz. Quero prestar homenagem às mãos que escreveram, e falta-me a voz. Este conjunto de poemas quantifica um período da minha existência. É uma quantificação abstrata, sem unidade de medida, porque assim se revelaram os momentos em que foi escrita. Era para ser um adeus às palavras, as últimas palavras de um pretenso poeta. Sempre considerei a poesia como a palavra que foge do coração e se tenta sublime. Um suspiro é poesia, assim como um grito que sai mudo, se tiverem origem no coração. Cada um de nós é um poeta, mas a sociedade não quer ouvir vozes que não estejam certificadas pelos saberes instituídos. A glória para alguns; aos outros, a humilhação ou o silêncio. Assim é o mundo: uma demanda pela excelência que purga do seu seio a normalidade considerada medíocre. O que seria dos excelentes sem os medíocres para ler as suas palavras?

Durante os próximos dias, vou publicar este trabalho no meu blogue. Bem-haja a liberdade de me poder publicar.

2026-07-18

Não quero acordar deste sonho 07H58m (Alvorada)

 Não consegui chegar a lado nenhum. Dentro de momentos, o despertador telefónico irá soltar o seu grito de alvorada. Alguém ligará a televisão e ajeitará o meu corpo. Esse “alguém” fez a vigília comigo, do lado de fora. Veio em meu auxílio por cada gemido largado na noite. O seu amor merecia melhor sorte. Também por ela eu gostaria de não ter acordado deste sonho. Guardo para mim este pensamento enquanto ela me limpa o corpo. Sinto o seu cheiro e recordo outros momentos. Gostava de levar este perfume comigo, para nunca mais me sentir sozinho.

2026-07-17

Não quero acordar deste sonho 07H00m

 Sete horas redondas. Duas Santíssimas Trindades e eu, um ser pequeno e pouco digno de menção. Mas as contas são assim, e, enquanto cá andamos, merecemos um número. Sempre gostei do sete, número que assenta como uma seta no sentido e na minha solidão. Tem o “S” de sono e de sonho, de Saboga e de Silva, de surpresa e de satisfação. Não é um número para apostar ou guardar debaixo da almofada, que números assim são traidores e de pouca confiança. O meu sete é diferente e tem rotinas muito próprias. Foi aos sete que entrei na escola e, aos cinquenta e sete, que soube que tinha de viver com ELA. Não te lamentes, que estragas a beleza do número e custas a adormecer.

 

Eu não me estou a queixar, mas a fila é extensa e eu tenho pressa. ELA está à minha espera e é muito impaciente. Você não devia deixar que ELA mandasse em si. Eu sei. A minha vida com ELA tem sido um paraíso às avessas, mas a decisão foi de comum acordo. Tenho pena de si. Não tenha, cada relação tem o seu caminho e todos existem com um preceito. Veja! Tenho aqui o certificado que atesta a sua boa vontade. Eu acredito em si, mesmo que não o entenda. Isto não é nada que necessite de entendimento. Desculpe, mas chegou a minha vez.

Avanço por entre a multidão até chegar ao palco. De cerveja na mão, pedi licença à esquerda e à direita. Tenho o peito encostado às grades e canto um poema do Poeta: “Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades, muda-se o ser, muda-se a confiança;”. Assim o cantaste, assim lhe faço eco. Camões agarra o microfone com as duas mãos. A pala levanta-se ao vento, desvendando a cegueira da guerra. Ao seu lado, José Mário Branco acompanha-o à viola. O Sérgio também cá anda com uma viola na mão, e o Fausto exibe os seus dotes com um copo na mão. O Zeca chamou-me e convidou-me para beber um “tinto”. O Adriano chegou depois, com os poemas do Alegre na mão. A noite ainda agora começou…

“Uma varanda, uma gaiola, numa cadeira, uma criança; no olhar, a vã esperança que lhe dá uma pistola;”. Sentado na minha sala, canto as minhas canções. Deixaram de ser um delírio, uma invenção descrita como efeito secundário. Sou eu e a minha viola, sem vergonhas nem pedidos de desculpa. Sou eu com a minha voz, aquela que Deus me deu e que eu aceitei agradecido. Cantarei até que a voz me acabe.
E acabou. Algum dia tinha de acontecer. Ia deste lado da rua quando a perdi. Dei por falta dela quando desejei chamar por ti. Nem olhaste o meu desespero. Calcorreei a rua até de madrugada, mas não a encontrei, nem te voltei a ver.

Voltei ao mar. Braçada a braçada, vou em direção ao horizonte, aquela linha imaginária que simula infinitos. Lanço um braço de cada vez, tentando alcançar o fim de qualquer coisa. Talvez invente uma eternidade à minha medida…

2026-07-16

Não quero acordar deste sonho 06H21m

Quantas vezes acordo durante a noite? Ainda não as contei. Sem registos que me permitam reclamar recordes, limito-me a testemunhar estes renascimentos forçados. Se os escrevesse, quem perderia o seu tempo a ler tal digiscrito? Inventem-se as palavras que se quiserem; nunca serão suficientes para descrever os estados de consciência. O que eu escrevo é infrascrito por luzes vermelhas que sabem ler os meus olhos, mas, à noite, quando os olhos estão fechados por fora, a luz deixa de ter importância.


Encaminho a minha cadeira para a sala de jogo. Tenho um lugar reservado à mesa; só preciso encontrá-lo. Não tenho pressa: sou um jogador acessório, com um papel determinado pelo Mestre Organizador. Estaciono a eletropoltrona com minúcia. As minhas competências estão disfarçadas por deficiências unanimemente aceites como tal. Espero pelo tempo de existência da personagem inventada. O Mestre manobra com mestria as matérias ao seu dispor. A floresta desapareceu, e o Grande Rio ficou para trás. A cidade que se aproxima insinua-se como uma miragem. Os seus cheiros são inventados, mas a matéria de que consistem é a essência dos sonhos. Inspiro profundamente antes de falar. As sílabas são articuladas com perícia. Estou orgulhoso com o meu desempenho. Agradeço com uma vénia o aplauso geral. Volto a sentar-me e manobro as seis rodas com incentivos verbais. Onde está o meu quarto? Sento-me à secretária, com urgência de socialidade entrelaçada.

 

Tenho várias redes à disposição. Qual delas a melhor? Cada uma preenche uma lacuna da vida; por isso, eu uso todas as que se encontram disponíveis. Sou um ser completo que só precisa socializar. No ecrã, as interações são seguras. Podes sempre desligá-lo, mas quem é que tem coragem para tal? Eu, não! Algo me avisa que, sem ele, não sou ninguém. Escolho uma cara num pequeno círculo e analiso o candidato. Nada tenho para lhe dizer, mas insisto numa visualização. De tanto insistir, a pessoa materializa-se no quarto. Procuro um comando que reverta a minha solidão, que elimine a matéria humana do meu espaço privado. Falta-me o ar, e não consigo articular as palavras de socorro. De joelhos, encosto a cabeça no chão em sinal de respeito.

 

Sinto-me a deslizar pela água. Tenho na boca o sabor do seu sal. A cada braçada, um apelo ao silêncio. O mar envolve o meu corpo, reclamando a sua posse. Deveria ter aceitado o convite enquanto podia. Fui rejeitado. Estou deitado na areia da praia. Ouço o nadador-salvador declarar que não há mais nada a fazer.

 

Onde está o meu mar? Apalpo a areia dos meus lençóis à procura de um destino que ainda não chegou. Por debaixo da cabeça, as algas da almofada tentam reconfortar a minha desilusão. Estou na cama com ELA, mas, pior do que isso, estou novamente acordado.

2026-07-13

Não quero acordar deste sonho 05H19m

 A Casa Branca é ladeada pelo Big Ben, do seu lado esquerdo, e, do lado direito, pelo edifício da ONU, mas nem sempre é assim. Uma mão misteriosa baralha as suas moradas. Gosto de as saber inconstantes, obrigando-me a novo olhar todos os dias. Já pensei comprar a Torre de Belém, mas a nossa torre não é digna de tal honra por parte de tão prestigiosa marca. A LEGO acompanhou a minha infância. Foi confidente da minha imaginação, um abraço de plástico nas tardes chuvosas de inverno. Quando o ar me voltou, guardei-a em caixas e escondi-as no armário. É curioso vê-la decorar os meus sonhos.

 

O carro dos bombeiros é um dos veículos que o quartel alberga. Também existe uma ambulância e um reboque. Sou eu que decido o lugar de cada um deles. Hoje sou um carro de bombeiros: tenho uma escada e uma cor vermelha de fazer inveja. Atravesso a ponte sobre o Tejo, mas não sei qual. Tenho urgências que tudo desculpam e empurro quem se atravessa no meu caminho. Quero chegar sem saber aonde, e a minha vontade sobrepõe-se à razão das coisas. Todo eu sou autoridade, e a minha integridade é soberana.

Sou uma viatura desportiva de dois lugares. Tenho uma capota preta, e a carroçaria é feita de peças brancas. Vivo debaixo de um alpendre, junto a uma pequena moradia. Quando chego a casa, tenho de abrir uma cancela que dá acesso ao jardim. Hoje fui à praia, mas perdi o meu dono.

 

Não encontro o meu carro e enfio-me numa camioneta de caixa aberta. Chego às portagens vindo do sul. A via verde está descongestionada, e eu não hesito em tomar a sua disponibilidade. Fico satisfeito com a minha decisão, mas…

Há sempre um “mas” disposto a sabotar uma boa decisão. Podia ser outra qualquer contingência, obstáculo anónimo com objetivos misteriosos, uma surpresa disfarçada de casualidade, mas não. O que sucedeu foi óbvio e ordinário.

Olho para o para-brisas e não vejo o identificador. À minha frente, um agente da autoridade faz-me sinal para eu sair da viatura. Tenho os braços no ar e desculpo-me com um mal-entendido. O agente da autoridade manda-me seguir com ameaças veladas. Prossigo cautelosamente, para não atrair a atenção das forças policiais, que se encontram espalhadas pela cidade. Arrumo a camioneta no parque de estacionamento da zona comercial e entro num enorme edifício. Estou disfarçado no meio da multidão que circula pelos corredores, com sacos na mão. Só eu é que não tenho um saco, e isso deixa-me preocupado. Alguém agarra o meu braço. Diz que tem o meu carro e pretende que eu lhe devolva a camioneta. Trocamos chaves e indicações e afastamo-nos em direções opostas. Dirijo-me para a torre de lançamento. O foguetão vai partir em breve. Acabado de construir, ainda cheira ao cartão onde estava guardado. A contagem não é decrescente e caminha para o infinito. A mão da criança atinge o foguetão, partindo-o ao meio.

 

A Casa Branca está envolta na penumbra. À porta, um segurança acende uma lanterna, enquanto grita ameaças ao Big Ben que, imperturbável, marca as horas do meu sono. Ao lado, no edifício da ONU, exibe-se um espetáculo trágico. Da janela saem os rugidos das bestas sedentas de sangue.

 

Quando amanhecer, vou apagar o sol…